Crônicas Do Mundo Real

4 Atendimento Ao Consumidor


Notas iniciais
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Querido, cadê meu celular?

Dias atrás, Dr. Cleílton havia perdido a paciência com certa situação: O seu cartão de crédito obteve problemas no momento do saque. Ele até repetiu a senha, mas no visor do caixa eletrônico de auto-atendimento, apareceu a seguinte frase “Senha incorreta. Seu cartão será bloqueado”. Num ato precipitado ele partiu o cartão ao meio.

— Não me diga que vai cancelar o cartão... – disse sua mulher, já sabendo que se tratava do maldito cartão.

— Vou só requerer outro. – respondeu ele, pegando o cartão.

Ele olhou então para a antiga correspondência onde o falecido cartão havia sido entregue, para saber qual era o número do SAC.

— Alô?

— Serviço de atendimento ao consumidor, bom dia.

“Uma mulher”, ele pensou. “Uma mulher”.

— Bom dia.

— O que o senhor deseja?

— Eu queria saber como eu obtenho outro cartão de crédito.

— Me passe seus dados que eu lhe direi os devidos procedimentos.

Ele repassou seus dados.

— O que aconteceu com seu cartão, senhor?

— Ele... – Pensou um pouco – Foi roubado...

— Sei... Você já tirou um novo extrato bancário depois disso, senhor?

— Não; e por que deveria?

— Pra saber se os ladrões efetuaram algum saque de sua conta, senhor.

— Mas porque tantas perguntas? – ele já estava ficando irritado – Isso é um procedimento padrão, por acaso?!

— Não, só estou esperando o sistema voltar ao ar.

—...

— O senhor tem certeza que foi roubado! O senhor pode ter perdido o cartão...

— Não me chame de desleixado!

— Sei... Você é casado senhor?

“Tá legal, agora o que vem depois, vai querer sai comigo!”

— Por favor, só fale comigo quando o sistema voltar ao ar.

— Ele já voltou.

— E por que você me perguntou isso?!

— Era só uma das demais perguntas padrões que virão, mas é só pra confirmar a veracidade de seus dados.

— Ora mais! Eu sou eu!

— Quem me garante que o senhor não é o senhor? Você pode ser o provável ladrão do cartão...

Depois das muitas perguntas pessoais, a atendente disse:

— Tá, o senhor vai falar agora com outra atendente.

— Mas por que você mesm...

Nesse momento o som da voz daquela mulher some, dando lugar a uma chata música lenta, daquelas de elevador. Dr. Cleílton não se conforma. Dez minutos se passam.

— Senhor?

— Graças a Deus!

— Bem, acabei de ser informada pelo nosso gerente que, em casos de roubo, o senhor tem que se dirigir à uma agência mais próxima, portando um boletim de ocorrência.

— Mas a moça que me atendeu disse que...

— Fui eu mesma, senhor.

— Mas você disse que era rápido.

— Mas em casos de roubo...

— Eu quero falar com esse tal gerente, sua mentirosa!

— Senhor...

— Vamos!

— Desculpe, mas o senhor já está se exaltando, senhor.

— Cadê a outra atendente? Por que eu esperei meia hora pra falar com a mesma pessoa?!

— Ela está em horário de almoço, senhor.

— Me passe para o gerente!

— Ele não está habilitado a atendimento à distância, senhor.

— Você é chata, hein!

— Só estou fazendo meu trabalho, senhor.

— Esqueça! O que eu quero agora é cancelar minha conta!

— O senhor não pode fazer isso, senhor.

— Por que não posso?!

— É... Na teoria, uma ligação serve para um só tipo de atendimento.

— O quê?!

— Você queria um novo cartão; para cancelá-lo, o senhor tem que fazer outra ligação, senhor.

— Não me venha com essa!

— Desculpe... Estou mentido, senhor

— O quê?

— Por favo, não cancele seu cartão...

Dr. Cleíton inicialmente achou que ela estava tentando apelar pro lado emocional pra obter êxito.

— Hoje é meu primeiro dia aqui, e eu já cancelei três contas...

— Mas por...

— E toda vez que eu... – o interrompe, ainda com a voz trêmula – que... Eu cancelo ma conta, uma parte de meu salário vai embora, entende!

— Entendo...

Dr. Cleílton ficou chocado. Ele não imaginou que do outro lado da linha, ele ouviria aquilo tudo.

— Eu só quero outro cartão...

— Mas... – soluçou – Eu fui no meu gerente, com vergonha, mas fui, ele me recebeu muito mal, disse que pra roubo tinha que ter o boletim...

— Eu menti.

— O quê?

— Eu quebrei meu próprio cartão.

— Bom nesse caso seu cartão chegará a seu endereço num prazo de, no máximo, trinta dias úteis – disse atendente com firmeza.

— Obrigado então.

A atendente ficou feliz por ter conseguido ganhar a aposta que fez com as outras atendentes: de conseguir a confissão do homem que, possivelmente, não teria seu cartão roubado. Ela colocou a chamada na viva-voz e todos na sala riram muito, em silêncio, quando ela tentou fazer voz de choro. Elas estavam felizes naquela pequena sala cheia de computadores.

Notas finais
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