Coração selvagem
1 I - Certeza falha
Notas iniciais
~ Abril ~
Mês onde começam as aulas. Nosso primeiro ano no Ensino Médio. E era para eu estar feliz, ne? Yuka parece estar bem feliz em vista ao seu sorriso alegre. Eu também deveria estar, tudo está indo bem na minha vida. Minhas notas são boas, minha família é unida, minha vida é bem legal. Mas por algum motivo... Eu me sinto vazia. Como se algo me faltasse, algo que eu ansiasse. O que será? É por isso que eu não sou completamente feliz?
Na verdade eu não sei exatamente se Yuka está feliz de verdade. Ela sempre consegue enxergar algo positivo nas situações, não importam quais sejam. Por exemplo, – algo bem drástico a meu ver – Yuka é cega, mas sempre diz que é feliz por sua audição ser bem melhor que a dos outros. Isso é verdade, ela ouve coisas que eu não escutaria nem se estivesse do lado da pessoa. Enfim... E ela é adotada, é minha irmã e mesmo assim sempre diz aos nossos pais que é muito feliz por eles terem adotado ela. Bem, eu também sou feliz por ela ser minha irmã. Do jeito que eu sou, seria alguém muito sozinha e que sofreria bullying no colégio se não a tivesse como irmã. Além do mais, nós duas já sofremos bullying no fundamental. E muito...
Como Yuka é cega, as garotas tentavam fazer maldades com ela. Como pôr o pé na frente dela para cair, empurrá-la em cima dos meninos e dizer “a ceguinha gosta de você” ou até pegar a vara de passeio dela e escondê-la para ela se sentir perdida. Porém eu a ajudava e esse era o motivo por quererem me sacanear também. Eu sou muito alta. Desde criança eu sempre fui mais alta que a maioria das meninas. Com apenas 16 anos minha altura é 1,82. Como pode? Minha mãe não é tão alta, mas a resposta óbvia é meu pai, que tem 1,90. E eu tenho medo de crescer mais. Como vou viver assim?
Yuka e eu andávamos rumo ao colégio. Eu a via tatear sua vara de passeio no chão e andar calmamente.
— Nee, Yuka?
— Hai. – Ela disse suavemente.
— O que você espera hoje?
— Como assim?
— Sei lá. – Pensei – O que você espera do ensino médio?
— Não sei ao certo. – Ela sorriu – Espero conseguir aquela cirurgia.
Olhei para ela, surpresa. Já fazia dez anos que Yuka esperava por um doador para seus olhos. Ela ficou cega quando criança, logo depois meus pais a adotaram e até hoje esperam por um doador para ela.
— Claro... – Disse envergonhada – Mas estou falando da escola.
Ela riu.
— Eu sei.
— Então por que disse aquilo?
— Pra “ouvir” você corar.
Fiz cara de tédio. Pela voz ela sabia o que estávamos sentindo, claro.
— Eu gostaria de entrar num clube escolar.
— Sério?
— Hai. – Ela sorriu – Seria ótimo. Parece ser bem divertido.
— Que tipo?
— Qualquer um! Contanto que tenham pessoas. – Ela riu.
Acalmei o olhar e sorri levemente.
— Hum.
Andamos mais algumas ruas e chegamos no colégio. Colegial Kiyomi. Grande, cheio de árvores e principalmente de pessoas. Nós passamos pelo portão e, indo para o mesmo lugar que nós, as pessoas que andavam ao nosso redor nos olhavam. Uma menina com vara deixando claro que é cega e outra alta demais com cabelo longo e marrom avermelhado. Ótimo... Já iria começar cedo.
Próxima a nós, duas garotas típicas que gostavam de irritar empurraram uma menina, que esbarrou em Yuka, derrubando sua vara no chão.
— Etto...! – A garota disse – Gomen nasai!
Ela foi até a vara e a pegou, devolvendo-a para Yuka com um sorriso amigável. Ela era um pouco baixa, com o cabelo ruivo alaranjado e fofa. Justamente o alvo de garotas invejosas. Coitada... Iria sofrer.
— Aqui.
— Arigatou. – Yuka disse, pegando-a.
— A-Anou... Sou Nori Amaya. – Ela sorriu e me viu – Sugoii...
Fiz cara de tédio.
— Uhm...! Gomen. – Ela desviou o olhar – É que nunca vi uma garota tão alta assim.
— Hai. – Desviei o olhar, me irritando aos poucos.
— Sou Kayou Yuka. – Yuka disse – Essa é minha irmã, Kayou Tsubaki.
— Hum. – Disse.
Amaya sorriu alegre e eu fiquei surpresa por isso. Parecia que ela estava feliz por ter conhecido alguém no primeiro dia. Devia ser como nós. Mesmo sendo proibido praticar bullying, pessoas como nós eram as mais vistas nos colégios. Irônico. Depois disso, nós três fomos para o ginásio para a cerimônia de abertura. Nos sentamos bem atrás e próximas do canto. O diretor do colégio começou a falar sobre nosso começo nesse ano letivo, nos parabenizando e depois dando o lugar ao representante do primeiro ano.
— Bem, saudações ao representante do primeiro ano. – O diretor falava – É o estudante com maior pontuação nos exames de ingresso.
Eu olhava para o palco do ginásio com meus olhos meio abertos e imaginando que o tal representante fosse um nerd, mas não era.
— Akashi Seijuro. – O diretor concluiu.
Um garoto com cabelo vermelho e espetado foi em direção ao diretor, o cumprimentando e pegando o microfone.
— Arigatou. – Ele disse com aquela voz calma – Minna, hoje nós vamos começar mais um passo para o nosso futuro.
Enquanto ele falava eu suspirava desanimada. Ainda sentia que me faltava algo. Yuka olhava para frente, mas eu sabia que ela estava prestando atenção em outra coisa. Ela se inclinou para o lado, se aproximando de mim e começou a cochichar.
— Como o representante é?
Eu sorri, achando graça.
— Estatura mediana, cabelos ruivos, um olho vermelho e outro amarelo.
— Sugoii! – Ela cochichou – Então é por isso que as duas meninas estão cochichando sobre ele.
— Duas meninas?
— Hai. Na fileira a nossa frente, às duas horas.
A olhei, impressionada como sempre. Olhei para a direção e vi uma garota com longos cabelos pretos e outra de pele morena e cabelo marrom escuro enrolado. Elas conversavam animadas enquanto olhavam para o representante.
— Como elas são? – Yuka perguntou.
— A da esquerda tem cabelo longo e preto e a da direita tem cabelo marrom escuro e cacheado.
— Elas parecem ser amigas de antes do ensino médio. A do cabelo preto está dizendo como Akashi está bonito. E como a outra está concordando, provavelmente elas estudaram na mesma escola do fundamental que ele.
— Hum. – Disse, achando graça.
— Como você sabe quem é quem? – Amaya perguntou curiosa.
— Ah... – Yuka sorriu, achando graça – Pelas vozes e pela direção da voz eu sei onde cada uma está sentada.
— Sugoii! – Amaya disse, impressionada.
Akashi falou mais uma meia dúzia de palavras e nós fomos finalmente liberados. Fomos para o nosso andar para ver o quadro de turmas, onde saberíamos qual seria nossa sala. Yuka ficou próxima da parede e eu fui ver onde nossos nomes estavam. Quando vi fiquei aliviada, ficaríamos na mesma sala. Voltei até onde ela estava.
— Vamos ficar na mesma sala.
Ela sorriu contente.
— Eu também! – Amaya se aproximou, sorrindo.
— Que bom. – Yuka sorriu alegre.
Perto do quadro vi aquelas duas garotas se abraçando, acho que não ficaram na mesma sala e isso se confirmou quando vi a morena entrando na sala que ficaríamos. A outra foi para a sala ao lado e pareceu ter ficado bastante feliz em vista que eu vi de relance o representante do primeiro ano sentado na fileira da janela. Fomos para nossa sala e eu não notei o garoto de cabelo roxo no final da sala me olhando. Nos sentamos em qualquer lugar, mas o sensei logo nos chamou para definir o lugar de cada um. Eu apoiava o rosto na mão e o cotovelo na mesa, desanimada. Fiquei na última cadeira ao lado da janela com um garoto de cabelo roxo, que o tinha na altura dos ombros. Ele era grande e parecia ser alto, mas eu não o analisei, preferi ficar vendo a paisagem do meu lugar. Yuka ficou na terceira carteira da segunda fileira perto da janela, ao lado de um garoto de cabelo verde. Suspirei e dei uma olhada pela sala.
Com certeza... Com certeza meu ensino médio vai ser um saco!
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