Coroa de prata
6 Choque
Acordei grogue no outro dia com minha cabeça explodindo como nunca. Aquilo doía; mas eu tinha um propósito no momento: saber onde estava.
Saí da cama silenciosamente até chegar à porta,abri esperando resistência mas não vi nada além de corredores exageradamente decorados.
Fui andando e vendo quadros, bibelôs e outros trecos inúteis pelo caminho, nada ali me chamava à atenção a ponto de dizer “oh! que bonito”, eu só pensava que aquilo ali era grotesco demais.
Dei a volta lentamente até chegar ao que parecia ser uma sacada onde olhei e achei que o que via incrível. A vista dali dava pra um campo florido, lavandas eu acho; que se espalhavam por toda a vista quase sem fim.
—Creio eu que a senhorita não deveria estar aqui.
Virei-me e vi que o dono da voz era aquele que invadiu minha casa e agarrou minha mãe enquanto eu pulava e corria pela janela. Retesei-me e saí correndo em desespero como naquele fatídico dia, eu virava corredores sem fim acompanhada por passos rápidos e ritmados; entrei em um lugar cheio de gente que me olhava sem nada compreender. Corri sem parada ouvindo o número de pessoas que me seguiam aumentarem consideravelmente enquanto meus passos se tornavam mais lentos e realmente menos ritmados.
Corri com os olhos quase se fechando pelo cansaço até que senti braços me conterem não de modo violento, mais simplesmente me fazendo parar ali.
—Senhorita, por favor, acalme-se.
Olhei pra cima e pude ver David confuso com o que via e talvez sorrisse com a oportunidade se eu não visse o batalhão que vinha ao meu encontro com Nelly ao lado.
—Acho que não há nada pra se ver aqui, e a senhorita não poderia estar aqui, pelo menos não agora então sugiro que volte comigo ou Jarbas terá que fazê-lo. — ela disse ríspida.
Eu estava com tanta fome que comecei e me sentir fraca pelo imenso esforço, mas ao menos pude escutar uns “é ela?” por entre o pequeno regimento de Nelly. Senti-me mal e me apoiei nos braços de David, mas a imagem de minha mãe gritou em minha mente dizendo “frente a seus inimigos mostre-se forte no momento de fraqueza”, então respirei fundo, me equilibrei e me aproximei devagar de Nelly que me encarava parecendo surpresa.
—Vejo que deixá-la sem comer não foi o suficiente para esgotá-la.
—Talvez se você fosse menos covarde e me contasse o que há eu não precisaria fazer isso não é?- respondi sarcástica. -agora vamos sei lá pra onde ou não?
Ela me encarou e seguimos por tantas escadas quanto possível naquele maldito lugar sem trocarmos uma única palavra. No que pareceu metade do caminho eu me sentei numa das escadas buscando as forças que já não tinha, vi David aproximar-se, mas recuei, se Nelly era ruim eu poderia se o dobro. Busquei apoio sobre minhas pernas e continuei com as forças do meu mau gênio.
Cantarolei umas músicas enquanto andava até que quase não agüentei de fraqueza, mas não me rendi. Apoiei-me na parede mas retomei novamente o equilíbrio para continuar andando.
—Teimosa como a mãe- Nelly sussurrou.
Olhei pra trás e sorri o mais sarcasticamente que pude encontrando novamente um olhar de espanto, eu não tinha forças mais não daria meu braço a torcer.
—Chegamos- David me informou.
—Certo; então David ficará aqui com você enquanto se recupera. -Nelly avisou.
—Acho que não, posso estar trancada aqui, mas não é por isso que preciso de alguém.Adeus aos dois. -disse fechando a porta.
—Certo, então trarei seu jantar em algumas horas- ela comunicou.
—Não se incomode, não vou comer- eu respondi indo pro banheiro.
Eu não estava aguentando mais, a inanição não era uma tentativa de liberdade, mais uma reação idiota que meu corpo tem quando fico sem rumo, sem ter um caminho seguro por onde seguir.
Chorei pateticamente até cair, mas não sei se de sono ou de fraqueza, já não queria pensar nisso.
No dia seguinte...
Acordei com um barulho de bip que estava fazendo minha cabeça estourar, o barulho ali era de pequenos metais e o cheiro era conhecido demais para ser crível, era um cheiro de... hospital!
Levantei sem nem mesmo me preocupar em abrir os olhos e me senti indo abaixo, mas o estranho é que não caí no chão, abri os olhos e David sorria brincalhão mais ao mesmo tempo preocupado para mim.
—Essa já é a segunda vez senhorita, está tudo bem?-ele perguntou.
Levantei a cabeça e tudo rodou rápido demais eu voltei os braços fortes de David que me apoiou de novo até onde eu estava.
Precisava de informações.
—Certo; o que aconteceu aqui?-perguntei incisiva.
—Nelly trouxe seu jantar e não te viu no quarto, procuramos por todo o castelo e você não estava em nenhum lugar, então eu tomei a liberdade de entrar em seu banheiro e te vi no chão, pálida e suando frio, então comuniquei a todos e te trouxe pra cá, a enfermaria do castelo. -ele explicou.
—Certo então David, já que sou uma prisioneira aqui, tenho direito ao menos a uma ligação ou coisa do tipo?Recorrer da pena? — perguntei.
Ele olhou confuso pra mim, mas depois deu um sorriso encabulado, mas nesse sorriso eu pude ver cansaço, ele não parecia que não achava certo mas não podia contar.Então fiz a única coisa que sabia que funcionaria.
—Olha Dave, me conte, eu juro silêncio. Eu to trancada aqui e não conheço e nem to afim de conhecer ninguém,então dá pra me contar alguma coisa aqui,juro que fico quieta- pedi olhando direto em seus olhos.
Ele então suspirou pesadamente e fechou as portas do lugar, como se fosse contar um grande segredo pra mim e isso fosse errado,muito errado, aliás.
—Certo então, você não é quem pensa que é Annice, você foi tirada de seus pais há muito tempo atrás. E seu pai nunca desistiu de te encontrar um dia, mesmo depois que a sua mãe morreu deixando você, seu pai e seu irmão por aqui. Há pouco tempo ele te achou e mandou te buscar, e bem, você sabe o resto não é? Seu pai está por aqui, e seu irmão também, mas talvez não saiba quem eles são de verdade, e em resumo é isso, você não está aqui por acaso do destino, você é uma princesa Annice, e aqui é seu verdadeiro lugar.
Em minha mente passava-se desde a incredulidade até o pânico total. Aquilo não podia ser possível, mas a confiança com o que ele me contava me dizia que ele não mentia sobre aquilo. Fiquei em um estado que não tinhas nome, em um estado quase de paralisia onde minha mente tentava processar tudo aquilo mais não conseguia de jeito nenhum. Eu tive medo e não queria acreditar naquilo, uma princesa, eu?!
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