Coração de lobo

1 Algo novo, alguém novo


Notas iniciais
Okay, pessoal, essa é uma história um pouco diferente e eu peço que vocês fiquem atentos aos avisos da história. Ainda vai ter um pouco de tempo pra história começar a pegar fogo, haha, mas sentem-se e aproveitem. Um beijão pra todo mundo - e foi bom voltar a escrever sterek!

No mundo em que vivemos cada um pode ser o que quer. Pode escolher ser homem ou mulher, ou qualquer estágio da sexualidade humana que existir entre um e outro. Não importa a orientação sexual das pessoas, não importa a cor, afinal de contas qualquer um desses detalhes de nossa existência não faz qualquer diferença pro fato de que nossos genes comandam a divisão social.

Alfas e ômegas fazem o mundo girar. Uns comandam, outros obedecem, não existe meio termo. Claro, a maior parte da população, principalmente aqueles que ainda são apenas humanos em seu âmago, tem menos predisposição genética a se apresentarem como uma força conflitante para a sociedade — os Alfas lobisomens fazem o bastante daquilo por si próprios para equilibrar a balança

Ainda bem que o gene dos lobisomens tem se alterado para favorecer a miscigenação com o resto da sociedade, fazendo com que cada vez menos e menos Alfas lobisomens nasçam, dando lugar a muitas crianças lobisomens ômega, que são mais suscetíveis a uma adaptação social melhor.

Ser um ômega não é mais relacionado com a hierarquia nos bandos animais de tantos séculos atrás. Hoje em dia ser um ômega apenas significa que o seu corpo é um receptáculo, a parte da divisão social de hoje responsável pela maior parcela dos esforços da procriação. Alfas não podem ter filhos entre si, apenas podem reproduzir junto a um ômega. Enquanto isso, ômegas podem ter filhos entre si, o que claro, ajuda ainda mais a fortificar a parcela ômega da sociedade.

Infelizmente, ainda assim, ser um ômega é difícil. Por mais que não exista uma discriminação óbvia e direta, os Alfas ainda são preferidos para os cargos mais altos do mercado econômico porque eles tem genes mais fortes, tem sentidos mais aguçados e geralmente conseguem convencer os outros com mais facilidade — principalmente devido à suas características. Por um longo tempo isso gerou muitos conflitos entre os Alfas, até eles começarem a perceber o quão importante dentro da sociedade era essa força que eles tinham.

Depois dessa fase da evolução, os Alfas passaram a tacitamente se ajudar.

Enquanto os ômegas tentavam garantir seus direitos através da presença forte na sociedade, com mais e mais crianças ômegas surgindo, os Alfas passaram a comandar o mundo por causa de sua força persuasiva. Ao invés de termos um mundo dividido entre homens e mulheres, ou lobos e humanos, assim como a história nos conta, hoje o nosso mundo se divide entre os fortes e fracos. Alfas e ômegas, mas não necessariamente nessa ordem.

Cláudia Stilinski

Stiles tinha apenas oito anos quando ele leu aquelas palavras pela primeira vez, e ainda assim ele sempre soube que elas faziam sentido. E muito sentido. Sua mãe tinha se estabelecido como uma grande pensadora do Movimento Equalizador, pelo menos antes de ela ser morta em um dos ataques terroristas que foram cometidos nos Estados Unidos — e que ainda acontecem constantemente. Eles são geralmente fruto dos grupos de rebeldes humanos fora dos genes Alfa e ômega, grupos que querem tomar a sociedade de volta, sendo que a evolução foi algo quase democrático e não uma guerrilha como eles costumam pensar, mas eles foram tão envenenados que hoje em dia nem tentam mais se juntar ao resto da sociedade.

Claro, aos dez anos de idade Stiles não tinha muita noção do que esses ataques significavam para a divisão da sociedade, mas ele acabou descobrindo da pior maneira como eles poderiam modificar a sua vida. Até aquele momento Stiles estava longe deles, já que a maior parte dos ataques acontecia nas grandes cidades e com mais força na Costa Leste do que nas cidades próximas ao Pacífico, a própria mãe dele havia morrido durante uma convenção na Flórida.

O ataque que matou Cláudia e mais quarenta e sete pessoas chocou a pequena cidade de Beacon Hills. Ela era muito conhecida, uma mulher Alfa aclamada por seu pensamento progressista e sempre procurando uma solução para os problemas do mundo. Uma pena que ela morreu sem poder criar o próprio filho para o mundo que ela queria tanto mudar.

Pelo menos Stiles ainda tinha seu pai para continuar vivendo, ainda que o homem tivesse sua vida tomada pelo emprego de Xerife da cidade além da depressão de ser um ômega solitário sem um Alfa para equilibrar sua vida. Stiles também era um ômega, mas ele só iria começar a sentir a força dos genes quando ele ficasse mais velho, motivo pelo qual seu pai ainda não lhe explicava muito a respeito das relações entre os diferentes genes.

Mas Stiles era um garoto feliz. Ele perdeu sua mãe muito novo, e chorou por ela, sim, mas aprendeu a viver com seu pai e seu melhor amigo, pelo menos até o dia em que o mesmo melhor amigo se mudou par outra cidade, deixando a casa ao lado da de Stiles para ir para Los Angeles. LA era na Califórnia também, mas muito longe para eles poderem ir se visitar, especialmente porque os dois eram apenas crianças.

Stiles chorou abraçado ao Xerife enquanto via seu melhor amigo indo embora, já sentindo falta da presença de um Alfa em sua vida. Apesar de Scott e Stiles serem apenas amigos, especialmente por causa da tenra idade deles, amizades entre Alfas e ômegas eram beneficentes para todos, pois criavam um equilíbrio entre as espécies. Depois da saída do único Alfa em sua vida, Stiles teve que se contentar com a presença apenas do seu pai, que era importante, mas ainda assim deixava ele ansiando por algo mais.

O pobre Xerife não tinha muito o que fazer além de dar todo o seu amor para o filho. E Stiles amava ele por isso, ainda que ele sentisse falta de sua mãe. O problema era que ele passava muito tempo sozinho, já que o pai trabalhava um monte, e não havia ninguém para cuidar dele. Mas Stiles era um garoto bem maduro para sua idade.

Haviam lendas que diziam que os ômegas eram feitos para o lar enquanto os Alfas eram feitos para o dinheiro, mas aquilo era pura bobagem. Stiles conseguia viver sozinho porque ele era comportado e sabia que tinha que obedecer a seu pai para que os dois pudessem conseguir continuar juntos.

Mas ele sentia falta de alguém, Stiles não poderia negar.

Foi apenas quando ele completou onze anos de vida que uma família nova chegou na vizinhança. Quando o pai dele contou para Stiles o garoto ficou curioso, mas um pouco triste com a possibilidade de nunca mais ver Scott e Melissa, especialmente agora que eles não teriam mais a sua casa para voltar. Claro, tinha a possibilidade de que aqueles vizinhos seriam legais, mas Stiles não sabia daquilo. Ele tinha esperança que quem sabe houvesse uma criança entre os filhos do casal e Stiles até pudesse encontrar alguém para poder brincar, especialmente durante os meses de verão em que ele não tinha nada para fazer.

A expectativa foi crescendo enquanto Stiles ficava esperando para ver quem chegaria ali. O verão ia passando com dificuldade, pois parecia que nunca ia terminar, mas enfim, quando Stiles já estava quase pronto para começar as suas aulas na nova escola, já que ele havia deixado para trás a sua escola antiga, a nova família chegou.

Stiles agora ele iria para a Beacon Hills High, na ala ao lado do prédio do Ensino Médio, já que ele ainda tinha quatro anos para poder ir para a parte da escola onde os mais velhos estudavam. As duas alas da escola eram divididas por uma cerca alta, podendo deixar os alunos se enxergarem, mas quem era do Ensino Médio não tinha contato com os alunos que ainda estavam no Fundamental. Não que Stiles estivesse realmente ansioso para terminar os estudos, ele adorava estudar.

Mas como eu ia dizendo, a família que iria se mudar para a casa ao lado de Stiles chegou no final do verão. Era um dia como outro qualquer em que Stiles passou quase a maior parte do tempo enfiado no mundo dos jogos, mas quando ele ouviu o primeiro caminhão de mudanças chegando ele teve que deixar os controles para trás e ir para a janela ver quem estava vindo.

Tinha um sentimento de antecipação nele, uma vontade de saber quem iria morar ao lado dele, e Stiles quase teve vontade de sair para receber os vizinhos, uma coisa que ele já havia visto o pai fazer antes, mas Stiles era só uma criança. Ele não sabia exatamente qual era a melhor maneira de ele fazer aquilo.

Então ele apenas ficou olhando.

O primeiro caminhão estacionou em frente a casa e logo outro chegou. Stiles estava surpreso, afinal ele não conseguia nem imaginar como uma família iria encher dois caminhões, mas ele sabia que a casa que era do Scott era uma casa grande, e poderia abrigar uma família de pelo menos uns três filhos se eles não dividissem os quartos, e mais se eles dividissem. Na verdade ele conhecia tudo lá dentro, pelo menos antes de os McCall se mudarem. Agora iria ser estranho ver essa outra família morando por lá.

E falando na outra família, Stiles ficou ainda mais na expectativa quando ele viu o carro da família chegando. Não era uma carro muito chique ou imponente, mas era um carro grande, especialmente comparado com o Jipe que Stiles tinha na garagem de casa. Aquele carro seria seu quando ele crescesse, mas ainda havia um bom tempo para aquilo.

E agora ele nem estava pensando no seu Jipe, ele só conseguia olhar para as pessoas descendo do carro. Os homens da mudança já começavam a levar algumas coisas para dentro. A mulher que saiu do carro, uma moça já com uma certa idade, mas com cara de ser bem cuidada, dirigia os trabalhadores. O marido dela, ou pelo meno o cara que Stiles achou ser o marido dela, foi organizando as crianças enquanto elas desciam do carro.

Aquilo parecia ser a parte que Stiles estava esperando.

Além do pai e da mãe, ou pelos menos do casal que Stiles presumia ser o pai e a mãe, a família era composta por duas meninas e um garoto. Uma das meninas parecia ser a mais velha, já com cara de estar estudando no Ensino Médio, o que fez Stiles ter certeza de que ela não seria muito próxima dele, caso os dois se conhecessem.

A outra menina, no entanto, tinha cara de ser de alguma idade próxima de Stiles, talvez da mesma. Ele olhou para ela com a testa franzida, tentando imaginar se haveria a possibilidade de os dois virarem amigos. Stiles nunca havia tido uma amiga menina, aliás, além de Scott, ele quase não teve amigos. Mas ele não se importava muito com aquilo, pois viver sozinho era algo que ele já estava acostumado.

Claro, aquilo não impedia ele de pelo menos querer um. E quando ele viu o garoto, irmão das meninas, Stiles quase sentiu uma ponta de esperança no seu coração. Bom, ele certamente não era da mesma idade que Stiles, quem sabe ele estudava no último ano do Fundamental ou no primeiro do Médio, então por volta de quatro ou cinco anos mais velho, mas havia a possibilidade de eles pelo menos se conhecerem.

Entretanto, Stiles sabia que além dos treze, catorze anos, os meninos acabavam mudando de ideias enquanto começavam a crescer. Ele mesmo já sabia que a sua cabeça iria mudar a partir daquela idade, então talvez aquele garoto seria a última pessoa no mundo a virar um amigo de Stiles.

Mas ele poderia sonhar, claro.

Com seu olhar atento, Stiles ficou cuidando como eles iam carregando as coisas para dentro e levando tudo que era seu para a nova casa. Stiles quase queria sair lá fora e dizer um olá para eles, de novo, mas ele estava com um pouco de vergonha. Ele teria mais tempo para procurar por eles e conhecer a todos. Por agora já estava bom ficar ali na janela tentando enxergar tudo sem ser percebido.

E ele pode olhar para a família durante quase a tarde toda, especialmente porque nenhum deles olhou para a janela onde Stiles estava.

Pelo menos ninguém viu ele até o final da tarde.

Stiles já estava cansado de ficar ali, então ele começou a murmurar uma música por entre seus lábios. Ele mal conseguiu dizer a primeira frase da canção antes do garoto da nova família olhar diretamente para a janela onde Stiles estava, deixando seus olhos se grudarem aos de Stiles.

Por um moment o olhar dos dois ficou fixado, até Stiles sentir seu rosto pegar fogo e ele tentar se esconder. A respiração vinha rápido de dentro do peito, e Stiles nem sabia porque ele se sentiu assim, talvez apenas porque ele foi pego espiando pela janela, mas aquele olhar do menino fez o peito dele se enrolar lá dentro.

Depois daquele momento Stiles tentou evitar as janelas pelo resto do dia. Mas nenhum de seus jogos foi capaz de fazer ele esquecer aquele olhar. E ele não fazia ideia do porquê.