Crônicas De Tempo E Prata
3 A sombra da Estrela
Notas iniciais
Esse conto é um dos meus prediletos. Na verdade ele é um presente para uma amiga. Para as pessoas que nada me conhecem, ele pode ser repleto de simbologia, mas ele é extremamente recheado de fatos. Espero que sintam o que eu senti ao escrevê-lo.
- Belo quadro, não?
Disse a garota ao meu lado. Eu me virei para olhá-la, e seus olhos estavam fitando a tela à minha frente. A exposição estava quase vazia, as paredes brancas palidamente iluminadas pela luz florescente das lâmpadas do museu. Uma fileira de quadros dispostos de cinco em cinco metros alinhava-se horizontalmente a minha frente. A garota tinha um brilho opaco nos olhos. Como uma luz que se desvanecia constantemente. Ela não me olhou nem por um segundo. — Sim. Você conhece o autor? — Autora. O quadro era impressionante. Ele tinha milhares de gotas de giz de cera derretidas. E pingos de café. Se visto de perto era apenas um emaranhado de bolinhas e riscos caóticos. Mas numa certa distância parecia o céu à noite. Dava para se perceber constelações, planetas e sistemas solares. E visto ainda mais de longe, parecia o rosto dela. O cabelo escorrido no seu ombro direito. Os olhos profundos, com a pupila cintilante no brilho opaco de uma estrela que morre constantemente. E uma boca de Mona Lisa. Não dava para saber se era um sorriso ou não. Não dava para saber nada sobre ela. Apenas sentir. Ela era a artista do quadro. — Impressionante. Você parece jovem para ter um quadro exposto num festival desse porte. Onde aprendeu? — As musas de Órion passavam alguns anos luz comigo antes da fundação desse mundo. No espaço existiam coisas muito parecidas com giz de cera e café. Eram poeiras galácticas e pedaços derretidos de planetas feito da massa do Homem. Elas me ensinavam como soltar isso em anéis de asteroide, e de longe parecia com o que você está vendo agora. Ela tinha uma voz muito doce. Falava pausado, como se recitasse um poema. Ela ficava com o pescoço levemente levantado, e as mãos para trás. De perfil parecia que sua boca tinha uma leve elevação, um sorriso de nostalgia. Mas olhando para o quadro, dava pra perceber que na verdade aquele era o formato de sua boca. — Que legal. É a primeira vez que eu venho a uma exposição. Não sou nenhum especialista em obras de arte, mas eu gosto de ver a beleza. Esse quadro parece um autorretrato, muito legal o que você fez aqui. Finalmente ela me olhou. Seus olhos olhavam tão fundo nos meus, que chegavam a doer. Eram raios de luz, como o sol, ao mesmo tempo era sombra de verão. Ela era linda. Uma das coisas mais brilhantes e lindas que eu já vira. Ela continuou com a expressão enigmática de quem sorri e não sorri ao mesmo tempo. — Doeu? – ela me perguntou. — O que exatamente? — A queda. — Ah. Eu continuei sem saber do que ela falava. Mas acenei que sim. Eu não sei se foi uma resposta consciente ou não, mas sentia a dor nas costas. Ela se virou e continuou olhando o quadro. — Deve ter doído muito. Doeu quando eu caí. Faz muito tempo, mas ainda sinto a dor. Eu aprendi a me acostumar com ela. Às vezes eu passo a noite olhando pra lua. Ela sempre foi muito boa comigo, embora nunca pudéssemos chegar tão perto. Acho que no fundo, eu vim pra cá pra ficar mais próxima dela. — Hm. A lua é bonita. Eu sonhei com a lua cheia noite passada. Eu sonho com muitas coisas. — Ah é? Anjos sonham muito. Eles vivem no mundo dos sonhos. Eles vivem de muitas formas, gosto dos anjos por isso. Eles me transmitem vida. Até os caídos. Que nem você. — Tem mais algum quadro seu aqui? Ela olhou de novo para mim e apontou para trás. Havia outro quadro pintado com cera e café. Ele era uma asa formada de pontos e linhas. Uma asa enorme, como as de anjos. Ao fundo havia uma espécie de vulcão. — Muito bonito. — É sobre você. — Mas ele é meio difícil de entender. Gostei da ilusão de ótica. Aliás, qual se nome? — Depende. Meu nome era Tabit. Minha designação era Pi³ Orionis. Eu morava perto de Orion. Possuía uma ascensão reta de 04h 49m 50.14s e uma declinação de +06° 57′ 40.5″. Minha magnitude aparente era igual a 3.19. Considerando minha distância de 26 anos-luz em relação à Terra, minha magnitude absoluta era igual a 3.67. Pertencia à classe espectral F6V. Mas quando eu vim pra cá me chamaram de Thays Moreira. Eu gosto desse nome. — Nome bonito. Meu nome é João. — Eu sei. — Como? Ela saiu da frente do “quadro-autorretrato”, e deu uma volta. Parou em frente a um quadro com prédios e cinza. Nele havia agulhas de prata que caíam. E não havia céu, apenas fumaça e espelhos. Ela balbuciou “chuva”, e depois se virou pra mim, esboçando um sorriso aberto. Parecia que uma Supernova havia aberto um rombo em meu peito. — O céu é nosso João. . . . Até hoje me lembro dessa exposição. Quando conheci uma Estrela, e ela disse que o céu era nosso. Foi uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na minha vida. Nunca entenderei direito tudo o que eu ouvi e senti aquele dia. Mas sei que ela era real. E linda. E brilhante. Todas as noites eu olho para os céus, e para a lua, na esperança de que ela esteja olhando pro mesmo lugar que eu. Uma vez por ano eu vou a um observatório, e alinho o telescópio para tentar enxergar a Pi³ Orionis. Mas incrivelmente os astrônomos do observatório me disseram que aquela estrela desapareceu há quinze anos. Vai fazer dezesseis. E eu pretendo comprar um presente de aniversário para ela.
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