Narrado por Renesmee


Morar sozinha aos dezoito anos não é tão glamouroso quanto os filmes fazem parecer.

Acordar sem o cheiro do café da minha mãe. Chegar em casa e encontrar apenas o miado de Salém esperando por mim. Pagar boletos, cozinhar, lavar roupa... tudo isso ao mesmo tempo em que tento não me perder de mim mesma. A verdade é que crescer é uma mistura agridoce — e viver em Seattle tem sido um aprendizado constante.

Um ano se passou desde que deixei La Push. Um ano desde que fugi para salvar o que restava de mim.

Agora, aqui estou. Começando o curso de medicina na University of Washington, uma das faculdades mais renomadas do país. Parece surreal. Eu caminhei até aqui sozinha. Com os joelhos ralados da alma e o coração cheio de cicatrizes.

Minha mochila estava pesada, mas não tanto quanto os pensamentos que tentei calar enquanto atravessava os jardins da universidade. Era o primeiro dia de aula. Os corredores estavam cheios, barulhentos, e o ar cheirava a livros novos, perfume barato e ansiedade.

Passei os olhos pela placa: Health Sciences Building. A sala da primeira aula ficava no segundo andar. Subi as escadas, tentando parecer segura de mim, mesmo com as mãos suando e a respiração curta.

Foi quando virei o corredor que tudo aconteceu.

— Ai! — exclamei ao esbarrar em alguém. Minhas pastas caíram no chão, e o susto me fez tropeçar para trás.

— Droga, desculpa! — disse uma voz masculina, grave e firme. Ele se abaixou imediatamente para me ajudar.

Nossos olhos se encontraram no mesmo instante. Ele era bonito. Muito bonito. Cabelos castanhos bagunçados, olhos intensos, e aquele sorriso fácil que parece ter sido ensaiado para arrancar o ar de qualquer garota.

— Riley — disse ele, estendendo a mão para mim com um sorriso torto. — Riley Biers. E você?

— Renesmee — respondi, ainda surpresa pela colisão. — Mas... pode me chamar de Nessie.

Ele riu levemente. — Nessie. Nome diferente. Gosto disso.

Peguei as folhas das mãos dele, tentando manter o rosto neutro, mas já sentia o coração disparado no peito. Não por ele. Mas por mim. Por sentir algo de novo. Ainda que fosse só nervosismo... ou curiosidade.

Talvez, só talvez, a vida estivesse me dando permissão para recomeçar.


O caminho até o auditório 02 parecia menos intimidador com Riley ao meu lado. Era estranho me sentir assim — confortável — ao lado de um completo desconhecido. Mas havia algo nele… talvez o jeito despreocupado de andar, ou o sorriso fácil, que me dava uma sensação boa. Familiar.

— Então você também vai pra Engenharia? — perguntei, só para confirmar.

— Sim, senhortita— ele respondeu com uma expressão brincalhona. — Engenharia Civil. E você?

— Também. Parece que vamos ter umas boas horas de aula juntos — respondi, tentando disfarçar o sorriso.

Ele assentiu com a cabeça e continuamos andando lado a lado. O campus da Universidade de Washington, com seus prédios imponentes e corredores movimentados, era uma mistura de caos e promessas. Era o primeiro dia de aula na minha cidade natal, mas tudo parecia novo.

— Você é de Seattle? — ele perguntou, como se lesse meus pensamentos.

— Sou. Nasci e cresci aqui… embora nem sempre tenha morado na cidade em si — disse, medindo as palavras.

— Mesma coisa comigo — respondeu. — Tive uma fase fora, mas sempre acabei voltando.

Quando chegamos ao auditório, ele segurou a porta para mim. O gesto foi simples, mas gentil.

— Obrigada — murmurei.

— Que isso. Primeiro dia, né? Vamos fingir que a gente sabe o que tá fazendo — ele piscou, e eu ri.

Sentamos lado a lado no meio da fileira. O lugar já estava bem cheio, mas ainda havia um burburinho de vozes e risadas ansiosas. Quando as luzes baixaram e o professor subiu ao palco, meus olhos ainda escapavam até Riley de tempos em tempos.

Ele parecia realmente interessado na aula, mas também lançava olhares curiosos na minha direção, como se estivéssemos dividindo um segredo silencioso.

E talvez estivéssemos mesmo. O segredo de dois desconhecidos que, por algum motivo, não pareciam tão desconhecidos assim.


Claro! Aqui está a continuação da cena, narrada por Renesmee, com o momento pós-aula, a apresentação dos amigos e a mudança de clima causada por Nayla:

Narração: Renesmee

A aula terminou mais rápido do que eu esperava. Talvez porque o conteúdo me interessasse de verdade, ou talvez porque eu passara metade do tempo trocando olhares curiosos com Riley.

Do lado de fora do auditório, ele me esperou, encostado na parede com as mãos nos bolsos e aquele sorriso tranquilo nos lábios.

— Tá viva? — brincou.

— Por enquanto — sorri de volta. — Acho que sobrevivi à primeira aula.

Ele fez um gesto com a cabeça, apontando para um grupo que se aproximava. Três pessoas vinham em nossa direção, animadas e barulhentas.

— Vem cá, quero te apresentar umas figuras — disse ele, e eu o acompanhei.

— Essa aqui é a Nayla — ele começou, apontando para uma garota de cabelo escuro preso em um coque bagunçado, camiseta larga e olhos atentos. — Shaw — um cara alto, com um boné virado pra trás e mochila jogada em um ombro — e Tony — mais baixo, cabelo loiro descolorido e um sorriso debochado.

— Oi, prazer — cumprimentei, meio tímida.

— Prazer é nosso — disse Shaw. — E aí, você também sobreviveu ao sermão do professor?

— Por pouco — brinquei.

— A Nessie tá no mesmo curso que eu — disse Riley, me lançando um olhar de lado.

— Civil? — perguntou Tony, arregalando os olhos. — Olha só! Mais uma CDF no grupo.

Riley riu, mas Nayla resmungou algo baixo que eu não entendi direito. Foi algo como “até parece que ela vai durar muito tempo com esse rostinho de modelo”.

Riley a encarou com o maxilar tenso.

— Nayla… — disse em um tom de aviso.

Ela ergueu os ombros, fingindo inocência, mas o clima ficou visivelmente estranho. Shaw e Tony olharam um para o outro, desconfortáveis.

— Quer almoçar com a gente? — Riley perguntou, tentando ignorar o comentário. — A gente ia no refeitório, nada demais, mas melhor que comer sozinha.

Olhei para Nayla, que agora mexia no celular como se eu nem estivesse ali. Depois encarei Riley. Ele ainda mantinha um sorriso, mas dava pra ver que estava incomodado.

— Claro — respondi, tentando suavizar o clima. — Mas… talvez seja melhor irmos logo. Antes que o refeitório lote.

Ele assentiu rapidamente, quase aliviado.

— Boa ideia.

Enquanto começávamos a andar, senti os olhos de Nayla nas minhas costas. Algo me dizia que ela não gostava de mim. E pior — talvez me visse como uma ameaça.

Mas eu não era.

Pelo menos, ainda não.


◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇


— Você vai na festa dos calouros hoje? — perguntou Shawn, com um sorriso enquanto se acomodavam nas cadeiras do refeitório da faculdade. Ele apoiou os cotovelos na mesa e deu uma mordida no sanduíche.

— Festa? — franzi a testa. — Eu nem sabia que ia ter uma.

— Sério? — Riley olhou para mim com surpresa e depois sorriu. — Então considera-se oficialmente convidada. Vai ser na casa de um veterano da engenharia elétrica. Bem famosa, todo ano. Eu posso te buscar, se quiser.

Meu coração bateu um pouco mais rápido. Ainda não conhecia quase ninguém ali, e a ideia de ir com Riley deixava tudo mais fácil... e mais interessante.

— Eu adoraria. Obrigada — respondi, sorrindo de volta.

— Pensei que você fosse com a gente, Riley — comentou Nayla, com um tom que misturava surpresa e algo mais... difícil de definir.

Riley desviou o olhar dela e voltou os olhos para mim.

— A gente se encontra lá. Eu busco a Nessie e encontramos vocês depois — respondeu, de forma firme, mas ainda gentil.

O clima na mesa ficou levemente tenso. Nayla se limitou a dar um gole na bebida, sem comentar mais nada.

— Então...seja bem vinda oficialmente ao grupo— brincou Tony, tentando quebrar o gelo. — A faculdade de engenharia civil vai dominar o mundo!

Todos riram, menos Nayla, que permaneceu em silêncio.

Riley virou-se mais para mim, sorrindo.

— Vai ser divertido. E te garanto que depois de uma semana cheia de cálculos e laboratórios, você vai querer uma distração.

— Acho que você tem razão — concordei, relaxando um pouco mais.

Ainda era tudo novo, assustador e empolgante ao mesmo tempo. Mas naquele momento, entre amigos que ainda estavam se conhecendo e com Riley ao meu lado, pela primeira vez em muito tempo, senti que talvez eu realmente estivesse pronta para esse novo capítulo da minha vida.


Narrado por Jacob


Eu entrei em casa já perto do amanhecer, com os ombros pesados e a mente girando. Mais uma noite atrás da vampira ruiva — e mais uma noite sem pistas concretas. A caçada estava me desgastando, mas o que me consumia mesmo era o medo de colocar Bella em perigo. Por isso, não contei nada. Ainda não.

Fechei a porta devagar e respirei fundo. O cheiro de café recém-passado me trouxe de volta à realidade. Ela já estava de pé.

Bella apareceu na cozinha, com o cabelo preso em um coque desajeitado e vestida com uma daquelas camisolas que me faziam esquecer o mundo lá fora.

— Bom dia, amor — ela disse, caminhando até mim com aquele sorriso que me fazia querer viver mil anos só pra ver de novo.

— Bom dia, meu bem — respondi, puxando-a pela cintura e beijando seus lábios devagar, com carinho, com alívio. Ela era meu ponto de paz.

Beijei sua testa, e depois encostei minha na dela.

— Como estão os preparativos pro nosso jantar de noivado?

— Quase tudo pronto — ela sorriu. — A Renee chega hoje, lembra?

— Ah, ótimo... — fiz uma careta brincalhona. — Mal posso esperar pra ela me julgar mais um pouco.

Bella riu e bateu de leve no meu peito.

— Para com isso. Ela está feliz por mim. E por você também, mesmo que não saiba demonstrar.

Assenti, mas meu coração bateu mais forte. Eu precisava da certeza dela agora mais do que nunca.

— Bella... — segurei seu rosto entre minhas mãos. — Eu te amo. E... você tem certeza que quer isso? Casar comigo, quero dizer?

Ela me olhou com aqueles olhos castanhos que sempre diziam mais do que palavras.

— Jake... eu não tenho dúvidas. Nenhuma.

— Nem eu — sussurrei. — Eu te escolheria mil vezes. Mesmo com tudo. Sempre você.

Ela sorriu daquele jeito que desmontava tudo em mim, e antes que eu pudesse reagir, pulou no meu colo, rindo, os braços ao redor do meu pescoço.

— Eu te amo tanto, Jacob Black — disse, enterrando o rosto no meu ombro.

A segurei firme, com o coração batendo forte, tentando ignorar a sensação incômoda de que aquela paz era só um intervalo entre as tempestades. Mas enquanto ela estivesse ali, comigo, eu enfrentaria qualquer guerra.