Crônicas Saxônicas Um
6 893 DC - LA DE LO PELLO MARRÓN
Lamento pelas coisas que deixei de fazer, lamento muito. Por isso tento realizar tudo o que está ao meu alcance, e prefiro mil vezes experimentar algo, mesmo que duvidoso, do que viver a vida sonhando com o que poderia ter sido. Sei que muitos podem me achar um idiota, mas a vida é um vai e vem de eventualidades. Estive em centenas de batalhas, umas mais violentas do que outras, em algumas não encontrei um pedaços de bronze sequer, na maioria delas possui mulheres e meninas para saciar minha sede de vitória, mas o regozijo jamais veio. Eu amava uma mulher a qual jamais iria possuir, e isso corroeu por longo tempo meu coração, até que eu aprendesse a conviver com a falta que ela me fazia.
Depois que deixei Wessex e a corte de Alberto, rumei para meu casamento arranjado. Pensei que tornaria para aquele reino com rapidez e com a mesma rapidez iria ter Aella em meus braços novamente. Mas o destino nos prega peças. As fiandeiras que tecem os fios de nossa vida brincam conosco. E riem, e zombam, e voltam a rir. Aella morreu um ano depois de eu deixar Wessex. Recebi a notícia de um homem que nem fazia idéia de que eu a conheci, de que a adorei, de que a amei. Ele foi esparso, casual, e não soube me dizer qual fora a causa da morte dela.
Jamais soube a história verdadeira, e também não busquei por ela, porque era passado, porque não importaria se eu buscasse, já que se o fizesse eu teria de me vingar. Agora eu sou casado e entendo de certas coisas. Não busquei conhecer a história verdadeira, mas algumas versões chegaram a mim. Uns disseram que ela se atirou da janela de uma torre, mas nos castelos de Albertos não havia torres, e a torre da igreja de um deles, apesar de alto a suficiente, não tinha acesso que não fosse por dentro dos aposentos do bispo. Outros contam que se jogou de um penhasco, depois de uma grande decepção. Eu sabia que ela estava desiludida, mas acredito veemente que Aella jamais tiraria a própria vida. Ela tinha perdido toda a devoção, mas acreditava que iria para o inferno se pecasse. Alguns ainda contam que Alfredo a prendeu nos calabouços porque era tentação demais para ele, e porque sua cobiça o levara quase a loucura. Eu prefiro acreditar que ela tomou um dos melhores cavalos do estábulo e conseguiu atravessar os portões do castelo, desaparecendo floresta adentro para jamais retornar.
Prefiro acreditar em coisas miraculosas às vezes, porque a vida precisa ser boa e precisamos de exemplos para que sejam seguidos. Agora eu entendo as discussões entre Ragnar e Aella, o porquê de ela tentar iluminar os caminhos do earl pagão com tanta vontade. Entendo o porquê de o cristianismo ser a religião que decidi seguir e o porquê de esquecer os deuses pagãos nórdicos. Afinal, sou Uhtred de Bebbaburg, e sou inglês.
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