Crônicas de uma galáxia
10 O milagre & os apelidos
— Vou à faculdade hoje, falar sobre o estágio. É uma chance bem pequena de dar certo, bem pequena mesmo. Mas se der, eu fico trabalhando aqui até dezembro. – Ele me disse. Estávamos sentados num muro que separava a quadra de futsal do resto dos prédios da escola. A manhã era um pouco fria, e o sol tentava a todo custo nos iluminar através das nuvens pesadas que o encobriam.
— Tudo bem. – Murmurei. Chutava algumas pedrinhas em direção nenhuma, enquanto observava Isabella jogando tênis de mesa contra nossos colegas. Mais de uma vez, a bolinha era arremessada forte demais, e vinha rolando até meus pés.
— Porque tu se mudou? – Ele perguntou, depois de um tempo. Eu estava imersa em pensamentos sobre sobreviver sem ele, e demorei um tempo para entender do que falava.
— Ah, empresa, contrato, essas coisas. Minha mãe e meu pai fazem consultoria ambiental, e decidiram aumentar um pouco os horizontes.
— Não sente falta de lá?
— Não.
— Nem amigos, nem nada? –Questionou, se voltando para mim. Pensei um pouco antes de responder.
— Não. Eu gosto daqui. Gosto das pessoas, gosto dos Lugares. E você?
Durante as minhas pesquisas, eu havia descoberto que nós dois já havíamos tido parte da nossa história no mesmo Lugar. A diferença é que, enquanto eu tinha me mudado há alguns meses, ele havia se mudado faz anos.
— Sinto falta da temperatura. Do frio. E das gírias. Tipo “Guapo”.
— “Guapo”? – Perguntei.
— Não se fala assim?
— Eu nunca ouvi isso antes. – E comecei a rir, repetindo a palavra como uma criança. – Guapo.
— Minha ex-namorada falava isso. – Ele deu de ombros.
Então, eu senti como se alguém colocasse uma pedra de gelo sobre o meu coração, e parei de balançar os pés. Eu sei, “ex” significa que não deu certo, e que supostamente ambos os envolvidos seguiram em frente, mas não era isso me incomodava, era a parte do “namorada”. Algum dia, não sabia quanto tempo atrás, alguma outra menina tinha significado o bastante para ele para merecer ser chamada de “namorada”, e isso me irritava. Me irritava muito, na verdade. Passei a odiar a pessoa sem nem saber o nome numa questão de minutos.
— Vou te chamar de Guapo. – Emendei, depois de algum tempo de silêncio quase constrangedor, mas bastante pesado, de ambas as partes. – Guapo. — Repeti.
— Tudo bem, Guapa. – Ele emendou. Sorri. Agora eu tinha um apelido mais pessoal do que Malfoy.
A partir daquele momento, o contato dele no meu celular foi alterado para “Guapo”, e daquele dia em diante eu só o chamaria pelo nome se estivesse muito brava ou preocupada.
Os dias passaram, e ele não tinha me dado um retorno sobre continuar ou não na escola. E eu tinha muito medo de perguntar. Tinha medo da resposta. Tinha medo de perder aquele homem e aquela rotina. E aquele sorriso, e aqueles olhos, e aquela risada perfeita.
E então chegou o dia.
Cheguei à escola de cabeça baixa, e com a sensação de que poderia desabar a qualquer momento. Passei o que acreditava ser meu último intervalo ao lado dele de cabeça baixa e completamente sem ânimo para fingir que a partida dele não me afetava tanto quanto estava me afetando. Eu só queria deitar na minha cama e chorar.
— Vou passar nas salas pra me despedir, depois do recreio. – Ele disse. Concordei com a cabeça, amuada. Ambos parecíamos derrotados pela vida. Era como acordar de um sonho intenso e lindo com um balde de água congelante.
Fiquei o máximo possível ao lado dele e, quando não havia mais nenhum aluno no pátio, arrastei meu corpo até minha sala e o joguei na cadeira, enquanto me escorava completamente na parede e copiava ser perceber as tarefas do quadro. Quando ele entrou na sala, uma meia hora depois, eu só sentia vontade de chorar.
O encarava sem saber como reagir, e pedindo ajuda. Como na primeira vez que o vi. Mais uma vez, queria que ele me resgatasse. Não queria me afogar, mas já tinha certeza de que aconteceria.
Fitei aqueles olhos castanhos, até que ele se voltou para o resto da sala, com uma prancheta na mão, mudando o peso do corpo de um pé para o outro.
— Então, turma. – Ele começou. Apoiei o rosto em uma das mãos, e deixei meu cabelo esconder tudo que eu sabia que aconteceria. – Eu sei que vocês sabem que estava confirmada a minha saída da escola esse mês. Desde o começo desse ano vocês sabem disso, que outubro era o meu último mês. Fizeram bastante piadinhas desagradáveis sobre isso também, que eu não quero lembrar agora. Então, hoje é o meu último dia, e eu decidi passar de sala em sala para me despedir.
Ouviu-se uma onda de resmungos na sala, enquanto eu já podia ver a cortina de água salgada se formando em meus olhos. Pisquei algumas vezes. Uma lágrima caiu, tão sozinha quanto eu já me sentia.
— Bem, eu, ah... – E ele respirou fundo. Todas as minhas estrelas pararam, e eu acho que também esqueci como se respirava. De repente, todo o universo estava em silêncio. Um silêncio vazio e sem vida. – Eu decidi ficar.
Aquelas palavras atravessaram todo o torpor do meu cérebro semimorto e me atingiram em cheio. Uma faísca se acendeu de novo, e levantei o rosto. Precisava ver em seus olhos que era verdade. Pelos milésimos de segundo em que eu pude ver, antes que alguns dos meus colegas se levantassem para falar com ele, senti que era verdade. Era praticamente um milagre, mas tinha acontecido.
E naquele momento, tudo que eu queria fazer era o abraçar e chorar de alívio. Não podia, mas queria.
Continuei de cabeça baixa, sorrindo, protegida pelo meu próprio cabelo. Rabiscando aspirais pela folha do caderno. Quando ele foi embora, me permiti voltar a atitude normal. Ou quase.
— Professora? – Chamei. Ela se voltou para mim, o caderno na mão e o suéter cheio de giz. – Posso ir ao banheiro?
Assim que ela concordou, me levantei, tentando não correr. Contando os segundos entre os passos, andei até a saída. Tentava ao máximo não parecer ansiosa ou feliz. Ou em completo e total êxtase. Quando fechei a porta de madeira azul atrás de mim, o vi andando pelo corredor em direção à outra sala.
— Guapo! — Ouvi minha voz ricocheteando pelas paredes do corredor, enquanto andava em direção a ele. Quando ele se virou, o abracei.
E quando senti seus braços em volta de mim, tive certeza de que tudo daria certo no mundo.
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