Coração é terra que ninguém vê
10 A verdade revelada e Esperança renovada
— Eu nunca quis feri-lo, Kal. Eu jamais machucaria o homem que eu amo por vontade própria. Tudo que fiz foi para protegê-lo. – Afirmou, baixando a cabeça, com os cotovelos sobre os joelhos e as mãos cobrindo parcialmente o rosto. – Eu estava disposta a tudo para voltar pra ele. Eu estava disposta a abandonar minha casa, minhas irmãs, minha mãe, os presentes dos deuses, minha imortalidade, tudo. Eu pagaria qualquer preço para estar com ele, Kal.
— Então... Por quê? – Kent insistiu.
Diana tomou fôlego e foi até a janela, para olhar a lua, enquanto orava aos seus deuses.
— Quando voltei à Themyscira, tendo cumprido minha missão de devolver Aresia ao cárcere, esperava ter a aprovação de minha mãe e dos deuses para voltar ao patriarcado. Estava decidida até mesmo a renunciar a tudo, caso não aprovassem o meu pedido. – ressaltou – O que eu não sabia era que eles já haviam traçado planos para mim e eu não tive escolha, senão obedecer-lhes as vontades.
E prosseguiu: – Durante os dez meses que passei com Bruce, Poseidon e Hera discutiram uma aliança que os fortaleceria: unir os reinos de Atlantis e das amazonas, através do casamento de seus dois príncipes herdeiros: Orin, futuro rei de Atlântis, príncipe das águas e Diana, princesa de Themyscira, campeã dos deuses. – Enquanto Diana falava, apesar de parecer estar de pé, firme, com os braços para trás e as mãos entrelaçadas, seus músculos sentiam ondas de choque que faziam-na tremer.
— E você vai se casar com ele, Diana? – Gritou Clark, aflito e indignado – Você não pode! Você não o ama! Como você pode aceitar uma coisa assim. Essa não é a pessoa corajosa que eu conheço... A minha Diana lutaria contra tudo e todos. Ela não faria o Bruce sofrer por causa de um casamento arranjado!
— Você não entende, não é? – Ela virou-se para Clark vertendo um rio de lágrimas sofridas – Eu não tive escolha! Eu não aceitei isso porque sou uma covarde, porque queria manter meus poderes, ‘fodam-se meus poderes’ – Esbravejou, assustando Kal – Eu tinha que protegê-lo. Eu precisava proteger o Bruce, Kal.
Diana encostou-se na parede para deslizar suas costas até o chão, como se as pernas tivessem perdido a força. Ela abraçou os joelhos, escondendo o rosto, enquanto Kal observava seu corpo reagir com breves espasmos causados pelo choro copioso. Ele sentou-se ao lado dela e a abraçou, de forma protetora. Tentando protegê-la da dor e sentindo-se culpado por tê-la pressionado tanto.
Mas Diana não estava disposta a espremer os sentimentos e guardar a dor consigo por mais tempo. Ela queria dizer tudo. Ela queria que a verdade a libertasse de uma vez por todas. Então tomou doses profundas de fôlego para continuar.
— Eu estava disposta a fugir. Eu estava ciente dos castigos que poderiam me acometer por desobedecer meus deuses. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o Bruce apareceu na ilha. – frisou, Diana, quase sem voz – Seu eu o tivesse encontrado antes, teria fugido com ele, mas só soube que ele foi capturado no dia seguinte, quando general Philippus reportou a minha mãe sobre um homem, que quebrara as Leis da Ilha e insistia em falar com a princesa.
— Não foi difícil para rainha Hipólita atribuir ao mortal a culpa pelo que ela chamara de ‘meu desvio de caráter’ de sua filha. Ela me disse que o sentenciaria à morte, segundo a Lei, para meu desespero. Eu não tinha outra saída... então prometi a ela que me casaria com Orin, que cumpriria meus deveres reais, sem discussão, garantindo-lhe um herdeiro. – Foi quando ela mandou trazerem-no à nossa presença. – Disse Diana, surpreendentemente, um pouco mais calma – Ela me disse que seu eu a desonrasse, tocando o mortal ou afirmando o meu amor por ele, ela o mataria pessoalmente.
— Pelo visto, ela aceitou libertá-lo depois do seu sacrifício?! – disse Clark, com um meio sorriso, na tentativa de abrandar o clima de tristeza que tomou conta dos dois.
— Sim... Mas foi a coisa mais difícil que já fiz na vida, Kal. – Diana prosseguiu – Quando eu o vi, maltratado e ferido, sendo arrastado pelos braços, através do salão real, onde amazonas enfurecidas gritavam para cortarem-lhe a cabeça, eu senti como se meu coração tivesse sido apunhalado pelo chifre do Minotauro.
— Quando ele me viu e nossos olhos se encontraram, eu senti como se nada mais no mundo fosse importante, Kal – Ela completou – Eu vi nos olhos dele que ele sentia o mesmo. Que estava disposto a morrer por mim, por nós. Que bastava-lhe saber que eu o amava. Eu queria fugir... mas nunca nos deixariam em paz. Os deuses são vingativos, Kal. E as amazonas são muito leais às suas ordens – Diana buscou na lembrança do olhar de Bruce a força para continuar – Além disso, não estava disposta a vê-lo morrer. Eu faria qualquer coisa por ele, Kal... Eu daria minha vida para que ele tivesse uma segunda chance. Pra que fosse feliz! Então, quando ele disse que me amava, quando ele declarou seu amor com toda força que lhe restava, embora eu quisesse abraçá-lo e dizer-lhe o mesmo, eu tive que mentir. Eu tinha que fazê-lo acreditar que eu não o amava, do contrário, ele voltaria... ele iria preferir a morte.
— Bom... isso é verdade. – Disse Clark – Mas e o casamento? E por que você veio parar aqui?
— Um ano depois, minha mãe recebeu de Hermes a notícia que Orin havia casado-se, em segredo, com a ajuda de um sacerdote atlanti. – Diana suspirou aliviada – Ele foi repreendido por seu ato deliberado e, ao que parece, até que seja hora de assumir o trono, está vivendo na terra com o nome de Arthur Curry.
— Dizem que ele só pode ver sua esposa ocasionalmente, porque ela é chefe da guarda de sua mãe, a rainha de Atlantis. – Diana riu, franzindo a testa. Um sorriso que parecia uma mistura de sarcasmo e melancolia – Depois disso, os deuses me liberaram do compromisso e eu deixei imediatamente a Ilha Paraíso, sob os protestos da minha mãe. Não conseguia controlar a raiva e a frustração por tudo que fui obrigada a fazer, por desistir da minha felicidade... Tudo que queria era voltar ao ‘mundo dos homens’. Então decidi vir à Metrópolis porque tinha medo de ver o Bruce, em Gotham. Sabia que ele me odiava e jamais me perdoaria. Mas... como você sabe, acabei reencontrando-o aqui e, estava certa em achar que ele me odiava.
— Por que diabos você não o procurou, Diana? Por que não contou a verdade a ele? Ele tinha o direito de saber! – Clark estava evidentemente atônito.
— Você acha mesmo que eu não queria vê-lo? Que não queria dizer a verdade? Eu pensei nisso mil vezes, Kal... Mas eu o via nos jornais... Sempre rodeado por mulheres deslumbrantes (modelos, atrizes, celebridades), colecionando casos amorosos tórridos, com a vida sexual exposta em capas de revistas. – Diana despejou – No começo eu achava que era só o meu ciúme que me impedia de ir até ele. Mas quando finalmente decidi que era hora de procurá-lo, eu vi uma foto dele na coluna social do Planeta Diário. Ele estava abraçando uma garota muito bonita. Dava pra ver a mão dele envolvendo sua cintura, trazendo-a pra perto. De alguma forma, eu percebi que aquela garota era diferente das outras, pelo jeito que ele olhava pra ela. Os olhos dele não estavam indiferentes. Ele gostava dela, Kal. Ele gostava muito dela.
Diana percebeu que seu melhor amigo agora a abraçava com mais força, como se quisesse dar-lhe o conforto necessário para que ela terminasse sua história. E Diana obedeceu:
— A legenda dizia: ‘Vicki Vale fisga o príncipe de Gotham’. A nota dizia que a repórter de TV e o bilionário Bruce Wayne finalmente assumiram publicamente o relacionamento. – Diana suspirou, antes de soltar um par de lágrimas finas, com os olhos já cansados – Ele parecia feliz, Kal. Ele conseguiu seguir em frente... Talvez ele a amasse! – Disse, dolorosa – Eu não podia fazê-lo sofrer novamente. Eu não tinha esse direito... Eu o amava demais para estragar qualquer chance de felicidade que ele tivesse.
— Diana... – Disse Clark, com a voz suave de sempre – Precisamos dizer a verdade ao Bruce. Ele merece saber que não foi rejeitado. Que o amor dele não foi rejeitado. Ele tem o direito de saber que você o ama.
— Não! – Diana lançou um grito de ordem, pondo-se de pé – Eu não quero que você diga nada ao Bruce. NADA. Você não pode! Eu te proíbo!
— Mas Diana... Por quê? – Perguntou Kal, confuso. – Você pode consertar tudo isso, basta dizer a verdade, mas você se recusa. Eu simplesmente não entendo.
— Eu quero consertar as coisas, Kal. Eu juro! – Diana argumentou, mais calma – Mas depois de tantos anos cultivando mágoa, raiva, rancor e frustração, eu tenho medo de que, se eu simplesmente procurá-lo para dizer o que aconteceu em Themyscira, ele não reaja como nós esperamos. Ele não vai olhar pra mim e dizer: ‘Tá tudo bem, Diana. Eu não te odeio agora que eu sei de tudo. Vamos esquecer essa tragédia. Vamos ficar juntos’... – Ela sorriu, imaginando a impossível cena estrelada por um Bruce amoroso e de alma leve o bastante para perdoar com facilidade – Ele já não confia em mim, Kal. E, ainda que guardasse qualquer sentimento por mim, ele não se permitiria viver isso de novo, depois de tudo que ele passou.
— Eu não o culpo por isso, mas você está certa! – Kent respondeu – Não ia adiantar dizer nada agora. Apesar de que eu acho que ele merece saber. (...) Então, o que você pretende fazer? Temos uma missão a cumprir na próxima semana e vocês dois vão ter que ‘se enfrentar’ da melhor forma possível.
— Eu também acho que ele merece saber a verdade, Kal. E eu prometo a você que eu mesma contarei a ele, mas não agora. Em algum momento, quando eu achar que será apropriado, eu direi tudo ao Bruce. – Diana jurou ao amigo – Bom... que Hera me dê forças! Eu estou disposta a reconquistar a confiança dele, Kal. Eu sei que provavelmente eu nunca terei o seu amor de volta, mas eu vou lutar, com todas as minhas forças, para ter ao menos sua confiança, seu respeito e sua amizade de volta. Não importa que preço eu tenha de pagar.
— Conte comigo, Diana! – Kent deu a ela seu melhor sorriso e a abraçou com um entusiasmo juvenil, mostrando claramente que havia se descuidado da tarefa de conter a própria força.
Diana sentiu a tração esmagadora envolvendo-a por completo, pressionando seus órgãos internos. ‘Se, por infelicidade, fosse Lois, ao invés de mim, certamente ela teria sido esmagada pelo excesso de fofura do Kal’, pensou, rindo para si mesma: – Se eu sobreviver à sua tentativa de me assassinar com um abraço, Kal-El, eu prometo que só descansarei até que eu e Bruce estejamos bem um com o outro!
Clark a soltou, rindo timidamente, enquanto coçava a nuca, completamente envergonhado: – Eu sei que sim, Di... Eu sei que sim. (...) Agora vamos achar um lugar pra comer. Eu to morto de fome!
— Vamos!! – Diana respondeu – Mas você paga!
Clark sorriu, mesmo balançando a cabeça negativamente e dando de ombros. De alguma forma, ele tinha a sensação de que as coisas estavam no rumo certo e seus amigos encontrariam a felicidade... Aquele era apenas o primeiro passo.
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