Crônicas de tempo livre
1 Telefone
Notas iniciais
O homem do apartamento 1004 chega a casa, exausto, vindo da sala 55 Bloco F, setor de Finanças.
Percorre a sala, o ambiente vazio depois do divórcio, dirigindo-se ao uísque para aquele que seria o seu último copo.
Veste-se bem: terno e gravata, como todos os dias. Contudo, desta vez, coloca na lapela uma flor de plástico, que até então enfeitava a mesa de jantar num arranjo ordinário.
Mais alguns minutos e está na sacada, de pé, equilibrado na pequena mureta de onde, com algum esforço, retirara a grade de proteção.
Inicia-se, então, o seu momento de glória: Como que pela magia de algum ser fantasioso, tudo ao seu redor torna-se belo, suave, límpido, claro... A paisagem antes exaustiva transmuta-se em inédito espetáculo, pintado por mãos divinas somente para o seu deleite. Diferentemente da fumaça habitual, o vento da noite passa a trazer-lhe novos e deliciosos odores, acariciando-lhe a face sob o céu mais estrelado que já existira em todo o universo. As mais afáveis visões de sua estrada até ali saltam aos seus olhos como num filme francês, delicadamente saboreadas, lembrando-o de que já estava à um passo da redenção que tanto lhe aprazia...
Toca o Telefone.
Maldito dispositivo da modernidade, inimigo da poesia e da inspiração, como tantos outros.
Já que perdera seu momento, entretanto, talvez fosse bom atender antes de prosseguir.
— Boa noite, senhor. Sou Marineusa, do Novo Banco. Com quem eu falo?
A voz feminina soando do outro lado da linha o lembrou do motivo de estar ali, na sacada, há poucos segundos.
— Alô? Com quem eu falo, senhor?
Sempre fora o chefe de departamento, setor de Finanças, sala 55, Bloco F, mas ela queria um nome.
Ora, um nome? Vejam só... Mas ele tinha um.
— Carlos Mendonça.
— Boa noite, Senhor Mendonça. O Senhor teria alguns momentos para ouvir nossas ofertas? É bem rápido e garanto que o senhor vai gostar.
Gostar?
A palavra chegava a soar estranha.
Do que gostava?
Há algum tempo havia esquecido.
Já ouvir o agradava, contudo a mulher disse que nunca fora bom ouvinte. Melhor, a ex-mulher.
— Senhor Mendonça, o senhor está aí?
E se não estivesse? Nem notariam, decerto.
No entanto, estava. Teve de admitir.
— Sim
— Então, senhor Mendonça, o senhor conhece o nosso programa de crédito amigo? Com ele o senhor poderá resolver todos os seus problemas.
Resolver? Todos? Problemas financeiros, talvez, mas todos? Como poderia? Que milagre conteria esse plano?
Todavia, quais eram seus problemas, afinal? Financeiros não, mas solidão... Talvez vazio.
Contudo, tinha amigos. Se lembrariam dele depois de tudo?
— Alô, senhor Mendonça?
— Oi
— Como disse, o senhor também pode, através do nosso plano, adquirir um cartão de crédito maravilhoso. O senhor prefere plano comum ou família?
Família? Que família? Estava sozinho agora, não?
Pensando bem, ainda tinha os filhos.
O rapaz não gostava muito dele, mas o caçula o amava... Ele sabia.
— Família
— Certo. Com ele o senhor pode...
Já não ouvia.
Apenas via os filhos, os amigos, o nome do qual, incrivelmente, não se esquecera... Toda a cena em seu apartamento desaparecia.
Marineusa era agora só palavras dispersas.
O copo de uísque, o telefone, a sacada, tudo se dissolvia em um sorriso infantil. Talvez pudesse até conquistar o amor do filho! Talvez pudesse aproveitar o dinheiro da gorda poupança e investir na sonhada carreira de professor. Talvez pudesse...
— Então, Senhor Mendonça, o senhor aceita as condições?
— Aceito.
Ele estava pronto.
Aceitaria qualquer coisa.
Quando desligasse o Telefone, arrancaria a placa do apartamento e jogaria da sacada o crachá e o terno.
Abdicaria não de si, de seus filhos, de seu uísque, de Marineusa, mas sim do velho "homem do apartamento 1004, sala 55, Bloco F".
Sim, ele aceitava.
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