Notas iniciais
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Chegou a hora. Os dois foram até o carro. O pai abriu a porta de trás para o filho entrar.

— Coloca o sinto, viu?- disse o pai, fechando a porta.

Em seguida ele entrou no carro. O caminho era longo. Eles tinham muito tempo pra conversar.

— Pai, como é que vai ser?

— Não precisa ficar ansioso.

— Mas eu tô com medo pai, não sei se vou conseguir...

— Nunca diga isso. É só fazer do jeito que eu lhe disse.

Silêncio. Aquela manhã de sábado era normal, considerando os padrões de uma cidade grande. O pai parecia estar mais nervoso que o filho. O trânsito não estava calmo, mais a ânsia do pai fazia a viagem ficar mais curta.

— Será que vai ter valentões lá também?

— Não tem não...

Pararam no sinal. O pai olha pro filho. Será que estou fazendo a coisa certa, pensou. Emociona-se. Colocá-lo lá cedo demais era um risco que ele estava correndo. Afinal, o garoto tinha apenas dez anos. Mas ele queria muito. Mas que menino não quer?

— Tá escutando o quê?- perguntou o pai. O menino nem olhou. Ele estava com o fone "nas alturas".

— Filho?- aumentou o tom da voz. Ele percebeu.

— Hã?! O que foi pai?- tira o fone- O que você disse?

Por um momento ele se viu no seu filho. Lembrou dos tempos em que as dificuldades eram maiores. Tempos que ele não andava de carro. Só de ônibus.

— Só perguntei o que você tava escutando aí.

— Bon Jovi...

O pai riu por dentro. Lembrou de quando queria ouvir música, (inclusive Bon Jovi), mas seus pais não tinham condições de comprarem um toca discos. O filho desconectou o fone de ouvido do seu mp3 e depois de alguns segundos eles já se viram cantando em voz alta aquela boa música, um pouco velha até. A ansiedade passou um pouco. Eles estavam felizes.

— Não sabia que você gostava de rock- disse o pai. Era a primeira vez que ele comentava a respeito do gosto musical do filho.

Depois de voltarem à monotonia do silêncio o pai continuou tentando puxar algum assunto, mais o filho estava um pouco nervoso. Não dava atenção pra nada, e só respondia com frases que continham, no máximo, duas palavras.

Finalmente eles chegaram. Por um lado o ai estava feliz de ver que seu filho queria fazer a mesma coisa que ele já havia feito algum dia. Por outro, a lembrança do fim , precocemente determinado, fazia com que a ideia de esquecer tudo e voltar, ganhasse força.

— Vamos, meu filho,- pegou na sua mão e o guiou até a entrada.

— Daqui você segue sozinho.

— Não se preocupe papai, eu vou dar o meu máximo.

O filho então seguiu em direção ao campo, com passos lentos, coração a mil por hora. Ele nem olhava pra lá. Estava com vergonha. O pai sentiu orgulho de si mesmo. Do exemplo que ele era pro filho. Ele foi para o trabalho pensando se contaria ou não pro filho que deixou de jogar futebol depois de uma grave lesão.

Notas finais
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