Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo

14 Luz de Velas, Jogos de xadrez e o Charme do Inimigo



​O entardecer pintava os céus de La Push em tons de violeta e dourado. Após o tumultuado e envergonhado café da manhã, a rotina real cobrara seu preço: reuniões com o conselho, vistorias nas províncias e compromissos diplomáticos mantiveram o Duque e a Princesa separados pelo resto do dia.

​Quando a noite finalmente caiu, Jaqueline retornou ao seu aposento. Para sua surpresa, o quarto não parecia um campo de batalha, mas sim um refúgio acolhedor. A lareira estalava mansamente, queimando lenha de carvalho perfumada. Sobre a mesa de centro, repousava uma bandeja com chás aromáticos, uvas doces, queijos finos e um tabuleiro de xadrez de marfim e ébano.

​Bernardo estava sentado na poltrona de veludo diante da lareira. Ele já havia se livrado da pesada farda militar e vestia apenas uma calça macia de algodão escuro e uma camisa de linho azul-claro, com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os antebraços, revelando pulsos fortes e marcas discretas de cicatrizes de treino. Ele lia um livro antigo e, ao ver a esposa entrar, fechou o exemplar com calma, oferecendo-lhe um sorriso sereno — sem a petulância habitual da manhã.

​— Boa noite, Vossa Graça — disse Bernardo, a voz suave ressoando confortavelmente pelo quarto aquecido. — Pedi para preparem um chá para você. Imaginei que o dia com o conselho financeiro tivesse sido exaustivo.

​Jaqueline parou na entrada, desconfiada, como uma gata que encontra uma tigela de leite no meio de uma armadilha. Ela tirou a capa pesada, deixando-a sobre uma cadeira, e aproximou-se devagar.

​— O que é isso, Bernardo? — perguntou ela, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha. — Uma trégua? Ou você colocou algum soro da verdade no meu chá para eu confessar que o seu cabelo estava arrumado hoje de manhã?

​Bernardo soltou uma risada baixa e melodiosa, balançando a cabeça.

​— Sem tramas, Jaque. Apenas uma noite tranquila. Prometi que respeitaria seu tempo e não pretendo passar todas as nossas noites correndo atrás de você ao redor da cama — disse ele, indicando a poltrona vaga do outro lado da mesa de centro. — Sente-se. Vamos conversar como dois adultos civilizados que, por acaso, compartilham um reino e um sobrenome.

​Ainda meio hesitante, Jaqueline acomodou-se na poltrona. Ela pegou a xícara de chá quente, deixando o aroma de camomila e mel acalmar seus nervos. O silêncio que se seguiu não era tenso, mas estranhamente confortável.

​— Um jogo? — propôs Bernardo, tocando em uma das peças do tabuleiro de xadrez. — Se você vencer, eu prometo dormir no quarto de hóspedes amanhã à noite.

​Os olhos verdes de Jaqueline brilharam imediatamente.

​— Aceito! Mas se você perder, não vale inventar regras da guarda real para se safar!

​— Fechado — sorriu o Duque, movendo o primeiro peão.

​O jogo começou lento e estratégico. Conforme os minutos passavam e as peças caíam, a conversa fluía sem as habituais farpas e gritos. Eles começaram a falar sobre a infância, sobre a viagem de Bernardo à Itália e sobre os planos de Jaqueline para as escolas da província do sul.

​Foi durante esse momento de calmaria que a guarda de Jaqueline baixou o suficiente para que ela realmente observasse o homem à sua frente.

​Sob a luz alaranjada da lareira, a estrutura do rosto de Bernardo parecia esculpida em pedra preciosa. Os traços marcados do maxilar, a linha firme dos lábios e os olhos cinzentos que mudavam de tom conforme refletiam o fogo... ele era indiscutivelmente atraente. Jaqueline reparou na forma como as luzes da lareira destacavam a largura dos ombros dele sob a camisa de linho e como suas mãos longas e firmes moviam as peças de xadrez com uma elegância natural e masculina.

​Um arrepio involuntário subiu pela espinha da princesa. 'Maldito seja... ele não tinha o direito de ser tão bonito', pensou ela, engolindo em seco e desviando o olhar para o tabuleiro antes que Bernardo percebesse que ela o devorava com os olhos.

​— É a sua vez, Jaque — avisou Bernardo, a voz rouca trazendo-a de volta à realidade. Ele inclinou o corpo ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A proximidade fez o perfume amadeirado dele invadir o espaço dela.

​— Eu sei... estou calculando a minha vitória — mentiu ela, ajeitando uma mecha do cabelo acoplado atrás da orelha com a mão ligeiramente trêmula.

​— Você está distraída — observou o Duque, com um brilho divertido e perspicaz nos olhos. — No que tanto pensa? Ou devo perguntar... em quem tanto pensa?

​— Na sua iminente derrota! — rebateu ela num impulso, movendo a rainha com energia. — Xeque!

​Bernardo olhou para o tabuleiro, deu um sorriso calmo e, sem um segundo de hesitação, moveu seu cavalo de ébano para o centro, bloqueando o ataque e encurralando a peça principal dela.

​— E xeque-mate, minha Princesa — declarou ele suavemente, erguendo os olhos cinzentos para os dela. — Parece que o quarto de hóspedes vai continuar vago amanhã.

​Jaqueline entreabriu a boca, olhando atônita para o tabuleiro. Ela caíra direto na armadilha dele.

​— Você me enganou! Você estava fingindo que estava vulnerável na ala do rei! — protestou ela, levantando-se num salto, revoltada com a própria derrota.

​— Chama-se estratégia militar, meu amor — respondeu Bernardo, levantando-se também com uma calma exasperante. Ele caminhou ao redor da mesa até parar a um passo de distância dela. — Mas admito que ver suas bochechas coradas assim torna qualquer vitória duas vezes mais saborosa.

​Jaqueline deu um passo automático para trás, colando as costas contra a borda da mesa. O coração dela batia acelerado, uma mistura de indignação pelo jogo e uma atração avassaladora que ela se recusava veementemente a confessar.

​Bernardo percebeu o recuo dela e parou imediatamente. Ele não avançou, não tentou encurralá-la e nem estendeu a mão. Apenas manteve a distância respeitosa, sustentando o olhar denso e carinhoso.

​— Boa noite de sono, Jaque — disse ele, a voz descendo para um tom suave. — Vou deixar a cama inteira para você hoje. Vou dormir na chaise-longue ao lado da lareira.

​Jaqueline piscou, surpresa pela atitude nobre e inesperada dele. Ela olhou para o sofá estofado perto do fogo e depois para a imensa cama de casal.

​— O sofá é curto para você, Bernardo. Suas pernas vão ficar dobradas a noite toda — murmurou ela, surpresa consigo mesma por se importar.

​— É um pequeno preço a pagar para que você durma tranquila e saiba que está segura comigo — respondeu o Duque, dando-lhe um sorriso sincero e reconfortante.

​Ele pegou um cobertor extra no armário, acomodou-se no sofá grande perto das brasas e apotou a maioria das velas, deixando apenas o brilho fraco do fogo iluminar o recinto.

​Jaqueline caminhou até a cama gigantesca, deitou-se sob as cobertas macias e virou-se de lado, encarando a silhueta do marido relaxado no sofá. O peito dela apertou com uma sensação estranha e nova: uma mistura de respeito, ternura e uma pontada de desejo contido.

​ela sabia que a distância que mantinha dele já não era mais por raiva... mas sim pelo medo absoluto de cair nos braços dele e nunca mais querer sair.