Notas iniciais
Primeiramente gostaria de dedicar esse capítulo a KatherineKissMe pelos comentários inspiradores e carinhosos. Foi a única maneira que encontrei de agradecer seus elogios de igual para igual! Muito obrigada por todo o seu apoio, de verdade!

Outono de 2010

— Trégua — Bianca pedia entre uma risada escandalosa e outra, caída no tapete dourado de areia fofa da Praia do Arpoador enquanto Duca, quase em cima dela, a enchia de cócegas na barriga e no pescoço, arrancando-lhe gargalhadas exasperadas que chamavam a atenção de qualquer um que passava por ali. — É sério, eu me rendo! Juro que desisto!

— Azar o seu — Zombou ele, a respiração arquejante de tanto rir. — Agora vai passar a noite inteira aqui.

Cansado, Duca se estirou ao lado de Bianca para olhar o alaranjado do sol poente. No Réveillon de 2009 para 2010, desanimados com a ideia de verem os fogos da sacada do quarto dela outra vez, deram um perdido em Gael e Dona Dalva e seguiram Alan até uma rodinha de violão e fogueira que os amigos dele combinaram para comemorar a data. Chegaram lá às cinco e meia da tarde e todos já pareciam altos pela bebida colorida que ingeriam, tanto que nem tocavam música direito. Os dois abandonaram o grupo silenciosamente e escalaram a Pedra do Arpoador, apreciando o que rotularam como a visão mais linda do pôr-do-sol que teriam na vida e garraram uma fixação gostosa pelo lugar. Quase toda tarde de sexta-feira, quando ele era liberado mais cedo da academia e ela não tinha ensaios do grupo de teatro do colégio, combinavam de se encontrar na praia e ficar por lá até escurecer.

Naquele dia em especial Bianca estava com muita pressa para ir embora e ensaiar pela milionésima vez o roteiro de Romeu e Julieta, a primeira peça de teatro que protagonizaria em um evento que sua escola promoveria no dia seguinte. Duca detestava que Bianca o trocasse por clássicos melosos da literatura que ela já sabia de cor, mas não dizia isso em voz alta para não magoá-la. Mesmo assim, quando chegou para o encontro combinado e vislumbrou a linda carinha de gato com traços distintos marcada pelo mesmo sorriso que o tirava do chão todas as vezes, ele não quis segurar a frustração de não tê-la por mais tempo. Quem sabe verbalizando Bianca não optava por ficar a noite toda e reparasse que ele era perdidamente apaixonado por ela.

Claro que não ia acontecer. Ao invés disso apelou para uma sessão de tortura, fazendo cócegas até ela que disparasse a risada adorável que arrepiava Duca inteiro, como um babaca apaixonado, e se rendesse aos pedidos para deixá-lo ainda mais encantado.

— Duca — começou ela, ainda recuperando o ar que lhe faltava — Amanhã você vai me ver na peça?

— Você beija algum moleque? — Tentou disfarçar o ciúme usando um tom irônico. — Se sim, nem pensar.

— Ai, como você é ciumento — Brincou, encarando como zelo de sua parte. — Vamos, por favor! Prometo que é só um selinho, nada demais.

Uma das coisas que Duca não sabia se amava ou odiava na melhor amiga era a excelência que ela tinha para conseguir as coisas usando uma vozinha dengosa enquanto arqueava uma das sobrancelhas, tanto uma pergunta como um desafio silencioso, questionando se alguém seria forte o suficiente para dizer-lhe não. Bianca nem devia saber o que era essa palavra, pelo menos não da boca de qualquer espécime do gênero masculino que a cercava: Gael era bobo pela filha mais velha, uma cópia fiel da falecida esposa, com os mesmos olhos e a mesma boca perfeitamente desenhada – só precisou de uma visita a casa de seu mestre para reparar na semelhança entre as duas através de uma fotografia antiga –, enquanto Duca realizava qualquer uma de suas vontades e parecia ficar apenas mais deslumbrado por ela, se sentindo um verdadeiro idiota por ceder com tanta facilidade.

— Tá bem, para de miar — Como se ele não gostasse de ouvi-la fazer isso. — Até vou, mas com uma condição.

— O que você quiser — Sempre ficava animada e sem limites quando conseguia algo que queria. — Pense bem no que vai pedir.

Duca já estava com a cabeça longe desde o momento em que fez a proposta. Os olhares divertidos se encontraram quando viraram o rosto na direção um do outro e ele notou como ela ficava mais linda a cada dia, com os traços amadurecendo. Achava meio errado reparar no corpinho curvilíneo dela, que chamava mais a sua atenção com o passar dos anos, pensando se era correto ver de forma sexual uma garota que era sua melhor amiga acima de tudo. Tinha quatorze anos e ainda era um “cabaço” como seu irmão gostava de pontuar, mas já tinha beijado várias garotas e nenhuma delas o empolgava mais do que a simples fantasia de sentir os lábios macios de Bianca colados aos seus. Tinha certeza que ela tinha gosto de cereja, já que cereja era sua fruta favorita e era bonito compará-la as melhores coisas do mundo. Como queria beijá-la, como queria ter certeza que não existia nada igual ao beijo dela, mesmo que já soubesse!

Mas que droga! Nunca teria coragem de pedir uma coisa dessas, ainda mais naquela situação. Bianca não parecia entender o afeto de Duca como paixão e talvez nem o visse de forma romântica. Ao contrário dele, ela ainda não tinha beijado ninguém e desejava que fosse no momento certo, quando se sentisse a vontade para dar um passo tão importante. Linda do jeito que era, tinha vários caras aos seus pés e esnobava todos. Não queria mesmo ser mais um e morria de medo que ela se afastasse dele.

— Ainda está pensando? — Ele nem tinha percebido que se perdeu em pensamentos com os olhos fixos nos dela, trazendo uma tensão ao ar. — Tudo isso só porque te convidei pra ir?

— Ir aonde, Bianquinha?

A voz de Alan soou atrás deles e os tirou da atmosfera tensa em que estavam. Pingava da cabeça aos pés e tinha uma prancha de surfe embaixo do braço, seu outro vício depois do muay thai. Duca achava desnecessário o talento do irmão para aparecer na hora errada, geralmente enquanto curtia suas tardes ao lado de Bianca, sempre puxando alguma conversa que não lhe interessava nem um pouco.

— Amanhã vou protagonizar minha primeira peça na escola. — Empolgava-se ela, contando a novidade como se fosse de extrema importância para qualquer pessoa. — Estou chamando o Duca para assistir. Porque não vai também?

Que maravilha. Como se Alan ligasse para teatro ou qualquer coisa que pedisse um mínimo de sensibilidade, coisa que custava muito a demonstrar. Depois da morte dos pais, mesmo que ainda se divertissem juntos, um abismo emocional parecia ter se aberto entre os dois irmãos. Duca não se sentia a vontade para conversar coisas sérias e importantes com ele e isso fazia falta. Os assuntos que debatiam eram superficiais, como o futebol de domingo, quantas meninas tinham beijado numa festa e golpes complicados de muay thai. Sendo o cara objetivo e raso que gostava de ser, como Alan poderia se interessar por uma peça romântica de teatro?

— Vou adorar — Até o tom de voz de Alan não dava para levar a sério. — Duquinha também vai?

— Lógico que vou — Como se ele não tivesse sido convidado primeiro. O irmão e o costume egocêntrico de se achar o centro do universo.

— Que bom, então — Bianca abriu o sorriso surreal de sempre para os dois lutadores. — Só espero que nenhum de vocês se atreva a me dar bolo.

Duca disfarçou um sorrisinho complacente. Jamais conseguiria dar um bolo em Bianca, não sem estragar o resto do dia e se sentir entediado. Nada parecia tão legal sem ela, nem tão bonito ou tão colorido.

Os anos passavam e Duca ainda não tinha certeza se Bianca era mesmo real.

xxx

(Duca podia me beijar quando estávamos no Arpoador ou enquanto fechávamos a academia. Podia me beijar durante os ensaios para as peças ou um jantar de família. Podia me beijar a qualquer hora e a qualquer momento. Ele só não sabia que podia e nem eu sabia se queria. Ele só podia e eu nunca diria não.)

xxx

Bianca não sabia exatamente quando começou a desejar a carreira de atriz. Lembrava-se bem, no entanto, de ficar encantada com os vídeos das peças que a mãe protagonizou na Ribalta, a escola de artes do bairro. A forma como pronunciava o texto, as nuances de interpretação e a personalidade das personagens brilhando no olhar fazia parecer que Ana tinha todas aquelas mulheres dentro de si, e talvez tivesse mesmo. Uma “camaleoa”, parafraseando Caetano Veloso: rapte-me, adapte-me, capte-me.

Queria ser como Ana. Queria brilhar nos palcos e encantar plateias como ela fazia e lutar para ir bem mais longe, alcançar distâncias que a mãe sempre teve talento e nunca teve vontade. Um peixe graúdo demais para o pequeno aquário em que vivia, onde optou por estagnar sua carreira por conta do amor que sentia por Gael. Bianca achava linda a história de amor dos pais e desejava uma relação tão díspar e sólida quanto a que construíram, mas não se imaginava abandonando o estrelato se chegasse até lá, nem mesmo por um grande amor.

Claro que não fazia ideia do que era amar alguém, a não ser a arte e a chance de fazer a própria arte. Um dia ser tão artística quanto seus sonhos.

— No entanto, não quero nada, afora o que possuo. — Frente ao espelho, o olhar fixo em si mesma, que agora era Julieta Capuleto em toda sua paixão pelo que lhe era mais importante. — Minha bondade é como o mar, sem fim e tão funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que muito mais me sobra: ambos são infinitos.

— Tá no script que é pra dizer mentiras também? — Karina adentrou o quarto, usando um blusão de moletom desnecessário para o clima e com a carranca fechada, que nos últimos tempos estava cada vez mais comum.

Bianca a olhou impaciente, perdendo a concentração para continuar o ensaio do ato em que Romeu e Julieta declaram seu amor. Karina atravessou o recinto, jogou a mochila sem nenhum cuidado na cama e se estirou no colchão logo em seguida.

— Precisa me atrapalhar? Minha peça é amanhã, será que dá pra você ser legal uma vez na vida?

— Eu sempre sou legal — a irmã retorquiu, sem paciência nenhuma, e abafou as orelhas com os fones de ouvido enormes que ganhara de presente do pai depois que Bianca entrou para o grupo de teatro e precisava ensaiar em casa. — Menos com você.

Bianca revirou os olhos e voltou sua atenção para o espelho. Quando estreasse naquele palco, dando o primeiro passo em direção aos seus sonhos e sendo aplaudida por dezenas de pessoas, nenhuma delas poderia tirar sua concentração. A implicância de Karina era o melhor teste para isso. Respirou fundo e imaginou Julieta, em todo seu encantamento e confusão por Romeu, amando-o como se sempre fosse a última vez. Talvez não fosse tão ruim amar, afinal, já que era amor o que a inspirava.

Inspiração. Como subir no Arpoador pela primeira vez e ver os fogos de ano-novo com Duca.

— Só não se engana tá, irmãzinha? — Karina começou amarga, arrancando-a de seus pensamentos já longínquos, que ela pouco entendia. — Você nunca será a mamãe.

Bianca fechou os olhos por uns segundos e voltou a mirar sua imagem no espelho.

— Tem razão. Eu serei melhor.

xxx

— Ei, animal — Alan chamou, quebrando o silêncio que assolava a cozinha na hora do jantar. — Tá rolando alguma coisa entre você e a Bianquinha?

Duca direcionou o olhar antes perdido para a expressão zombeteira do irmão mais velho, sempre interessado em assuntos que não eram nem um pouco da sua conta. Se havia alguém que conhecia de cor e salteado sua amizade com Bianca, esse alguém era Alan: sempre os encobria quando saiam escondidos, inventando uma mentira crível para o mestre Gael, zeloso demais em relação à filha mais velha, bonita e saidinha demais para o seu gosto. Não que Bianca fosse mesmo saidinha, na prática era reservada até demais, mas não ia ser Duca e todo seu conhecimento sobre a melhor amiga ou Alan com sua responsabilidade pelas voltinhas que os dois davam que convenceriam o pai dela do contrário, até porque Gael mal tinha ideia da dimensão de tudo aquilo.

— Que papo é esse, Alan? — Questionou, demonstrando seu incômodo com a pergunta sem pé nem cabeça do irmão, como se a resposta não fosse óbvia. — Esqueceu da filha de quem estamos falando?

Claro que Gael via Duca e Bianca inseparáveis desde o dia em que se conheceram, na tarde fatídica em que sua avó enfartou e passou a se locomover numa cadeira de rodas que não tinha nada a ver com sua disposição de antes. Foi a única vez que dormira na casa dela, no sofá, usando jeans e camiseta. Acordou no meio da madrugada e Bianca estava ali, ao seu lado, deitada num colchão que estirou no piso e coberta por um lençol fininho. No dia seguinte, depois de tomarem café-da-manhã ao lado de Karina, a caçula da família, os três saíram para o parque da Praça José Wilker, o centro do bairro e o lugar onde ele e Bianca se viram pela primeira vez. Divertiram-se como nunca rapidamente Duca se apegou às duas garotinhas como a nenhuma outra pessoa no mundo, Karina sendo a irmã que ele sempre quis ter e cuidar, e Bianca, bem... Ele não a via de forma tão fraternal assim e com o passar dos anos se deu conta que jamais veria.

Isso seu mestre não podia sequer imaginar.

— E daí? — Alan desafiou com o tom prepotente que usava quando falava de mulher. — Vocês estão sempre juntos e o mestre nem faz ideia.

— Não quer dizer que role alguma coisa — Respondeu sem paciência, voltando sua atenção para o prato de sopa que ia esfriando aos pouquinhos. — Somos só amigos.

Alan deu uma risadinha questionável e Duca retribuiu forçando um sorriso. Ele não conseguia deixar de se incomodar toda vez que Bianca era colocada em pauta pelo irmão mais velho, não só por não ter intimidade o suficiente para se abrir sobre o que sentia como também por Alan ter o péssimo costume de falar aleatoriedades das meninas em que estava interessado. Um antecedente preocupante para Duca e sua paixonite não-correspondida por Bianca.

— Você é lerdo mesmo — Alan pegou o prato já vazio e se dirigiu à pia para lavar a louça, já que dividiam as tarefas da casa desde que a avó perdera o movimento das pernas. — Desse jeito vai levar a vida toda pra trepar, moleque. E ainda vai perder a chance de ser com a Bianquinha.

Mas que caralho, Duca gritou mentalmente. Ele não era tão intransigente a ponto de levar ao pé-da-letra todas as bobagens que Alan dizia e dava risada da maioria delas. Passavam o dia juntos na academia, treinando para os campeonatos e disputas de grau. Eram quatro horas diárias jogando conversa fora e falando besteira, comentando sobre as garotas do bairro e que já tinham ficado alguma vez. A única coisa que Duca não admitia era que Bianca surgisse nesses assuntos. Ela não era para trepar e era absurdo que Alan não se desse conta disso.

— Não dá pra perder o que eu nunca tive. Agora será que dá pra mudar de assunto?

— Dá, ué. Claro que dá.

Mas Alan nunca se dava conta de nada, sempre ocupado demais consigo mesmo para olhar para os lados.

xxx

(Alan era o garoto que tinha tudo e não tinha nada. O eterno diamante bruto que ninguém se atrevia a lapidar, talvez porque não houvesse lâmina capaz disso. Queria mais do que podia, sentia mais do que demonstrava, fazia mais do que era possível e acreditava ter o mundo na mão. Não tinha e nada poderia frustrá-lo mais. Ele era como eu e no fundo nós sempre soubemos disso.)

xxx

— Dá pra parar de tremer? — Faltava cerca de dez minutos para Bianca subir no palco amplo e amadeirado do teatro que seu colégio havia alugado para as apresentações das peças do evento. No entanto, lá estava ela: nervosa, suando frio e com as mãos macias trêmulas pela estreia. Duca sabia que as mãos dela estavam macias e trêmulas porque as segurava naquele momento.

— Eu tô tentando — disse, o lábio inferior meio avermelhado de tanto que ela mordia para controlar a ansiedade, mania que deixava sua boca com pequenos machucados e fazia Duca querer curá-los com um beijo. Como se ele já não tivesse todas as razões do mundo para querer beijá-la.

Bianca estava linda, mas não como geralmente estava. O cabelo sempre liso, solto e pesado em suas costas ganhou cachos e estava meio preso, com a franja puxada para trás, um penteado antiquado que lhe caía muito bem. O figurino da peça, um vestido vermelho escuro de mangas bufantes e cintura marcada, com uma saia longa e cheia a deixava parecendo, de fato, uma personagem de contos infantis. Uma princesa clássica que toda garota sonhava ser e nenhum garoto entendia.

— Para com isso, você tá linda — Traduziu seus pensamentos em palavras para arrancar um daqueles sorrisos brilhantes que Bianca dava quando gostava de alguma coisa que ele dizia, fazendo Duca segurar um suspiro. — É a sua noite e vai ficar assim, quase tendo um treco?

— Eu sei, é só que — Ela parecia buscar as palavras certas para usar enquanto fitava aflita o corredor em que estavam, próximo a área de figurinos, onde quase ninguém passava àquela altura do campeonato. — É só o começo, entende? Eu estou tão feliz e descontrolada — Eles riram juntos, ela ainda respirando fundo para se acalmar. — Mas acima de tudo feliz.

Bianca sempre foi boa com palavras, tornava tudo o que dizia mais profundo do que talvez era na realidade. Talvez, porque Duca conhecia bem demais a melhor amiga para saber que seu talento em manipular tudo e todos era equivalente a profundidade dos seus sentimentos. Ela conseguia ir da mais completa felicidade até um pensativo silêncio em questão de segundos. Ele amava isso nela e talvez fosse manipulado. Ou conquistado.

Duca preferia a segunda opção.

— E isso não é bom? — Soltou uma das mãos dela em um quieto esforço e tocou carinhosamente uma das bochechas rosadas, o que aumentou o sorriso de Bianca.

— É a melhor sensação do mundo. — Afirmou ela num suspiro feliz, os olhos castanhos brilhando em direção aos de Duca assim como no Arpoador, um dia atrás.

A mesma tensão gostosa surgiu entre eles, só que agora Duca se recusava desviar o olhar ou puxar algum assunto aleatório. Queria olhar nos olhos dela e tocar seu rosto para acalmá-la. Queria que o sorriso aumentasse ainda mais e logo em seguida esmaecesse, num consentimento para que os lábios dele tocassem os dela.

A mão perdida de Bianca alcançou a que estava em seu rosto num afago, num quase sim, uma quase certeza. Foi quando a voz do produtor chamou por ela, pedindo que se apressasse e mais uma vez tudo não passou do quase. Soltaram as mãos como se dessem choque uma na outra e tentaram se recompor, claramente envergonhados com a situação.

— Preciso ir agora. — Disse ele, evitando olhá-la novamente nos olhos de chocolate. — Vou estar lá na plateia.

— Espera. — A voz doce o chamou, numa ordem delicada.

Foi quando Bianca o puxou para um longo e terno abraço. As mãos dela deslizavam devagar em sua nuca, numa carícia suave que fez Duca fechar os olhos e relaxar na mesma hora. Estava com ela e nada parecia dar errado. Era dele, a Bianca dele. Sempre seria, mesmo que não soubesse.

O encontro se dissipou ao passo que a mesma voz, agora enfezada, voltou a chamar por Bianca não muito longe dali. Os dois riram naturalmente e, como se estivesse fazendo uma travessura, os lábios dela pousaram rapidamente no rosto de Duca, num beijo estalado antes de seguir em direção ao palco. No meio do caminho ela olhou para trás e – só para deixa-lo feliz, tinha certeza –, abriu o sorriso de sonho que ele mais gostava antes de desaparecer em uma curva.

Estagnado no meio do corredor, um Duca encantado e desnorteado tentava lembrar de como se andava e, entre tantas questões bem mais importantes confundindo sua mente, qual era a poltrona na qual deveria se sentar.

xxx

Do primeiro ao último ato Duca tentou se concentrar na história, mesmo que já soubesse de cor por ajudar Bianca a ensaiar as falas nos finais de semana. Não conseguiu e apenas manteve os olhos fixos na melhor amiga, brilhando no palco e arrancando suspiros e lágrimas até dos mais fissurados nas obras de Shakespeare. Dele, que só sabia das obras clássicas o que Bianca lhe contava, ela arrancava pensamentos. Uma sucessão de explicações para o que tinha acontecido entre eles no corredor dos figurinos e se a lógica daquilo era a que tinha em mente.

Bianca não era fácil de ler, mas era mestra em dar pistas sobre o que pensava e as fazia com tanta sutileza que nem mesmo Duca, que se gabava de conhecê-la tão bem, percebia. Enxergou porque ela quis assim, quando fez seu espetáculo particular para encantar apenas a ele e esclarecer a dúvida que pairava em sua cabeça desde o sorriso que trocaram naquele fim de tarde de verão, três anos atrás.

Bianca estava ali o tempo todo e também era bobamente apaixonada por ele, de uma forma infantil e piegas que destoava completamente das pessoas que eram ou viriam a ser. Uma lembrança que se tornara real porque ambos queriam assim e não sabiam exatamente como lidar com isso.

Se fosse realmente verdade Duca precisava tirar a prova.

Assim que os aplausos cessaram, depois de algum tempo soando incansáveis no teatro, Duca deixou Alan na plateia e foi ao banheiro. Lavou o rosto, arrumou a roupa e respirou fundo para que não parecesse muito desesperado para finalmente se declarar a Bianca. Ele ia fazê-lo e dormiria tranquilo depois de anos fazendo a mesma pergunta assim que deitava a cabeça no travesseiro. Estava pronto para a negativa, mas bem mais para a positiva. Bianca não brilhava aqueles olhos de gato para mais ninguém.

Atravessou o salão apertando o passo, quase correndo, mas respirou fundo e controlou a ansiedade de disparar até os camarins dos atores, não queria que o impedissem de entrar lá. Sorriu abertamente durante todo o trajeto, sendo aquele o momento que mais sonhou desde que a viu pela primeira vez. Era só o começo. Estava feliz e descontrolado, mas acima de tudo feliz.

Era a melhor sensação do mundo. E isso não é bom? Deveria ser, mas quando Duca adentrou área dos camarins depois do que pareceram horas para chegar lá, a tensão que sentiu não foi agradável.

Duca tinha duas imagens eternas em sua vida no alto dos seus pouquíssimos quatorze anos. A primeira sem dúvida era a avó caindo em pedaços quando soube da morte do filho e sua esposa, desmontando o conceito mais feliz que ele já tinha presenciado até então. A segunda era o sorriso mais lindo do mundo que Bianca deu quando se viram no parque pela primeira vez. A terceira estava ali, na sua frente, apertando seu peito e dando-lhe socos fortíssimos no estômago, como os que recebia de Alan quando lutavam juntos, treinando para os campeonatos da academia.

A única diferença é que agora Duca estava de guarda baixa.

Na ponta dos pés descalços e delicados estava Bianca, uma princesa de obras clássicas com os cabelos cacheados e caídos em seus ombros, se esticando ao máximo para alcançar a estatura de Alan, que até abaixava um pouco para beijar os lábios desenhados dela e sentir o gosto de cereja que Duca tinha certeza de ser o primeiro a experimentar. As mãos que antes acariciavam sua nuca numa declaração silenciosa agora abraçavam fortemente o tronco do irmão, uma tentativa de manter o equilíbrio enquanto ele ditava o ritmo do primeiro beijo da vida dela, que era de Alan mesmo que não devesse ser.

O sorriso esmaeceu na mesma hora e Duca saiu sem fazer barulho, seguindo o caminho para casa em completo silêncio.

Não dava para perder o que nunca teve, afinal.

Notas finais
Tenso né gente? hahahaha Tenho que dizer que foi muito difícil escrever a cena final do cap - as meninas que me conhecem sabem a Duanca roxa que eu sou e o quanto é difícil pra mim lidar com outros casais, mas como essa fic não é só flores e no saldo geral até que o capítulo ficou bem florido, bola pra frente :) Acho que a personalidade da Bia tá começando a se esclarecer para vocês. No próximo capítulo vamos saber bem mais, já o que o POV vai ser praticamente todo dela, como esse foi praticamente todo do Duca. Espero que gostem e comentem, pessoas! Volto em breve com mais um cap
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.