Crônicas - não dos reis - da vida.
18 26/07/2021
"Hoje vou voltar com a fralda do meu filho"
Em mais um ano atípico, até a estação de inverno, que o carioca pouco sentia, resolveu dar o ar gélido de sua graça. Devido aos dias frios que têm feito no Rio de Janeiro, fui acometida de uma infecção da "minha infância querida", a famosa dor de garganta, com pontadas dolorosas no ouvido e voz fanha por conta do nariz entupido.
Na fase adulta, não imaginei sucumbir dessa maneira a ponto de ir ao pronto atendimento por não aguentar o cansaço e as dores. Calma! Não entrei na estatística de Covid-19, era uma simples inflamação na garganta, algo corriqueiro, ainda existente em nossos dias.
Contudo, não irei me ater ao que houve comigo, mas a uma satisfatória prosa entre um vendedor ambulante (o tal do camelô) e o motorista. Ao regressar para casa, ainda me dispus a correr para não perder o ônibus que já estava no ponto. Saindo devagar, ainda foi 'catando' passageiros até parar novamente no sinal.
Assim que, finalmente, conseguiu acelerar, dava a entender que seria uma rápida viagem, mas não foi... Pegamos um singelo engarrafamento e foi onde eu pude ouvir por diversas vezes a alegria do vendedor ambulante em contar que estava levando a fralda do seu filho para casa.
Ao chegarmos em um ponto deserto, ao lado esquerdo do motorista (lado contrário onde geralmente ficam os passageiros para fazer o sinal), um jovem rapaz gritou: "Passa em Nilópolis!?"
O motorista estava devagar e, por isso, conseguiu ouvir o rapaz e foi parando. O jovem rapaz atravessou a pista correndo e subiu no ônibus.
— Obrigado! — Disse o vendedor ambulante bem expressivo — Os outros que passaram fingiram que não me viram. — Completou.
O motorista riu. Mas sua ação de parar para aquele jovem lhe rendeu uma barra de chocolate que de bom grado lhe foi dado.
— Obrigado! — Respondeu o motorista dando partida e surpreso.
— Quatro e cinco? — Perguntou o vendedor ambulante, sobre o valor da passagem.
— Isso.
O jovem retirou duas notas de dois reais do bolso e uma moeda, acredito eu, de dez centavos ou vinte e cinco centavos, pois o mesmo ainda disse: "Pode ficar com a moeda", como se indicasse que teria troco, mas se recusou a receber.
O motorista liberou a catraca e o jovem passou, sentou-se ao lado direito, no primeiro banco da frente e ali começou a prosear.
— Meu amigo estava com umas mercadorias me falou comigo que não queria trabalhar hoje. Fui nele, comprei as mercadorias. Tenho que levar a fralda do meu filho pra casa.
— É? — O motorista foi monótono, pois se concentrava na direção.
— Camelô se entende, sabe? Às vezes eu tenho mercadoria que ele não tem e a gente troca.
Não demorou muito o silêncio e o vendedor ambulante continuou.
— Meu amigo falou que tinha umas barras [de chocolate] e disse que estava vendendo bastante. Sendo que ele vende três por dez, mas eu coloquei quatro por dez para sair mais rápido.
— Hm... — Respondeu o motorista.
— Vou pra Nilópolis, lá é mais movimentado e já moro por lá mesmo. — Riu.
O motorista também riu para continuar a conversa. Novamente, o silêncio da viagem não demorou muito.
— O bebê já está com sete "mês", pra nove "mês" faltam dois. — O jovem fez o cálculo — Aí eu tenho que trabalhar, correr atrás para comprar a fralda. Em setembro ele nasce, faltam dois "mês", passa rápido. Entre dia 10 ou 11 o meu bebê nasce.
— Verdade.
— A mulher diz para eu não comprar muito a RN. Recém nascido, né?
— Isso. Recém nascido. — concordou o motorista.
— É, a mulher disse que o bebê não vai usar muito. Pediu para comprar aquela fralda boa: "sec sec" [Baby Sec], eu acho. Que tem a "Galinha Pintadinha".
— Sei.
— A mulher disse que essa que tem a Galinha Pintadinha é a melhor. Falei pra ela que vou na quarta, que é a semana do bebê no Guanabara. Pegar as fraldas na promoção.
— É?
— É. Essa RN que é cara, né?
— É.
— Paguei uns trinta reais, mas o bebê vai usar pouco.
— É.
E ficamos um tempo no engarrafamento, a prosa continuou depois que o vendedor ambulante contou o valor total de sua venda.
— Sobrou quatro barras ainda. Esse da Alpino é bom, vai vender muito. — Ele pegou a barra de chocolate e mostrou para o motorista — Quer trocar?
— Não, não, essa que você me deu é boa também. — Respondeu o motorista.
— Vou dar essa pra mulher. Ela vai ficar feliz. — O jovem sorriu feliz — Vou levar pros sobrinho, pra sogra. Um pra cada. E os pequenos vão dividir, "nós" mora em comunidade, aí eu dou uma barra [de chocolate] e falou: é uma pra todo mundo, dá um pedacinho pra cada um que dá. — Ele riu.
— É... — O motorista riu também.
A conversa foi rendendo, até que conseguimos sair do engarrafamento que, no final, não era nada a não ser excesso de carro. Ao nos aproximarmos de Nilópolis, onde eu, o vendedor ambulante e mais alguns passageiros desceríamos, o mesmo tocou em um assunto que me chamou atenção.
— Eu vou dar atenção ao meu bebê que o meu pai não deu.
— É?
— É... eu vou cuidar do meu bebê e dá atenção pra ele que meu pai não deu. O meu pai era assim: "Bênção, pai" e ele falava "Deus te abençoe, toma" e dava dinheiro pra gente ir embora. Vinte, dez reais.
— Caramba.
— É, mas eu vou ser diferente. Vou dar toda a atenção pro meu filho. Eu vou ser um pai diferente. Toda atenção que eu não tive, eu vou dar pro meu filho.
Por fim, descemos. Eu realmente espero que esse jovem vendedor ambulante tenha êxito em suas vendas para levar a melhor fralda para o seu filho e que ele realmente consiga transferir todo o carinho para o bebê. O mundo precisa de pessoas assim, que não colocam no seu presente marcas do seu passado e repetem as mesmas falhas, mas que tomam a iniciativa de serem diferentes.
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