Corpos Luminosos
1 Corpos Luminosos
Corpos Luminosos
Se há algo que eu preciso dizer antes de tudo o mais – e o “tudo o mais” é uma longa história – é que eu fui uma criança muito imaginativa. Do tipo que vê dragões nas nuvens, ou que pensa que o jardim de infância é uma prisão especial para crianças no seu primeiro dia de escola, ou que vê pequenos objetos com luz própria dentro das pessoas. Espera. Eu já falei dos objetos luminosos dentro das pessoas? Bem, é exatamente sobre isso que essa história se trata.
Eu via desde o jardim de infância. Na verdade, desde que me entendo por gente. Na maioria das vezes apareciam pequenas luzes amareladas na altura de onde hoje eu sei que são os sinos nasais e/ou nos pulmões, e sempre que tal pessoa espirrava saíam faíscas daquele tom amarelado para todos os lados! Eu parava e observava aquela luminosidade flutuar no ar, encantado com tamanha beleza. Aos sete anos de idade cheguei a perguntar para minha mãe o que era aquilo. “O que são aquelas luzes na barriga daquele homem? ”, eu perguntei uma vez na rua, na volta da escola para casa. Minha mãe disse que não via luz nenhuma. Eu devia estar com algum problema de vista. É, talvez fosse isso. Mas porque eu continuava vendo as luzes em pessoas diferentes, de lugares diferentes? “Vou ter que te levar ao psicólogo”, disse minha mãe.
Aos treze anos eu via o psicólogo semanalmente. No início eu não consegui me decidir muito bem se contaria ou não sobre a luz dourada que eu via brilhar num ponto específico do peito dele. Era como uma pérola, mas era dourada, e a luz que emanava era muito forte. À medida que as semanas se passavam, a pequena pérola dourada aumentava de tamanho, até que um dia iluminou todo o seu coração e ele teve que me indicar uma psicóloga por motivos de saúde – que por sinal não emanava luz nenhuma e assim era mais difícil para eu me livrar da vergonha e encará-la nos olhos, já que ela não tinha um ponto luminoso onde eu podia me focar. Aos 14 anos descobri que meu primeiro psicólogo havia morrido de ataque cardíaco.
No início eu não fazia nenhuma ligação entre as luzes e as doenças, mas certo dia aos 17 anos eu fui visitar meu avô materno em sua casa de praia, e ao chegar lá, me deparei com uma forte luminosidade dourada em seu estômago. A essa altura da vida eu já sabia o que era cada órgão do corpo humano, cada pequeno pedaço que se une um ao outro, cada pequena ou grande peça, como um quebra cabeça formando a grandiosa máquina que é o ser humano. Eu não sabia, mas ele havia sido diagnosticado tardiamente com câncer no estômago. Ele morreu um mês depois, no hospital. Foi aí que eu comecei a ligar os pontos.
Todas as pessoas que eu via brilhar – cada uma dela num lugar diferente do corpo – sofriam de alguma doença. A luz amarelada nos sinos nasais e nos pulmões queria dizer “oi, sou eu, a gripe! ”. A luz forte e altamente brilhante que eu via no meu psicólogo significava que ele tinha poucos dias antes do ataque cardíaco. Se eu conseguia ver um brilho no intestino, aquela pessoa estava com verme. Ou, se o brilho fosse maior, um câncer. Levemente amarelado para doenças leves, altamente dourado e brilhante para cânceres ou outras coisas graves.
E as doenças me perseguiam por todos os cantos onde eu passava. A loucura da inevitabilidade me tornou um ser antissocial, apático, sozinho. Eu podia enxergar os órgãos afetados, conseguia distinguir que tipo de doença era, mas não conseguia curá-los. Eu não gostava disso. Não gostava de prever doenças as quais eu não podia curar. Foi por isso que entrei na faculdade de medicina. Na verdade, esse foi apenas um dos motivos. O outro, você leitor conhece bem: a pressão dos pais.
Eu esperava que com o nível de conhecimento de um médico, eu fosse capaz de driblar a morte. Mas às vezes as doenças apareciam e levavam as pessoas com tamanha rapidez, que a única coisa que me restava era a inevitabilidade.
Aos 24 anos eu decidi me livrar da apatia e entrar num desses aplicativos de encontro, o Tinder. Mas todos os caras com quem eu me relacionava, sem exceção, uma hora ou outra acendiam em luzes por todo o corpo. Parecia que eu atraía as doenças para as pessoas. E eu não conseguia me relacionar, não sabendo que aquelas pessoas poderiam morrer a qualquer momento.
Foi então que eu o conheci. Seu nome era Rafael, como um dos quatro arcanjos. Se ele era bonito como um anjo? Sim. Seu sorriso iluminava meu rosto, e não com as luzes que eu costumava ver nas pessoas. Ele emanava um tipo de luz própria e uma vibração boa, que eu conseguia sentir só de ver o seu rosto. Nos encontramos a primeira vez num parque da cidade. Ele só sorria, enquanto me contava suas histórias de infância, e eu só prestava atenção naquele sorriso e tentava mantê-lo naquele humor cordial e sincero que eu adorava. Os dias se passavam e eu não via nada. Nenhuma luz, nem amarelada, nem dourada. Parecia mágica, ele era completamente saudável e feliz!
Certo dia, quando já parecia inevitável, eu o convidei à noite para dormir na minha casa. Ficamos certos de que eu o apresentaria meus pais, e depois conheceria os dele. Ambas as famílias eram completamente amigáveis com a questão da sexualidade, o que facilitou muito minha vida, acho.
Depois de um jantar maravilhoso – todas as coisas ao lado dele eram maravilhosas – fomos para o quarto. Ele parou, se encostou no batente da porta e me observou com aquele sorriso que nunca saía de sua boca enquanto eu arrumava algumas coisas de última hora. Minha intenção era ter uma noite perfeita. Então ele entrou e pegou um livro que eu tinha deixado na mesa de cabeceira. “Por que você lê essas coisas de gente doente?”, ele perguntou. Boa pergunta. Eu já via gente doente demais por aí, para ler essas coisas. Tratava-se da minha cópia de A Culpa é das Estrelas.
“Na verdade, foi uma indicação”, eu respondi. “Mas eu até estou gostando”, eu disse com sinceridade.
Enfim nos deitamos. No início foi estranho, estar ali com alguém que eu adorava. Minha apatia usual deu um salto enorme para a sociabilidade com o Rafael. Nós visitávamos muito o parque onde nos conhecemos, e eu já conseguia me enturmar com as pessoas, mesmo que as luzes que eu via nelas me ofuscassem a vista às vezes. Acredite, a maioria das pessoas tem alguma doença, se não física, emocional. E eu conseguia ver os descontroles hormonais que causavam TPM nas mulheres, ou até mesmo a depressão. Mas sobre estar ali no meu universo particular com Ele, foi único. Conversamos, como sempre, sobre ele. Eu não gostava de falar muito de mim. Me achava desinteressante, apático – e eu era.
Em algum ponto das histórias nós começamos a nos beijar e as coisas ficaram quentes. Ele tirou minha camisa com aquela delicadeza angelical, e beijou meus mamilos. Eu estremeci sentido a umidade e seus lábios finos naquela região. Eu não sabia da sensação que aquilo podia me causar, mas deixei que ele o fizesse. Então eu fiz o mesmo com ele, um pouco mais desajeitado, inexperiente, sentindo o calor de seu peito em meus lábios. Enquanto eu fazia isso, ele passava as mãos pelos meus cabelos. Foi ai que ele parou por um segundo e me deixou mais desconcertado ainda.
“O que foi?” eu perguntei. “Nada”, ele respondeu, mas parecia preocupado com algo. Ele me puxou mais pra perto e sorriu, então eu me derreti novamente. E nos beijamos de novo. Foi uma noite de amor como a de muitos casais por aí, com exceção de que eu estava radiante ao seu lado. Cada pequeno átomo do meu corpo vibrava querendo mais, e eu o abraçava forte, quase querendo me agarrar a ele e não soltar nunca mais. Então eu caí no sono ao seu lado, querendo mais, mas muito cansado para continuar. Ao final de tudo, ele me embalou num sono profundo, mexendo em meus cabelos.
No meu sonho eu ouvia pássaros. No começo era só escuridão. Então eu estava numa praia abandonada, e haviam casas por todos os lados. As casas as quais tinham janelas abertas, tinham as portas fechadas, e as casas que traziam suas portas abertas, tinham as janelas fechadas, mas parecia tudo abandonado. Eu estava numa ilha abandonada?
Então eu corri até as casas, estava procurando por ajuda. Fui até uma casa que tinha sua porta fechada, e a abri com cuidado. Ao mesmo tempo, vi a janela se abrir num estalo. Não entendia o porquê daquilo, mas no momento eu só queria ver alguém, então entrei. Havia uma escadaria enorme que levava obviamente à parte de cima da casa. Então um homem bonito, tão bonito quanto Rafael, desceu as escadas com tamanha facilidade, que me deixou embasbacado. Ele tinha asas? Eu não conseguia vê-las direito. Ele se aproximou. “Meu pobre rapaz, o que procuras aqui, não poderás encontrar em lugar algum”, ele disse em uma voz potente e angelical.
Ele saiu da casa e caminhou até a praia, e eu o segui. “Espera! Você é o único morador daqui?” De lá, apontou para as casas. “Não percebe que se as portas se abrem, as janelas se fecham?”, ele respondeu. Eu apenas assenti. Não havia muito o que dizer, e eu não entendi o porquê daquilo.
Uma luminosidade intensa me acordou. Parecia o sol. Já era manhã. “Droga, eu não quero acordar”, pensei. Abri os olhos. O quarto estava iluminado, mas da janela eu não via nenhuma luz.
“AH NÃO!” Talvez aquilo fosse um pesadelo. Talvez eu não tivesse acordado ainda. Eu virei para checar meu parceiro e me deparei com a intensa luz dourada que emanava do seu cérebro. Ele dormia como um anjo, meio sorrindo, mas um tumor enorme já tomava grande parte de sua cabeça. E o quarto inteiro ganhou aquela luz a qual eu odiava. Eu comecei a chorar baixinho rezando pra que aquilo não acontecesse comigo, nem com ele. Mas era real. Eu já tinha visto acontecer com pessoas demais para negar que era verdade. Ele estava prestes a morrer.
Eu não dormi o resto da noite. Ao acordar, ele percebeu meu estado, e perguntou sobre. “O que foi, Daniel, o que você tem?”. Eu só conseguia chorar. Ele me abraçou. “Quero que saiba que seja o que for, nós enfrentaremos juntos!”, ele exclamou. Eu chorei mais ainda. Eu reconhecia um câncer incurável quando via um. Ele não tinha chances. Talvez tivesse algumas semanas de vida. Mas como aquilo tinha surgido do nada? Talvez eu fosse o culpado. Talvez eu trouxesse mesmo a doença para as pessoas.
Depois de um tempo ele conseguiu que eu me acalmasse, e me perguntou novamente: “O que houve?”
“Você não vai acreditar em mim!”, eu exclamei. E ele não acreditaria mesmo.
“Me teste!”, ele respondeu.
“Rafael, eu não sei te explicar como, nem porquê...” Ele assentiu. Parecia já saber do que se tratava, mas estava tão espantado quanto eu.
“Como você sabe?”, ele me interrompeu.
“Como eu sei do quê?”, indaguei, confuso.
“Daniel, você é como eu?”, ele perguntou, exasperado.
Então, eu me lembrei de quando ele passou a mão na minha cabeça e estancou durante o sexo na noite passada. Ele também conseguia prever doenças? Ou senti-las, de alguma forma? “Eu consigo prever doenças”, respondi. “Você também?”
Ele fechou os olhos, sua expressão ficou tensa. “Bem, eu não só posso sentir, como também posso curá-las”. Eu estava boquiaberto. Ele era minha salvação!
“Então você pode também curar a si mesmo?”
“Não é assim que funciona, Daniel”.
Eu entrei em desespero novamente.
“Se eu curo alguém, eu contraio aquela doença para mim”.
Era isso! Ele tinha “roubado” meu câncer! Eu devia estar doente, e não ele!
“Devolve pra mim!”, eu exclamei. “É o meu câncer, eu devo morrer, e não você!”
Ele me perguntou como eu conseguia ver. Ele estava calmo agora, e eu não entendia tal calma. Então eu lhe contei sobre as luzes e as doenças. Ele me contou que as sentia através de uma vibração, ao tocar na parte infectada. Foi por isso que ao acariciar meus cabelos na noite anterior ele pareceu preocupado.
“Você não tem esse direito! Não pode escolher morrer por mim!”. A essa altura eu só chorava, e falava com a voz embargada pelo choro.
Ele pegou meu livro de cabeceira. A Culpa é das Estrelas. Começou a folhear as últimas páginas, estava procurando por algo. “Em algum lugar no final deste livro”, ele começou, “há algo sobre escolher quem vai te machucar e aceitar suas escolhas”. “As marcas que os seres humanos deixam, são com frequência, cicatrizes”, ele leu “Não dá pra escolher se você vai ou não se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo. E eu aceito minhas escolhas”.
“Espero que também aceite as suas, Daniel”.
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