Coração selvagem
15 XV - Está tudo bem!
Saber que poderiam ter feito um mal tão cruel com você faz você pensar no que vale a pena. E eu pensei. Pensei como tinha minhas amigas do colégio, que mesmo sendo poucas, eram minhas e eu podia confiar nelas. Eu tinha meus pais e Yuka, que se preocuparam bastante comigo depois do que houve. Tinha os amigos de Murasakibara, que mesmo não sendo meus amigos, também ficaram preocupados comigo. E eu tinha Murasakibara, que agora tentava chamá-lo pelo nome, o que estava sendo bem difícil.
Quando ele veio me visitar, ficamos abraçados na minha cama até anoitecer e minha mãe veio me chamar para jantar. Ela arregalou os olhos quando nos viu deitados na minha cama, mas se aproximou e viu que estávamos apenas dormindo. Claro, abraçados daquele jeito e com aquele clima triste, acabamos adormecendo. Com isso, ela nos acordou e chamou Murasakibara para jantar conosco. Aquela noite foi até divertida. Meu pai, mesmo com o que houve, tentava manter as risadas dentro de casa com suas piadas ou coisas engraçadas que acontecia no trabalho dele.
No domingo, enquanto eu me preparava mentalmente para encarar todos no dia seguinte, que com certeza ouviram falar sobre o que houve, estava sentada na cama, olhando a tela do meu celular.
“Remetente: ATSUSHI;
Mensagem: Eu dormi bem aquele dia, vamos fazer de novo ;)”
Eu pus a mão sobre a boca e ri. Baka...
– Tsubaki. – Yuka apareceu na porta.
A olhei ainda sorrindo pela mensagem e vi o sorriso dela.
– Nani? – Perguntei desconfiada.
– Nee, temos visitas.
– Eh?
De repente as meninas apareceram na porta, gritando.
– Tsubaki-chan! – Katsumi exclamou, assim como Amaya.
“Chan?”, pensei e ri. Elas correram rindo e gritando em minha direção e quase quebraram minha cama quando pularam em cima dela. Yuka também riu e se juntou a nós, sentando na cama.
– Oe, oe! Daijoubu! – Eu ria.
– Ahhhh! – Mitsue resmungou manhosa – Você vai para o colégio amanhã, ne?
– Hai! – Madoka declarou – Ela tem que ir, estamos com saudades! – Ela deu um sorriso largo – E não conseguimos defender direito no último jogo. – Ela riu, dando uma piscadela.
Eu ri.
– Camélia melhorou, ne? – Harumi disse, sorrindo levemente.
– Hai. – Sorri – E pára de me chamar de “Camélia”.
As meninas sorriram.
– Tsubaki sendo Tsubaki. – Amaya riu.
– Nee, mas não está tarde pra vocês me visitarem? – Perguntei – Não vai ficar difícil para voltarem para casa?
– E é por isso... – Madoka disse, se virando e pegando algo – Que vamos dormir aqui! – Ela se voltou para mim, mostrando o saco de dormir com um largo sorriso em seu rosto.
– Sugoii! – Exclamei feliz e ri.
– Mas mamãe pediu para vocês não gritarem mais. – Yuka riu.
– Hai, hai! – Elas disseram em coro.
Nós rimos. Ficamos conversando, fizemos pipoca e meus pais apenas nos viam descer e subir as escadas para pegar guloseimas na cozinha. Eles sorriam, vendo que eu estava correndo pela casa com as meninas e sorrindo. Voltamos para o quarto e arrumamos os sacos de dormir pelo meu quarto.
– Nee, como está lá no colégio? – Perguntei, comendo pipoca.
Yuka e Harumi estavam sentadas comigo em cima da cama e Mitsue, Madoka e Katsumi sentadas em cima de seus sacos de dormir. Havia doces e biscoitos pelo quarto todo.
– Normal. – Katsumi disse, comendo um palitinho de chocolate – O falatório foi maior no começo da semana, ainda mais com a expulsão daquela garota, mas agora estava melhorando ao poucos. Principalmente por causa dos trabalhos.
– Hai... – Madoka disse – Um saco!
Katsumi e Mitsue riram.
– O sensei de vocês é terrível, ne. – Mitsue comentou.
– Hai. – Amaya riu.
Nós rimos.
– Nee, vocês sabem pra onde vão no natal? – Perguntei.
– Natal? – Madoka disse já rindo – Ainda estamos em Setembro!
– Eu sei, mas estou ansiosa. Nós vamos para Nagano ver nossos avós, ne Yuka?
– Hai. – Ela sorriu.
– Eu não sei. – Katsumi disse – Acho que vou para o mesmo lugar das férias de verão.
– Onde?
– Pro campo, foi divertido.
– E você, Amaya? – Perguntei.
– Fiquei aqui mesmo, passeava pela cidade às vezes. – Ela disse, torcendo um pouco a expressão – Acho que vou ficar em casa mesmo.
– Nani, Amaya? – Harumi perguntou.
– Eh?
– Fez essa cara.
– Que cara? – Ela riu – Está tudo bem.
– Hum. – Harumi fez uma expressão desconfiada.
Amaya corou, desviando o olhar.
– É que... Eu encontrei Kagami-kun nas férias. Mas não foi muito bom.
– Quem? – Madoka perguntou em dúvida.
– Ele é do time de basquete. – Ela disse suavemente.
– E você gosta dele? – Katsumi perguntou animada.
– H-Hum. – Amaya corou.
– Daijoubu! – Katsumi sorriu – Madoka também encontrou Aomine-kun e eles se pegaram na sala dela.
– Katsumi! – Madoka arregalou os olhos – Fofoqueira!
– Eh?! – Exclamamos.
– Como assim?! – Perguntei já rindo.
– Eh... – Ela corou e começou a contar.
Descobrimos o que houve e Mitsue pareceu ter descoberto a razão de Madoka não ter aparecido.
– Então foi por isso que você deu bolo na gente! – Ela riu – Podia ter avisado! Depois de um mês que eu descubro!
– Gomen! – Madoka disse sem jeito.
– Hentai. – Mitsue disse.
Madoka corou, desviando o olhar.
– Até parece que Kise-kun não faz isso! – Amaya riu.
– Não faz! – Mitsue corou.
– Mentirosa. – Harumi sorriu levemente.
– Conta pra gente! – Katsumi exclamou rindo.
Mitsue corou e não nos olhava.
– Anou... Hum... Bem, ele já tocou no meu seio. – Ela disse.
Nós rimos.
– Mas isso é normal. – Yuka disse.
– Olha quem fala! – Disse rindo – Midorima-kun hentai!
Ela corou, olhando na direção da minha voz.
– Midorima?! – Madoka riu – Realmente pensei que ele fosse quietinho.
– Run! – Cruzei os braços – Já perdi a conta de quantas vezes entrei no quarto dela e ele estava com a mão no peito dela.
Yuka corou.
– A-Anou...
– Yuka gosta de experimentar! – Katsumi riu.
– E bem que você queria também, ne? – Madoka cruzou os braços, sorrindo maliciosamente.
Katsumi corou.
– Como assim? – Perguntei.
– Ela gosta do Akashi e está doidinha pra ver ele sem camisa.
– Madoka! – Katsumi exclamou.
– O que?! Você contou sobre Aomine e eu! – Ela a fitou – É justo.
Katsumi abaixou o olhar, corada. Não sei por que, eu já sabia. Tirando a parte do “sem camisa”.
– Nós já sabíamos. – Yuka disse suavemente.
– Eh?
– No dia da cerimônia de abertura eu ouvi Madoka e você conversando sobre ele. Só que não a parte da camisa...
– Não, isso é novo. E sua audição é muito boa. – Madoka disse surpresa.
Yuka sorriu.
– E você Harumi? – Madoka sorriu maliciosamente.
– Eh?
– Quer que Kuroko faça essas coisas com você também?
– Pára. – Ela pediu, fazendo cara de tédio.
Madoka riu. Se bem que Harumi era tão inexpressiva quanto Kuroko.
– Mas é verdade. – Mitsue corou – Pode falar, estamos entre meninas.
Harumi corou. Ela corou! Foi a primeira vez que a vi corar por vergonha!
– Hum... Eu acho ele fofo. – Ela dizia quase inaudível.
– Fala mais alto! – Madoka riu.
Harumi corou mais e se encolheu.
– H-Hum... Na verdade... Não consigo imaginar ele fazendo essas coisas comigo. Ele é tão educado.
– Ou “tão estranho”... – Madoka cantarolou.
Harumi abraçou as pernas, se encolhendo mais.
– Daijoubu! – Exclamei, pondo o braço em volta dela, que ao meu lado parecia uma ratinha – É só você falar com ele.
– Mas tenho vergonha.
– Não se te empurrarmos em cima dele. – Madoka disse maliciosamente.
– Pára, baka! – Katsumi disse – Até eu quero uma ajuda, mas não assim, ne!
Madoka riu. Eu as olhava e fitei Amaya, que sorriu pra mim já sabendo o que eu planejava. Nós continuamos a conversar, comer os doces e dormimos meia noite! Todas dormiam no meu quarto, em seus sacos de dormir e eu pensava, tentando bolar um plano. E claro, precisava da ajuda de Murasakibara. Novidade...
Peguei meu celular e mesmo sendo tarde, nem pensei na hora. Apenas na ajuda dele.
“Anou... Preciso da sua ajuda de novo.”, enviei.
Pus o celular no criado-mudo, pensando que ele só me responderia no dia seguinte, mas uma mensagem logo veio.
“Está tentando me seduzir com uma mensagem à meia noite?”, ele me enviou de volta.
Corei.
“Claro que não, baka! Quero informações sobre Akashi-kun e Kuroko-kun.”
“Hum... :) Me encontra atrás do prédio de biologia no intervalo. E leva Pocky.”.
Fiz cara de tédio quando li, mas mandei uma mensagem de volta, assentindo. Pus o celular no criado-mudo e adormeci em seguida. Por que eu não o achava tão baka quanto antes quando ele pedia essas coisas?
...
Na segunda-feira, todas nós fomos para o colégio juntas. Como as meninas dormiram lá em casa, acordamos mais cedo para dar tempo de todas tomarem banho. Como sempre, eu tentei ao máximo dormir, mas elas me puxaram pelos pés – literalmente – e eu tive que acordar. Nosso café da manhã foi bem barulhento e acho que minha mãe até gostou de ter a casa cheia. Yuka e eu nunca fomos de fazer muita bagunça. Não muita.
– Nee, Tsubaki. Yuka já te passou os exercícios que o sensei passou? – Amaya perguntou enquanto íamos para o colégio.
– Hai, mas ainda não passei a limpo.
– Qualquer coisa chama a gente pra ajudar. – Ela sorriu.
– Hum. – Sorri.
– Nee, Tsubaki. – Madoka perguntou – Não querendo tocar naquele assunto, mas... Bem, você e Murasakibara-kun se conhecem bem?
– E-Eh? – Corei – Nande?
– Hum, bem... É que ele salvou você, ne. Ele apareceu na hora certa.
– A-Ah... Hai. – Sorri, me lembrando – Ele é meu amigo.
– Hum. – Ela cantarolou – Isso está com cheiro de paixonite.
Corei a olhando, apavorada.
– Madoka, só você pra pensar isso! – Katsumi disse – Ainda bem que ele estava lá!
– É, mas pra fazer o que? Sabe, de repente eles foram se encontrar e quando ele chegou, a viu em perigo. – Ela pensava.
Só Madoka para tornar meu pesadelo num episódio hentai. Ela esqueceu que eu estava ali?
– Isso não quer dizer nada, de repente ele só estava lá. – Katsumi insistia.
– Hai. – Yuka confirmou – Eu ia procurar Tsubaki, mas ele se ofereceu pra ir para falar sobre um trabalho que eles tinham que fazer.
– Ah, é... – Madoka disse – Vocês são dupla, ne.
– Hai. – Disse sem jeito.
“Yuka, te amo!”, exclamei mentalmente e a fitei, ela sorria. Sorri, achando graça. Ela realmente me salvou. Continuamos a conversar – sobre outras coisas – e logo chegamos ao colégio. Porém, como suspeitei, quando nos aproximávamos cada vez mais, grupos de amigos ou mesmo duas pessoas conversando, me fitavam e começavam a cochichar entre elas. Eu abaixei o olhar e Yuka acalmou o olhar dando espaço a uma expressão incomodada, ela deve ter escutado algo. Eu, infelizmente, não tinha esse dom para ouvir o que diziam sobre mim, se bem que para mim seria algo bom não ouvir mesmo. Porém eu sentia e via os olhares em cima de mim. “A garota alta da 1-B que quase foi estuprada no vestiário”, já imaginava o que deviam estar falando. As pessoas tem o mau hábito de compartilhar a tragédia alheia. Parece que fazem de maldade olhar e comentar sobre os outros a respeito de algo terrível que aconteceu. Odeio isso!
Fui para a sala e o mesmo aconteceu. Quando Madoka, Yuka, Amaya e eu entramos na sala, todos me fitaram. Alguns com olhares acusadores como se eu tivesse provocado aquilo e outros com olhares de compaixão, como se eu tivesse sido mesmo estuprada e agora estivessem com pena. Cada uma de nós sentou em seus lugares e começaram os burburinhos. O sensei chegou, correndo a porta para o lado de maneira abrupta para os cochichos cessarem, se pôs em seu lugar e fitou a turma.
– Bem, vamos começar, ne?
Todos se silenciaram e a aula começou. Eu abaixei o olhar e Murasakibara me fitou.
– Daijoubu?
– Mais ou menos. – Sussurrei sem olhá-lo, pegando meu caderno.
Ele acalmou o olhar, compreendendo desde a chegada do sensei até meu olhar triste. Praticamente metade da aula eu olhava pela janela. Não a ginástica do segundo ano, mas a paisagem em si. Percebi que se aquilo acontecesse comigo, acho que eu não veria essa paisagem do meu lugar como antes. De repente seria algo sombrio ou eu nem conseguiria olhar pela janela.
Quando o sinal soou para o intervalo, eu suspirei. Mas não de alívio, na verdade de querer ir logo para casa ou de desejar arduamente que os comentários parassem. Levantei, lembrando sobre as mensagens da noite anterior e me encaminhei para a parte de trás do prédio de biologia. Quando virei a esquina, o vi. Ele estava sentado no chão, apoiando os braços nos joelhos dobrados e parecia pensar com aquele olhar perdido. Me aproximei dele, pondo a mão na cintura e ele me olhou.
– Ne? – Sorri, encostando a caixa de Pocky na bochecha.
Ele sorriu levemente e eu sentei ao seu lado.
– O que você tem? – Perguntei, abrindo a caixa.
– Pensando.
– Em que? – Disse, pegando um palitinho de morango.
– Acho que vou parar com o plano dos passos.
Parei antes mesmo de morder o palitinho e o olhei surpresa.
– Nande? – Franzi o cenho, desconfiada.
Ele não me olhava, apenas olhava para baixo com a expressão perdida.
– Não é por causa do que houve, ne?
– Em parte? – Ele disse sem me olhar.
Franzi o cenho novamente, porém agora com raiva e levantei. Ele me olhou em dúvida e eu sentei entre suas pernas, o fitando com raiva.
– Não quero.
– Eh? – Ele me olhou em dúvida.
Engoli a seco e pus o palitinho na boca dele com a finalidade de ele me permitir falar sem me interromper. Ele o pegou em duvida e começou a comê-lo enquanto me olhava.
– Você está me perturbando desde que entramos no colégio. Só por causa disso vai parar com os passos? – Disse o olhando nos olhos.
Ele me olhava, surpreso.
– Nem aconteceu nada. – Continuei – E-Eu... – Corei, desviando o olhar – Todos estão falando sobre mim, sobre o que houve. Se você parar com o plano dos passos vai ser como se algo na minha vida se perdesse pelo o que quase aconteceu. – O olhei – E eu quero saber o objetivo quando você terminar. – Disse séria.
Ele me olhava atentamente com aquela expressão de preguiça, mesmo estando surpreso e esboçou um sorriso leve.
– Então eu faço parte da sua vida. – Ele disse.
– E-Eh... – Desviei o olhar, corando – Não foi isso que eu disse.
– Hum. – Ele pegou em minha bochecha, me fazendo olhá-lo – Esses passos são em relação a você. Tem certeza que quer que eu continue?
– S-São quantos?
– Não sei ainda. – Ele sorria.
Corei, abaixando olhar.
– Eu quero saber o que vai acontecer quando você terminar. – Disse quase que inaudível.
– Hum, você vai saber.
O olhei.
– Vai me deixar completar em paz? – Ele perguntou.
– Você que me perturba. – Disse.
– Hum, verdade. – Ele suspirou sorrindo, pondo outro palitinho na boca e olhando para mim como se eu tivesse que fazer algo.
– Nani? – Perguntei, suspeitando.
– Pega. – Ele disse com o palito de morango entre os dentes.
– Eh?! – Corei – I-Isso é um dos passos?
– Não. – Ele disse simplesmente – É só pelo fato de eu querer. – Deu um meio sorriso.
Fiz cara de tedio e desviei o olhar, corando levemente. O olhei pelo canto do olho e ele me olhava ainda com o palitinho pendurado entre os dentes. Suspirei e me virei para ele, pondo a outra ponta na boca. Ele sorriu e começou a comer ao mesmo passo que eu. Eu não conseguia olhá-lo nos olhos e o palitinho começou a encurtar enquanto eu percebia isso e corava mais. Nossos lábios estavam há cinco centímetros de distância e prestes a se tocarem, porém eu quebrei o palitinho no meio, parando com aquilo. Ele comeu o resto, achando graça.
– Isso é ridículo. – Disse, comendo a minha metade.
– Hum. – Ele achou graça – Na verdade não achei nem que colocaria na boca.
O olhei surpresa e ele sorria pra mim. Corei, desviando o olhar.
– Nee. – Ele suspirou – O que quer saber sobre Aka-chin e Kuro-chin?
O olhei, me lembrando e ele sorria como se soubesse que eu havia me esquecido disso.
– Você sabe. – Sorri sem jeito.
Ele sorriu e começou a falar sobre eles.
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