Crônicas dos infortúnios
4 Minha mãe me ama!
Notas iniciais
Me lembro quando eu tinha seis anos de idade, meus pais ainda moravam juntos e se amavam, eu queria ser bailarina e meus pais me apoiavam em tudo, nas aulas do outro lado da cidade, as roupas, o tutu, exatamente tudo. Lembro que ganhei uma caixinha de música do meu pai, tinha uma bailarina dentro dela, que girava e girava ao som de uma linda música sempre que eu abria a caixa.
Quatro anos mais tarde, minha mãe descobriu que meu pai tinha um caso e o colocou para fora de casa, apoiei minha mãe, ela estava certa. Ela me abraçou naquele dia e disse que me amava.
Nem tudo foi um mar de rosas depois da separação dos meus pais, papai foi morar com sua amante, mas continuou a pagar meus estudos e minhas aulas de balé e a mamãe só bebia e falava que meu pai não prestava, em meio a tanto sofrimento que ela sentia, sempre dizia que me amava e que eu era a única coisa da qual não se arrependia em todos os anos que passou com o papai.
Vi minha mãe sofrer por meses e comecei a sofrer também, sempre sofremos quando alguém que amamos sofre. As vezes não ia ao balé para fazer companhia a ela, muitas vezes faltei até aulas da escola.
Quando alguma amiga me chamava para ir brincar na rua, me negava a ir e ficava com a minha mãe, ela sempre seria minha amiga e era a única que me amava, isso era o que ela sempre me dizia.
Tinha doze anos quando meu pai me disse que sua nova esposa estava grávida, eram gêmeos ele dizia, eu fiquei arrasada. Encontrava meu pai todos os finais de semana e sempre ia para a casa dele apreensiva e pensando na mamãe chorando em casa, ela estava deprimida e não gostava que eu convivesse com a nova família do meu pai, dizia que papai não me amava, mas quando ele estava comigo, não era isso que eu via. Papai ficava comigo o final de semana inteiro, jogávamos videogames, futebol, falávamos sobre o balé e até sobre meus problemas de pré adolescência. A esposa dele também não era o monstro que a mamãe falava, pelo contrário, ela sempre cozinhava tudo que eu gostava e fez até um quarto para que eu ficasse mais confortável quando fosse passar o final de semana lá. O quarto era rosa e cheio de bailarinas por todo o lado.
Sempre que eu falava sobre como o papai era bom comigo e a esposa dele também, mamãe mudava comigo, ela gritava e chorava dizendo que eu não a amava, mas era mentira, eu a amava também. Não poderia amar os três?
Quando meus irmãos nasceram minha mãe me disse exatamente assim "Agora você verá que sou a única que ama você de verdade, seu pai te trocará por eles". Neste dia eu me tranquei no quarto e chorei o dia todo, e naquele final de semana papai não foi me buscar, fiquei esperando por ele o dia todo no portão com a minha malinha pronta.
Então comecei a comer por ansiedade, meu pai não vinha e eu me trancava no quarto para comer até me estufar. Depois de uns meses percebi que minhas roupas do balé não serviam e então falei com a minha mãe sobre isso, de sua boca só ouvi um "Também você come como uma porca! Se continuar assim, não vai passar nem pela porta, mamãe fala porque te ama", aquilo me machucou, mas ela estava certa e me amava. Então eu decidi não comer mais. Me controlava, roia unhas e até a pelinha dos dedos, tudo para evitar comer.
E nada parecia ter efeito, minha mãe sempre dizia que eu estava enorme e eu não sabia mais o que fazer para emagrecer e continuar a ser bailarina, então um dia na aula de balé eu fiquei tonta e desmaiei enquanto dançava, cai de mal jeito e quebrei o braço.
Papai morava mais perto da escola de balé, então ele chegou mais rápido quando o chamaram, acordei no hospital e ele segurava a minha mão, lembro que perguntei para ele se eu precisava me machucar para que ele se importasse comigo e então ele me revelou "Mas era você que não queria me ver, pelos menos era isso que sua mãe dizia quando eu ligava". Não acreditei que ela tivesse feito isso, mamãe me amava e não mentiria para mim. Quando fiquei melhor, papai disse que me levaria para a casa dele e então conheci meus irmãos. Achei que papai me trataria diferente por causa deles, mas não foi assim. Até a esposa do meu pai continuava prestativa e carinhosa como sempre. Ela me fez comer tanto que percebi que engordaria os poucos pesos que tinha conseguido perder, foi a primeira vez que forcei o vômito, na minha cabeça a voz de minha mãe dizendo "Nunca vai poder ser bailarina se continuar comendo feito uma porca".
Os médicos disseram para o meu pai que eu estava anêmica e precisava comer e tomar vitaminas, e eu sempre rejeitava a comida, estava gorda e ele não entendia, ninguém me entendia, só a minha mãe, porque ela me amava.
Psicólogos e psiquiatras conversaram comigo, tentavam me dizer o contrário, que esse amor era doença e que eu precisava me tratar, passei muito tempo longe da minha mãe e de todo o amor dela.
Todo esse tempo longe me fez ver o quão errado era a forma que ela me amava, quando relatava ao meu pai qualquer queixa sobre o meu peso, ele me levava ao nutricionista e então o problema era resolvido, não precisei abandonar o balé e depois que minha psicóloga me liberou, pude visitar a minha mãe, mas ela estava do mesmo jeito de sempre, me inferiorizando e dizendo que me amava, talvez não fosse eu que precisasse de tratamento, mas ela sim.
Na última vez que a vi e ela me inferiorizou, eu apenas disse... Mãe, seu amor me machuca, talvez isso não seja amor.
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