Crônicas de Ghost River #Wayhaught
6 Olivia
Nedley me contou que Curtis era marido da Gus, que é dona do Shorty’s Saloon, Curtis também era o tio preferido da Waverly. Imaginei como ela deveria ter ficado arrasada com o ocorrido, até queria ir falar com ela, mas ela nem me conhecia.
No dia do enterro a cidade ficou pior ainda. Boatos que uma menina que tinha sido internada em um hospício estava de volta. Diziam que ela tinha alucinações e quando era criança matou o próprio pai. A cidade só ficava cada vez mais interessante.
Os policiais que o conheciam melhor foram ao velório e enterro na intenção de fazer também a segurança do local. Fiquei na delegacia revisando alguns casos. Descobri também que eu tinha novos acessos. Talvez eu pedisse para o Nedley acessar o arquivo do meu pai se eu não conseguisse acessar.
Fui ao Shorty’s todos os dias seguintes, Waverly não foi trabalhar. Como eles serviam café, capuccino e chocolate, eu tinha uma desculpa para ir lá sempre que eu quiser, mesmo em serviço, já que parece que a máquina da delegacia está sempre com defeito.
5 horas da manhã recebi uma mensagem. Boatos que Wynonna Earp tinha voltado para a cidade para se livrar do resto dos parentes. Não consegui voltar a dormir. A tarde recebemos a confirmação que a Gus estava no hospital, Nedley foi até lá para ver o estado que ela estava.
— Gus está bem, vai ter alta no final da semana. — Informou o Xerife ao chegar do hospital.
— Que bom! — Exclamei. — Tem mais alguém?
— O Hardy disse que a Waverly estava um pouco machucada, mas não foi tão grave quanto a Gus.
— Espera, o que a Waverly tem a ver com essa garota? — Me levantei da cadeira começando ficar preocupada.
— Waverly é irmã mais nova dela, a cidade inteira odeia a Wynonna, tenho certeza que o que aconteceu não foi ela quem fez. — Comentou como se ele estivesse falando da compra do mês e não da vida de algumas pessoas. — O detetive local já foi verificar. — Afirmou, mas pela cara que ele fez não parecia verdade.
Alguma coisa muito estranha acontecia nessa cidade, se essa Wynonna não era responsável, alguém era. Eu claramente precisava de mais informações e seria ótimo se eu as conseguisse com a Waverly.
No dia seguinte, estava indo trabalhar, Clarissa me mandou uma mensagem "Hoje você vai se apresentar para sua namoradinha e se não fizer eu vou ter uma conversinha com a Dona Clementine." Estacionei o carro próximo ao Shorty's e vi que a porta estava aberta. Waverly tinha voltado a trabalhar. Clarissa tinha um radar para ser cupido.
— Me mandaram checar se você estava inteira. — Disse da porta, enquanto ela limpava a bancada do bar. Eu estava de uniforme e claro, de chapéu. Ordens expressas da dona Clementine. — Eu sou Nicole. Oficial Haught. — Andei até ela e estendi a mão. Waverly sorriu e estendeu a mão também.
— Parece que eu estou, mas eu ainda não consegui dormir direito, então é um pouco difícil de saber. — Ela fazia um contato visual muito intimidador e era muito fácil se perder ali.
— Será que eu posso saber o que realmente aconteceu? — Coloquei o chapéu no balcão e esperei ela pensar por um momento. — Se não quiser tudo bem, quer dizer, desde que não seja caso de polícia. — Ela soltou um breve riso e voltou manter o contato visual.
— Foi uma noite longa. — Sorriu como se estivesse esgotada.
— A gente pode marcar para outro dia, que tal amanhã depois que você sair daqui? — Ela parou com a boca entreaberta, como se tivesse pega desprevenida e estivesse surpresa com o convite. Eu continuei encarando, esperando pela resposta. Ela não parecia saber se iria dizer sim ou não, mas certamente estava surpresa.
— Posso te responder depois? Preciso falar com meu namorado antes. — Claro que ela tinha que citar que tinha namorado e claro que ela entendeu minhas intenções.
— O tempo que quiser. — Peguei meu cartão e estendi para ela. Ela o segurou encostando a ponta do dedo no meu. Talvez sem querer. — Caso se meta em outra confusão, já sabe meu número. — Andei um pouco e virei para trás, ela estava me olhando, sem tentar disfarçar.
Eu tentava ser uma policial séria e respeitada, mas parece que nem sempre nossa cabeça está no local e momento correto. Foi difícil fazer qualquer relatório naquela tarde, sorriso da Waverly Earp brotava na minha frente e me tirava a concentração. Não era como se eu estivesse apaixonada ou algo do tipo, mas ela era no mínimo diferente das garotas da cidade grande.
Acabei descobrindo que a Wynonna trabalhava na delegacia, em um setor diferente, como se fosse secreto. O Detetive Xavier Dolls não repassava certos casos para o Xerife. Nedley sempre parecia saber mais do que aparentava. Como que um setor especial contratou uma delinquente e eu, primeira da turma estou como sub-xerife? Não fazia o menor sentido, a não ser que ela tivesse ameaçado alguém ali.
Waverly não entrou em contato, mas a Olívia entrou. Ela e o Chris iam fazer aniversário e estavam me convidando. Aceitei o convite. Estava prestes a sair da delegacia, Tegan me ligou para confirmar que eu ia.
"Sua avó vai fazer alguma receita com vinho, mas ela não faz ideia do que comprar"
"Pode deixar que eu levo, qual vinho você prefere, Tegan?"
Quando eu olhei para a porta, Waverly estava lá, parada. Desliguei, sem perceber.
— Seu chapéu. — O colocou em cima da bancada — Você esqueceu no bar.
— Obrigada — Me levantei — Eu já estava saindo. — Peguei a mochila e passei para o lado que ela estava da sala. Era difícil de esconder o sorriso, ela tinha ido até lá para me entregar o chapéu. Realmente ela era tudo o que o Nedley tinha dito, pelo menos sobre ser atenciosa.
— Desculpa, não quis atrapalhar. Só vim entregar mesmo. — Virou de costas e deu dois passos em direção a porta. Encostei no braço dela. Ela parecia ligeiramente nervosa, era engraçado.
— Ia perguntar se você não quer tomar um café, mas rápido. Quer dizer, não tão rápido. — Apontei para a mochila — É que eu preciso pegar estrada.
— O Champs, — fez uma pausa e uma expressão não muito contente — meu namorado, está lá embaixo me esperando, então...
— Claro. — Meu sorriso se desmanchou e ela percebeu.
— Faça uma viagem segura, -comecei a perceber que quando ela ficava nervosa ou chateada ela brincava com os dedos ou com os anéis, ela estava fazendo isso. — mas eu fico te devendo o café. — Deu um sorriso breve.
— Não vou pensar em outra coisa. — Respondi com toda a coragem. Ela fez contato visual por alguns segundos e depois foi embora.
No dia seguinte eu passei a manhã cuidando dos cavalos. A tarde, minha avó tinha feito 3 bolos diferentes, além do almoço que ela passou 5h cozinhando.
— Vó, que exagero. — A abracei e peguei um pedaço generoso de bolo.
— É como eu amo meus netos, exageradamente. -Abriu a geladeira- Isso porque você não viu o pudim. -Tirou da geladeira- Mas só se você comer tudo.
— Sabe que eu não tenho mais 10 anos, não é? — Terminei de comer o bolo e fui para meu quarto.
Aadya estava lá terminando de arrumá-lo. Reparei que ela estava com aliança no dedo.
— Pode me contar o que significa essa coisa brilhante em seu dedo? — Me encostei na parede. Aadya levou um susto, parecia distraída.
— Seu amiguinho da delegacia me chamou para sair, me pediu em namoro e até pediu permissão para sua avó. -Respondeu esticando o braço para eu ver o anel mais de perto.
— Qual "amiguinho"? -Perguntei imaginando que fosse o George, que ela tinha dormido abraçada na festa.
— O Navarro, George Navarro. — Contou, buscando minha aprovação.
— Eu imaginei que fosse ele. Ele é um ótimo rapaz. Espero que dê certo! — Sorri — Quem sabe assim você e sua família não voltam a se falar? — Joguei a mala no chão e me sentei.na cama.
— Acho difícil. -Deu de ombros, pegou o balde com água e parou no umbral da porta quando me ouviu falando.
— Difícil não é impossível e mesmo se fosse impossível, você não poderia deixar de tentar. — Me arrumei na cama. — Vou tirar um cochilo, me acorda quando forem almoçar?
A gente comeu como se estivéssemos há 5 dias passando fome. Cada prato estava incrível demais para não ser repetido. Saí com a Aadya para comprar um presente para os gêmeos, depois nos arrumamos e fomos para a festa. Eu, Aadya e o George.
A festa era numa discoteca com tema dos anos 60 e 70. Aadya e George estavam de motoqueiros, já eu passei laquê no cabelo todo, deixando a parte de cima bem alta, blusa branca colada e saia preta com bolinhas brancas. Olívia estava de Marilyn Monroe e o Chris de Elvis Presley.
— Obrigada por ter vindo. — Olívia agradeceu nos cumprimentando. -Você não precisa ficar de vela, ali na outra mesa tem gente que você conhece. -Apontou para a mesa onde estava o pai dela.
— Vou passar lá. Depois você dança comigo? -Segurei a mão dela é a fiz dar uma volta. — você está incrível.
— Eu queria vir de Audrey, mas o Chris escondeu as fantasias e as vendedoras não conseguiram achar. -puxou o Chris e deu um tapa nele no braço.
— O que eu fiz? -Perguntou passando a mão no local do tapa.
— Não me deixou vir de Audrey! -Empurrou o ombro dele.
— E esconder essas pernas? Por favor, Audrey é só franja e cigarro, não precisa comprar fantasia. — Olhou para mim — achei que você fosse vir de jaqueta de couro, que decepção, Oficial Haught.
— Não sei se você percebeu, mas nessas pernas nem todas as calças cabem. — Eles começaram a rir, exceto pelo Chris, eu era a mais alta ali.
— Dança comigo? — Chris estendeu a mão .
— Claro, mas primeiro vamos beber. — Segurei a mão dele e fomos até o bar.
— Izzy, essa é a Nicole. Nicole, essa é a Heloíse. — Estiquei a mão para a bartender- Ela é a gerente dessa pocilga. — Frisou que pocilga era ironia- Além de conseguir fechar o lugar pro aniversário, se ofereceu para trabalhar nele. Quero amiga melhor que essa? — Esticou o braço para pegar os chopps que ela havia servido para gente. — Pena que ela não curte o que eu tenho. — Arqueou a sobrancelha insinuando algo.
— Que bom, assim eu arrumo alguém para dançar por mais tempo. — Peguei o copo com uma mão e a mão dele com a outra, o arrastando para a pista.
— Eu estava tentando te ajudar, Nicole. Virou Sub-Xerife e ficou esnobe? — Perguntou enquanto dançava uma música qualquer dos anos 60.
— Deixa ela me observar, deixa eu observá-la e depois das observações a gente decide. — Terminei de beber o Chopp,
— Ah, é assim que funciona? Vou tentar também mais tarde com aquela ali. — Apontou para uma menina que eu tinha visto uma vez em alguma festa. Esperei a música acabar e voltei para o bar.
— Ei, sabe fazer algum coquetel não muito doce? — Perguntei apoiando os cotovelos no balcão.
— Claro, mas tem certeza que você quer misturar as bebidas? -Perguntou começando a fazer o que eu pedi.
— Vou ter bastante tempo para me recuperar. — Disse sorrindo um pouco.
— Bonito sorriso. — pegou a coqueteleira e começou a mexer. Fiquei com vergonha, claro, mas acho que ela não percebeu.
— Obrigada. — Me limitei a dizer. Algumas pessoas chegaram em seguida e fizeram seus pedidos.
Voltei para a pista. Chris conversava com alguns amigos, mas os dispensou quando me viu chegar. Voltamos a dançar e a beber.
— O que é isso que você pediu? — Cuspiu a bebida de volta no copo.
— Na verdade eu não sei. A Izzy fez e me entregou. — Continuei bebendo.
— Você... — deixou o copo em uma mesa e voltou a falar — Você sabe que a Olivia ainda gosta de você, né? — Fez uma pausa rápida- Ela não queria que eu falasse, mas teve três namoros fracassados nos últimos 5 anos e foi por sua causa.
— O quê? — Engasguei e parei de dançar — Eu nunca achei que ela realmente gostasse de mim a esse ponto. Claro que a gente teve nossos momentos quanto eu fiz 18 anos e depois com 19 e depois com 20... mas eu não fazia ideia.
— Parece que você sempre deixa corações por onde passa. — Sorriu por alguns segundos, apontou discretamente para Izzy me olhando e foi dançar com um grupo de pessoas.
— Agora é minha vez ou vou ter que esperar na fila? — Perguntou Heloise com dois copos de bebidas.
— Com certeza é sua vez. — Peguei o copo e bebi um pouco. Tinha um gosto estranho, mas aceitável. Olhei um pouco a volta, enquanto começava a dançar de novo, procurando pela aniversariante. Não a encontrei.
— O que você faz? Da vida. — Colocou os braços em volta do meu pescoço, ainda segurando o copo. A música que tocava era um pouco lenta.
— Sou policial. Sub-Xerife de Ghost River. — Olivia apareceu em meu campo de visão, parecia um pouco incomodada de ver dançando com Izzy, mas não fez nada a respeito, ela pareceria acostumada a esconder os sentimentos.
— Estou impressionada. — Segurou o copo vazio que estava em minha mão — Mas eu tenho que voltar a trabalhar. — Voltou para o bar. Pensei em me sentar por um instante na mesa do pai dos gêmeos. Haviam alguns policiais conhecidos por ali. Conversei por um bom tempo com todos eles, enquanto a gente bebia cerveja.
Os policiais pareciam interessados nos fatos estranhos de Purgatory, mas ao mesmo tempo eles não comentavam o que sabiam, era uma situação estranha. Do outro lado do salão, Liv parecia desanimada com a festa. Pedi licença e fui falar com ela, como eu não tinha certeza do que o Chris tinha me dito, mas acreditava que eu poderia usar aquilo como assunto.
— Aconteceu alguma coisa? Essa não é uma carinha feliz. — Me sentei ao lado dela no banco comprido de madeira.
— Eu estava namorando com um cara e ele terminou comigo há dois dias. Eu não estou triste por causa do término, mas eu queria alguém na festa que se importasse comigo de verdade, não só porque tem bebida de graça. — Fez uma pausa rápida para não chorar — Mas tudo bem e você? Já arrumou alguém em Purgatory?
— Que tal a gente conversar sobre Purgatory depois e eu ser sua acompanhante o resto da noite? — Me levantei e estendi a mão — Eu prometo que vou tentar não pisar em seu pé. — Olivia sorriu, pegou minha mão e se levantou.
Enquanto a gente dançava, alguns amigos dela pararam a nossa volta e começaram a nos encarar. A gente encarou de volta, parando de dançar. Liv tirou as mãos da minha cintura e cruzou os braços.
— O que foi? — Perguntou Olivia começando a ficar irritada.
— Vocês voltaram? Vocês não podem ter voltado. — Perguntou um rapaz que eu me lembrava vagamente.
— Qual importância tem isso para você?
— Eu sabia que era ela. Você nunca conseguiu esconder. Ainda bem que eu terminei com você a tempo. — Saiu andando para o outro lado. Liv respirou fundo antes de me olhar.
— Desculpa por isso. Eu namorei com ele ano passado, mas não deu certo. Ele só veio porque ele é amigo do meu irmão.
— Tudo bem. Você não me deve explicações. — Segurei a mão dela e a levei para onde estavam nossos amigos — Eu não vou deixar estragarem sua festa.
— Você é incrível — Me abraçou apoiando a cabeça em meu ombro, ela foi se soltando lentamente e me olhou. A beijei.
— Vocês formam o pior casal que eu já vi na vida, mas ainda assim ficam lindas juntas. — Comentou o Chris, pegando o celular para tirar foto. A gente riu o comentário e tiramos a foto abraçadas.
A festa já estava quase acabando, mas a Olivia não parecia querer me largar tão cedo. Eu estava feliz dela ter ficado feliz e claro que eu gostava de ficar com ela, mas o sentimento não era mútuo. Por mais que ela soubesse que a gente não ia ter futuro, era possível que ela tentasse se enganar fantasiando que poderia dar certo.
A levei até a casa dela de táxi e neguei o convite para subir, embora ela estivesse bêbada, não acreditava que estava bêbada o suficiente para não conseguir achar a própria cama. Naquele momento eu só queria checar as minhas mensagens e conferir se tinha alguma da Waverly, mas era inútil, ela nunca ia me mandar alguma, mesmo assim eu vi. Nada.
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