cinco semanas mais tarde…

Stiles tinha terminado mais uma semana de trabalho na sua livraria. As vendas não tinham surpreendido ele, mas também não tinham se afogado. Tudo parecia estar se encaminhando muito bem para um negócio de sucesso, especialmente porque ele já tinha instituído algumas coisas interessantes no calendário da Coração de Lobo, como noites de leitura para crianças e um clube para os interessados em mistério, o que só ajudou a vender ainda mais livros.

Mas uma coisa que surpreendeu ele foi o fato de que pessoas passaram a trazer livros para ele, livros antigos e coisas que ele poderia vender. Aos poucos uma espécie de comunidade passou a se formar, e Stiles estava adorando aquilo. Não que tudo fosse um mar de rosas, pois um dia desses ele foi abrir a porta só para ver uma sacola cheia de fezes na calçada da sua loja, chamando ele de “Lixo Ômega” em um bilhete grudado à sacola.

Não que fosse algo normal de se acontecer, e o pai de Stiles queria ter podido fazer alguma coisa contra aquilo, mas Stiles não deixou o homem se estressar. Haviam coisas mais importantes na vida de Stiles do que dar atenção para aquilo — ainda que doesse um pouco nele saber que sua mãe havia lutado pelos direitos dos ômegas apenas para pessoas fazerem isso com ele.

No lado bom das coisas, pelo menos, Stiles agora tinha um namorado. Desde aquela noite com Derek eles começaram a se ver todos os dias, e vez ou outra Derek iria dormir junto com Stiles. Nenhuma das noites que eles passaram juntos foi como a primeira, não que fossem ruins, mas nada comparado ao fervor daquela noite — tanto que Stiles pouco se lembra do que aconteceu, ele só sabe que acordou no outro dia numa cama vazia, mas Derek o esperava com o café da manhã na cozinha.

Se ele já estava pensando em algum relacionamento com o homem, aquilo só fez ele ter certeza.

Os dois caminhavam lentamente nesse novo mundo. Algumas noites eles jantavam juntos, ou passavam um tempo na livraria atendendo clientes, e Derek até começou a atender alguns quando ele podia ver Stiles depois do seu turno na delegacia. Derek dificilmente trabalhava noites, já que o Xerife disse que iria dar uma ajudinha aos dois, e ainda que o pai de Stiles não tivesse mais ninguém ao seu lado, ele parecia feliz com o relacionamento de Stiles e Derek.

Claro, talvez poderia ser por causa do que aconteceu quando eles eram crianças, mas o tempo tinha passado e as desculpas foram dadas. Não tinha mais motivo para eles ficarem se ligando nessas coisas, ainda que Stiles tenha pedido para Derek se tudo estava bem entre eles.

E tudo estava.

Naquela sexta à noite eles teriam um jantar com o Xerife, que era o único membro de família que se relacionava com os dois, já que Stiles e Derek ainda não tinham tido nenhuma janta ou coisa assim com a família Hale. E aquilo por vários motivos. Além de o relacionamento deles ser novo, Stiles não queria ter que passar pela batelada de perguntas que iriam surgir, ainda que Laura ou Talia aparecessem pela loja dele de vez em quando, mas era sempre para falar sobre livros.

Quem sabe elas tinham ideia de que a vida deles tinha apenas começado a acontecer, e não queriam estragar nada, afinal eles já tinham tido bastante obstáculos no meio do caminho, e quem sabe agora as coisas começariam com o pé direito nessa vez.

A loja ainda estava aberta quando o Xerife chegou com Derek junto. Stiles conseguia ver a bicicleta de Derek no banco de trás, e ele deu um pequeno sorriso ao abrir a porta para os dois entrarem, Derek com sua bicicleta e o Xerife.

“Oi, pai,” Stiles cumprimentou o homem. Depois de um abraço ele se virou para Derek e deu o seu característico sorriso para o homem, logo antes de chegar perto dele para um curto beijo.

“Oi,” Derek sussurrou nos lábios de Stiles.

“Oi,” Stiles disse de volta.

Eles ficaram alguns segundos ali perto, mas logo se separaram para não fazer o momento ficar estranho, ainda que o Xerife, ao invés de ficar ali pela loja, já começou a subir para o apartamento de Stiles.

“Como foi seu dia?” Ele pediu para Derek.

“Cansativo. Tive que correr atrás de umas crianças no parque, eles estavam queimando latas de lixo.” Derek suspirou. Stiles deu uma pequena risada.

“Eu nunca fui de fazer aquilo, mas conheci muitos dos meus colegas que eram assim.”

“O problema é que era uma pequena gangue. Uns ômegas com outras crianças que não tem os genes. Acho que eles estavam revoltados com algo no colégio, não sei. A gente não tem como saber de tudo que se passa nas escolas.”

Stiles assentiu, e colocou uma de suas mãos no ombro de Derek ao ver que o homem estava preocupado. Stiles também sentiu a preocupação, afinal de contas ele era um ômega e sabia muito bem o quão difícil era ser um, ainda que nos dias de hoje as coisas fossem mais fáceis.

Eles caminharam juntos para o loft quando Stiles fechou a loja. Ele não pediu mais sobre o dia de Derek, vendo que o homem estava preocupado com aquilo. Stiles apenas ofereceu conforto. Era a melhor forma de fazer algo para seu Alfa — ainda que eles não fossem um casal Alfa e ômega oficialmente. Eles estavam juntos, Stiles dizia que eram namorados em sua cabeça, mas ainda não existia o compromisso.

Mas também, depois de tudo que aconteceu com eles, era bom que eles fossem devagar em algumas coisas. Mas nem tão devagar assim para não fazer outras coisas juntos. Stiles não queria perder aquela parte do relacionamento deles. Especialmente quando ele subiu as escadas atrás de Derek e viu aquela calça completamente cheia de músculos bem em frente ao seu olhar.

Saber que ele poderia pegar naquela bunda, ou enterrar seu rosto nela, sentir os pelos roçando em seu queixo e provar do gosto de Derek — e sim, mesmo sendo um Alfa Derek aceitava ser tocado em sua bunda, ainda que Stiles não tivesse interesse algum em ter uma relação com Derek daquela forma. Mas sentir o gosto dele era bom demais.

“Eu já preparei a mesa e a massa também já tá cozinhando,” disse o Xerife assim que Stiles pisou em seu loft. A cabeça dele deu uma pirada porque ele tava pensando em sexo há uns segundos, mas agora ele tinha que se concentrar no seu pai.

“E o molho?”

“É o tradicional que eu sempre faço,” disse o Xerife. O homem apontou o sofá para Stiles, como se ele estivesse tomando conta da casa. E já era costume do Xerife tomar conta das coisas e sempre servir, especialmente depois que ele perdeu a mulher.

Não demorou muito tempo para John trazer o pote com massa para a mesa de centro da sala. Derek trouxe os pratos, e Stiles apenas ficou sentado. Já era quase um costume isso acontecer. Mesmo que ele não tivesse trabalhado duro, apenas cuidando da loja, ele sempre era o servido. O Xerife fazia aquilo porque sempre queria cuidar do filho, e Derek, bom, era óbvio que ele sempre queria prover para Stiles.

O jantar foi o mesmo de sempre, com Stiles sentando no sofá ao lado de Derek, e o Xerife sentado na poltrona que eles compraram especialmente para isso. A conversa se centrou nas coisas comuns da vida deles, no trabalho de todos e no que acontecia na rotina de cada um. O Xerife sempre pedia se nada ruim tinha acontecido, especialmente após o incidente fedorento.

Derek, por sua vez, nunca pedia sobre isso, mas ele sabia quando algo estava errado com Stiles. Ele sentia, tanto que no dia que aquilo aconteceu ele ligou para Stiles quase na hora, pedindo como ele estava. Parecia como se os dois estivessem conectados no coração, e o que um sentia o outro sentia também. Era um descoberta nova a cada dia, e Stiles gostava daquilo mais e mais.

Após a refeição Stiles se ofereceu para lavar a louça, e Derek foi o ajudar. O Xerife ficou vendo TV na sala. O trabalho foi simples, e Stiles e Derek terminaram tudo bem depressa.

Quando Stiles pendurou um dos panos de prato ele se virou pra pegar a sobremesa na geladeira, um pote de sorvete. Derek já tinha até pegado os pratinhos e se aprontado para levar para o sofá, mas assim que Stiles tirou o sorvete da geladeira ele sentiu uma vertigem o atingindo, perdendo o equilíbrio e caindo ao chão, deixando a geladeira aberta e vendo o pote rolar pelo chão.

“Stiles?” Derek chegou ao seu lado em um segundo. Ele ajudou Stiles a sentar.

Os seus olhos estava meio embaçados, mas Stiles não sentia nada demais. Foi simples e rápido, ele apenas caiu ao chão mas logo se arrumou. Derek apenas olhava para ele com preocupação, e assim que Stiles olhou para o lado ele viu seu pai também por ali.

“Stiles, você está bem?” O Xerife pediu. Ele assentiu.

“Você não se machucou? Eu não consigo sentir dor nenhuma,” disse Derek, confirmando o que Stiles sentia também. Sendo um lobo ele poderia sentir outras coisas, e como Alma Gêmea essa ligação era mais forte. Interessante que ele não tenha sentido a tontura que Stiles sentiu.

“Eu acho que estou bem, foi só uma coisa de momento,” Stiles falou. “Eu nem consigo entender direito.”

Derek olhou para Stiles com preocupação em seus olhos, e Stiles pode sentir que os dois estavam bastando nervosos com ele. Mas tirando o momento de tontura, Stiles não sentiu nada, tanto que logo ele pediu para se levantar, e ainda que não precisasse, pai e namorado o ajudaram.

Assim que ele se levantou Stiles sentiu uma leve tontura de novo. Era uma coisa meio inesperada, mas ele pode controlar com uma respirada profunda. Em seguida ele tentou caminhar para a sala para sentar, mas então o enjoo se abateu sobre Stiles, e com seus pés em fogo, correndo ao banheiro, Stiles teve tempo de abrir a porta da privada antes de colocar pra fora todo o seu jantar.

Há muito tempo ele não tinha aquele tipo de enjoo. O gosto ruim na boca era horrível, e depois de vomitar tudo Stiles se sentiu fraco. Logo Derek apareceu com um copo de água, e o Xerife estava logo atrás. A preocupação era um sentimento com um cheiro forte, e até Stiles conseguia sentir, mesmo sem ter os sentidos apurados.

“Filho, você comeu algo errado? Alguma coisa aconteceu ultimamente?” O Xerife pediu.

Stiles sacudiu a cabeça.

“Fiz tudo igual, não tem nada de diferente.” Stiles se sentia cansado, mas pelo menos o enjoo tinha passado e a tontura também. Ele só sentiu sua barriga cansada, um pouco embrulhada, mas nada demais.

Derek, que estava ajoelhado ao lado de Stiles não tirava a preocupação de seu rosto. Stiles pode até ver que ele estava usando seu nariz para sentir se havia algo de errado acontecendo com o corpo de Stiles, mas apenas a confusão aparecia em seu rosto.

Com mais calma, pai e namorado ajudaram Stiles a ir para o quarto, e dessa vez ele não sentiu tontura ou enjoo, conseguindo deitar na cama. Derek sentou ao lado dele, pegando na mão de Stiles, tentando tirar a dor ou qualquer coisa que ele sentia — mas naquele momento ele só se sentia cansado, e não tinha como retirar aquilo de alguém.

Stiles fechou os olhos para relaxar um pouco, mas ficou ouvindo Derek e seu pai conversando.

“Você não sabe se tem alguma coisa acontecendo com ele?” O Xerife pediu.

“Não. Não tem nada que eu saiba,” disse Derek.

“Mas e você não consegue sentir nada, talvez cheiro ou som?”

“Também não. Aliás, eu nem consegui sentir a tontura ou enjoo, não senti nada. Para mim ele parecia completamente normal e saudável.” A voz de Derek parecia instigada, mas Stiles não conseguiu ouvir mais nada pois o sono se abateu sobre ele e Stiles dormiu.

Ele ainda tentou pensar o que poderia ter acontecido com ele, mas não havia nada de diferente, além da relação dele com Derek. Mas eles se protegiam, e Stiles já tinha marcado uma consulta com o médico para poder voltar a tomar os controladores.

Não tinha como saber o que havia causado aquilo. Talvez fosse apenas uma virose. Afinal não poderia ser um filho, aquilo seria uma coisa maluca por demais...