Crônicas de Um Cadáver
8 O Amor não Morre
Entrei no banheiro. Eu não precisava realmente usá-lo. Só queria um pouco de privacidade. Fiquei me encarando no espelho, as mãos apoiadas na pia. Percebi que a tinta começava a sair e agora sem lentes percebia como os meus olhos estavam desbotados, como os de um morto. Como eu esperava que uma mulher como Mona se interessasse por mim? E ainda mais com nosso passado turbulento no colégio. Eu fui um dos garotos mais populares e ela era um alvo fácil para as minhas brincadeiras. Mas eu estava errado! Eu não estava apaixonado por ela, era só uma pequena confusão, afinal passei o dia todo fingindo ser seu namorado.
Agora no quarto, já deitado e olhando para o vazio tentava afastar Mona dos meus pensamentos, mas não conseguia. E nem precisava porque alguém batia à porta, e era ela.Parada em frente à porta não consegui compreender o que ela queria, convidei-a a entrar. ela sentou-se na cama ao meu lado, nossos rostos estavam muito próximos...E eu a beijei. Foi uma sensação maravilhosa tê-la em meus braços, eu apertei seu corpo contra o meu e calmamente desci meus lábios pelo seu corpo. Como ela havia ficado nua eu não sabia, só queria estar ali com ela. Ela não conseguia esconder seu prazer, repetia meu nome baixinho:- Dimitri...- Dimitri...Eu nunca amei tanto uma mulher como a amava naquele momento...- Dimitri!Eu acordei suando frio. Tudo não havia passado de um sonho, e a verdadeira Mona estava praticamente esmurrando a porta, mas de uma forma silenciosa para não acordar os pais.- Entra logo vai! — Sussurrei da forma mais enérgica possível abrindo a porta para recebe-la. — O que é que você quer? — Eu procurava não encara-la.- Esqueci de te pintar ontem à noite! — disse. Eu olhei o relógio que marcava quatro horas. — Eu sei que está muito cedo, mas se não fizermos agora não vai dar tempo de secar!- Está certo, fazer o que. Mas só o rosto e as mão tá? o resto não precisa. — Eu não queria que ela pintasse meu corpo todo por motivos óbvios.- E os braços, vai parecer muito estranho se resolver usar uma camiseta! — Ela me encarava como se eu estivesse doente. — Dimitri, você está se sentindo bem?- Estou ótimo, só um pouco cansado, nada demais. — Respondi pouco à vontade. — Agora vamos logo com isso!O resto da semana se passou bem mais tranquila. Eu tinha a desculpa do \"trabalho\" para poder passar o dia longe de casa e dos pais de Mona. A verdade é que eu ia apenas perambular pela cidade sem ter realmente o que fazer. Desejava que a Morte aparecesse logo com alguma notícia. Eu evitava passar por onde Mona trabalhava, não queria acordar aquele desejo.Fazia um frio intenso na quarta-feira, eu passava por uma praça quando uma mulher sentada num banco me chamou a atenção. Ela tinha longos cabelos negros e olhos verdes. Sentei-me ao seu lado:- Trago boas e más notícias — Ela ia me dizendo. — Qual você quer ouvir primeiro?- Me dê as boas. — respondi- Descobri um meio de matar os cadáveres, de vez. Me responda uma coisa Dimitri, você perdeu um dedo depois que morreu. O que aconteceu com ele depois que se separou do seu corpo? — Eu já sabia onde ela queria chegar mesmo antes de responder.- Ele ele se decompôs, quero dizer, ele não se regenerou e grudou de volta no meu corpo. — Eu olhava para a minha mão esquerda, onde antes havia meu dedo mínimo.- E sabe o que isso significa? que quando separados do corpo as partes dos cadáveres deixam de viver! — ela disse como quem conclui um grande mistério. — Então iniciei minhas experiências e descobri que não adianta decepar os membros, é preciso cortar o mal pela raiz. — Um sorriso perverso se espalhava por seu rosto. — É preciso decaptar os mortos-vivos.- Certo...então pode fazer. — disse levantando do banco e andando em círculos, de tanta ansiedade — Pode arrancar minha cabeça, eu não aguento mais! — a verdade é que eu não queria ir, mas queria me livrar de Mona a qualquer custo.- Calma querido, a coisa não é tão simples assim e agora te trago as más noticias! — A morte parecia se divertir com minha situação lastimável. — Quanto mais mortos eu levo, mais acordam de seu descanso e todos eles na mesma condição que já lhe descrevi! — E como continuei intrigado ela prosseguiu — Você, Dimitri é o elo perdido entre os mortos que estão acordando e quem está por trás disso! Você é o único que tem consciência e pensa de forma racional! Se tivesse que apostar diria até que foi uma experiência que deu errado. E eu também aposto que quem quer que esteja por trás disso adoraria se livrar de você! Agora eu tenho que ir, passei aqui apenas para lhe deixar a par da situação. — Ela se levantava e já começava a caminhar na direção oposta à que eu ia.- Certo, obrigado por me avisar. — Respondi no mesmo tom de desânimo à que eu me referia à tudo nos últimos dias.- Ah, e Dimitri! — Ela me chamou já a uma certa distancia. — Não deixe que os desejos o consumam! — E atravessou a rua.Eu fiquei me perguntando se ela sabia sobre a minha repentina paixão, ou se referia-se à minha atitude quando contou-me sobre o método de matar os cadáveres. Mas ela estava certa em ambos os casos. Não podia deixar que um simples desejo me arruinasse. Eu iria realizá-lo a qualquer custo.
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