Crônicas Saxônicas Três
2 890 DC - ANO UM DINAMARQUÊS
Eoferwic era uma fortaleza defensável, mas sem muitos homens para protegê-la de um ataque surpresa, tornou-se o picadeiro de um circo de horrores. Repasso apenas o que ouvi de Egbert Mãos Rápidas, um saxão do tamanho de uma casa, que abriu caminho sozinho entre uma parede de escudos dinamarquesa, mas eles o fizeram cativo e o levaram como escravo.
Egbert contou sua versão do ataque, ao chegar bem depois da comitiva de Aeldred, que bateu perfeitamente com a de seu senhor. Estavam todos jantando ao redor de uma grande fogueira no pátio principal, faziam sempre aquelas festas para comemorar a entrada da primavera. Ouviam música, cantavam e observavam a esposa de Aeldred dançar quando a matança teve início. Pelas portas laterais, os dinamarqueses entraram sorrateiros, ninguém os ouviu, e devem ter esperado que os homens ficassem bêbados para atacá-los, o que deu extremamente certo. Foi tudo muito rápido, mas um sofrido massacre porque foi uma luta injusta; nenhum inglês teve chance, a maioria estava desarmada, e os que tinham suas espadas consigo, mal conseguiam empunhá-las de tão bêbados que estavam.
A razão de Aeldred e sua guarda sair viva foi Grisilla. O senhor dinamarquês provavelmente deve tê-la visto enquanto armava a emboscada, e quando viu que não havia mais perigo para seus homens, caminhou até ela, que estava de pé, no centro do pátio, porque não encontrara uma rota de fuga segura entre os homens que eram mortos. Bem que ela deva ter preferido morrer se soubesse o viria a seguir. Mas ela permaneceu firme diante do imenso dinamarquês, que se aproximou sorrindo. Aeldred quis voltar para resgatá-la, mas se o fizesse estava morto, então observou, de cima da paliçada, pelo corredor por onde seus homens escaparam sem ser vistos, que o dinamarquês estava perdido. Sim, as fiandeiras do destino tecem nossas vidas com alegria, e na maior parte do tempo com desgraça. Mas não foi o caso para Grisilla, porque o dinamarquês se aproximou, sorriu para ela e mandou que fosse levada para junto das mulheres dinamarquesas, sem ser molestada.
Aeldred mandou que Egbert e mais três homens permanecessem em Eoferwic para resgatar Grisilla. Não sairia do território sem ela e os esperariam na fronteira. E foi o que Egbert fez. Escondeu-se em meio aos dinamarqueses, porque falava a língua deles bem, e permaneceu perto, de olhou em Grisilla, e, assim que lhe desse a chance, arrancá-la-ia daquele meio e a levaria a Aeldred.
Mas não era isso o que as fiandeiras queriam.
Essa parte, a parte que somente Egbert pôde presenciar, não foi bem aceita por Aeldred, mas ele ouviu paciente, enquanto provavelmente deveria estar formulando um plano para resgatar a esposa.
Foi claro o terror que Grisilla sentiu quando percebeu o interesse do dinamarquês por si. Ela até mesmo tentou fugir, mas ele zombeteou dela, e até gostou de sua ousadia. Grisilla era uma mulher alta, mais alta do que as outras mulheres, mais alta do que muitos homens, mas o senhor dinamarquês a fazia parecer pequena.
Os dinamarqueses, depois de atearem fogo numa grande parte de Eoferwic, partiram com os espólios para a costa, onde estavam seus navios. Egbert foi com eles, sempre perto de Grisilla, e viu sua primeira e última oportunidade de resgate perdida logo na primeira noite, quando conseguiu entrar no casebre em que ela estava sendo mantida. Os dinamarqueses tinham ocupado uma aldeia deserta. As casas não protegiam da chuva, mas mantinham as prisioneiras bem vigiadas. Egbert entrou por uma fenda na parede, onde faltavam três grandes pedras, e deu de cara com Grisilla o fitando. Ela sorriu ao vê-lo e se jogou a seus pés, chorando então.
— Senhor Egbert, me tire daqui, por favor!
— É o que mais desejo, minha senhora.
Mas uma voz grossa correu pela porta de madeira podre e Egbert se escondeu num canto, atrás de uma tábua larga que estava encostada de qualquer jeito na parede. Conseguia espiar por um buraco, e via nitidamente Grisilla e, agora, o dinamarquês. Era um homem muito bonito, apesar das cicatrizes e dos cabelos desgrenhas, propositalmente deixados daquela forma para horrorizar os invadidos. Ele parou, imponente, diante de Grisilla e sorriu. Tinha os braços cheios de braceletes, a maioria de ouro, e todos impecavelmente polidos. Suas vestimentas eram ricas em adornos e apesar de estarem cheias de sangue mostravam quão bem cuidadas eram.
— Sou Dagfinn Gunnarsen, earl Dagfinn, se preferir — ele disse em inglês e riu da surpresa dela.
— O que... vai fazer comigo? — ela perguntou com a voz oscilante, tinha medo da resposta, por isso deu um passo para perto de onde Egbert tinha se escondido.
Dagfinn olhou ao redor, puxou dois velhos bancos, sentou num e indicou o outro a ela.
— Por que não se apresenta? — ele quis saber. — Ouvi dizer que os ingleses são muito cordiais por essas bandas.
Ela não se moveu, mas disse seu nome.
— Sou Grisilla Hodenc.
— Bem, senhora Grisilla, seu nome a partir de hoje é Gunnarsen porque irei me casar com a senhora — disse sem floreios. Ela arregalou os olhos, deu um passo para trás e tropeçou num pedaço de madeira, batendo com as costas contra a parede. — A senhora terá muito tempo para me conhecer durante a viagem.
— E se eu não quiser me casar com você? — perguntou numa voz fraca.
— Então a darei para um de meus homens. E devo dizer que a senhora está valendo ouro por esse acampamento. Todos eles gostariam de prová-la depois de ouvi-la cantar e vê-la dançar — ele riu apontando com o polegar para a porta. Grisilla tapou os ouvidos com as mãos e fechou os olhos, como se aquele gesto a levasse para longe dali. Um homem gritou do lado de fora da casa, Dagfinn olhou para lá, sério, e depois se voltou para Grisilla. — É melhor a senhora permanecer aqui dentro, não posso protegê-la se sair pelo acampamento afora.
Quando Dagfinn deixou a casa, Egbert saiu do esconderijo e estava pálido. Tinha entendido o que os dinamarqueses gritavam e sabia o que iria acontecer se permanecesse ali. Seus três homens estavam sendo lentamente mortos do lado de fora da casa, podia ouvi-los pedindo socorro. Mas que faria sozinho? E como salvaria sua senhora? Então Egbert preferiu fugir a tomar qualquer atitude que lhe tirasse a vida. Correu para longe de Eoferwic, e foi ao encontro de seu rei, para lhe contar que talvez sua senhora não permanecesse viva por muito tempo.
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