Corações Represados
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A entrada do hospital estava bem iluminada. Beatriz buscou por informações na recepção e foi encaminhada para a sala de espera, onde William andava de um lado para o outro parecendo muito nervoso. Ao ver Beatriz se aproximou com passos largos. Tirou a bolsa de suas mãos preocupando-se com o peso que ela pudesse estar carregando.
— Desculpa deveria ter mandado um serviço de mensageiro buscar as coisas. Mas estou tão preocupado que não pensei que talvez fosse difícil pra você vir até aqui durante a noite. Muito obrigado pela ajuda.
— Não se preocupe comigo. Estou bem. Como está sua mãe? Alguma notícia?
— Não. Fizeram vários exames depois que ela chegou. Precisei assinar vários papeis e autorizações. E depois levaram ela pra sala de cirurgia. Depois disso ninguém me disse mais nada. Essa espera me deixa ansioso. Diria até desesperado. Gosto de agir e resolver o que é necessário. Ficar esperando sem fazer nada é horrível.
— Infelizmente, agora é o que se faz necessário. Somente os médicos podem agir. E você não é médico é?
Um sorriso cruzou os lábios dele e a graça chegou até seus olhos preocupados. Ele estendeu o braço e segurou a mão de Beatriz.
— Preciso comer alguma coisa. Vem comigo. Vamos jantar. Desculpe, tem algum compromisso agora? Invadi sua vida hoje. Estou sendo inconveniente?
— Não está sendo inconveniente. Não tenho compromisso. Mas acabei de jantar.
— Pode me fazer companhia e tomar um café, um suco. Comer a sobremesa comigo.
— A ideia é boa. Assim o tempo passa mais depressa e quem sabe teremos alguma notícia, enfim. Também estou preocupada. Isadora tem sido uma grande amiga e companheira desde que cheguei aqui.
— Ela é incrível. É linda por dentro e por fora. Espero que tudo ocorra bem e ela possa continuar a nos fazer felizes com a sua doçura e seus comentários espirituosos.
Souberam na recepção que a cantina do hospital estava fechada, mas indicaram um restaurante próximo. Os dois saíram na calçada e foram recebidos por um vento gelado. Beatriz foi surpreendida pela sensação de frio e um calafrio lhe percorreu o corpo. Ela procurou fechar melhor seu casaco e já estava pensando que devia ter pegado uma jaqueta mais grossa, quando William passou seu braço pelos ombros dela e a conduziu até uma carro escuro parado na calçada do outro lado da rua. Ele estava vestindo uma jaqueta de couro e parecia não sentir o frio. Aquele aconchego pareceu transmitir a Beatriz muito calor.
Ele abriu a porta para ela. Contornou o carro e entrou atrás do volante. Deu a partida e seguiu um caminho diferente daquele indicado pela recepcionista do hospital. Ele dirigiu por alguns minutos e parou diante de um restaurante chique do centro. Beatriz agradeceu ao céu por ter se arrumado um pouquinho melhor.
O senhor na recepção foi gentil e demonstrou conhecer muito bem William. Este se desculpou por não ter feito reserva e pediu se era possível, mesmo assim, conseguir um lugar. O senhor chamou o maitre que os encaminhou até a mesa. O cardápio que lhe foi oferecido estava cheio de pratos sofisticados e pareciam gostosos e caros.
— Tem certeza de que não quer pelo menos uma salada para me acompanhar? – O olhar intenso dele a atingiu de forma desconcertante.
— Está bem. Fiz um pequeno lanche, mas gostaria de ficar no hospital por um tempo, pelo menos até termos notícias. Se você me permitir é claro. Poderei sentir fome. Aceito a salada.
— Ótimo. Você gosta de chocolate? Aqui tem uma mousse fantástica.
— Gosto de chocolate. Os doces em geral não me atraem, mas chocolate ainda está entre os meus sabores prediletos.
Os pedidos foram feitos e a conversa seguiu tranquila. Ele lhe contou que estava voltando para a cidade. Estivera morando fora do país durante um tempo, mas seus negócios agora estavam se encaminhando de tal forma que poderia voltar a morar próximo da mãe. Sentia-se culpado por ter ficado tanto tempo longe. Era filho único e estudara fora e começara seus negócios fora, também. Vinha umas duas ou três vezes por ano pra ver a mãe. Ele produzia softwares para empresas. E como já era um profissional conhecido podia trabalhar onde quisesse.
Beatriz contou-lhe que havia se formado em Letras, mas que atuava como revisora de um jornal. Que seu sonho era escrever as próprias histórias em vez de corrigir o trabalho dos outros.
Ao final do jantar podia-se dizer que pareciam amigos da vida toda. E apesar do momento ser de apreensão estavam descontraídos. A conta foi paga e rumaram de volta pro hospital.
Quando chegaram foram informados para procuraram pelo médico no consultório, pois já havia notícias. Rumaram em silêncio pelos corredores até encontrarem o consultório. Lá o médico lhes informou que a senhora Isadora estava sedada recuperando-se e que as próximas horas seriam cruciais. Embora não houvesse sido tão grave, a idade dela inspirava maiores preocupações e riscos. Portanto seria necessário esperar para ver se ficaria bem. Ela retirara o baço, quebrara a perna direita e tinha muitas escoriações pelo corpo. Até então parecia que não haveria problemas quanto a pancada na cabeça, mas somente nas próximas horas e depois dela acordar poderiam ter certeza. Restava esperar.
Eles saíram do consultório. Olharam-se e William lhe ofereceu carona até em casa, pois soubera que Beatriz viera a pé e não tinha carro. Ela agradeceu e quis saber se ele iria ficar no hospital. Diante da afirmativa dele, Beatriz pediu se ele se importaria se ela ficasse também. Afinal não conseguiria dormir sossegada sem saber do andamento de tudo. Ele lhe respondeu que deveria leva-la para casa, pois não era justo passar a noite ali, mas iria ser egoísta e aceitaria a companhia, pois seria terrível ficar sozinho.
A noite de espera seria longa. Ela gostou do que ouviu. Era bom sentir a confiança de William. Sorriram um para o outro e rumaram para a sala de espera. Sentaram e começaram uma conversa sobre os lugares por onde William havia passado e conhecido. Ele havia viajado bastante pelo mundo. Trabalhando em diversos lugares ao atender as empresas que o contratavam.
O tempo foi passando devagar, mas parecia os aproximar ao ponto que sentaram-se lado a lado. Beatriz sentiu seus olhos pesados. Não sabia que horas eram, mas estava cansada. Não percebeu quando adormeceu. Sonhos agradáveis com um rosto lindo povoaram seu sono. Uma braço a aconchegou e ela adormeceu profundamente.
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