Crônicas de uma galáxia
31 PARTE III / Coragem
Acordei às seis da manhã, o horário de sempre.
Vesti-me como sempre me visto para ir à escola, nem mais arrumada nem menos.
Botei uma mochila nas costas, como fazia todos os dias para ir à escola, e nada mais.
Tomei o café da manhã à mesma hora de todos os dias, e escovei os dentes e o cabelo como sempre faço todos os dias.
E, quarenta minutos mais tarde, saí de casa, como fazia todos os dias.
A diferença desta vez é que eu não voltaria tão cedo, e havia um bilhete na minha cama dizendo isso.
Só com uma mochila nas costas, caminhei até a rodoviária por uma série de ruas menos movimentadas e mais distantes do centro. Comprei uma passagem de ônibus que me levaria até o metrô, e dois minutos depois já estava na estrada.
Parecia uma estudante normal, de calça jeans, tênis e uma camiseta de uma banda esquisita e folgada, com uma mochila nas costas. Dentro daquele ônibus deviam ter pelo menos mais cinco iguais a mim.
E as minhas estrelas estavam me deixando louca. Eu tentava me manter tranquila, a urgência de seguir todos os passos pré-estabelecidos exatamente como eu havia pensado me ajudava a não me desesperar, preocupar ou vomitar. Eu repassava horários, linhas de trem e preços de passagem mentalmente, enquanto esperava a parada certa do ônibus.
Minha constelação estava uma bagunça total, orbitando um planeta de ansiosidade, medo e empolgação. Sentia a adrenalina correndo pelo meu sangue, e me ajudava a dar um passo de cada vez.
Por fim, o ônibus encostou. Eu agradeci o motorista, um costume que tinha desde sempre, e desci. Da calçada, subi quatro lances de escada e entrei na estação do metrô, comprei a passagem, passei pelas catracas e senti meu coração finalmente se acalmar, quando as portas se fecharam e o trem se pôs em movimento.
Pelo meu cronograma, em cinquenta minutos eu devia chegar ao aeroporto.
Agora eu estava segura. Nada mais podia dar errado. Respirei fundo, e chequei a hora. Eu estava dentro do prazo. Minhas estrelas voltaram as suas posições originais, enquanto eu percebia que finalmente tinha parado de tremer.
Passei os cinquenta minutos seguintes observando o céu, que começava a se tornar azul, e a Luz quente do sol se infiltrando pelo vagão, e as pessoas sonolentas entrando e saindo. Mandei uma mensagem de bom dia para o Marco, quando achei que ele já estaria acordado, e recebi a resposta só meia hora depois. Conversamos um pouco, e por fim o trem parou na minha estação final.
Desci às escadas, passei mais uma vez pela catraca e andei pela passarela sobre uma avenida até o aeroporto. Quando cheguei, despachei a única mochila que tinha, e percebi que parecia muito suspeito uma menina como eu viajando para tão longe com nada além de uma mochila que parecia ser de escola. Tentei sorrir e parecer amigável, mas achava que ia vomitar de nervosismo a qualquer momento e meu sorriso deve ter passado essa impressão.
Legalmente, eu já tinha idade para viajar sozinha e sem permissão, então foi com uma tranquilidade que não parecia ser minha que entreguei a carteira de identidade e a passagem para o responsável pelo embarque dos passageiros, antes de entrar no avião.
Já sentada na poltrona, senti que nada mais importava.
Tudo que já tinha acontecido, todas as coisas pelas quais eu tinha passado, todo o sofrimento, tudo. Era tudo passado, e o que importava era o agora.
Quando a aeromoça pediu que os aparelhos celulares fossem desligados, quase chorei de felicidade. Tinha dado certo.
“O avião vai decolar, eu te amo. Até logo” enviei para o Marco.
“Qualquer coisa, dê uma olhada na minha cama” digitei para a minha mãe, antes de desligar o celular e remover o chip da companhia telefônica, guardando-os no bolso.
O avião finalmente decolou, e me senti tomada por uma paz imensa enquanto observava a cidade diminuir e as nuvens pouco a pouco abraçarem a aeronave.
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