Crônicas de Overly Fills

4 A Lenda Urbana de Jugular — Parte III


10 de Julho de 1872

Um segredo. É a primeira vez que me peguei sentindo tal tipo de sensação. Não vou perguntar se quem lê isso já sabe de tal coisa, visto que é muito rara acontecer. Imagine uma situação em que você fala para uma pessoa algo que mais tarde decide ter mantido em segredo. Estou remoendo-me ao dizer a Robson que tudo deu certo, e sábado agora podemos ir. Não sei porquê, mas algo me diz que não deveria ter o dito.

E ademais, o prefeito vem até mim, hoje, perguntar se estou omitindo informações nos relatórios da área rural. De fato, estou; mas não respondi isso a ele. Ele sabe que tenho um carinho com o pessoal de lá e que possuo um amigo querido meu que também me relata do que se passa na floresta. Em suma, acho que não é a melhor hora pra se dizer sobre esse novo animal.

11 de Julho de 1872

Estou pegando este bloco de notas tarde da noite só para transcrever algumas ideias que rondam à minha cabeça agora. Ultimamente não tenho saído com a Anne, e cogito levá-la comigo neste sábado. Mas será que posso? Digo, será que, ela, se interessará? Ou pior, como vamos fazer algo diferente, caçaremos uma coisa diferente, é seguro? Estou pensando em ligar para ela amanhã quando voltar do trabalho. Ao menos já terei feito minha decisão.

12 de Julho de 1872

Robson diz-me que não poderia ir este sábado, pois precisa resolver algumas problemas familiares. Eu lhe disse que está tudo bem, obviamente, sem problema nenhum. Pra falar a verdade, não fará muita falta.

Tentei ligar pra Anne, mas ela não atende. Bom, não posso ligar amanhã e avisar em cima da hora, então só espero que esteja tudo bem.

14 de Julho de 1872

É hoje o dia. Vou me aprontar com meus aparatos e o que mais precisar pra garantir minha segurança e registrar o evento. Câmera, bloco de notas, uma roupa qualquer pra que seja suja sem escrúpulos, e talvez, uma faca de cozinha.

No fim, fui a só. Cheguei à casa de John e ele estava tão preparado quanto a mim, empunhando a escopeta e censurando o pequeno Roger de ir junto conosco. Emília, como de costume, nos desejou boa sorte e pra tomarmos cuidado lá. Mas tais desejos foram desperdiçados. Não encontramos nada lá. Não sei quanto tempo ficamos vagando e andando na floresta, mas creio que nos afastamos a bastante metros da entrada, embora não tínhamos avistados nada fora do normal.

Teria o vizinho mentido? Mais um criador de histórias como o pequeno Roger. Eu estava com isso na minha cabeça até olhar direito para o chão. Agora entendo como o povo do campo consegue sobreviver com tantos habitantes e poucos animais.

15 de Julho de 1872

John estava completamente tomado pelo espírito de caçador. Queria a criatura a todo custo, e além disso, queria que eu testemunhasse a sua morte. Fomos novamente este domingo, e desta vez o pequeno Roger veio conosco.

“Não, você vai ficar aqui e pronto e acabou. Quer morrer moleque?!” é o que lembro de John ter falado ao filho.

Infelizmente eu me intrometi no sermão e disse pra levar o garoto; eu cuidaria dele. Já que não encontramos nada no sábado, bem capaz de não encontrarmos nada hoje também; e foi o que aconteceu. Andando sobre as altas raízes das árvore, o pequeno Roger apontava para os corpos mortos enquanto me dava as mãos. Eu apenas acenava e concordava com o que quer que saísse da sua boca. Não tinha ímpeto pra conversar com uma criança, sobretudo num ambiente ambiguamente hostil como Tibaland.

Não tardou para voltarmos de mãos vazias, e o desânimo logo bater a porta.

17 de Julho de 1872

Passei ontem a maior parte do dia não querendo me esbarrar com o Robson. O maldito parecia estar me procurando, ou melhor, caçando-me como se eu fosse a tal criatura. Pelo menos o prefeito cessou suas queixas. Do que estava havendo por aqui, presumo que ele resolveu seus problemas e agora quer a todo custo ver a criatura, nem que alguém morra no processo.

Amanhã direi a ele sem guardar segredo: “O vizinho mentiu. A criatura não existe, fomos sábado e domingo e nada encontramos.”

21 de Julho de 1872

Falhei no meu convencimento. Ele veio e parece que sou o único desanimado. Talvez, um eu meu bem profundo está com sede de encontrar essa criatura; mas por mim não fará nenhuma diferença em nossas vidas, exceto o Roger, claro. Falando nisso, hoje eu vou levar o Roger novamente, agora que tem três de nós, não haverá problema algum.

***

Temos que sair daqui. Quem estiver lendo isso, saia de Overly Fills agora! Aqui não é seguro- tudo deu errado. Meu deus, o que eu fiz... Eu não sei, não sei, eu simplesmente... As pessoas não podem saber daquilo, seria um caos.

O Roger, pobre Roger... a culpa é minha, fui eu quem o levei até lá. Meu deus, eu quero lavar esse pecado de alguma forma, mas não consigo pensar em nenhum castigo que equivale à gravidade do pecado que fiz; nem se me matassem. Por sorte Robson estava lá, senão, acredito que não seria três a voltarem vivos...

22 de Julho de 1872

Não posso deixar isso passar em branco, não, não posso! Pois bem, acredito que isso será útil para quem ler este documento daqui alguns anos que, espero muito eu, não me encontre mais aqui. Pra onde irei? Mais à frente penso nisso, agora tentarei tomar meu espírito cronista e narrar o que aconteceu...

Assim como domingo passado, John e eu fomos até Tibaland, com Roger me dando as mãos e falando as suas criancices. Provavelmente eram por volta de 16:00 quando entramos. Sem esquecer que Robson estava conosco, levando sua câmera para fotografar o demônio. Agora que relembro, Robson mal conseguia levar a câmera em mãos por causa dos ramos baixos e as altas raízes das árvores de Tibaland. Eu fiquei junto com Roger no meio entre John e Robson. Mas depois de algumas horas o John foi na frente até não podermos vermos mais as suas costas. E lá ficou só eu, Roger e Robson.

“Não acha melhor ficarmos aqui esperando ela aparecer?”, Robson falou ao terminar de preparar a câmera.

Eu disse que era uma má ideia, mas não tínhamos escolha. De mais a mais, se John voltasse era porque foi vitorioso. Marcamos de sair dali pela madrugada de domingo, digo, Robson marcou. Não abri a boca pois Roger parecia estar em concordância com ele. Ficamos tão quietos que poderíamos ser confundidos com caules de plantas. Neste momento já não dava mais pra enxergar a luminária de John. E se houve algum disparo, também estava inaudível.

Não me recordo de quanto tempo se passou enquanto ficamos ali, mas foi o suficiente para entrarmos em tédio e fazer tentativas de puxar um assunto pra espantar o silêncio.

“Tomara que ela apareça, e o John também. Estou dependendo dele.”

“Sim, mas se ele não voltar, bem... é melhor sairmos rápido daqui.”

“Tem razão. Ruim que vai ser difícil desmontar essa coisinha aqui.”

Enquanto me puxava pela manga da roupa, o pequeno Roger apontou, mais uma vez, para um corpo morto no chão.

“Ah! Ótimo! Agora temos algo pra comer”, falei enquanto pegava o pé já quase inválido.

Tiramos-lhe os ossos e comemos a parte que só nos importa: a pele e a carne. Não obstante, ainda tinha as unhazinhas quebradiças mas boas para se comer. Dei ao Roger, e eu e Robson ficamos com a parte maior. Não, dividimos um pouco mais com o Roger, enfim. Só agora percebo que aquilo indicava que a criatura estava por perto.

Ouvimos um som rouco vindo de longe. E o som foi se aproximando, tornando-se em murmúrios. Era a criatura. E o que mais me espantou em toda a situação, foi como ela era exatamente a criatura na história que Roger nos contou. Rapidamente e desesperados nos levantamos dali e tentamos correr; em vão. Robson conseguiu se desajeitar com aquela maldita câmera, e o Roger... no caos da situação o pobre Roger tropeçou numa das raízes o que fez com que seu corpo se desconstruísse. Seus restos ficaram espalhados pelo chão e não havia tempo de catarmos tudo; a criatura se aproximava. A maldita conseguiu pegar o úmero, a clavícula e todos seus ossos vitais para a reconstrução. Não havia esperança para o garoto.

Pensei assim até ouvir os disparos da escopeta vindo de longe; era o John. Ele atirava e dava dois, atirava e mais dois passos. A cada passo a potência com que as balas acertavam a criatura era maior, e consequentemente causando mais dano. Mas aparentemente não era o bastante para abater aquele demônio. E a criatura continuou pegando os ossos do Roger, até pegar os restos do pé que estávamos comendo; tentou avançar em Robson; mas este pôs a câmera na frente e conseguiu paralisar o ataque, perdendo a câmera. Bem, nada deu tempo de ser fotografado, então devo dizer que no momento ele não está arrependido por uma realização incompleta.

John continuou disparando até que a criatura avançou nele e conseguiu pegar sua fíbula. Tentou arrastá-lo pra dentro da floresta, mas eu puxei-o de volta antes que fosse tarde. Enquanto isso Robson aproveitou o instante para fugir. Boa ação a dele, não o julgarei. Mas o que mais me preocupa é o âmago de John ao pensar na perda do filho.

Enquanto eu arrastava John para fora, tivemos a visão do demônio despedaçando raivosamente os ossos de Roger que restaram. Uma vista que incitava à fúria, para qualquer um, mas vimos que éramos impotentes perante a brutalidade daquele monstro. Sobretudo, em pensar que algo tão monstruoso vive em Tibaland; que aquilo que pode nos matar ao mesmo tempo nos protege...

Sinto que estou com um grande peso em minhas costas, e que o que vier daqui pra frente, será consequência das minhas próximas ações.

Notas finais
Enviem críticas!