Coração selvagem
7 VII - Confiar
Tá... Agora eu sabia mais ou menos o que Murasakibara estava fazendo. “Passos”. Ele estava completando passos, como níveis! Mas isso sempre tem um objetivo. E eu quero saber o que é! Por que ele quer ser meu amigo? Por que ele diz que é meu amigo? Nós nem nos conhecemos! Enfim... Acho que eu não era a única que estava irritada.
O clima na sala estava pesado em relação à Madoka. Ela parecia bem irritada, mas também não era sempre de todo sorrisos. Desde o começo da aula, mesmo de costas, ela parecia tensa e não olhava para os lados. Me perguntava o que houve. Como criamos certa amizade e ela até me defendeu daquela vez, olhei para Amaya, que se sentava às duas horas de mim e ela me viu a olhar. Virou um pouco a cabeça em minha direção e eu olhei para Madoka e em seguida de volta para ela. Ela olhou para Madoka e viu sua posição rígida. Olhou de volta para mim e assentiu com a cabeça. Aquilo estava muito estranho...
Peguei meu celular, escondido do professor, e o abri, começando a digitar e a enviar a mensagem. Minutos depois, Katsumi me respondeu.
“Melhor não perguntar a ela ainda. Espera pelo treino, ela está bem irritada.”
Olhei em dúvida para a tela, mas enviei de volta um “Tá”. Guardei o celular e voltei a prestar atenção na aula. No intervalo, eu estava sentada com Yuka, que esperava por Midorima. Ela parecia contente e ficava mexendo os pés calmamente no chão, como se estivesse sapateando.
– Feliz? – Perguntei, achando graça.
– Hai. – Ela disse com um sorriso contente.
– Nande? – Disse já rindo.
– Hum. – Ela corou levemente – Shintarou e eu fizemos um mês de namoro.
– Que legal! – Eu ri – Mas por que tanta felicidade? É apenas um mês.
– Eu sei. – Ela sorriu – É que... Nós estávamos na casa dele no dia que fizemos um mês. Passava um filme na televisão e ele pegou minha bochecha, me beijando. – Ela sorria mais e corou – Ele... Colocou a língua na minha boca...
– Eca.
Ela riu.
– Eu não sabia beijar de língua e ele disse para eu imitá-lo. – Ela continuava – É incrível!
Eu ri, não consegui não rir.
– Nani? – Ela perguntou.
– “Descobrindo sua sexualidade”. – Ri – Parece até nome de livro.
– Pára! – Ela corou.
Logo depois Midorima chegou e ficou com ela. Eu ri quando o vi e fui embora, o que o fez me olhar em dúvida. Fiquei no pátio, mas a maioria dos alunos deveria estar no refeitório. Eu queria que o horário do treino chegasse logo pra eu saber o que tinha de errado com Madoka e ficava com o celular na mão na esperança de que alguém me mandasse mensagem, dizendo o que estava acontecendo com ela. E com isso, Murasakibara apareceu atrás de mim e pegou meu celular.
– Oe...! – Me virei e o vi – N-Nani?!
Ele digitou e fez uma ligação.
– Espera...! O que você está fazendo? – Exclamei.
– Ligação... – Ele bocejou.
Franzi o cenho. Que raiva! Ele fechou meu celular e me devolveu.
– Você é um abusado. – Disse.
– E agora eu tenho seu número e você o meu. – Ele sorriu com os olhos meio abertos.
– Run. – Cruzei os braços e desviei o olhar.
– O que você tem?
– Nada. – Disse, começando a andar.
Andei alguns passos e ele pôs o braço em volta do meu pescoço. Fui obrigada a parar de andar e o olhei, franzindo o cenho.
– O que houve?
– Não te interessa. – Desviei o olhar.
Ele suspirou e parecia estar com preguiça. Revirei os olhos, querendo sair dali e ele me abraçou por trás, me segurando e se sentando no chão, o que me obrigou a sentar. Exclamei pelo susto e ele escorou as costas na parede, afrouxando o abraço. Eu estava encolhida entre as pernas dele, de costas para ele e com os joelhos dobrados, quase suando frio por ele estar tão perto.
– N-Nani?
– Hum... – Ele suspirou – Não vou fazer nada com você.
– Então, por que...?
– Você está bem estranha. – Ele disse calmamente, mexendo nas pontas do meu cabelo.
Corei, me encolhendo mais.
– Não estou estranha. – Disse emburrada, abraçando os joelhos.
– Hum. Pode contar pra mim.
– Por quê? Pra eu confiar em você? – Perguntei sem entender a razão de tudo aquilo.
– Pode ser. – Ele sorriu levemente – Você estava olhando muito para Mizuki-san.
Abaixei o olhar.
– Não vou deixar você concluir o passo.
Ele sorriu, achando graça.
– Quero saber a razão desses passos. – Eu disse – Por que quer ser meu amigo?
Ele não respondeu.
– Mu... Murasakibara-kun, nande...?
– “Atsushi”.
– Eh? – Virei um pouco o rosto para vê-lo.
– Amigos se chamam pelo nome, Baki-chin.
Corei, me voltando para frente.
– Pára de me chamar assim.
– Hai, hai... Tsubaki. – Ele disse, levantando.
Eu o olhei, ele começou a andar.
– Ah. – Ele parou e me fitou – Acho que o problema da sua amiga foi algo que Mine-chin fez.
– “Mine-chin”? – Disse em dúvida.
– “Aomine”. – Ele deu um meio sorriso e se virou.
Eu o olhei surpresa e o vi se virar, indo embora. Fiquei sentada no chão, pensando. O que Aomine-kun fez?
...
No treino à tarde, Madoka estava normal e ainda mais feroz no futebol do que o normal. Ela era conhecida como a mais rápida do time, mesmo tendo entrado no time naquele ano mesmo. Ina-chan, Kei-chan, Aya-chan e Kameko-chan eram do segundo ano, senpais. Enfim, Madoka parecia normal, mas sabíamos que ela não estava, principalmente por Katsumi olhá-la constantemente com a expressão um pouco triste.
Depois do banho, que como sempre eu fui a última a acabar, saí do vestiário ao lado do campo de futebol e fitei Katsumi e Yuka falando com Madoka, que estava sentada, abraçada com os joelhos e de cabeça baixa. Me aproximei em dúvida, sentando ao lado dela.
– Daijoubu? – Perguntei.
Ela balançou a cabeça, negando.
– Madoka... Posso contar? – Katsumi perguntou.
Ela assentiu com a cabeça. Katsumi suspirou e me olhou.
– Aomine-kun e Madoka fizeram aquele trabalho da turma de vocês juntos. – Ela disse – E ele... Hum. – Ela abaixou o olhar.
– Ele é um idiota. – Madoka disse de cabeça baixa.
Olhamos para ela e ela abaixou as pernas, se endireitando. Seus olhos estavam marejados, mas sua expressão era de raiva. Ela não olhava para nenhuma de nós, apenas começou a contar.
“Aomine me chamou pra fazer o trabalho na casa dele. Eu fiquei contente, sabe. A gente vive brigando, mas eu gosto de estar com ele. Fomos para casa dele depois da aula semana passada e para o quarto dele. Estava tudo bem.
– A gente pode pôr esse também! – Eu disse animada, apontando para a tela do computador.
– Hai. – Ele disse.
– Esse também! – Disse, me aproximando mais dele.
Ele corou conosco perto um do outro e eu percebi, corando também. Continuamos a fazer o trabalho e logo terminamos. Eu fiquei parada, pensando se deveria ir embora e ele passou a mão no cabelo, pensando.
– Hum, acho que já vou indo. – Disse.
– Se você quiser pode ficar. – Ele me olhou.
– Nande? – Sorri, achando graça – Vamos fazer o que?
– Jogar um jogo? – Ele deu um meio sorriso.
– Baaka! – Ri, empurrando-o.
Ele pôs a mão na minha na minha bochecha.
– Eh... – Corei e forcei um sorriso – Aomine-kun, o que está fazendo?
– Jogando. – Ele disse, me beijando em seguida.
Corei, mas continuei o beijo. Começou a ficar intenso e ele não parava. Eu também não parava, estava realmente bom. Mas ele pôs a mão na minha cintura e começou a subir, tocando meu peito. Eu corei mais e tentei parar o beijo, mas ele segurou minha nuca, continuando. Eu fiquei com vergonha e ele me deitou no chão, começando a levantar minha blusa do uniforme.
– A... Aomine-kun...
– Nani? – Ele disse ofegante.
– Eu... – Corei – Não quero isso...
– Eh? – Ele parou ofegante, sentando – Nande?
– “Nande?”? – Disse surpresa, sentando – E-Eu... – Corei de novo – Nunca fiz isso. Não somos nem namorados... E você não disse que íamos jogar um jogo?
– Esse era o jogo. – Ele disse em dúvida – Você é virgem?
– H-Hai. – Disse – Você pensou...?
– Ah... Gomen. – Ele desviou o olhar, pondo a mão na nuca – Não imaginava que você fosse virgem.
– Nande? – Perguntei pasma – Tenho cara de vadia?!
– Não é isso. – Ele disse surpreso – É que eu só...
– Aho-mine! – Exclamei, empurrando-o.
Ele me olhou surpreso e apenas me viu sair porta a fora. Eu fui pra casa e me tranquei no quarto. Só queria fazer o trabalho com ele, ficar com ele. Mas ele queria mais que isso!”
Nós a olhávamos, surpresas.
– Eu tenho cara de vadia? – Madoka perguntou chateada – Fiquei até feliz por ele querer dormir comigo, mas ele achou que eu já tinha dormido com alguém antes! Por quê?
– Anou... – Disse, querendo dizer algo, mas não sabia o que dizer.
– Madoka-chan, não sei como você é exatamente, mas acho que ele pensou aquilo talvez por causa da sua voz. – Yuka disse.
Olhamos para ela em dúvida.
– Minha voz?
– Hai. – Ela disse – Você fala naturalmente, mas sua voz soa de maneira sedutora.
Madoka corou.
– Uhm...
– Não sei se é por causa disso, – Yuka disse – mas talvez seja uma possibilidade.
– Isso é verdade. – Katsumi disse, pensando.
– Mesmo assim, eu não vou falar mais com ele! – Madoka exclamou.
– Mas Madoka... – Katsumi ia dizer.
– Não! – Ela exclamou irritada – Pensarem que você já dormiu com alguém é vergonhoso, não quero mais falar com ele!
– Mas se o sensei continuar com aquela estratégia, vai ser as mesmas duplas. – Eu disse.
– Hai... – Ela disse frustrada.
...
Madoka mentiu para me proteger naquele dia que eu quebrei o nariz da garota que caçoava Yuka. Ela me protegeu dizendo todas aquelas coisas. E agora estava irritada e chateada com o que Aomine fez. Nos dias que se seguiram, Madoka não olhava na cara de Aomine. E ele por sua vez parecia chateado, mas não com ela. Formulei a possibilidade de que talvez ele estivesse arrependido, mas não dava para ter certeza. Então foi por isso que eu tive uma ideia muito estúpida.
Fui até o quarto de Yuka, me arrependendo logo em seguida.
– Yuka. – Bati na porta e abri, esquecendo de que Midorima estava com ela.
Quando abri a porta, o vi com a mão debaixo da blusa dela e eles se beijando.
– Oe! – Exclamei, corando.
Ele se assustou e tirou a mão dali rápido, parando o beijo. Yuka tampou a boca, corando e virou a cabeça em direção a minha voz.
– T-Tsubaki. – Ela disse envergonhada – Podia bater na porta.
– Eu bati! – Exclamei indignada – Você fica surda quando beija ele?!
– Eh... – Ela disse, corando mais – N-Nani?
– Queria saber sua opinião sobre uma coisa.
– Pode ser outra hora?
– Não!
Olhei para Midorima, que compreendeu e levantou da cama de Yuka.
– Estarei esperando lá fora.
– Hai. – Ela disse docemente.
– Lá embaixo! – Declarei – Conversa um pouco com papai, hentai. – Dei um meio sorriso.
Ele engoliu a seco e saiu do quarto. Eu fechei a porta e sentei na cama de Yuka.
– Quero que você seja sincera e diga se eu estou louca. – Disse.
– H-Hai. – Ela disse sem entender – Mas por quê?
– Porque eu... – Corei – Quero ajudar Madoka com Aomine.
– Eh? Nande?
– Ela ainda está chateada desde aquele dia e eu vejo Aomine olhar para ela às vezes com uma expressão arrependida.
– Entendo. – Ela pensou – Acho isso ótimo! Querer ajudar alguém, principalmente um amigo é ótimo!
– Mas... Eu precisaria pedir ajuda.
– Minha? Como eu ajudaria? Não conheço Aomine direito.
– É esse o ponto. – Corei de novo – Não seria você.
– Eh? Então... Quem seria?
– M-Murasakibara-kun.
Ela tampou a boca, querendo rir.
– Por que isso agora?
– Hum. – Abaixei a cabeça, frustrada – Ele fica falando que é meu amigo. E agora tem essa coisa do passo de confiar...
– “Passo de confiar”? – Ela disse em dúvida – Que jogo estão jogando?
– Não é um jogo. E eu não sei o objetivo disso também. – Disse mais uma vez frustrada – Mas a razão do vestiário e do quarto dele foram pra mostrar o que um amigo faz pelo outro.
– O que houve no quarto dele? – Ela perguntou desconfiada.
– Eh...! – Corei, não era pra eu ter falado isso – Bem... Ele tinha falado aquilo pra mim. E pra testar, ele... Me deitou no chão à força e começou a beijar meu pescoço... Eu dei uma joelhada nele e saí correndo.
Ela arregalou os olhos.
– Tsubaki...!
– Eu fiquei com medo! – Me justifiquei – O que você faria se alguém desconhecido fizesse isso com você?
Ela acalmou o olhar.
– Então... Que tipo de ajuda você vai pedir a ele?
– Saber qual é o problema do Aomine e se ele está arrependido mesmo. – Disse – Tentar ajudar Madoka de alguma forma.
– Hum. – Ela assentiu.
– E não pergunte nada sobre Aomine ao Midorima.
– Nande? Posso ajudar também.
– Eu sei, mas ele perguntaria a razão e você contaria a verdade já que eu também sei que não mente pra ele.
Ele deu um sorrisinho envergonhado.
– Tá bom.
Sorri e suspirei.
– Mesmo precisando da ajuda dele, eu não sei qual o objetivo desses passos. – Disse – Mas com certeza não o deixarei passar para o próximo passo!
Yuka sorriu, achando graça. Porém eu estava decidida.
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