“A história de Ossíria sempre foi datada de forma marcante... E, até onde os relatos se iniciam, o nosso mundo surgiu milênios atrás, gravados pelos primeiros ancestrais.

Além do nosso plano terreno e frágil, existem outros planos; tantos outros que apenas um ser carnal não pode acessá-la. Uma dessas dimensões é a Dimensão Daruber; um local etéreo, acima das nuvens e além das estrelas mais remotas, de onde todo ser que nasce lá, é de alma pura e considerada perfeita, praticamente como Deuses.

Os escritos contam que as nossas Deusas surgiram de estrelas cadentes, que vieram a cair nessa dimensão. Toda a energia acumulada junto com o impacto, fizeram com que surgissem três seres naquele mundo: Sophia, a deusa felina e encarnação da Sabedoria; Andréia, a deusa draconiana e representação da Coragem; e Sophrosyne, a deusa humanoide e a alma da Temperança.

Assim que despertaram, notaram estarem sendo vigiadas; as três, ainda crianças, não conseguiam descrever que ser era aquele que as rondava, mas logo se mostrou pacífico. Ele não tem nome ou forma própria, além de ser interpretado de várias formas diferentes a cada dimensão que ultrapassa, mas ele estava ali com um propósito; treiná-las para saberem governar um mundo próprio.

Ele então propôs um desafio: elas iriam segui-lo em uma jornada, entre mundos e eras, para enfim criarem o mundo em que acreditavam ser perfeito, sendo que quem vencesse teria total direito como um Deus. As três, sem muitas opções e sozinhas, só tinham a Ele para confiarem, aceitando o desafio. Durante os séculos seguintes, elas seguiram por várias dimensões e povos, não só conhecendo suas culturas, mas também conhecendo umas às outras.

E quanto mais aproximavam-se do fim, mais cada uma criava um mundo que almejavam: Sophia, inspirada pelos talentos e escritos dos mundos, almejava por um mundo onde todos pudessem ser sábios, guiados pelos elementos da água e da terra; Andréia, vendo como os povos muitas vezes lutavam pelo o que achavam justo, desenhou um mundo onde todos fossem fortes e independentes, tendo o fogo e o ar como suas principais bases; enquanto Sphrosyne, vendo o quão os mundos pareciam instáveis e imprevisivelmente perigosos, queria apenas um mundo equilibrado, onde fosse fácil prever o que viria e de bom ou ruim, para assim, preparar quem os habitasse, escolhendo os elementos da luz e das trevas para conter o tempo.

Contudo, ao passo que as irmãs trabalhavam, mais elas olhavam o trabalho das outras, vendo algo que faltava no delas, uma essência para torna-los melhor, fazendo que se sentissem inseguras e temerosas pela decisão Dele. Elas permaneceram caladas e o mais céticas possíveis sobre seus trabalhos, até um dia em que Sophrosyne uniu as irmãs em um diálogo; de início, ela desejava apenas informações sobre seus mundos, porém, quanto mais as ouvia, mais via que cada mundo era único para cada deusa, em seus próprios âmbitos, e que não podiam ser facilmente replicados. Mas, entre a frustração das trigêmeas, a deusa humanoide deu a elas uma ideia:

“Ele jamais nos disse se éramos para trabalharmos sozinhas ou juntas; ainda temos tempo de unirmos nossos sonhos e trabalharmos em um só. ”

E assim, perto do fim, as irmãs decidiram unirem forças, juntando tudo que julgavam ser necessário, adaptando-os para um único mundo, e o resultado foi mais do que ambas desejavam. Quando Ele as veio julgar pelo trabalho, palavras de congratulações foram ouvidas; durante todo aquele tempo, aquele era o verdadeiro teste, para ver se as irmãs uniriam forças ao verem tanto exemplos, ou se insistiriam em suas fraquezas, por orgulho ou rancor.

Mas o teste não havia sido dado sem um propósito: elas precisariam se unirem não só para criarem seu próprio mundo, mas também para trazê-los à realidade, à nossa dimensão material, Teleitos. Elas escolheram um lugar único, porém temido no universo, onde o caos e a escuridão imperavam. As irmãs se prepararam antes de virem até aquele antigo mundo e usaram seus elementos com maestria, para purificarem as criaturas que ali habitavam; essas criaturas, posteriormente, tornaram-se os animais e monstros que habitaram ao continente, com seus instintos domados e acalmados.

Ao ver como as Deusas trouxeram paz àquele lugar e conseguiram estabelecer seu próprio mundo, Ele veio uma última vez até elas, dando-lhes seus devidos poderes: com a energia Divina correndo em suas veias, as irmãs poderiam finalmente criar seus pupilos. Ambas optaram por criarem seres semelhantes ao seu mentor, para que pudessem sempre se lembrarem de quem as guiou, porém, que ainda tivessem traços semelhantes aos delas.

Sophia foi a primeira a criar; cheia de entusiasmo, ela usou seus poderes e, unindo a Água e a Terra com um raio de Luz, deu vida aos Sumurs, a raça dos felinos. Andréia, animada com o feito, foi a próxima a criar uma raça; a jovem deusa então usou suas forças, unindo Fogo e Ar de suas ventas e, embaixo da Escuridão de suas asas, criou os Arkhedis, a raça dos draconianos. Sophyrone, vendo o feito de suas irmãs, sentia-se insegura quanto ao que criar; mas ainda assim, ela respirou fundo, juntando todo ar possível e, juntando todos os elementos, ela assoprou, arriscando seus poderes em uma criação única: os Manavas, a raça humanoide, a raça mais próxima ao de seu mentor.

As Deusas, com seu mundo e discípulos, passaram a espalhar-se por aquele universo, governando-o pacifica e sabiamente, com o equilíbrio planejado para todos. E durante muitos anos, essa frágil harmonia perdurou como um sonho para todos... Até que algo voltou a abalar ao continente.

As criaturas pacificadas, outrora calmas, começaram a ameaçar ao universo de Ossíria; a princípio, eles apenas danificavam construções e plantações, mas logo os Ossírianos começaram a teme-los, a medida em que os animais voltavam a serem monstros. Primeiro, eles aprenderam a temo-los; depois, aprenderam o que era a dor e o sofrimento; até que, em um fatídico dia, eles aprenderam o que era a morte, quando a vida de um inocente havia sido tirada pelas criaturas.

As irmãs voltaram para Daruber, em vão procurando pelo seu mestre, em busca de alguma resposta para aquela súbita reviravolta. Sem sucesso, elas se viam por conta própria mais uma vez; Sophrosyne, tomando a liderança mais uma vez, sugeriu em estudar melhor sobre o caos que habitava às criaturas, assim podendo achar uma resposta, enquanto as irmãs tentariam conter ao possível massacre no continente.

Os anos sombrios se estenderam por Ossíria; sob a liderança das Deusas, seus súditos tiveram de aprender a como revidar às bestas; Sophia os deu sabedoria para manipularem seus elementos e usarem magias, enquanto Andréia os deu força, para poderem sobreviver aos ataques e revidarem. Os reinos, mais do que nunca, expandiam-se e seus povos multiplicavam-se; contudo, o caos só tendeu a piorar, agora parecendo afetar aos Manavas. A raça humanoide, quanto mais os anos se passavam, mais pareciam serem tomado por sentimentos impuros: inveja, avareza, luxúria... Eles logo distanciaram-se das Deusas, incitando até aos outros seguidores de que elas seriam farsantes ou traidoras, para unirem-se contra elas.

Sophia e Andréia, vendo cada vez mais Manavas as desafiando e incitando traições, voltaram para Daruber, em busca de respostas; porém, o que encontraram no lugar a irmã sábia e calma, não era mais nada comparado com mais um dos monstros naquele mundo. O caos que ela tanto procurava por uma resposta acabou por a consumir, junto aos seus poderes divinos e, tomada pela frustração, sua mente ficou seriamente danificada, atacando às duas sem julgar se eram aliadas ou inimigas.

Com as deusas abatidas, apenas o pior era previsto. Os céus ficaram negros como a noite e, com o choque de dimensões causadas pelo caos de Sophrosyne, uma enorme fenda se abriu e criaturas malignas se espalharam como chuva pelo continente. Os Ossírianos viram pela primeira vez quem eram os detentores da Dimensão Mortífera, lar das almas e da morte; tão humanos quanto eles, porém, tão mortais quanto qualquer criatura daquele universo. Demônios de todos os tipos e poderes, eles dizimaram vilas em segundos e cidades em dias, banhando o continente com sangue e lágrimas dos discípulos das deusas, como se tudo fosse mera diversão, alimentando-se de suas almas e medos para comandarem àquele mundo.

Assim que Sophia e Andréia finalmente despertaram, viram o rastro de destruição que sua irmã causou àquele mundo; chocadas, elas voltaram para Teleitos e presenciaram o pior que imaginavam, com o continente completamente partido e tomado pela fúria demoníaca. Aqueles tempos foram de extinção, tanto de raças quanto de povos e criaturas. Ambas viram tudo que construíram e lutaram, que tanto protegiam e tinham orgulho, ser reduzido à cinzas e sangue.

O choro das deusas pôde ser ouvido acima das nuvens e suas lágrimas caíam naquele mundo com força sobre o chão, rachando-o pouco a pouco. Os demônios que ali estavam logo uniram-se, para impedir os últimos seres daquele mundo de terem alguma esperança. As irmãs viram as criaturas aproximando-se, como sombras da noite em um terrível pesadelo; elas estavam sem a liderança de Sophyrosyne, provavelmente tomada pelos demônios em meio ao caos. Sophia ainda chorava desamparada, quando Andréia, vendo os demônios embaixo delas, disse com uma voz firme:

“Isso não pode acabar assim, irmã; precisamos dar às nossas criações uma chance... Vamos fazer isso por Sophyrosyne. ”

A deusa levantou-se vagarosamente e, estendendo suas asas, trouxe à tona toda sua energia divina, junto aos seus elementos. Sophia, ainda relutante, foi para o outro lado, usando das mesmas energias; ela sabia exatamente o que ela queria dizer com aquilo... E também, o seu final. Porém, Sophia não deixou-se abater pela perda da irmã e então, ambas saltaram em direção ao continente, de forma sincronizada, liberando toda sua energia e elementos sobre os monstros, como uma verdadeira explosão.

Naquele momento, as deusas sacrificaram suas formas divinas, destruindo a todos os demônios que as cercavam e purificando o que ainda restava daquele mundo. Aquela acabou sendo a noite mais longa da vida de seus discípulos, com o silêncio e a calmaria aterradores. Muitos ainda não podiam acreditar no que viram; em meio à destruição e ao terror, um forte brilho tomou conta do céus por um momento, dividindo-se em várias partes, até formarem seis estrelas perfeitas, com a luz tomando o continente e destruindo aos demônios que os aterrorizavam.

Esta foi a forma trágica na qual a Era Divina fechou-se em Ossíria. As lendas contam sobre os mais variados fins que essa história possui, porém, poucas são as confirmações. A primeira delas é que as seis estrelas, que hoje aparecem a cada noite sobre o continente, nos deram as habilidades elementais que as deusas possuíam. Outras citam que as deusas, mesmo sem sua forma divina, ainda vivem como espíritos em nosso mundo, garantindo que nós sempre tenhamos esperança em nosso futuro. Enquanto as últimos contam sobre o verdadeiro destino de Sophyrosyne; algumas fontes citam que ela foi purificada com o sacrifício das irmãs, mas que teve de as assistir perecendo, acabando por voltar para Daruber, completamente abalada e tendo apenas ao mundo que criaram como consolo. Porém, a segunda lenda é a mais macabra, pois esta diz que Sophyrosyne acabou perecendo junto aos demônios e criaturas caóticas, devido à sua ganância pelo poder caótico.”

***

Os parágrafos eram lidos calmamente por uma voz jovem e suave, dentro de um pequeno quarto, iluminado pela luz do luar. Ninguém mais parecia estar ali, quando a Sumur que lia os versos ouviu um bater na porta. A garota mal havia virado o rosto, quando a porta se abriu; era a sua mãe, uma moça alta e ainda jovem, mesmo com os longos cabelos brancos. Ela ainda olhou rapidamente o quarto, vendo a prateleira revirada e a pilha de livros retirada sobre a escrivaria da garota. A moça suspirou, dizendo ainda com paciência:

— Querida, já está tarde. O que você pensa que está fazendo?

—... Eu estava fazendo uma última revisão, antes dos testes na academia. – A garota abaixou as orelhas de gato, enquanto tentava evitar contato visual. – É que eu estou muito nervosa para dormir, eu acho que não estudei o suficiente--

— Filha, fique tranquila. – A mãe abraçou-a levemente. – O importante não é a quantidade de vezes que você estou, mas sim se você estudou da forma certa. E eu sei muito bem que você fez isso, minha jovem Maga.

A Sumur pensou um pouco antes de agir, mas apenas retribuiu o abraço, sentindo-se mais tranquila com aquelas palavras. As duas, quando se soltaram, trataram de arrumar a prateleira, só que enquanto pegavam livro por livro, a garota voltou a conversar:

— Mãe, eu posso te perguntar uma coisa?

—... Pode.

— Nesse livro, dizia sobre seis estrelas perfeitas, que surgiam toda noite. – A jovem abriu o livro, em uma página que mostrava a constelação das estrelas divinas. – Só que eu nunca as vi antes... Digo, você disse uma vez que elas desapareceram anos atrás. Como que foi isso?

—... Não foi nada agradável. – A mãe falou suspirando, enquanto lembrava-se do caos que foi aquela noite. – Amanhã de manhã eu te conto melhor como foi. Pode ser assim?

—... Pode, eu acho.

E assim, aquela noite se finalizou; a mãe ainda colocou a filha para dormir, depois seguindo para seu quarto. Quando já estava deitada, a moça ainda virou-se para a janela, olhando para a formosa lua que seguia pela noite, solitária em um céu sem nuvens... E sem estrelas. “O que as deusas querem desse mundo, realmente?” ela pensava, enquanto lembrava-se da noite em que as estrelas divinas desapareceram. “Nós já não sofremos o suficiente? Não perdermos nossas esperanças tantas vezes?”.

...

“Quem está realmente contra nós?”

Notas finais
Okay, essa foi uma história até que boazinha, né? ^^ Eu sei que existem Oneshots BEM maiores e que você deve estar acostumado(a) com esse tipo de Oneshot grandona, mas aqui eu evitei encher muita linguiça, até para não parecer que estou enganando o leitor x_o Se você ficou interessado(a) na história e quer saber mais, saiba que tentar me ver no Nyah é o mais difícil de todos: recomendaria me procurar na minha página do Face "Eliestia", onde eu posto conteúdo com mais frequência e tenho um contado melhor com a galera ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!