Narrado por Renesmee


Salém ronronava inquieto em meus braços quando o estalo veio da mata à esquerda.

Meu coração disparou. Por um segundo jurei que era um monstro, mas o som suave de cascos denunciou apenas um cervo cortando a vegetação úmida. O susto, porém, foi grande o bastante para me fazer escorregar numa raiz escorregadia. Caí de costas, abraçada ao gato, a respiração saindo em nuvens.

— ótimo, Nessie… morre de ataque cardíaco por causa de Bambi — resmunguei, limpando folhas do pijama encharcado.

Levantei-me com cuidado e tentei orientar-me, mas cada tronco gigantesco parecia igual ao anterior. “Sem pânico”, repeti mentalmente, enquanto caminhava sem direção certa. A floresta se fechava em túneis verdes, o chão esponjoso abafava meus passos e só o miado ocasional de Salém quebrava o silêncio.

Então ouvi vozes.

Masculinas, abafadas, vindas de algum lugar à frente.

— Vocês estão ouvindo isso? — murmurei para o gato, que me encarou como se eu tivesse enlouquecido. — Ótimo, agora converso com felinos. Próxima etapa: lamber a própria pata.

Segui o som, esgueirando-me entre arbustos, porém… nada. Nenhuma pessoa. Nenhum caminho aberto. Só árvores que pareciam troçar da minha desorientação.

— Deve ser a fome inventando gente — suspirei.

Foi quando um “Boooom!” grave ecoou às minhas costas, tão perto que senti o ar vibrar. Dei um grito agudo, o mundo girou e eu tropecei de lado, aterrissando de banda em um tapete de samambaias, ainda agarrada a Salém (que chiou, indignado).

— Ah, cara, você viu a cara dela? — uma risada juvenil explodiu.

Ergui a cabeça, meio zonza, e deparei-me com dois garotos enormes saindo por trás de um tronco. Os dois tinham pele bronzeada, cabelos longos presos em rabo de cavalo e braços musculosos que esticavam as mangas de camisetas surradas.

— Quil, você quase matou a menina do coração — disse o mais alto, tentando conter o riso.

— Foi mal, eu só queria chamar a atenção dela — respondeu o outro, ainda gargalhando.

Fiquei de pé, vermelha até a raiz do cabelo.

— Vocês são doidos? Eu podia ter… ter… — gaguejei, sem encontrar ameaça melhor — quebrado alguma coisa!

— Relaxa, garota-gato — o primeiro abriu um sorriso largo. — Somos Quil e Embry. Estamos procurando a sobrinha do Harry Clearwater que se perdeu. Por acaso…

Engoli em seco, ajeitando Salém no colo.

— Sou eu.

E, pela expressão que atravessou aqueles rostos ainda divertidos, percebi que minha aventura pela floresta estava só começando.


Ainda tentava recuperar a dignidade depois da queda quando uma voz mais grave cortou a floresta, vindo de trás dos dois garotos:

— Vocês são idiotas ou só acordaram assim hoje?

Quil e Embry se viraram ao mesmo tempo, encolhendo os ombros como dois garotos pegos em flagrante.

Entre os arbustos, surgiu o terceiro garoto. Mais alto, o corpo igualmente forte, mas diferente dos outros. Tinha um olhar sério, firme. Cabelo amarrado num rabo de cavalo mais baixo, sobrancelhas levemente franzidas e a expressão de quem não tinha tempo pra besteira — ou, pelo menos, tentava parecer assim.

Ele me encarou e então seu rosto suavizou.

— Você deve ser a Renesmee — disse, com a voz mais gentil do que eu esperava. — Sou Jacob. Mas pode me chamar de Jake.

Assenti, ainda um pouco sem fôlego. Salém ronronava no meu colo como se nada tivesse acontecido.

— Meu tio tá com você? — perguntei, ajeitando o cabelo molhado.

— Ele tá esperando mais adiante com o resto do grupo. Ficou preocupado. Pediu pra gente ir na frente — respondeu Jake, tirando o casaco de moletom cinza que usava e estendendo pra mim. — Toma. Você tá tremendo.

Hesitei por um segundo. Era largo demais pra mim, e cheirava a floresta e sabão. Mas o frio me fez ceder.

— Obrigada — murmurei, vestindo o casaco. As mangas cobriram até meus dedos.

— Então… — Jake apontou com o queixo para o gato no meu colo — esse é o tal fugitivo?

Suspirei, olhando para Salém com um falso olhar severo.

— Esse é o Salém. E, sim, ele está oficialmente de castigo até 2028.

— Acho justo — Jake respondeu com um leve sorriso no canto da boca.

— Vocês acham que ela vai mesmo levar esse bicho de volta pra casa? — Embry se meteu. — Aposto que ele tá tramando outra fuga. Gato com alma de lobo.

Quil riu.

— Alma de encrenqueiro, isso sim.

Então Embry me olhou, inclinando levemente a cabeça.

— Mas ó… entre nós, você é muito mais bonita do que a gente imaginou.

Eu arregalei os olhos, surpresa com a ousadia. Quil riu ainda mais alto. Jake, porém, não achou nem um pouco engraçado.

Sem avisar, deu um tapa certeiro na nuca de Embry.

— Aí, cara! — Embry reclamou, massageando o local.

— Cala a boca. Ela se perdeu, quase congelou, e ainda tem que aguentar teu galanteio de quinta?

Jake se virou pra mim com um olhar mais gentil.

— Desculpa por eles. Sério. Eles não têm filtro desde 2003.

Ri, aliviada. Pela primeira vez desde que cheguei em La Push, senti uma pontinha de normalidade.

— Tudo bem… foi até engraçado — admiti.

— Você vai perceber — Jake comentou, enquanto começávamos a caminhar —, aqui ninguém é muito normal mesmo.

E, pela primeira vez, eu gostei da ideia.


Narrado por Jacob


O caminho de volta foi mais lento do que eu esperava.

A garota — Renesmee — tentava se manter firme, mas estava nítido que o cansaço já começava a cobrar. Ela cambaleava de leve, mesmo segurando aquele gato com tanta força que parecia ter virado parte do corpo dela.

Olhei por cima do ombro. Quil e Embry vinham logo atrás, discutindo baixinho sobre quem tinha mais chance de tropeçar primeiro.

— A gente vai precisar de um plano melhor se quiser sair daqui antes do pôr do sol — resmunguei.

— Ah, claro — Quil resmungou de volta. — Um plano tipo “carregar a garota no colo feito cavaleiro medieval”?

Suspirei e olhei pra frente, onde ela tentava avançar pela trilha cheia de galhos. Seus joelhos tremiam.

— Ei — chamei. — Quer montar?

Ela parou, confusa.

— Montar...?

— Nas minhas costas. Te levo até lá. Já fiz isso com a minha irmã quando era menor. Mais confortável que ficar tropeçando em raiz.

Ela arqueou uma sobrancelha e negou com a cabeça, orgulhosa:

— Tô bem. Só tô… um pouco sem bateria.

— Um pouco? — Quil murmurou, baixo o bastante pra ela não ouvir. — Se ela desligar, vai dar trabalho pra reiniciar.

Segui andando, mas não demorou nem dois minutos para vê-la cambalear outra vez, quase tropeçando.

— Ok, chega. — Suspirei, parei e me virei de uma vez. — Com licença.

— O quê?! — ela protestou quando a ergui no colo, com o gato e tudo.

— Você não pesa quase nada. Vai ser mais rápido assim.

Ela esperneou um pouco, emburrada, os braços tentando ajustar Salém, que soltou um miado de reprovação.

— Isso é um sequestro — murmurou.

— É um resgate bem executado, na verdade — retruquei.

Ela bufou, mas logo seu corpo relaxou. E, aos poucos, sua cabeça encostou no meu ombro. Ainda segurava o gato como se fosse uma almofada emocional, mas agora respirava mais devagar.

Alguns minutos depois, eu percebi que ela tinha apagado.

— Tá dormindo? — Embry perguntou atrás de mim, surpreso.

— Tá — respondi em voz baixa. — Exausta. O corpo dela tava no modo sobrevivência. A gente chegou a tempo.

Quando finalmente cruzamos o último trecho da trilha, vi as silhuetas de Harry, Leah e meu pai, Billy, esperando próximos ao velho jipe.

Harry veio até nós primeiro, a expressão tomada pela preocupação.

— Jacob! E aí?

— Achei. — Falei, parando em frente a ele. — Tava um pouco longe, mas com o gato são e salvo. Ela só tá dormindo agora. Exausta, mas bem.

Harry olhou para a sobrinha nos meus braços, os olhos marejados de alívio.

— Graças aos céus…

Leah retirou o gato dos braços da prima, aliviada mas tentando manter a pose.

— Se o Salém se perder de novo, eu é que vou jogar ele pela janela.

— Mia mais alto que um bebê de três meses — murmurei, rindo.

Billy me olhou por alguns segundos. Aquele tipo de olhar silencioso que pais fazem quando querem dizer algo, mas deixam pra depois. E, pela primeira vez, notei algo diferente nele... um brilho curioso.

Talvez tivesse sido o jeito que eu carregava a garota.

Talvez ele tenha percebido antes de mim que alguma coisa estava diferente.

Mas naquele momento, tudo o que importava era que ela estava bem.

E por algum motivo que eu não entendia, senti como se fosse minha responsabilidade garantir isso daqui pra frente.