Coroa de prata

15 Rosas e cacos de cristal


O dia amanheceu com batidas fortes na porta.

Sentei na beira da cama amarrando os cabelos num nó firme e aguardei.

—Abra essa porta agora ou os criados vão estourá-la!

O rei bradou batendo na madeira que chacoalhava de leve com o impacto.

Suspirei olhando a janela enquanto ouvia todo o barulho cessar.

Se ele quisesse entrar ele já o teria feito,se quisesse me punir teria cortado o suprimento de água e se quisesse arrancar a porta ela já estaria no chão.

A coisa era mais profunda que isso,ele queria que eu abrisse de boa vontade.Não tinha chance de acontecer.

—Se não fizer por mim faça por seu irmão.Ele adoeceu,se recusa a comer e não fala com ninguém.Desse jeito...desse jeito as coisas só vão piorar.

Engoli em seco sentindo o peito queimar mas me mantive imóvel.

O que eu tinha a ver com isso? Ele vivo ou morto não fazia diferença agora então por que me importar?

Mas por que meu coração ardia me dizendo pra ir?

Fui até o banheiro e vi no espelho meus olhos escuros e cansados,meu corpo mais magro e a pele mais pálida.Eu parecia um fantasma de quem um dia fui.

Tomei um longo banho ouvindo murmúrios em frente a porta,troquei-me colocando um vestido vermelho vivo e trançando o cabelo. Eu poderia ficar aqui ou sair e ver o que estava acontecendo.Mas por que faria isso?Eu não tinha propósito ali,não tinha por que me importar.

Mas meu coração idiota se importava.

Respirei fundo e com alguma dificuldade tirei a penteadeira e o sofá da frente da porta.Olhei nos corredores e não havia ninguém em volta.Aquela ala inteira estava completamente silenciosa.

Vaguei pelos corredores vendo um criado ou outro que murmuravam enquanto eu passava, até que chegando na ala oposta depois de um interminável lance de escadas eu vi uma comoção de criados apinhados em frente a uma porta pesada de madeira com detalhes em ferro.

Em silêncio caminhei até pigarrear e todos se virarem na minha direção silenciando tudo.

O caminho se abriu e eu entrei pela porta dando de cara com um quarto suntoso com o rei sentado numa cadeira e Nataniel comendo biscoitos enquanto jogava xadrez.Seus olhos estavam fundos,ele parecia um pouco mais magro mas estava se recuperando.

—Está melhor então,isso é bom.

Os dois voltaram seus olhos pra mim enquanto eu apertava o laço na cintura do vestido e dava um passo em direção a porta.

Até meu corpo ser girado pelo pulso e eu parar encarando os olhos azuis do rei.

—Não saia assim com seu irmão adoentado!Quem você pensa que é sua criança petulante e maldosa?Não se importa com ninguém além de você?Ele só se animou pra comer e levantar da cama depois que prometi que traria você aqui !

O rei bufava me segurando pelo pulso e me fazendo encarar Nathaniel que aguardava silencioso.

Desviei meus olhos e tentei me soltar daquele aperto de ferro sem sucesso.

—Não tenho com quem ou por que me importar senhor, só estou cansada.Me solte,eu volto pro quarto e você me convoca quando quiser me usar pro que quer que seja.

Respondi em voz baixa e senti meu corpo sendo jogado pra longe com a força do tapa que me arremessava no canto do quarto de encontro com a quina da mesa.

Minha cabeça rodou enquanto eu sentia o sangue empapar minha franja mas permaneci ali em silêncio.

— Pai você está louco?Olha o tamanho dela!

Nataniel fez menção de se levantar mas eu o impedi levantando devagar com cuidado para que ele não visse o sangue.

— Está tudo bem,as coisas são assim

Respondi fracamente sentindo as lágrimas caírem pelo meu rosto.

—O que...

O rei falou me puxando pelo braço num outro rompante de raiva que congelou quando ele viu minha boca cortada e o sangue que corria da minha testa.

—Minha filha eu... -ele balbuciava sem encontrar palavras,nos seus olhos o terror do que tinha feito.

Nos meus não havia nada,a mínima expressão não tomava minha face enquanto as lágrimas quentes corriam e eu soltava meu pulso e corria pelos corredores.

Gritos sufocados me cercavam enquanto eu desviava das pessoas e ia me enfiando em corredores cada vez mais desconhecidos e menos movimentados.

Entrei numa sala fechando a porta em seguida.Um tipo de escritório escuro cheio de livros empoeirados e um enorme quadro que fez minha cabeça girar.

A rainha estava ali.

Com olhos azuis,cabelos escuros e a pele clara coberta por um vestido carmesim ela tinha o rei e Nathaniel ao seu lado,em seus braços um bebê de bochechas rosadas sorria olhando pra frente.

Engoli em seco e tapei a boca pra engolir os soluços que vinham em correntes que me chacoalhavam por inteiro.

O cheiro do sangue que secava no meu rosto e no vestido tomava meu nariz enquanto eu me deixava cair embaixo de uma pesada mesa de carvalho enquanto eu ouvia um turbilhão de passos no corredor.

— Annice?Senhorita onde você se escondeu?

Segurei os soluços e apoiei a cabeça na madeira sentindo o latejar ficar mais intenso enquanto o corpo começava a se render ao cansaço.

Olhei pra cima e aqueles olhos pareciam me encarar incisivamente. Não era o melhor jeito de acabar a noite,mas eu teria que suportar.

—Annie?Meu amor onde você está?

A voz fraca de Nathaniel vinha acompanhada de passos trôpegos e o som de mãos se apoiando nas paredes.Até que um baque e uma tosse pesada tomaram os corredores.

—Meu príncipe,você não pode sair assim,vai piorar,seu estado ainda é delicado...

Um criado insistia enquanto mais passos se aproximavam.

— Basta! Eu tenho que encontrá-la,vocês vão cuidar do rei,eu estou bem!

Ele bradava teimosamente com os passos cada vez mais incertos se aproximando , até que um baque surdo tomou o lugar.

Levantei-me às pressas abrindo as portas pra dar de cara Nathaniel quase desacordado e suando frio,seus olhos vidrados e fundos,as mãos trêmulas se apoiando no chão.

Corri até ele colocando-o sentado e tirando a franja de seus olhos.

—Está louco? Como você pode levantar doente e sair andando sem rumo por aí atrás de mim feito um idiota?Você precisa descansar!

Gritei irritada chacoalhando seus ombros e sentindo a pele quente queimando em febre.

— Não fiquem parados,levem ele daqui!

Ordenei nervosa tentando levantá-lo sem muito sucesso e sem a ajuda de ninguém.

Olhei em volta e todos me olhavam assustados como se eu fosse um fantasma ou algo assim.

— Bando de idiotas é o que vocês são,me ajudem aqui!

Gritei apoiando o braço de Nataniel nos ombros enquanto me forçava a levantar quase derrubando nós dois.Passos rápidos se aproximavam e David vinha ao meu socorro segurando o peso de Nathaniel que me subjulgava.

— Não diga nada, só vamos tirá-lo daqui. — Eu disse segurando Nathaniel pela mão.

Os outros criados finalmente se moveram trazendo uma cadeira de rodas e se movimentando pra nos deixar passar.

—Senhorita,seu rosto... -uma criada sussurrava horrorizada enquanto tirava um lenco branco do bolso.

—Agora não é hora pra isso,ele primeiro -Falei dando passos fracos.

Meu corpo foi puxado e caí sentada no colo de Nathaniel que ficou pálido enquanto via meu rosto.Seus dedos febris percorriam minha boca e pararam na minha franja empapada pelo sangue seco.

Seus olhos cheios de lágrimas me vasculham enquanto ele arfava vendo a palma da minha mão e o joelho ralados pela queda.

Fomos empurrados de volta ao quarto onde tudo aconteceu e Nathaniel foi posto na cama sem nunca deixar de observar cada passo meu.

— Obrigada David,pode chamar um médico pra Nathaniel por favor? -Eu disse olhando-o enquanto uma criada vinha limpar seus pés descalços que começavam a arroxear por causa do frio do mármore.

Esperei apoiada na porta até que o médico veio e examinou Nataniel com uma expressão séria aplicando uma injeção em seu braço.

—O senhor não deveria de jeito nenhum ter feito uma coisa assim!Sua saúde é frágil e sabe disso! -O velho médico esbravejava arrumando seus óculos redondos.- E sente-se aqui,vamos dar uma olhada nesses machucados.

Ele disse olhando sério pra mim e me chamando com a mão.

—Eu estou bem, só fiquei aqui pra ver como ele estava.Foi só um arranhão, não precisa se preocupar. -Eu disse fracamente.

— Mentirosa

Olhei pra Nathaniel e ele se sentava na cama em lágrimas.Seu corpo chacoalhava violentamente com os soluços e ele tossia alto.

Me aproximei me sentando na cama alarmada com a situação caótica que eu via diante de mim.

—Tudo bem doutor,pode olhar.

Me rendendo eu suspirei enquanto Nathaniel se arrastava até ficar do meu lado e o médico limpava a área ensanguentada com uma toalha úmida trazida pela criada.

Depois de algumas passadas o médico me mandou deitar enquanto ia até uma maleta preta de couro e começava a tirar coisas que eu não sabia o que eram.

— Precisamos dar uns pontinhos aí pra que não piore.Apenas fique deitada e eu terminarei bem rápido. — ele disse trazendo suas coisas até a cama.

Nathaniel soluçava baixinho enquanto beijava meus dedos e o médico limpava o ferimento com alguma coisa que ardia muito.A agulha perfurou a pele e eu segurei um protesto de dor olhando o teto.

Em minutos eu ja estava com a testa costurada,a boca com um curativo pequeno e o médico se despedia dando orientações a uma criada.

—-Bem... Você precisa descansar e eu preciso ir — Eu disse me levantando

Nathaniel me puxou pelo braço me jogando na cama e me abraçando num aperto sufocante.

—Por favor não vá, está tudo um caos aqui,por favor fique comigo -ele repetia entre lágrimas.

Respirei fundo e me livrei do seu aperto conduzindo-o até os travesseiros e o cobri com uma manta.Sentei-me ao seu lado cantarolando baixinho e acariciando seu cabelo macio até que seu choro passasse.

— Tudo bem,eu ficarei aqui,mas você precisa descansar e comer -Eu disse firme fazendo sinal pra uma criada se aproximar-Pode trazer por favor alguma comida pra ele e algo pra eu vestir?Depois disso feche a porta e está dispensada.Não queremos visitas de ninguém.

Nathaniel se acalmou enquanto eu me sentava ao seu lado olhando em volta.Haviam vários desenhos de casas,projetos e muitas fotos presas nas paredes.Suspirei silenciosamente sentindo a cabeça latejar onde agora eu tinha pontos.

— Eu não sei nem o que te dizer,tem tanta coisa afetando você,tanta informação,tantas coisas novas e você nao está feliz com nenhuma delas.

Olhei em seus olhos e Nathaniel suspirava perdido em pensamentos.

— Eu não pedi por nada disso,eu só quero uma vida...Normal -Eu disse encolhendo os ombros.

Antes que ele pudesse argumentar a criada entrou trazendo uma bandeja e Jenna trouxe uma camisola pra mim saindo sem dizer uma palavra.

Suspirei e entrei no banheiro colocando a camisola e deixando no canto o vestido com a gola coberta de sangue seco.Olhei pro espelho segurando as lágrimas e contendo os tremores de medo que tomavam conta de mim.

Se não fosse por bem aquele homem louco teria o que queria de mim usando a força.

Segurei as lágrimas,lavei meu rosto e soltei o cabelo cobrindo o rosto como uma cortina enquanto ia ao encontro de Nathaniel.

Peguei alguns pedaços de queijo e pão junto com uma xicara de chá e comecei a bebericar enquanto ele comia pão com um grande pedaço de carne dentro sem nunca tirar os olhos de mim.

A noite caiu fria e nenhum de nós sabia o que dizer. Deitei-me no outro extremo da cama mas ele me puxou pra perto e beijou meus cabelos enquanto cantarolava baixinho.

Mergulhei num sono sem sonhos sem saber o que a manhã traria pra nós.