Tivemos um final de semana nebuloso, eu o Marco. Não sabíamos se era nosso último juntos ou quanto tempo ainda teríamos, e as lágrimas desciam sem que eu pudesse controlar nos momentos mais aleatórios.

À noite, nos deitamos na grama e ficamos olhando o céu. Com um dos braços sob a minha cabeça e uma das mãos segurando a minha, ele me prometeu que tudo, de algum jeito, ficaria bem. E eu me senti abraçada e confortada pela sensação de que ele estava certo, e fechei os olhos, tentando me fixar no presente.

Uma ou duas horas antes de voltarmos para a casa da minha sogra, o telefone tocou. Eu vi meu sogro atender, olhar para mim e – para a minha surpresa – conversar com a minha mãe.

— Achei que fossemos passar o carnaval na praia, mas a sua mãe acabou de me pedir pra te levar para o aeroporto amanhã. – Ele me disse, largando o celular na mesa, depois de desligar.

— Eu não sabia disso. – Murmurei, tentando manter a voz calma e o semblante sereno. – Posso falar com ela?

— Claro. – Ele disse, me estendendo o celular. – Qualquer coisa, chama. – E saiu, me dando privacidade. Andei até o quarto de hóspedes, que era onde eu e o Marco estávamos dormindo, e fechei a porta. Disquei o número da minha mãe rapidamente.

— Alô? – Ela respondeu.

— Eu não vou a Lugar nenhum. – Disparei.

— Vai sim. Eu vou comprar sua passagem, e você vai entrar naquele avião.

— Tu não tem como me obrigar. Não tem como obrigar ninguém a me fazer entrar naquele avião.

— Tenho sim, eu sou tua mãe.

— Infelizmente né. – Sibilei. – Se eu sair pela rua agora, tu não tem como me encontrar.

— Mas eu posso te dar como desaparecida, e colocar a polícia atrás de ti.

— Sabe que não pode, eu não estou desaparecida. Um monte de gente sabe onde eu estou.

— Mas eu não sei. – Ela respondeu, provocando.

— Então tá mãe, faz o que quiser. Coloca anúncios, liga para polícia, só não espere que eles me encontrem.

— Vão te encontrar. – Ela disse. – E quando tu voltar, vou te internar numa clínica psiquiátrica, sem comunicação.

Senti a minha voz sumir diante daquela frase, e as lágrimas começarem a cair dos meus olhos como água corrente.

— Interna! Eu devo ter problemas mesmo, então interna!

— Vou mesmo! – Ela concordou do outro lado da linha.

— E quando perguntarem onde eu estou, tu pode contar para quem quiser sobre a mãe maravilhosa que tu é e que internou a própria filha numa clínica só por que não sabe lidar com.

— O que tu quer de mim? – Ela perguntou, exasperada e com raiva. Eu nunca tinha visto minha mãe com raiva.

— Quero ser emancipada. – Disse. Ouvi o silêncio do outro lado da linha. – Quero viver a minha vida, as minhas escolhas e as minhas consequências.

— Se tu passar seis meses internada, eu te emancipo. – Disse.

— Fechado. – Respondi. – Eu não acredito que tu tenha coragem de fazer isso comigo. – Murmurei, esperando. Não houve resposta, e eu percebi que ela tinha.

Marco entrou no quarto no segundo em que retomamos a discussão e, sem aviso, retirou o telefone das minhas mãos.

— Oi Dona Elisa, é o Marco, a senhora pode esperar um pouquinho? – Ele disse, antes de abaixar o telefone e se virar para mim. – O que aconteceu?

— Ela quer me internar numa clínica psiquiátrica. – Murmurei, e percebi que era uma coisa que eu teria que explicar depois. – Ela quer que eu vá embora amanhã.

Ele assentiu, pegou o telefone e teve uma conversa em um tom bastante diplomática com ela, o que me fez rir. Ele mantinha o rosto sério durante todo o tempo. Quando desligou o telefone, me disse que talvez eu não fosse mais embora amanhã, e que ela iria pensar no assunto.

Entrei no carro, sem saber no que pensar ou fazer. E sem saber o que esperar também.