Corrupção da Realidade
1 A alvorada Denoxiana
Sexta-Feira. Normalmente é o dia em que eu saio pra beber com amigos. Mas, pra minha “sorte”, fui obrigado a fazer hora extra. Francamente, não sei por que me interessei tanto em trabalhar pro FBI quando era criança. Acho que é a sensação de estar fazendo bem para o mundo. Cuidando das pessoas e tal.
Meu nome é Daniel Warwick. Tenho 32 anos e estou a oito trabalhando para o FBI. Talvez os piores anos da minha vida, se não fosse a companhia da minha parceira, Midori Shouma. Ela se mudou com o pai, do Japão, quando tinha 9 anos e entrou na mesma escola que eu estudava, em Manhattan. Logo me tornei amigo dela, por termos muitos interesses em comum, sendo o maior deles o de jogar vídeo-game. Na época, eu tinha um console em casa – um ATARI – e convidava ela sempre que pudia para jogar na minha casa, até que nossos pais se tornaram amigos. O senhor Shouma era legal, mas numa discussão com meu pai, proibiu Midori de me visitar e trocou-a de escola. Tive a sorte de, 16 anos depois, reencontrá-la através de um MMORPG (Um tipo de jogo, Massive Multiplayer Online Roleplaying Game). Ela decidiu seguir a mesma carreira que eu e acabou se tornando minha parceira no FBI. O problema foi a dois anos atrás, quando ela desapareceu sem deixar rastros – apenas uma mensagem no jogo, Legend of Chaos (Ou LoC): “Estou te esperando”.
Nesse dia, minha vida começou a afundar: Os outros poucos amigos que eu tinha, haviam me abandonado. Fui rebaixado ao setor administrativo por ter atirado por engano em um agente durante uma perseguição. Meu pai faleceu. Tudo o que me restava era aquela mensagem no jogo. Perdi dias e noites tentando descobrir o significado daquilo, até que atingi o nível 300. Nesse dia, minha vida acabou.
Bem, minha vida no mundo real, pelo menos. Eu tinha passado várias noites no trabalho, jogando ao invés de trabalhar. Na verdade, era isso que eu fazia nas horas extras. Sempre. E a última vez que fiz isso foi quando atingi o nível 300 do jogo com meu personagem favorito – Azraetl, o Paladino Destruído. Quando o ícone do jogo que indicava um novo nível apareceu, a tela ficou escura e uma mensagem apareceu. Ela apenas dizia “dez minutos.” E, no fim desse curto período (Que parecia durar anos), eu simplesmente dormi.
Tive um sonho com a Midori. Ela me chamava para Denoxia, o mundo do jogo. E quando acordei, estava em um campo. Um mundo completamente diferente do que eu conhecia. A princípio, não fazia ideia do que estava acontecendo, mas ai olhei para o lado e vi ela, a personagem favorita de Midori, Luren, sentada. Ela olhava para mim, atenta. Chamei pelo seu nome, mas ela sinalizou um “não” com a cabeça.
– Você demorou. – Ela disse.
Então pensei... E se fosse a Midori? Arrisquei. Chamei-a, Midori. E então, ela olhou para mim e sorriu. Logo em seguida, pude compreender. Eu estava em Denoxia. Eu estava em Legend of Chaos. Fiquei muito confuso, afinal, como eu poderia estar dentro de um jogo? Olhei para minhas mãos e meu corpo, e percebi que estava vestindo a armadura de Azraetl. Levantei, assustado, e gritei.
– Que merda é essa!? Porque eu to no corpo do Azraetl!?
– Calma, Dan, calma. Eu explico tudo direitinho, okay? Só se acalma.
– Tá, tá, mas... Midori! — Eu a abraço. — Como você veio parar aqui!?
– Da mesma forma que você, Dan. Nível 300. O nível final. Eu também fiquei confusa a princípio, mas percebi que quando atingíamos esse nível com certo personagem, poderíamos entrar no corpo dele. Não faço ideia de como ou porque.
– Tá, entendi. Então estamos mesmo dentro do jogo?
– Sim e não. Como explicar... Bem, não estamos no mundo digital, como naquele anime que eu adorava. — Ela ri. — Mas sim, estamos no jogo. Só que em um mundo tão real quanto a própria terra. Estamos vivos e não estamos. Nossas mentes, pelo que parece, tomaram posse desses corpos. Você percebeu que, quando eu sumi, Luren simplesmente desapareceu comigo? Não estava na loja e ninguém mais usava ela. Porque? Porque eu "ganhei o corpo dela".
– Tá... Isso tá muito estranho... E não to me sentindo bem... Acho que vou apa... — Apagar. Desmaiei antes mesmo de terminar de falar.
Quando acordei, estava numa pousada no centro de uma vila. Casas simples, medievais, típicas da província de L'Étora, no jogo. Mais tarde, descobri que era exatamente aquele lugar. Desci as escadas e me deparei com Midori comendo um cogumelo azul. Se me lembro bem, era um item especial do jogo que concedia ao usuário um buff na regeneração de mana por 24 horas.
– Acordou, é? Tá pronto pra um "reconhecimento"?
– O que quer dizer com isso?
– O de sempre, sr. Agente do FBI. Vamos dar uma volta pra conhecer a vila. Dai posso responder qualquer outra dúvida que tenha.
– Tá, mas quero a minha velha espada de volta. Dei falta dela quando acordei.
– Do Azraetl? — Ela gargalha.
– Qual a graça?
– Existe algo que chamamos de "regra de transição". Segundo os estudos de alguns jogadores que vieram a mais tempo para cá, quando você assume a identidade de seu personagem, você recebe os itens dele de acordo com os atributos que você distribuía na criação do mesmo. Força, agilidade, inteligência e destreza.
– E o que isso tem haver com... Ah, entendi. Meus atributos.
– Entendeu, é? Agilidade e destreza. Lembro de que você só distribuía em força o necessário para usar essa armadura e empunhar aquela espada. Uma boa escolha, muito útil pro seu estilo de jogo, mas aqui isso se torna um problema. Você não vai ter a espada se não adquiri-la da mesma forma que fez no jogo.
– Entendo. Então o que estamos esperando?
– Tá apressado, hein? Você sabe que a quest pela espada só abria no inverno, e ainda é verão...
– To falando do reconhecimento, Mi.
– Ah, tá... — Ela ri, sem graça.
– Podemos parar em um ferreiro antes? Quero me equipar.
– Você tem gold? Vai precisar.
– Não, mas você tem. Não se preocupe. Quero apenas algo básico, algo pra poder sobreviver.
– Ok, mas só porque sou sua amiga. Vai ficar me devendo.
– Tudo bem, Mi.
E então, saímos. Compramos uma espada longa, simples, de 200 gold. Ignorei o pedido dela de ir na casa do chefe da vila e fui direto aos muros da cidade. Queria ver direito onde estávamos. Eu estava me fazendo de forte, mas na verdade, estava assustado. A única coisa que me acalmava era a presença de Midori. Sentia falta dela, e estar junto dela, finalmente, depois de 2 anos, era muito bom.
Nos muros, avistei aquilo que me parecia a coisa mais utópica que eu já vi na vida. Um grande campo, cheio de árvores. Um horizonte com montanhas tão cheias de vida quanto a grama do campo. Um lugar que exaltava paz.
– Podemos ir ver o ancião agora? — Ela pergunta, ansiosa.
– Sim, claro. Desculpa, eu só queria dar uma olhada por ai. Pra pensar direito no que tá acontecendo.
– Tudo bem, é que quanto mais cedo formos lá, mais cedo poderemos conseguir dinheiro pra você. Refazer sua vida.
– Então não vou mais nos atrasar.
– Relaxa, você vai ter todo o tempo do mundo pra ver o próprio, depois. Afinal, vamos precisar matar uns lobos.
– Espera, então os drops funcionam como no jogo?
– Sim, exceto com NPCs humanos. É como se as coisas aqui funcionassem numa mistura de mundo real com jogo. É meio complicado...
– Eu entendi, só acho estranho.
Seguimos conversando pro alguns minutos, logo chegando ao casebre do ancião. Estranhamente, apesar de aparentar ser uma residência pobre por seu exterior, ao entrarmos, percebi que aquilo escondia algo que se equiparava a uma mansão. Estátuas de prata, espadas com jóias entalhadas, uma verdadeira ostentação de riqueza. Não demorou muito até o cara chegar. Corcunda, baixinho, careca, com uma grande barba cinzenta. Ele logo veio nos cumprimentar.
– Olá, meu caro amigo. Seja bem vindo à aldeia de L'Étora. Sou o ancião Pettro.
– Oi, me chamo Dan... — Midori me dá um tapa nas costas.
– Psst. Azraetl, idiota. — Ela sussurra.
– Digo... Azraetl. Me chamo Azraetl. Obrigado.
– Luren, minha cara, é este quem você disse que viria?
– Sim, senhor. Ele só se atrasou um pouco.
– Meu jovem, creio que veio aqui para se registrar como aventureiro. Estou certo? — Ele questiona.
– Bem... Acho que sim, né...
– É sim, ancião. — Midori completa.
– Pois você só precisa escrever seu nome neste pergaminho, Azraetl. Então, e só então, lhe darei sua licença. — Ele estende sua mão e me entrega um grande pergaminho.
– É só isso? Bem simples...
Era o que eu pensava. Não poderia estar mais errado. Quando abri o pergaminho, um feixe de luz branca saiu dele e eu desmaiei. Novamente. Quando acordei, estava no meio do nada. Para dos os lados, só havia uma imensidão vazia. Me perguntei se estava morto. Não... Eu sentia uma leve brisa... Sentia meu coração pulsando bem forte... E então, uma voz ecoou no vazio.
– Daniel... Warwick...
– Quem está ai!? — Pergunto, assustado.
– Você conseguiu... 300... Parabéns...
– Onde você está!? Como sabe meu nome!?
– Azraetl te julgará... Adeus.
E então, acordei. Esses desmaios constantes me deixavam cada vez mais confuso, e me faziam questionar a existência daquele lugar. Cheguei a pensar que eu tinha ficado maluco e que aquilo era tudo uma grande alucinação criada pela minha mente pra suportar a saudade de Midori. Ela estava no meu lado com uma bolsa e a minha espada, esperando eu acordar.
– Então, "Azraetl irá te julgar", é? — Ela pergunta.
– Como sabe disso?
– Porque todos passamos por isso. Eu mesma, fui julgada por Luren.
– Entendi. Isso é problemático?
– Bem, não conheço nenhum caso de alguém que tenha sido rejeitado. Ainda assim, todo cuidado é pouco. As consequências disso são desconhecidas.
– Mas... Como funciona isso? Como eles nos julgam e porque julgam?
– Tipo, é bem complicado porque ninguém sabe direito. O que eu sei é que, em algum momento no futuro, Azraetl vai te testar de algum jeito.
– Okay.
– Escuta, você ficou um bom tempo dormindo. Eu não comi nada ainda.
– Sobre isso... Posso te pedir uma coisa?
– É o que eu estou pensando? — Ela sorri.
– Deve ser... Você pode?
– Com uma condição.
– Qual?
– Você pesca.
Ela sabia exatamente do que eu estava falando. Nos fins de semana que não passávamos jogando LoC, eu ia na casa dela pra degustar da incrível sopa de salmão que ela fazia. Receita da avó dela. Eu achava particularmente estranha, mas o gosto era simplesmente divino. Aquilo quase que instantaneamente se tornou meu prato favorito.
Midori me guiou até o rio e lá consegui pescar bastante. Infelizmente, descobri que seria impossível reproduzir aquela sopa neste mundo, por não termos as espécies de animais exatamente iguais às do mundo real. Mas valia a intenção.
– No caminho de volta, passamos pelo bosque, onde — no jogo — era um lugar repleto de monstros fracos, como javalis e lobos selvagens. Não demorou muito até encontrarmos uma alcateia. Saquei minha espada e ela começou a brilhar, tal como quando eu usava uma habilidade no jogo. Só que, como nada acontecia, imaginei que fosse alguma magia nova, passiva. Ignorei-a e comecei a matar os lobos cinzentos. Um a um, todos caíram, dando um total de 180 gold como recompensa. Voltamos, então, para a vila e eu decidi dormir enquanto ela preparava a sopa. Tive um sonho bem esquisito sobre Denoxia. Eu me via, no corpo de Azraetl, assassinando a Luren e alguém que eu não pude ver o rosto.
Acordei, e Midori estava no meu lado, sentada, com sua adaga em mãos. Assustado, gritei. Mas não foi um simples grito... Foi um... Rugido. Ela abriu seu livro de feitiços e conjurou uma magia de congelamento em mim.
– Daniel. Você consegue falar?
– C-cla...ro — Com muita dificuldade, eu respondi. Estava quase sem voz.
– Droga... Melhor não tentar falar. Espera, vou conjurar o feitiço telepata. — E ela o fez.
– O que está acontecendo, Mi!? Porque eu não consigo falar direito!?
– Calma, Dan... Eu preciso te mostrar uma coisa...
Ela pegou um pequeno espelho dentro de sua mochila e virou-o para mim, me mostrando um "eu" lobisomem. Fiquei aterrorizado, a princípio, então Midori cortou o feitiço telepata e conjurou outro de sono em mim.
Fale com o autor