Corrói
1 único • a culpa
A música alta ecoava dentro da casa, me deixando louco. Eu nunca fui um grande fã de música alta, muito menos música eletrônica alta, então assim que pude – assim que Steve se distraiu e me deixou sozinho – saí fora da casa. Era obvio que eu não tinha sido o único a cansar da melodia ecoando e saído, outras pessoas já estavam no quintal, sentando ao redor da piscina com suas garrafas de cerveja, se livrando nos ternos e vestidos e aproveitando para dar uns "amassos". O cheiro de bebida misturado com o odor de vomito já infestava o lugar, o que fez com que eu me afastasse ainda mais. Encontrei a grama limpa e vazia ali perto, onde pude me deitar e observar o céu escuro, outra coisa que eu odiava em cidades grandes era o fato de que era quase impossivel se ver estralas no céu, pois a iluminação artificial atrapalhava o brilho natural do céu, mesmo que essa noite estivesse nublada, praguejei por morar na cidade.
— Daqui a algumas horas, vai começar a chover, e você vai se molhar se ficar aqui — a voz masculina dele sussurrou ao meu lado, nem me dei o trabalho de virar meu rosto para ver quem era, eu reconheceria a sua voz mesmo em uma multidão — E a proposito, você está muito bonito hoje a noite.
— É mesmo? — perguntei, meio incerto, nunca soube como reagir a um elogio e por isso raramente recebia um, as pessoas sentiam-se necessitadas de agradecimentos, coisa que eu nunca fiz — Você já me viu com esse terno, não tem nada demais nele.
— Então, isso significa que você está sempre muito bonito e não é culpa do terno — insistiu ele, segurando o riso — Mas não estrague o terno o molhando, é um bom terno.
Estiquei meu braço, abrindo-o como se fosse fazer um anjo de neve, o que era impossivel já que era verão e não tinha neve, e sim a grama verde e úmida debaixo de meu corpo. Fechei os olhos e pude sentir os dedos calejados dele tocarem levemente minha mão, quase senti doçura em seu toque, mas tal nem chegava a ser real.
— Eu vou ir embora — sussurrou entre um soluço, abri os olhos e vi seu rosto, lágrimas escorrendo por seu rosto marcante, de traços fortes. Ele era tão lindo, mesmo quando chorava — Você não vai mais me ver...
— Você já foi embora — murmurei ao recolher minha mão, pousando-a em meu peito e sentindo meu coração batendo forte contra o peito, doía sentir aquilo, doía lembrar do que tinha acontecido – Você está morto.
E ele desapareceu do mesmo jeito que apareceu, sem som de rastros, apenas um borrão que perdeu forma, apenas mais uma alucinação que a culpa que me corroía por dentro me causava.
Logo em seguida choveu, como ele previu. E eu me molhei na chuva, como ele recomendou que eu não fizesse. Mas eu fiz, outra vez indo contra o que ele queria.
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