É engraçado o quanto ela não vai dizer o que esta pensando, mas você saberá se ela quiser.

Sempre tive um problema com os olhos: não eram julgadores mas me impeliam a segui-la, me faziam sentir vergonha do que eu não era mas gostaria de ser, por ela. Devo admitir: era sábia, de uma sapiência que me fazia questionar quantos anos de fato tinha, se não de corpo, de alma. Parecia ter vivido tudo, visto tudo, ouvido tudo e sempre tinha algo extraordinário a dizer, as vezes tão extraordinário que não queríamos ouvir.
Ela sempre colocava minhas certezas em cheque, me trazia a uma realidade ate então desconhecida, não me fazia perguntas desconcertantes e nunca parecia surpresa com a lista de bobagens que eu costumava fazer, parecia esperar pelos meus porres e gritos, como se o meu “meter os pés pelas mãos” fosse mais habitual a ela do que a mim.
Tinha um humor ácido e certeiro, conseguia descontrair um santo de barro. Era como um imã que carregava todos para si. Imagino que tenha sido o amor da vida de muitos e ainda ha de ser de tantos outros.
Quando a olho não sei se a temo ou se a amo. A excluo de minha vida e logo a telefono mais uma vez. Sumo, mas no fim vejo aquela cerveja gelada e imagino que sua companhia seria a ideal.
Ela não fala como um anjo, não olha como um anjo, não sorri como um anjo, não tem nada de anjo e ainda assim me pergunto se não deveria mergulhar neste intempestivo mar.

– crônicas de uma velha louca.