Crônicas de uma galáxia
42 Quarta Despedida
Nossa última noite juntos pode ser resumida em: jogos, cerveja, coxinha e Pablo.
Eu não sabia ao certo como me sentir.
Queria conseguir curtir o momento, nossos últimos momentos, antes de partir. Mas também queria desesperadamente que o Pablo fosse embora.
Eu queria poder estar sozinha com meu namorado nas nossas últimas horas juntos, mesmo que gostasse de comer coxinha, me esforçar para ganhar deles e reclamar que cerveja tinha gosto ruim (não que eu realmente acreditasse nisso, os quase três meses com o Marco me ensinaram que cerveja era bom). Queria poder não me importar com estar bem vestida e ter que ser simpática e agradável, botar meu pijama velho e o abraçar até cair no sono pela última vez.
Queria poder me preparar para voltar para uma casa que agora pareceria mais vazia ainda, e uma rotina sem graça e sal. Poder, por uma última vez, observar todas as linhas daquele rosto e ouvir por uma última voz o timbre daquela voz no silêncio do nosso quarto e ao pé do meu ouvido. Queria, por uma última vez, poder chorar nos braços dele e ter a pessoa que eu mais amava no mundo me acalmando.
Quando – e me obrigo a dizer, por que foi o sentimento do momento – finalmente o Pablo foi embora, não levou nem dez minutos para que arrumássemos tudo e fossemos para a cama.
Com a minha tatuagem recém-feita no ombro esquerdo, admito que a posição em que dormimos não era nem de longe confortável, mas ainda assim, era com ele.
E foi a nossa última noite juntos.
Quando me levantei, só conseguia chorar. Não tentava mais parecer forte; eu sabia que ele sabia que ia doer demais.
Olhava para todos os cômodos da casa que me acolheu por três meses, e me lembrava de tudo que já tinha acontecido ali dentro, e de como eu me sentia feliz, e percebia que eu nunca iria sentir tanta dor como quando botasse os pés dentro do avião novamente.
Aquela casa era minha fortaleza, meu castelo. Lá, eu estava protegida de tudo que me ameaçava, de tudo que me machucava. Lá, minha constelação inteira era aceita e querida, e eu tinha o abraço mais brilhante do universo sempre que precisasse.
Era a via láctea, lotada de constelações e galáxias, brilhando feliz para o universo todo ver. E eu queria mais do que tudo permanecer nela.
Sentia um pedaço de mim ser arrancado cada vez que me despedia de alguém e, quando coloquei os pés no carro do meu sogro mais uma vez, eu não era nada mais do que um amontoado de nadas.
Deitei a cabeça no ombro do Marco, enquanto o sentia mexendo nos meus cabelos, e chorei mais uma vez. Ficamos em silêncio por toda a viagem de carro, os prédios passando pela janela como borrões. Eu não sabia o que dizer. Só queria que o tempo parasse.
Despachamos minha bagagem – uma mochila, e percebi que já estava na hora.
Sem mais tempo.
Andamos de mãos dadas até o portão de embarque, e eu não conseguia soltar sua mão quando paramos em frente à segurança. Mergulhei uma última vez naqueles olhos castanhos que continham o infinito, e o beijei como se fosse a última vez.
— Eu te amo pra sempre. – Ele murmurou, me abraçando.
— Eu te amo pra sempre. – Respondi. – Nos vemos logo.
— Sim. – Ele concordou e, pelo seu rosto, percebi que ele se esforçava para acreditar em mim. Senti meus olhos encherem de lágrimas, e dei as costas para ele, piscando freneticamente.
E aí, eu fui.
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