Correndo em Círculos

42 Capítulo 42: Um Monstro


Notas iniciais
Oii liindas! Cá estou eu com mais um capítulo! Obrigada por exporem suas opiniões, é mt importante pra mim saber o que minhas leitoras gostam e querem. Desabafando, não shippava Bianca com ninguém antes, mas depois de ver Joanca juntos eu fiquei fissurada neles e agora que acabou to com o coração em farrapos. O que vcs acharam do desenrolar da relação deles? Música do capítulo: Monster – Imagine Dragons (fiz um vídeo Cobrade com essa música um tempo atrás, apesar de não ter muito haver com o capítulo, aqui o link pra quem quiser: https://www.youtube.com/watch?v=5_mCayaxrD0) Sem mais delongas, boa leitura!

Gael e Karina se decidiram por não abrir o envelope naquele dia, eles tinham muito mais coisas com que se preocupar.

A começar por Lobão e aquelas folhas que Ana escrevera.

Gael, como Karina já esperava, ficou desconcertado após ler as palavras da falecida mulher. Ela teve que, literalmente, segurá-lo para que ele não fosse até Lobão e o matasse com as próprias mãos. Fora difícil, ela mesma tinha essa vontade, mas ela conseguiu contê-lo depois de chamar Dandara e Bianca para ajudar. Elas não precisaram saber da história por completo para ficarem perplexas e estarrecidas. Bianca entrou em prantos e Dandara permaneceu com uma ruga no centro da testa pelo resto da noite, sempre do lado do namorado, massageando suas costas e dizendo que tudo ia ficar bem. João acalentou sua namorada em seus braços e Karina ficou assistindo a destruição de sua família com dor e culpa no coração.

No final das contas, ninguém conseguiu dormir, Karina contou sua ideia de denunciar Lobão mostrando as anotações de sua mãe e todos entraram no carro e foram até a delegacia. O delegado parecia desconfiado, não acreditava que aquela letra fosse de Ana e acabou mandando-os embora para que fizesse uma análise melhor da agenda.

Eles foram, acabados, todos com as expressões para baixo e os corações na boca.

Karina estava agora em sua cama, olhando para suas próprias mãos que pousavam em seu colo, sem piscar, os pensamentos flutuando por mil e uma coisas. Bianca a encarava, sem saber como começar a dizer o que queria. Ela solta um suspiro e então caminha até ela e senta na ponta de sua cama.

–- Agora eu entendi seu pesadelo. – sussurra, despertando a atenção de sua irmã.

Karina ergue o olhar e não consegue segurar a lágrima que escorre por sua face.

–- Não fica assim, O.K.? Nossa mãe foi feliz de qualquer forma e Lobão vai sofrer pelo que fez.

A loira suspira, desejando aquilo com a maior força que poderia.

–- Mas me dói de qualquer forma, Bi. Eu sinto que poderia ter feito alguma coisa. Sei lá... talvez lá no céu ou qualquer que seja o lugar de onde viemos, eu pudesse ter decidido não nascer e trazer todo esse sofrimento.

Bianca nega.

–- Para de falar bobagem. Não é como se nós soubéssemos como era lá no céu... quando ver você realmente não tinha escolha e quer saber de uma coisa? Eu prefiro assim, mil vezes ter a minha irmãzinha chata do que ser filha única.

–- Mas daí você teria uma mãe.

Bianca estala os beiços e se aproxima mais um pouco.

–- Para com isso, Karina. Ter você foi escolha da mamãe e a morte dela não tem nada haver com seu nascimento. Foi o próprio destino que disse que já era hora dela.

Karina bufa.

–- Pra falar a verdade, nem é isso que me incomoda. O que me incomoda é essa possibilidade de ser filha daquele monstro, ter o sangue dele nas minhas veias... ser fruto dessa desgraça.

Bianca arregala os olhos. Não havia ligado os pontos de que haveria aquela possibilidade, focara apenas na desgraça de sua mãe e se esquecera que havia mais essa. Ela não conseguia imaginar a angústia e ódio da irmã de existir essa possibilidade. A abraça, firme e forte, sem dizer mais nada já que não sabia o que dizer. Karina, mais uma vez, se mostrava muito mais forte do que ela. Sofrera naquele último ano, muito mais do que ela sofreria na sua vida inteira.

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Na manhã seguinte, Karina acordou antes de todo mundo, cedinho, cedinho, ou melhor dizendo, ela não acordou, pois não dormira a noite inteira, com medo de vê-lo novamente em seus pesadelos. O que não adiantou muito, o via a cada instante em seus pensamentos, com seus olhos viscosos sobre ela e a boca sempre dizendo o quão iguais eles eram, as mãos tentando alcançá-la como fizera com sua mãe.

Ela mandou uma mensagem para Pedro dizendo que estava ali e não demorou dois minutos, ele apareceu, com os cabelos bagunçados e os olhos estreitados de sono. Ela o abraça antes de tudo, quase o derrubando no chão, seus olhos molhando a camiseta do pijama dele. Ele a aperta contra si, tentando passar toda sua dor para ele. Maldito mundo que o impossibilitava de fazer isso!

Quando ela se afasta é para beijá-lo. Ele fica surpreso com sua atitude, mas diante dos gestos intensos dela, ele acaba por corresponder, ansioso. Ela morde seus lábios e puxa os cabelos de sua nuca antes de descer suas mãos até a barra de sua camiseta e tentar erguê-la para cima. E é ai que ele a interrompe.

–- P-para. – sussurra, ofegante.

Ela o faz apenas para olhar em seus olhos e então cair em prantos novamente. Ele a abraça firme contra seu peito e deixa que ela chore o tempo que precisa. Quando ela acaba, os dois entram na casa dele e se sentam lado a lado no sofá. A casa estava escura por não ser nem seis horas da manhã ainda e não havia um barulho sequer na rua.

–- Desculpa... eu só achei que desta forma eu fosse esquecer de tudo. – diz ela e ele assente. Também tentara fazer isso quando estava bravo com seu pai, mesmo que não tivesse admitido, sexo sempre parecia a saída para todos os problemas. Temporária, mas eficiente. Por isso não a culpava, ele até mesmo teria ido adiante se dependesse de seus hormônios, mas não queria se aproveitar da situação, sem falar que não havia lugar para eles fazerem isso, Tomtom estava em seu quarto e Bianca no dela.

Ele a abraça de lado e ela deita sua cabeça em seu ombro.

–- Eu mostrei a agenda pra todo mundo lá em casa, fomos para a delegacia e denunciamos o Lobão. – ele assente, enquanto acaricia seus cabelos loiros.

–- Então vai ficar tudo bem. Um dia vocês vão esquecer. – afirma ele, com convicção.

Ela solta um suspiro.

–- Talvez. O resultado do exame de DNA chegou lá em casa. Eu ainda posso ser filha daquele monstro.

Ele sente sua respiração entrecortar. O labirinto ficava cada vez mais difícil e ele não sabia mais o que dizer, por isso apenas a abraça firmemente contra seu peito tentando, mais uma vez, passar toda sua dor para ele.

–- O que você vai fazer? – pergunta ele, preocupado, depois de alguns minutos naquele impasse.

Ela vira sua cabeça para ele e sente um arrepio percorrer sua coluna.

–- Às vezes eu tenho vontade de não ter ido àquela clinica naquele dia e feito aquele maldito exame, mas agora que ele ta feito o que mais eu poderia fazer a não ser abri-lo e sobreviver com essa resposta?

Ele beija sua testa.

–- Eu só não quero que você mude. Que você duvide de si mesma por causa de suas origens ou se torne outra pessoa por causa dessa notícia.

Ela suspira.

–- Sinceramente, eu já to fazendo isso desde agora. – admite. – A ideia de ser filha do Lobão é cada vez mais comprovada pelo meu jeito. Não só a aparência, Pê, tudo. Eu sempre tive uma atração pela escuridão, desejava o mal para todos que me faziam sentir mal, que debochavam por eu ser masculina, elogiavam a Bianca e criticavam a mim. Até pra você já desejei o mal. Quando você me provocava, ou então insinuava que as outras garotas fossem mais interessantes que eu, eu te batia. Eu fazia isso porque queria que você sentisse alguma coisa, alguma dor de volta, mesmo que não emocional como era comigo.

Ele encara seus olhos azuis cobertos de água – como um oceano – e sente seu coração apertar ainda mais.

–- Todo mundo deseja o mal para os outros, Karina, nem por isso somos mal. Somos apenas humanos, odiamos, sentimos raiva, rancor e mágoa.

Ela o encara de volta nos olhos e fica em silêncio. Apesar de tudo, apesar de saber de todas aquelas coisas que todos insistiam em lhe dizer, ela ainda assim duvidava de si ou pelo menos, sabia que duvidaria caso aquele exame revelasse o que ela temia. As pessoas sempre falavam que puxavam determinadas características do pai e outras da mãe, era inegável que pudesse haver alguma maldade dentro dela, mesmo que ainda não houvesse sido revelada. Talvez, no fundo, Lobão tivesse algo de bom pelo qual ela poderia ter puxado, mas ao pensar na situação em que sua mãe passou ela duvidava por demais. Mesmo que ele tivesse, ela nunca conseguiria ver, nem nele, nem nela. Filho de peixe, peixinho é. Ela sempre odiaria a si mesma caso Lobão fosse seu pai.

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Naquele dia sua aula retornaria, o ano letivo iniciaria, mesmo assim não seria aquele dia que as coisas voltariam ao normal para Karina. Ela não precisou pedir permissão para Gael, ele mesmo achava que ela estaria muito abalada para começar a rotina de estudos naquele dia, por isso ela ficou em casa, atirada no sofá por umas boas horas, sem dormir ou piscar, apenas pensando no que faria a partir do momento em que abrisse aquele envelope. Envelope este que estava na sua frente, pousado em cima da mesa de centro da sala, apenas esperando para revelar seu futuro.

Ela bufa e sente uma força invisível empurrar seus dedos para o papel, não para abri-lo e então lê-lo, mas sim para rasgá-lo em pedacinhos. Mas sua curiosidade a impedia de fazer isso, ela queria saber, bem no fundo de seu peito, ela queria.

Passa as mãos entre os cabelos e os descabela, antes de se levantar de supetão e correr para fora de casa. Quanto mais longe daquele envelope ficasse, mais sua sanidade se manteria intacta.

Ela caminha até a praça e vê, ao longe, Dona Dalva e Nat conversarem animadamente – provavelmente a senhora havia enfim aceitado o namoro do neto e da lutadora, afinal, não adiantava que ela torcesse por Duca e Bianca, se ambos encontraram a felicidade absoluta distantes um do outro.

Ela solta um suspiro e então apressa o passo em direção ao QG. Precisava treinar e desabafar e a única forma que ela sabia que poderia fazer isso sem ser atrapalhada era com o amigo, que devia estar trabalhando no momento. Mas quando ela sente uma mão sobre seu pulso ela sabe que não treinará naquele dia.

Encara Nat, confusa.

–- Eu queria falar com você, Karina. – afirma a lutadora, encarando-a seriamente.

Dona Dalva, que até então encarava as duas, volta sua atenção para as revistas, sabendo que naquele assunto não era prudente se intrometer.

Karina solta um suspiro e então leva a garota para sua casa.

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Natália encara cada um de seus móveis com um brilho no olhar, como se nunca tivesse entrado em uma casa antes e Karina se senta despreocupadamente sobre o sofá enquanto ela sorri ao ver uma foto de Gael, Bianca e Ana ainda grávida de Karina.

Ela se senta ao seu lado, cuidadosamente e depois de um longo tempo em silêncio, diz:

–- Eu sei de tudo o que ta acontecendo.

Karina assente, com um sorriso irônico nos lábios. Quem não sabia?

–- E veio aqui só pra dizer que não importa se o Lobão é meu pai... blá, blá, blá... quem eu sou não muda... blá, blá, blá. Eu já sei de tudo isso e mesmo assim não consigo evitar sentir nojo de mim mesma.

A morena se remexe sobre o sofá, desconfortável. Não queria nunca estar na pele de Karina num momento daqueles, viver com Lobão todos aqueles anos e deixá-lo tocá-la sabendo quem ele era já fora repulsivo o bastante. É claro que ela nunca imaginou que ele fosse fazer o que fez com Ana. Talvez aquilo tivesse sido a pior das coisas que ele fizera, mas o que ela vira já fora ruim o bastante.

–- Eu não vim pra falar isso. – afirma ela com convicção. – Apesar de ser verdade que você não devia ligar para o fato de Lobão ser seu pai – se ele for --, você não devia deixar que aquele homem vencesse sobre você. Você não o odeia que nem eu?

–- É claro que sim. – se apressa Karina, em dizer.

–- Então não deixe ele mudar você, te fazer duvidar de si mesma. Ele não merece esse voto de confiança. O que ele merece é que você se mostre superior, mostre que nada importa, você é boa.

Karina solta um suspiro e não fala nada.

–- Mas como eu disse, não vim aqui para isso. – diz Natália, despertando sua atenção.

Ela se curva em direção à morena, curiosa e a encara profundamente nos olhos, crendo que o que ela diria poderia tirar aquele peso de suas costas, aquele amargor de sua boca.

–- Você não pode se esquecer de uma coisa, Karina, eu não posso deixar que você sofra por algo que tem a capacidade de ser uma farsa.

A loira franze a testa, sentindo seu coração acelerar de nervosismo.

–- O Lobão é traiçoeiro, ele engana as pessoas rápido como um tigre mata uma formiga. Ele já havia te mostrado um exame que comprovava que ele era seu pai.

A pequena assente, quase sem piscar.

–- Quando eu fui na polícia mostrar todas as provas contra ele, uma das coisas que levei foi esse exame de DNA. Não porque eu sabia que era uma farsa, mas porque eu suspeitava. E estava certa. De alguma forma ele conseguiu fazer uma réplica perfeita à do laboratório.

Karina franze a testa, confusa.

–- O que você quer dizer?

–- O primeiro exame era uma farsa... quem te garante que esse segundo exame não seja também, Karina? E eu não quero que você sofra pensando que ele é seu pai, se o resultado pode ter sido inventado por ele.

A mais jovem olha para baixo, sem saber o que dizer ou até mesmo pensar. Ela poderia estar sendo enganada e não ter a resposta verdadeira em suas mãos.

–- O que você sugere, então?

Natália fecha os olhos antes de responder:

–- Eu sinceramente não sei. A única coisa que eu sei é que não quero ver mais ninguém sofrendo por causa daquele homem. Se houver o nome de Lobão naquele resultado, não quero que você se culpe por um segundo sequer, quero que você saiba dessa possibilidade para que isso não aconteça.

Karina sorve uma grande quantidade de ar antes de ver a garota se levantar para partir, ela segura seu pulso, atraindo sua atenção e a morena encara seus olhos chorosos com dor no coração.

–- Obrigada de novo. – sussurra a jovem. – Eu mal te conheço, mas sinto que lhe devo uma vida.

As duas sorriem uma para a outra e então Nat se curva e lhe dá um abraço meio desajeitado.

–- Você pode me pagar com sua amizade. Sinto que temos muita coisa em comum. – diz a mais velha, sincera.

Karina sorri ainda mais para ela e seca uma das lágrimas que beiravam seus olhos. E assim, Natália vai embora daquela casa, mas não do coração da jovem lutadora, que descobria haver cada vez mais espaço dentro de si, primeiro para sua família e então para Pedro, Dandara, Cobra, Jade e agora Natália. Ela era infinita e por isso já sabia o que faria naquela noite, quando seu pai chegasse em casa.

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Gael estava fulo da vida, mesmo assim passou aquele dia mascarando seus sentimentos no ringue. Até que as pessoas abaixaram a guarda em sua volta e à tarde, na hora em que ele deveria almoçar, entrou em seu carro e dirigiu decididamente em direção ao seu destino.

Com essa mesma expressão séria desceu do carro e depois de ser revistado e de ter os bolsos esvaziados, entrou em uma pequena sala, quadrada, escura e mal-acabada, onde havia apenas uma mesa de metal no centro e duas cadeiras – uma das quais já estava ocupada -- frente a frente.

Ele se senta em frente à Lobão e respira fundo ao constatar o quanto queria estrangulá-lo.

–- Bom te ver, meu amigo. – diz o prisioneiro, com um sorriso sarcástico entre os lábios. Era quase como se fosse Gael o homem que dormiria entre os ratos aquela noite, não ele.

O moreno permanece sério, travando uma batalha dentro de si para que não perdesse o resto de sua paciência.

–- À que devo a honra de sua visita?

–- Você sabe à que. – afirma o mestre Gael, calmamente.

Lobão ergue uma sobrancelha e se curva sobre a mesa.

–- Hm... sabe que não me vem agora nenhuma razão para estar te vendo?!

E isso é o que basta para que Gael se enfurecesse, bate furiosamente sua mão sobre a mesa, causando um baque tão alto que o policial que aguardava na porta entra na peça e encara-os, assustado.

–- Desculpe-me... foi um pequeno acidente. – diz o moreno, constrangido.

O policial apenas assente, e os deixa á sós novamente.

Lobão ri.

–- Você continua careta, em? Por que ainda não quebrou a minha cara?

–- Você sabe muito bem porquê. – responde Gael, olhando de soslaio para a porta. – Eu não quero ficar no mesmo prédio que você. Agora já ta sendo demais pra mim.

Lobão ri mais alto dessa vez.

–- Mesmo assim – ele se curva novamente sobre a mesa, o movimento de seus braços fazendo as algemas tilintarem ao fazerem contato com a mesa de metal. --, eu comi sua mulher, esqueceu?

É preciso a força de mil elefantes, dois mil leões e cinco milhões de dinossauros para que Gael não se levante daquela cadeira e esgane o homem em sua frente. Ele fecha os olhos com tanta força que as lágrimas escapam quando ele os abre novamente, suas unhas, mesmo curtas, deixando marcas profundas nas palmas de suas mãos.

–- Por que você fez isso? Nós éramos amigos, parceiros. Não havia Gael sem Lobão, nem Lobão sem Gael, lembra? Nós éramos imbatíveis.

Lobão sorri.

–- Éramos. Falou certo. Éramos até aquela desgraçada da Ana aparecer e então você se esqueceu do seu sonho e de todos nossos planos de dominar o mundo da luta.

–- Eu não me esqueci de meu sonho. Meu sonho apenas mudou, eu mudei e não havia espaço para ser um fora da lei como éramos. Eu me toquei do quão errado eram as coisas que fazíamos, que podíamos ser melhor que aquilo. Mostrar para o mundo que Muay Thai é sobre força e honra, não sobre drogas e dinheiro de lutas clandestinas.

O ex mestre da Khan revira os olhos.

–- Era tão melhor quando você não era certinho. – cospe ele, enojado.

As narinas de Gael se dilatam e ele se curva também sobre a mesa, encarando seu inimigo frente a frente.

–- Era tão melhor quando eu podia confiar em você. Mas você não presta, Lobão, é um verdadeiro lobo faminto por sangue e vingança. Eu nunca me decepcionei tanto quanto me decepcionei com você.

O outro se afasta, sentando-se contra a cadeira novamente, sua expressão indecifrável naquele rosto maquiavélico. Gael encara curiosamente seus olhos, ódio saindo por cada um de seus poros, mas acima de tudo a curiosidade. Lobão estava esquisito naquele dia, ou talvez fosse sua imagem dele que o estivesse. Eles poderiam sempre brigar e se odiar, mas para Gael aqueles sentimentos nunca haviam sido tão reais quanto naquele dia. Ele não via mais nada de seu melhor amigo naquele homem.

O lobo seca seus olhos com raiva e vergonha. Ele poderia fazer todas as maldades do mundo, mas chorar na frente de Gael lhe trazia muito mais vergonha.

–- Fala de uma vez o que você veio falar. – pede ele, ríspido.

Gael solta um longo suspiro antes de fazê-lo:

–- É verdade? É verdade o que você fez com a Ana? Que você forçou ela? É verdade que Karina pode ser sua filha?

Lobão fecha a cara, encarando os olhos marrons estreitos de seu antigo amigo, derramarem várias lágrimas e assim mesmo, Gael não fazer menção de secá-las.

Ele apenas assente.

–- Mas o exame, você não forjou o exame?

–- O primeiro sim, mas o segundo não deu tempo, ou você se esqueceu que eu fui preso no mesmo dia em que fizemos aquele maldito exame de DNA? – responde o ex mestre da Khan, ríspido.

Gael passa a mão pelos cabelos, desesperado.

–- Por quê? Por que você não foi simplesmente virar o mestre que queria, conquistar o mundo da luta como queria? Por que você tinha que vir estragar a minha vida?! – murmura ele, furioso.

–- Por quê?! Aquela desgraçada da Ana nunca me quis, mesmo eu sento bonito e cortês, mas ai aparece o idiota do Gael, com seu jeito grosso, e ela cai de amores por ele. – ele sorri. – Mesmo assim foi comigo que ela teve a filha mais linda e forte, não é? A grande lutadora da família.

Gael solta a respiração, sentindo seu coração se dilacerar, encara profundamente os olhos traiçoeiros do homem em sua frente.

–- Você tem inveja de mim! – acusa ele.

–- Não, Gael, eu tenho nojo de você! Você tinha tudo pra ser o melhor, mas resolveu limpar bumbum de neném e virar papai de família.

O mestre Gael nega com a cabeça, desacreditando que aquele realmente fosse a única razão para toda aquela maldade.

–- Eu só espero que você tenha o destino que merece diante de tudo o que fez. Ana não merecia aquilo, nem Karina, elas não têm nada haver com a nossa rixa. – diz, cheio de dor, vendo o homem em sua frente cair na gargalhada.

–- Não mereciam?! Aquelas putas deviam sofrer muito mais! – retruca Lobão, cheio de raiva, seus olhos deixando lágrimas de raiva escaparem por seu rosto.

Gael se levanta de supetão.

–- RETIRE O QUE DISSE! – grita, transtornado.

Lobão o encara, enojado.

–- AQUELAS VAGABUNDAS NÃO MERECEM SUA ATENÇÃ... – mas antes que ele completasse sua fala, Gael pula por cima da mesa de metal e desfere um soco tão forte em seu rosto que ele cai no chão com cadeira e tudo, a mão ainda pendurada no pé da mesa. Gael sobe seu corpo por cima do dele e gruda suas mãos em seu pescoço, mas antes que o rosto de seu inimigo perdesse a cor, vários guardas entram na sala e apartam a briga, levando o mestre para bem longe de seu inimigo.

Lobão ri, mesmo desconcertado fisicamente.

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O delegado permitiu que Gael fosse para casa, depois dos pedidos imploradores do homem para que não fosse preso e no caminho para a saída ele passou pela enfermaria onde os ferimentos de Lobão eram tratados por uma velha morena. Gael não vira seu inimigo, transtornado como estava com as notícias daquele dia, mas Lobão o fizera, e se fizera.

Sem que a mulher tivesse tempo de raciocinar, ele ergue a mesa em que suas algemas estavam agarradas – um desleixo dos policiais, diga-se de passagem, serem tão descuidados com um homem como Lobão -- e as tira pelo pé, apertando seu braço contra seu pescoço até que o oxigênio falte em seu cérebro e ela caia dura contra o chão.

Os guardas escutam o barulho e correm em direção ao lugar, mas o ódio pode mover montanhas, principalmente se ele vier de um lutador faixa preta. Lobão nocauteou cada um deles com eximia rapidez e habilidade e cinco minutos depois de ver Gael, escapou para fora da prisão com as chaves de um dos seguranças agarradas entre seus dedos.

Ele aperta o botão do alarme e descobre que a pessoa que desmaiara possuía um Palio Fire 2015. Ele entra no carro e não demora a arrancá-lo daquele lugar com rapidez.

Consegue ver a placa que decorara de Gael bem a sua frente, dois carros de distância e acelera mais um pouco, fazendo várias pessoas apertarem suas buzinas e o xingarem.

Ele não liga, apenas sorri mais, antenado em Gael, tão perto, mas tão longe. Ele era doente, mas ninguém sabia. Talvez Nat tivesse chegado perto de descobrir que não havia apenas ódio em seu coração. Era um homem perigoso e ciumento, além de preconceituoso, por isso não conseguia aceitar a si mesmo. Aceitar que o que sentia por Gael era mais do que ódio, ele amara aquele homem, quando jovem, e quando o viu com Ana não sentira inveja, pelo menos não dele. Mas, além disso, era uma pessoa rancorosa e com grandes problemas psicológicos, ele queria se vingar por tudo o que Gael fizera, por fazê-lo sentir aquelas coisas que ele não se permitiria sentir jamais, sendo o macho alfa que era. Mas tudo o que conseguiu fazer foi se quebrar ainda mais, principalmente quando ele aperta o pé no acelerador, fazendo o carro chegar a 200 Km por hora. Olha para o lado, bem a tempo de ver a luz forte de um automóvel cegar os seus olhos e então, um caminhão envolver o carro em que estava e seus olhos nunca mais enxergarem o ódio ou a mágoa, e até mesmo Gael. Ele enfim tivera o fim que merecia.

Notas finais
Siiiiiimmm, Lobão morreu! E siiiiimm, ele era maníaco por Gael simplesmente pq não conseguia admitir que gostava dele. Espero que vcs tenham gostado da morte dele e de como a história recorreu, agora, acima de tudo, estamos super no final e sinto mt por não ter posto o resultado do exame nesse capítulo, mas eu me empolguei escrevendo e ele ficou muito comprido já sem essa parte. No próximo definitivamente essa parte da história vai acabar. Por favor, comentem rápido. Postarei o próximo assim que tiver uns 10 comentários! OBS: no próximo postarei a capa da segunda “temporada” da fic. Bjjjjsss