Crazy

1 I wanna be yours


A fumaça subia. Olhando para cima, bem contra a porra da luz cegante do poste, a fumaça subia. Formava contornos azulados no ar e, logo depois, dissipava. A próxima tragada foi mais longa, mais intensa, para encher os pulmões até o limite de sua capacidade, intoxicar-se por inteiro. Ele amava fumar, amava desde os dez anos de idade, como amou poucas coisas em sua vida. Mas fumar bêbado era um negócio incomparável.

Era uma noite daquelas. Essas costumavam ser muito frequentes, uma atrás da outra, uma pior do que a outra. Christophe afastou o cigarro dos lábios e soprou a fumaça para o alto, de olhos fechados para proteger as pupilas da maldita luz alaranjada do poste. Estava escorado de lado na parede de tijolos à vista, no beco com cheiro de mijo bem ao lado da espelunca que era o melhor lugar do mundo para se estar às duas da manhã. O melhor, o pior. Não fazia muita diferença.

Mover a cabeça era uma tarefa difícil. E, ao mesmo tempo, o queixo abaixou como se o corpo estivesse fora do seu controle, tudo tão devagar, o mundo inteiro em câmera lenta. As pálpebras se abriram. Havia uma poça no chão que refletia a luz roxa do letreiro do bar. Como era o nome mesmo? Ah, foda-se. Não importava.

Ele puxou o celular do bolso da jaqueta de couro e franziu o nariz enquanto tentava fazer sentido daquelas letras. Demorou cinco tentativas para conseguir digitar o código que desbloqueava o celular, odiando-se por usar uma coisa dessas para começo de conversa. Mas à luz do dia, sóbrio e dentro de si, Christophe era neurótico demais quanto à segurança de seus aparelhos eletrônicos. Naquele momento em especial, não daria meia foda se o governo russo tentasse hackear seu telefone. Só havia espaço para uma coisa em sua mente turva.

O nome foi um dos primeiros a aparecer na lista de mensagens, embora já fizesse duas semanas desde o último contato. Por um instante, Christophe se permitiu fechar os olhos, sentindo a leveza do próprio crânio. Tentou dar alguns passos, aproximando-se da porta dupla branca, pretensiosamente antiga, na qual havia duas pequenas janelas de vidro e podia-se enxergar a inércia dentro daquele bar. Ele estava sob a luz arroxeada agora, a pele coberta pelas nuances de rosa, os olhos brilhando pelo reflexo da tela do celular.

A foto ao lado do nome de Kyle era uma que o próprio Christophe havia tirado no ano anterior, na viagem à Bélgica. Kyle estava sentado na praça principal de Bruxelas ao entardecer, o casaco preto e o cachecol azul, as luzes dos postes antigos acesas deixando o seu cabelo em um tom cobre alaranjado tão bonito de se olhar. Christophe, de pé atrás dele, assobiou para que Kyle se virasse e captou o sorriso espontâneo da surpresa.

Hoje, particularmente, olhar aquela foto dava-lhe azia.

Christophe pisou na poça sem perceber, a bota de couro grossa demais para deixar que a umidade chegasse ao seu pé. Encarava a tela com atenção demais para se importar, os olhos fixos na última mensagem que Kyle enviara:

Não me liga mais

Tudo bem.

Christophe empurrou a porta com o ombro, segurando o celular com as duas mãos, digitando – com dificuldade – a primeira mensagem. Ele não gostaria de admitir que, além do álcool percorrendo suas veias, enxergava mal porque precisava de óculos. Era apenas mais uma dessas coisas da idade que ele ignorava.

ei

kyle

você tá em casa?

E guardou o celular no bolso. Tocava uma música lenta e ruim dentro do bar. Conhecia de cor aquele ambiente. Christophe era observador, o que poucos percebiam por conta de sua natureza bruta, sua falta de delicadeza, mas o homem francês cultivava uma prontidão quase animalesca que lhe permitia prestar atenção em todas as coisas, o tempo inteiro. Conhecia o chão preto e branco, as persianas e as paredes cor de chumbo, conhecia a forte luz roxa que nascia no espelho do bar e tomava conta de todo o espaço, deixando tudo mais pesado, mais denso. Conhecia as mesas redondas de tampo de granito e as placas de neon vermelho e azul em forma de lábios, uma sobre a outra.

Christophe já não sabia mais se realmente gostava daquele lugar ou se continuava a frequentá-lo pura e simplesmente pelo hábito, pelo irresistível ímã das memórias que preenchiam o bar.

Em algum momento no tempo, seis anos atrás, ele entrava por aquela mesma porta, discutindo com Gregory ao celular. Em um primeiro instante, não prestou muita atenção ao rapaz apoiado no balcão, de costas, pois não havia nada de especial a respeito dele. Christophe sempre enxergava o entorno como um cenário fora de foco do qual todas as pessoas faziam parte, quase como se existissem em um outro plano e se movessem em outra velocidade. E Christophe pouco se relacionava com elas.

Não foi a aparência de Kyle que fez Christophe enxergá-lo. Não foi uma beleza fora do comum, um corpo particularmente desejável, essas coisas não se sustentavam por muito tempo. O que fisgou a atenção de Christophe DeLorne, quando aquele menino virou a cabeça para olhar por cima do ombro, foi tudo o que havia por trás dos seus olhos verdes e do sorrisinho imprestável que ele ofereceu diante do contato visual. Ele não fazia ideia do furacão que o atingiria a partir daquele momento, revirando tudo pelo avesso, mas não teria feito nada de diferente se soubesse.

Porque foi irresistível. Inevitável.

Durante alguns segundos, a mente embriagada de Christophe teve a compaixão de cristalizar esse momento em que Kyle virou o rosto e sorriu para ele pela primeira vez, estendendo aquele segundo em uma eternidade. Ele poderia viver assim, imerso na sensação de ver Kyle Broflovski pela primeira vez. Era verão, e o único motivo pelo qual Christophe se lembra disso muito bem é pela forma como as mangas curtas da camiseta azul de Kyle estavam dobradas, expondo a tatuagem em seu braço direito, duas bananas extremamente amarelas, mas a cor era destoada pela iluminação. Os cabelos, também, vermelhos e crespos, presos para cima porque ele sentia calor na nuca. O jeans que ele usava era rasgado e a barra era dobrada até os tornozelos, uma perna por trás da outra, uma parte da bainha da camiseta dentro do cós da calça, um pouquinho de pele do quadril aparecendo, mas a outra parte da bainha estava para fora, cobrindo tudo. Ao se virar, ele brincava com um palito entre os dentes. Foi assim que sorriu para Christophe, meio de canto, constrangido e contente ao mesmo tempo, os olhos brilhando de curiosidade.

Kyle tinha um desses sorrisos que muitos talvez nem considerassem bonito, um desses sorrisos que dizia: “eu vou desgraçar a sua vida e você vai adorar”.

Christophe piscou, não no passado, mas agora, de pé no bar vazio. Uma, duas vezes. E não havia ninguém apoiado no balcão do bar, ninguém esperava por uma bebida. Porque aquele Kyle não existia mais. Eles não eram as mesmas pessoas.

Ele puxou o celular do bolso novamente, lambendo os lábios superiores enquanto digitava a senha – apenas duas tentativas foram necessárias dessa vez – e encarou a tela branca, a foto, o horário de envio da mensagem que não recebera resposta. 11h38 da noite. Naquele momento, Christophe DeLorne tomou uma decisão. Uma decisão terrivelmente embriagada, mas a única que fazia sentido.

A chaleira começou a apitar. Preencheu a cozinha com seu som agudo, mas Kyle terminava de colocar as meias cinzas em seu quarto, sentado à cama, a porta do armário aberta, um casaco jogado sobre a poltrona. Não esperava que fizesse frio. Antes de se dirigir à cozinha, levantou-se para fechar a janela que fazia com que a cortina transparente voasse com o vento. Aquela maldita janela sempre emperrava. Com algum esforço, ele a bateu e deixou o quarto com pressa para desligar o fogo. Passou rapidamente pela sala.

Girou o botão com uma mão e levantou a chaleira com a outra, levando-a ao balcão onde a caneca já estava pronta com o saquinho dentro. Chá de melissa e flor de laranjeira. Ele bebia todas as noites, mais pelo hábito do que por realmente apreciar o gosto. Não tinha gosto de coisa alguma, se Kyle fosse bem honesto. Mas gostava do som da água fervente despejando na caneca.

O som foi atravessado por um barulho estranho na sala. Kyle franziu o cenho, mas não foi um estrondo realmente fora do comum para que fosse verificar. O vento provocava sons esquisitos, sempre o deixava com a sensação de que não estava sozinho. Enquanto mexia o saquinho dentro da caneca, Kyle segurou a asa e apoiou a caneca quente contra o abdômen enquanto deixava a cozinha, em direção à sala, onde havia pausado Cidadão Kane na televisão. Contava que haveria tempo de terminar o filme antes que Token chegasse do seu turno.

Assim que passou da porta da cozinha, Kyle gritou. O chá quente – pelando – foi despejado em seu moletom quando o corpo recuou em um impulso, batendo as costas da cabeça no batente da porta, a mão cobrindo o peito, nada além de genuíno desespero em sua mente durante não mais do que um segundo, até que o cérebro recebeu a informação de que aquela silhueta enorme no escuro da sala lhe era familiar.

Ah, desgraçado.

—Puta que pariu, Christophe! — Ele gritou, só então permitindo-se sentir a ardência do chá que atravessava as fibras do tecido e tocava seu peito. A mão, ainda trêmula, repousou a caneca sobre a estante de livros ao lado. — Vai se foder, você quer me matar do coração?!

O outro não respondeu. Olhou casualmente em volta, deu dois passos em direção à escrivaninha sobre a qual havia um porta-retratos, mas não o tocou. E nessa pequena movimentação, Kyle teve certeza de que ele estava bêbado. É claro que estava. O coração de Kyle ainda batia disparado, mas o impacto daquele susto começou a se converter em raiva.

—O Token é policial, você sabe, né?! Um policial que tem uma arma. Se ele estivesse aqui, podia ter dado um tiro na sua cara! Você é completamente doido?!

—Ele me daria um tiro antes ou depois de me reconhecer? — Veio a resposta petulante que Kyle deveria ter previsto.

O ruivo revirou os olhos, arrancando o moletom molhado de forma irritadiça, dirigindo-se à cozinha. Mas antes, virou-se para Christophe com o indicador apontado em sua direção.

—Não saia daí. — Ele ordenou, como se fosse necessário.

E ali, no escuro, Christophe quase riu. Kyle não ficou para ver se ele estava sorrindo ou não, daquela sua maneira contida, o tipo de sorriso filho da puta que fez Kyle se perder de si mesmo durante seis anos. Mas não mais. As coisas eram diferentes agora. Ele repetia isso a si mesmo como um mantra enquanto jogava o moletom no cesto de roupas sujas da lavanderia. Balançava a cabeça para si mesmo, sentindo a agitação crescer dentro do peito, porque estar sozinho com Christophe DeLorne era sempre… Um problema.

Ao voltar à sala, Kyle não deveria ter se surpreendido com o que viu. E no entanto, mesmo depois de tanto tempo de convivência, Christophe permanecia inacreditável. Estava sentado no sofá, sobre a manta ainda quente que Kyle usara para se enroscar enquanto assistia ao filme. Christophe tinha os dois pés sobre a mesinha de centro e tentava acender um fósforo, bêbado demais para conseguir, o cigarro preso entre os lábios. Kyle teria rido se não estivesse tão profundamente furioso. O porta-retratos estava deitado sobre a mesinha, ao lado da bota imunda de Christophe, relevando uma fotografia de Kyle e Token no último natal.

Kyle marchou até ele para tomar em suas mãos o porta-retratos que Christophe havia pego da escrivaninha. O movimento fez com que o outro desviasse a atenção do fósforo, brincando com o cigarro em sua boca enquanto encarava Kyle. Ele usava apenas a camiseta branca de algodão agora, o calor começando a deixar seu corpo.

—Como é que você entrou aqui, afinal?!

Christophe encolheu os ombros.

—Pela escada de incêndio. — Disse, o cigarro atrapalhando a articulação dos lábios. Ele o tirou da boca. — Você devia trancar essa janela. É perigoso, isso aí.

Kyle tinha um “vai se foder” preparado na ponta da língua, mas respirou fundo antes de dizer qualquer coisa. Pôs o porta-retratos de pé sobre a mesinha de centro e, em seguida, levou as mãos ao quadril de uma forma que o deixava tão parecido com sua mãe. Mas Christophe não estava bêbado o suficiente para dizer isso a ele.

—Você podia ter caído e quebrado a cabeça, seu idiota.

—Tá preocupado, é?

—Você não pode continuar fazendo isso. — Kyle murmurou, um pingo de fragilidade transparecendo em sua voz. Eles se encararam no escuro, iluminados apenas pela luz dos postes entrando pela janela e pela televisão pausada no rosto de Dorothy Comingore em preto e branco. Aparentemente, Christophe havia se esquecido do cigarro, segurando a caixa de fósforos na mão esquerda, os olhos presos no rosto preocupado de Kyle. — Logo o Token chega. Por favor, vai embora.

Por um instante, o homem não se moveu. Abaixou um pouco o queixo, desviando o olhar para o chão de maneira lenta, sentindo o próprio peso derretendo-se sobre o sofá. E então, Christophe se levantou, largando cigarro e fósforo sem se preocupar onde cairiam, focado apenas em desocupar as mãos. Kyle deu um passo instintivo para trás, virando o rosto e deixando que as pálpebras se fechassem quando sentiu aquela palma quente em seu pescoço, os dedos grossos fazendo uma leve pressão em sua nuca, o hálito de álcool e fumaça de cigarro e alguma coisa terrivelmente familiar invadindo suas narinas, cheiro de intimidade, de saudade, de coisas que nunca foram ditas. Tudo isso sempre voltava quando Christophe, que nunca aprendeu os limites do que é apropriado ou não, aproximou o rosto do seu com os olhos bem abertos, queimando a pele de Kyle, pedindo para ser olhado de volta.

—Eu já sei o que você quer. — Kyle disse, enfim permitindo voltar os olhos para ele, encontrando aquele rosto do qual conhecia cada nuance, cada pedaço. Ele tinha um pouco mais de barba do que da última vez que se viram, talvez alguns pelos grisalhos a mais, mas os olhos continuavam tão intensos quanto sempre foram, os olhos de um bicho, escuros e brilhantes, comunicando todas as coisas que ele não sabia dizer. Kyle estremeceu com o polegar do homem acariciando sua pele, seu couro cabeludo, traçando um caminho tão familiar para os dois. Causava, simultaneamente, um incômodo invasivo e uma excitação inevitável, uma vontade que não morria, por mais que Kyle tentasse se livrar dela. — Já sei o que você veio dizer.

—Eu não vim dizer nada.

E era a verdade. Kyle sabia disso. Por um instante, permitiu-se erguer o olhar e engoliu o acúmulo de saliva na boca, perdendo-se nos olhos que pareciam mais castanhos do que verdes naquela ausência de luz. Aquela maldita cor de mel, os espectros de verde em torto da pupila, onde a íris era quase amarelada, e o contraste que aquele mundo de cores fazia com a pele de Christophe, com o seu aspecto abatido, embriagado, inapropriado, e Kyle se forçou fechar os olhos para parar de pensar.

—Você está bêbado. — Disse, mas quando as palavras ecoaram no ar, soaram muito mais mansas do que Kyle pretendia.

Ele apenas grunhiu em resposta, descansando o rosto na curva do ombro de Kyle, um espaço de carne exposta pela gola cavada da camiseta, e a respiração quente de Christophe contra a região sensível fez com que Kyle mordesse a bochecha por dentro sem perceber, os músculos enrijecidos. Mas Christophe não fez nada além de repousar o rosto e ali e fechar os olhos, as mãos descendo pela lombar de Kyle, de forma terrivelmente afetuosa e sexual sem intenção, porque era sempre assim, mesmo que eles lutassem contra. Kyle levou alguns instantes para retribuir o toque, os braços caídos ao longo do corpo e a respiração oscilante, absorvendo a forma como Christophe abaixava todas as suas defesas e roçava o rosto contra ele feito um vira-lata que não pede uma moradia, não pede comida, não pede comprometimento, pede apenas um pouco de carinho.

Estava bêbado o bastante para Kyle acreditar que ele estava dormindo em pé, após alguns segundos assim, imóveis.

A campainha tocou à 00h21. O turno de Token terminava às 23h, mas ele havia passado em casa para tomar banho, jantar e dar comida ao gato. Passava os dedos pelo cabelo quase seco, apoiando o cotovelo no batente, quando Kyle abriu a porta. E havia algo errado. Token percebeu na feição pálida dele, na forma como ele fechava o cardigan cinza, com elefantes de crochê atrás. Kyle tinha os lábios entreabertos e os olhos grandes, quase assustados. Olhou para trás de relance, o que fez Token franzir o cenho.

—Eu tentei te ligar. — Foi a primeira coisa que ele disse, o que não soava como uma explicação boa o bastante. Token puxou o celular do bolso traseiro do jeans e olhou rapidamente.

—Eu esqueci de ligar quando saí do trabalho. — Respondeu, sacudindo a cabeça. — Você tá bem?

—Sim, sim, eu tô.

Por um instante, Token apenas o encarou de volta, o celular ainda na mão, apertando-o com um pouco mais de força do que deveria. Kyle não saiu do caminho, bloqueando a porta de maneira intencional, um braço de cada lado do batente. Parecia ansioso.

—Kyle. — Chamou em um tom preocupado que pesou no coração do outro.

Inclinando-se para frente, quase em um sussurro, Kyle disse:

—O Christophe tá aqui.

Token piscou devagar.

Desviou os olhos para o corredor, levando o polegar entre dentes por um instante, bufando de forma barulhenta. Logo em seguida, a mão cobriu os olhos, esfregou o rosto daquela maneira paciente que sempre fazia Kyle se sentir uma criança prestes a levar bronca.

—Por quê?

Kyle encolheu os ombros, mesmo sabendo que isso o irritaria mais. Não sabia como explicar uma escolha que não foi sua. Mas estendeu as mãos para tocar os ombros de Token, que permaneceu frio e imóvel, exceto pelo pé batendo no chão.

—Ele tá bêbado.

—É claro que ele tá bêbado. Quando é que não?!

—Token. — A voz veio mansa e pedinte, de forma que, mesmo contra a vontade de Token, relaxou seus músculos quase que por completo. — Me desculpa. Tá bom? Ele tá deitado, eu não… Não tenho coragem de pedir pra ele ir embora desse jeito.

—Então quem tem que ir embora sou eu. Não é isso?

—Você sabe o que houve da última vez.

Sim, era difícil de esquecer. Da última vez que se encontraram, não no apartamento de Kyle, mas em um bar de esquina à 1h da manhã, nenhum dos três exatamente sóbrio. Gregory estava lá, a pessoa mais diplomática que Token já conheceu. Sempre se considerou um homem bastante dialético, não cresceu em um ambiente em que fosse necessário aprender a dar socos. Nem mesmo teve irmãos mais velhos que impusessem esse tipo de lição. Token praticava esgrima, por Deus. Se isso não provava que briga de punhos não era o seu forte, nada provaria.

E no entanto, Christophe DeLorne tinha uma capacidade nata de tocar seus nervos com pouca coisa. Token não estivera bêbado o bastante naquela noite para se esquecer de como esmurrou Christophe no meio da rua de paralelepípedos, e ele abriu a cabeça no meio fio. Por um instante, Token se sentiu verdadeiramente mal, um imbecil. O sentimento durou pouco, pois Christophe se ergueu feito uma besta, vital e fora de si, como se nem sentisse dor. E a retaliação foi muito pior.

—Eu não conseguia entender como você aguentava isso. — Token disse, enfim, recuando com o corpo. Parecia resignado. — Mas eu acho que nem te incomoda. Ele sabe que você gosta.

—O que você quer que eu faça?

—Nada. — Ele disse, guardando o celular no bolso da jaqueta. — Eu te ligo amanhã.

Essa foi a despedida que Token podia oferecer. Kyle deu um passo à frente quando ele começou a se afastar, seu nome pronto na ponta da língua, mas por alguma razão, Kyle não disse nada. Ficou ali, assistindo enquanto a figura de Token se afastava para chamar o elevador.

—Eu sinto muito. — Kyle disse em uma voz espremida, preenchendo o breve tempo de silêncio no corredor que pareceu uma eternidade. Token o olhou de relance, mas não disse mais nada. Kyle esperou que ele desaparecesse atrás das portas do elevador antes de voltar para dentro.

O filho da puta estava deitado em diagonal na cama de Kyle, tomando todo o espaço. Havia tirado apenas um braço da jaqueta de couro e desamarrado os sapatos que continuavam em seus pés. Kyle quis xingá-lo por isso, por usar aqueles sapatos sujos em sua cama, mas seria essa realmente a razão certa para brigar? O fato de ele estar nessa cama, para começo de conversa, deveria ser a parte mais incômoda. Kyle balançou a cabeça para si mesmo, acendendo a luz do abajur – Christophe grunhiu, cobrindo o rosto com o braço – e puxou as pernas dele para endireitá-lo na vertical. Não houve resistência.

—Você acha que vai vomitar? — Kyle perguntou.

Houve uma longa pausa.

—Não. — Ele disse, o sotaque francês mais forte pela dificuldade de falar. De repente, Christophe ergueu a cabeça, encarando o nada. — Pera. — Prosseguiu, e Kyle esperou, de pé, os braços cruzados. De repente, Christophe voltou a descansar o peso da cabeça contra o colchão. — É, não.

Kyle tentou não sorrir, puxando o edredom com dificuldade sob o peso de Christophe.

—Você é um idiota. — Disse, tentando ocultar o carinho que havia naquela afirmação.

Kyle escalou na cama sob os cobertores, deitando-se de lado, sentindo-se desperto demais para adormecer. Christophe não usava o travesseiro, a cabeça deitada a poucos centímetros dele, um dos pés pendendo para fora da cama. Kyle o observou por alguns segundos, esperando ouvir a respiração dele mudar para um ritmo mais denso, familiar, um tipo de sono pesado que Christophe só conseguia atingir quando bêbado. Foram os únicos momentos em que Kyle o viu descansar de verdade.

—Você mandou seu namorado embora. — Ele murmurou de repente, surpreendendo o ruivo. O braço direito continuava jogado sobre seu rosto, protegendo os olhos da luz.

—Você não me deixou muita escolha.

Christophe recolheu o braço para enxergar Kyle, tombando a cabeça em direção a ele, expondo os olhos pequenos de sono e embriaguez. Mesmo sob todas aquelas camadas, havia lucidez em seus olhos, em sua expressão, tamanha lucidez que tirou o fôlego de Kyle por um instante. Christophe também se deitou de lado, esmagando um dos braços sobre o próprio peso, erguendo a cabeça. Não estavam muito próximos, apenas o suficiente para Kyle se sentir intimidado.

—Não vai acontecer nada. — Kyle disse em uma voz fraca, quase um sussurro. — Você sabe disso, não sabe?

Em um primeiro instante, Christophe apenas se aproximou mais, escorregando o peso de forma vagarosa, bêbada, mas os olhos brilhavam em atenção. Ele deitou a cabeça para o lado em um gesto de curiosidade, apoiando-a sobre o travesseiro e piscando algumas vezes, umedecendo os lábios. E naquele momento, Kyle duvidou profundamente do próprio autocontrole caso o outro decidisse flertar com os limites, as barreiras, testá-lo. Mas Christophe sorriu, sorriu da maneira honesta que só fazia na intimidade do quarto, da cama, a essa hora da madrugada.

—Eu sei. Tô bêbado demais pra ficar duro mesmo. — Disse, uma certa amargura brotando em seu sorriso. Kyle riu, revirando os olhos, mas o sorriso desapareceu dos lábios de Christophe logo em seguida. Ele fez uma pausa demorada. -Eu não vim aqui pra isso.

—E pra que você veio? — Kyle perguntou de forma genuína, nenhum ataque ou acusação em sua voz.

No silêncio daquele quarto, somente os dois presentes, ninguém mais ouviria a fragilidade nas coisas que eles diziam, a maneira incondicionalmente amorosa com que ainda se olhavam. Token tinha razão. Kyle gostava da insensatez de Christophe, gostava do fato de que ele aparecia sem avisar, mandava mensagens de madrugada, materializava sua presença na vida de Kyle de forma tão orgânica e pura e imunda. Porque Kyle, à luz do dia, ou na presença de Token, na presença dos amigos, podia fingir que todas as feridas estavam curadas e tudo estava bem. Mas era somente quando Christophe DeLorne o olhava, com os olhos mais honestos do mundo, que Kyle se sentia como Kyle. Como quem era de verdade.

A resposta demorou o bastante para chegar, a ponto de Kyle pensar que ele havia dormido, pois seus olhos estavam fechados. Mas, sem mudar a expressão (calma como poucas vezes Kyle vira o rosto de Christophe), ele disse:

—Pra saber se você ainda manda o seu namorado embora por minha causa.

Kyle não sorriu. Piscou duas vezes, observando aquele rosto que escorregava para a inconsciência, a respiração que – agora sim – se alterava, desacelerando. Lentamente, Kyle se aproximou, repousando o rosto sobre o topo da cabeça de Christophe, permitindo que o outro o envolvesse em um de seus braços, abraçando-o de forma preguiçosa. Kyle deixou que a mão distraída acariciasse os cabelos de Christophe até ele dormir.

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