Crônicas de um samurai desempregado
5 Pesadelos com o passado são uma série que ninguém gosta de rever
— Então você também lutou na guerra, Gintoki... Estou certa?
Otose percebeu uma sombra pairar por sobre os olhos rubros de seu funcionário. Sem querer, havia colocado o dedo em uma ferida que mal começara a cicatrizar e o silêncio desconfortável do jovem aparentemente respondia à sua pergunta.
— Se não quiser falar a respeito, não tem problema. – ela disse enquanto separava alguns chumaços de algodão. – Meu falecido marido também lutou nessa guerra, mas no início. Acredito que, nessa época, se muito, você mal teria saído das fraldas... Isso, se você já tivesse nascido.
Interrompeu-se e o encarou para questionar:
― O que está esperando? Isso é pra você tratar seus ferimentos no corpo.
― Já sei. – ele resmungou. – Óbvio que são no meu corpo. Onde mais acha que eu estaria ferido, velha?
― Onde todo sobrevivente de guerra tem ferimentos e cicatrizes... Na alma. Enquanto essa guerra se desenrolou, vi muitos sobreviventes vindo ao meu bar. Feridos por espadas, por tiros, por perdas. – o olhar da viúva se tornou distante por alguns instantes enquanto Gintoki abria a camisa preta danificada para poder começar a limpar aqueles cortes que recebera. – Atender clientes no bar me fez perceber que tipos de histórias eles carregam consigo. Todos nós perdemos algo ou alguém nesse período.
Gintoki aplicava uma pomada nos ferimentos já limpos quando respondeu sem pensar muito, enquanto fazia uma careta de dor:
― E uma parte de nós não perde apenas algo ou alguém, perde tudo e todos.
Otose não se chocou com a afirmativa do albino. Ele estava certo, havia pessoas que perderam absolutamente tudo... Tal como ele. Ela sabia disso, bastava se lembrar das condições em que o encontrara no cemitério naquele dia. O jovem alto e magro que quase sucumbira ao frio e à fome era alguém que possuía cicatrizes pelo corpo, certamente das batalhas em que tomara parte. Mas também possuía cicatrizes em sua alma. Todo sobrevivente como ele as tinha, por mais que tentasse ocultá-las.
― Nem tudo, Gintoki... – Otose disse com suavidade misturada à complacência enquanto apagava a bituca de seu cigarro em um cinzeiro. – Pensamos que perdemos tudo e todos, mas você não perdeu a vontade de viver. Caso contrário, não me pediria por aqueles manjus.
A velha estava certa. Apesar de tudo, ele ainda queria continuar vivo, mesmo achando que morreria no cemitério com fome e frio. Terminou de enfaixar os ferimentos e voltou a vestir a camisa preta e o quimono branco pela metade, enquanto sorria e dava razão à viúva.
Ela era observadora. Parecia uma estudiosa do comportamento humano através do simples ato de atender e conversar com seus clientes. E pelo jeito eram anos entendendo, mesmo que superficialmente, como funcionava a mente humana tanto sóbria quanto bêbada. Seus pensamentos e deduções a respeito de Otose foram interrompidos ao ouvi-la colocar sobre o balcão uma garrafa de saquê e dois copos próprios para tomar a bebida.
― Não há mais nada para a gente fazer por agora. – ela despejou um pouco de saquê em um dos copos e ofereceu a Gintoki. – Parece que vamos ter que deixar o bar fechado este fim de semana até que os estragos sejam consertados.
― Eles pagaram o prejuízo, não? – o albino questionou enquanto olhava para a bagunça na qual ficara o bar, com mesas e cadeiras fora do lugar, além de quebradas e danificadas. – Dá pra consertar.
― Sim, dá. Mas até que se encontre alguém para fazer os reparos, não vai dar pra abrir até pelo menos segunda ou terça-feira.
― Vai deixar de ganhar dinheiro bem nos dias mais movimentados, velha.
Otose deu de ombros.
― Não é a primeira vez que meu bar fecha por alguns dias, embora seja a primeira vez que eu tenha tomado um prejuízo desse tipo. – olhou para o jovem. – Você não bebe?
Ele não respondeu, o que fez com que ela o incentivasse.
― Este é por conta da casa, pode beber.
*
Sentia seus cabelos prateados grudando na testa suada, tanto pelo calor da batalha quanto pela tensão que percorria todo seu corpo. Tinha em sua mão direita a katana que o acompanhava desde criança e a empunhava com força, enquanto dezenas de inimigos avançavam contra ele sob um céu plúmbeo que dava um ar ainda mais macabro a um descampado cheio de cadáveres, cheirando a sangue e morte.
Conhecia perfeitamente bem aquele cheiro e sentiu que era hora de contra-atacar. Sua fúria sanguinária o impeliu a soltar um poderoso berro selvagem, anunciando que o Demônio Branco iria novamente fazer o aço de sua espada retalhar mais e mais oponentes, bebendo novas quantidades de sangue. Não demorou para que ele, como uma besta enfurecida, tingisse suas roupas brancas com o vermelho do sangue que derramava dos inimigos a cada golpe.
Um a um, via companheiros serem abatidos. Companheiros com os quais convivera tempo suficiente para sentir que talvez entrar naquela guerra tivesse sido uma péssima ideia. Mesmo assim, não permitiria que o sacrifício deles fossem em vão... Nem que ele fosse o último homem em pé.
Entretanto, a guerra já estava perdida. Aquele cenário grotesco de corpos sem vida, alguns até mutilados, lhe passava essa mensagem.
Ele iria morrer. O Shiroyasha iria morrer ali mesmo, cercado por mais alienígenas invasores.
Gintoki abriu os olhos e percebeu que ainda estava escuro, o que indicava que ainda era madrugada. Olhou para o despertador em forma de justaway – que adquirira com parte do dinheiro que sobrara de comprar roupas – marcar três horas da manhã, o que o fez chegar à conclusão de que dormira apenas por pouco mais de uma hora e meia...
... O que não era novidade alguma.
Na verdade, Gintoki já estranhava ter tido duas noites seguidas de sono tranquilo, era-lhe bastante atípico. Os pesadelos com o seu passado eram bem rotineiros quando tinha algum lugar para dormir e convivia com eles desde a sua infância. Lembrava-se de que, mesmo quando era menino, tinha pesadelos com cadáveres abandonados em campos de batalha, aos quais saqueava para sobreviver.
Desde que se entendia por gente, sempre tivera que sobreviver. Em pouco mais de duas décadas de vida, colecionava feridas e cicatrizes físicas e psicológicas. Várias dessas feridas se recusavam a se fechar com os pesadelos em que revivia fragmentos de seu passado. E esses fragmentos atormentavam seu sono como se fossem episódios de uma série que era reprisada ininterrupta e diariamente pela TV.
Suas noites de sono, em boa parte das vezes, eram interrompidas pelo clamor de espadas, cadáveres ao chão, sangue manchando suas roupas brancas e cheiro de morte por todos os lados em um maldito campo de batalha, enfrentando miríades de inimigos. Ora sonhava consigo mesmo ainda criança desembainhando uma velha katana cega com quase sua altura para matar quem lhe oferecesse perigo em meio a cadáveres saqueados por ele, enquanto corvos o rodeavam, ora sonhava consigo mesmo já maior, entrando em uma guerra para salvar quem o salvara antes, desembainhando uma katana afiada que era capaz de retalhar um grande número de inimigos à medida que desse vazão à sua fúria bestial.
Às vezes, Gintoki se perguntava por que ainda estava vivo. Poderia ter morrido ainda garoto, quando andava sozinho em busca de comida. Poderia ter sido morto nas batalhas nas quais lutou durante a guerra. Poderia até ter se matado quando estava no fundo do mais profundo poço, e mais um pouco poderia ter morrido de frio e inanição dias atrás, se não fosse o encontro com a velha do andar de baixo.
O destino parecia não querer que ele morresse tão precocemente. E ele não queria de fato morrer, tanto que se agarrou com tenacidade àquele último fio de esperança para continuar sobrevivendo.
Talvez seu destino fosse realmente proteger a velha Otose, por isso fora até aquele cemitério.
Foi inevitável se lembrar da viúva e da última confusão no bar, rendendo prejuízos maiores e a suspensão do funcionamento por pelo menos quatro dias. Por alguma razão, não achava justo que ela passasse por mais aquele perrengue, e isso não era só por um eventual atraso no recebimento da outra metade do seu salário.
Levantou-se do futon em que estava deitado, pois sabia que uma vez acordado por conta daquele pesadelo, dificilmente voltaria a dormir. Às vezes, quando tentava fazê-lo, o pesadelo tinha continuação e o passado voltava a assombrá-lo. Jogou o cobertor sobre si e nele embrulhou seu corpo vestido com o pijama verde-claro novo e mais confortável.
Bocejou de uma forma que sua mandíbula parecia querer se soltar do lugar e sentiu seus ferimentos recentes latejarem, apesar dos curativos. Já estava acostumado às dores latejantes de seus ferimentos durante a vida, mas não significava que havia deixado de as sentir. Esfregou seus olhos enquanto caminhava até a porta corrediça principal. Ao abri-la, sentiu uma leve brisa gelada típica de uma madrugada de inverno em seu rosto.
Ainda nevava, deixando várias áreas brancas pela rua que ele avistava da varanda enquanto se debruçava na balaustrada e se embrulhava no cobertor. Era uma visão bem diferente da que tinha até dias atrás, em que ele, nas ruas, olhava para as construções e pensava como seria bom voltar a ter um teto sob o qual se abrigar. Seus olhos rubros acompanharam um mendigo que caminhava tropegamente enquanto devorava o que parecia um pedaço de pão velho provavelmente encontrado em uma lata de lixo. O movimento daquela rua de chão batido não era muito, embora fosse fim de semana e os bares e cabarés estivessem abertos, pois o frio espantava parte da clientela em potencial.
Quando começaram as rajadas mais frias de vento, Gintoki voltou para dentro e sentiu seus olhos pesarem enquanto se sentava no sofá. Brigava com o sono, pois embora sentisse que não havia descansado o suficiente de tudo o que ocorrera, não queria voltar a ter pesadelos, principalmente se continuassem o último.
Ele sabia o roteiro que seguiria. Seu subconsciente fazia questão de obrigá-lo a decorar todas as cenas. Ele se lembraria de ter sido capturado pelo inimigo junto com seus amigos remanescentes e da decisão terrível que tivera que tomar. Lembrava-se de todas as cenas e todas as falas como um otaku saberia de cor tudo referente ao seu anime favorito, e revivia cada momento com as mesmas emoções baseadas na raiva, no sofrimento, na dor e na perda... Principalmente na dor e na perda.
Queria que a sua cabeça parasse de trabalhar tanto enquanto dormia. Era pedir demais para dormir em paz sem ser assombrado constantemente pelo passado?
Seria pedir demais para que seu cérebro parasse de fabricar pesadelos?
Seria pedir demais para que seu coração parasse de sofrer e sangrar tanto pelas perdas passadas?
Ainda sentado e com o cobertor o embrulhando, o albino pôs os pés sobre o sofá de madeira com estofamento simples na cor azul e abraçou os joelhos, como se buscasse se proteger dos fantasmas de seu passado. Sozinho, era o único jeito de tentar lidar com aquele momento em que se sentia mais vulnerável e desamparado.
Vencido pelo sono e pelo cansaço, Gintoki por fim dormiu abraçado a si mesmo. Pelo menos desta vez não houve continuação de seu pesadelo e pôde ter um sono sem sonhos.
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