Coração de loba

38 Maldito Imprinting


Narrado por Renesmee


A floresta ainda parecia estranha sob meus olhos recém-moldados. Cada folha, cada pedra, cada som... tudo estava ampliado, vibrante, vivo. Caminhei ao lado de Jacob — ou melhor, do lobo imenso e imponente que era ele — sentindo um tipo de conexão que não compreendia, mas que aquecia meu peito, afastando, pouco a pouco, a dor dilacerante que me consumira minutos antes.

Nos aproximamos da trilha de terra batida que levava à casa dele. Então, Jacob parou de andar e virou-se para mim, seus olhos âmbar me encarando com seriedade.

— Espere aqui, pediu com um tom calmo, quase protetor.

Antes que eu pudesse entender, ele disparou floresta adentro, sumindo por entre as árvores. Só então me dei conta do motivo. Ele ia se transformar... e, claro, precisava estar longe. Dei um pequeno sorriso, mesmo com o corpo ainda dolorido da transformação. Mesmo naquela confusão toda, ele pensava em tudo.

Poucos minutos depois, o som de passos leves ecoou na trilha, e Jacob apareceu de volta, já em sua forma humana, vestindo apenas uma calça de moletom escura. O cabelo estava levemente bagunçado e gotas de suor deslizavam por sua pele morena.

Ele estendeu uma camisa preta em minha direção com um meio sorriso.

— Aqui. É minha, mas deve servir. — disse, seus olhos escaneando meu corpo de loba por um segundo antes de se desviar educadamente.

Tomei a camisa com os dentes e, sentindo um certo nervosismo, tentei me lembrar das instruções que ele havia acabado de me dar mentalmente sobre como voltar à forma humana. Respirei fundo. Fechei os olhos. Pensei em mim, na minha forma, na minha pele... na minha identidade.

A dor da transformação me atravessou outra vez, mas agora foi mais rápida. E, então, eu estava ali. De joelhos, nua, segurando a camisa dele contra o peito.

— Jacob... — chamei com a voz fraca. — Vira de costas. Por favor.

Ele obedeceu na hora, com as mãos nos bolsos e a cabeça inclinada para frente. Antes que eu colocasse a camisa, ele soltou uma risada baixa.

— Não precisa ter vergonha, Ness. Já vi esse corpo nu... muitas vezes.

Senti meu rosto pegar fogo.

— Isso foi há três anos! — rebati, quase tropeçando enquanto vestia a camisa enorme que me cobria até a metade das coxas.

Ele deu um passo para o lado, ainda de costas, mas pude ver seu sorriso malicioso mesmo sem encará-lo de frente.

— E ainda é o corpo mais bonito que eu já vi. — disse ele, num tom brincalhão, com a voz arrastada.

Revirei os olhos e passei por ele, com os braços cruzados e o rosto quente como brasa.

— Você é um idiota, Jacob Black.

Ele me acompanhou, rindo baixinho.

— E você fica linda brava, princesa.

Tentei não sorrir. De verdade. Mas foi impossível. Mesmo com toda a confusão e dor... ele agora conseguia me desarmar.


Entrei na casa de Jacob ja sem saber exatamente o que esperar. Era simples, aconchegante, com aquele cheiro amadeirado que parecia misturar lenha, couro e... ele. Mas agora era diferente de anos atrás, tinha móveis rústicos mas a mesma bagunça de sempre.Jacob me deu espaço, mas eu sentia seu olhar em mim. Ainda era difícil compreender tudo que havia acontecido, principalmente o que havia mudado dentro de mim.

— Se quiser, o banheiro ainda é ali— ele disse, apontando para a porta no final do corredor. Estava sem camisa, o cabelo desgrenhado caindo sobre a testa, o corpo ainda ofegante pela corrida anterior.

Eu não respondi de imediato. Meus olhos se perderam naquele tronco nu e largo, e antes que pudesse conter, soltei:

— Jacob... o que exatamente é o imprinting?

Ele passou a mão na nuca, desconfortável por um momento. Suspirou fundo.

— É... difícil de explicar. — Deu um passo mais perto. — Sabe o Sam? E a Emily?

Assenti devagar. Lembrava do olhar de dor de Leah cada vez que o nome da prima era citado.

— Quando um lobo sofre imprinting, nada mais importa. Ele se liga a uma pessoa de um jeito que... é mais forte do que qualquer escolha. É como se todo o universo conspirasse pra que aquela pessoa fosse tudo. Passado, presente, futuro.

Engoli em seco. Começava a entender.

— Por isso Sam deixou a Leah... — murmurei, a lembrança da expressão de Leah me rasgando por dentro.

Jacob assentiu.

— Eu tive imprinting por você, Ness. No dia do meu casamento com a Bella.

O mundo pareceu girar devagar. Eu me sentei no braço do sofá, olhando pra ele como se não fosse real.

— Quer dizer que... se não tivesse acontecido o imprinting, você teria casado com ela? — perguntei num sussurro, sentindo o gosto amargo subir à garganta.

Ele hesitou.

— Eu não sei. Naquele momento, tudo mudou. Não era uma questão de escolha mais. Você apareceu... e nada mais fazia sentido sem você.

Senti algo que não reconheci de imediato. Um aperto, um incômodo. Ciúme? Raiva? As duas coisas juntas.

A poucas horas eu o odiava. O culpava por ter me deixado, por ter escolhido outro caminho. E agora ele estava... dentro de mim. Como se fizesse parte da minha essência. Como se eu não soubesse mais onde terminava e ele começava.

Levantei de repente, querendo fugir da confusão que explodia no meu peito.

— Eu... preciso de um banho — murmurei, desviando o olhar.

Jacob apenas assentiu. Mas eu podia sentir seus olhos me acompanhando até o quarto. Como se, mesmo em silêncio, ele estivesse comigo em cada passo.

E talvez estivesse mesmo. Porque agora... nós éramos um só.


A água quente deslizava sobre meu corpo, lavando o sangue seco, a dor e a confusão da noite mais insana da minha vida. Encostei a testa no azulejo frio do banheiro e fechei os olhos.

— Riley... — sussurrei.

Meu peito apertou. A imagem dele morto, ainda estava cravada na minha mente como uma faca. Eu sentia falta dele. Da sua voz, da sua forma boba de me chamar de “princesa rebelde”. Do modo como ele me defendia, mesmo quando eu estava errada. A dor ainda estava lá — era real, pulsante. Mas não era insuportável como antes.

Algo dentro de mim havia mudado.

Algo... ou alguém.

Suspirei profundamente, sentindo a água escorrer pelos meus cabelos. E então ele surgiu de novo nos meus pensamentos.

Jacob.

Jacob maldito Black.

Meu estômago se revirou e meu coração acelerou só de lembrar dos olhos dele olhando nos meus. Aqueles olhos castanhos intensos, profundos como se conseguissem ver através de mim. O jeito como meu corpo reagiu quando ele se aproximou, como se todas as células do meu ser gritassem por ele.

— Maldito imprinting — murmurei, irritada, batendo a mão na parede com força.

Eu odiava não entender o que estava acontecendo comigo. Horas atrás, eu queria matá-lo. Agora... agora ele estava dentro de mim. Cravado. Uma conexão que não fazia o menor sentido, mas que me puxava para ele como um ímã.

Desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e caminhei até o quarto dele.

O mesmo quarto de três anos atrás.

Assim que entrei, tudo me acertou de uma vez. O cheiro amadeirado, o cobertor xadrez jogado na cama o som das folhas balançando lá fora — tudo era familiar. Sentei na beira da cama, ainda com a toalha colada ao corpo, e encarei o chão de madeira escura. Meus olhos se voltaram para o canto do quarto, onde uma vez eu me escondi chorando, quando ele se afastou.

E agora... ele estava ali.

Eu voltei. Não por escolha. Não por vontade. Mas por destino.

Maldito, maldito destino.

Me joguei de costas na cama, ainda enrolada na toalha, e fechei os olhos, deixando que as memórias invadissem minha mente.

As noites frias em que ele me cobria sem dizer nada.

O cheiro de café que invadia o quarto logo cedo.

As risadas abafadas quando eu tentava contar uma piada ruim.

— Jacob Black... — sussurrei com os olhos fechados. — Que droga você fez comigo?

Porque agora... mesmo com tudo o que aconteceu, com todo o caos, com toda a tragédia...

Meu coração só batia por ele.


Narrado por Jacob


— Nessie? — chamei, batendo levemente na porta entreaberta.

Silêncio.

Empurrei devagar e me deparei com uma cena que fez meu peito se apertar e relaxar ao mesmo tempo. Ela estava deitada na minha cama, enrolada na camisa larga que eu havia lhe dado, os cabelos ainda úmidos espalhados pelo travesseiro. As pernas dobradas, os pés pequenos descalços, e os braços encolhidos como uma menina que procurava abrigo em meio ao caos.

Suspirei, encostando no batente da porta.

— Hora da lobinha hibernar… — murmurei com um sorriso, sentindo o coração amolecer com aquela imagem.

Me aproximei devagar, os passos quase sem som sobre o chão de madeira. Me ajoelhei ao lado da cama, observando o rosto dela. As sobrancelhas ainda levemente franzidas, como se sonhasse com tudo que havia acontecido. Talvez ainda estivesse digerindo a confusão, assim como eu.

Horas atrás, ela me odiava. Literalmente. Me feriu com palavras afiadas, com o desprezo no olhar. E agora… ela estava ali. No meu quarto. Na minha cama. Com a minha camisa.

E eu sentia. Sentia ela me chamando. Sentia seu medo, sua confusão, sua luta contra algo que era maior do que ela — maior que todos nós.

O imprinting nos unia, mas não forçava. Era uma promessa de entrega, não uma prisão. E por isso, eu esperaria. Por mais que a vontade de dizer tudo que sentia me queimasse por dentro.

Me inclinei com cuidado e puxei o cobertor, cobrindo seu corpo pequeno e vulnerável. A camisa subiu um pouco nas coxas quando ela se mexeu, e eu desviei o olhar, rindo por dentro. Era a Nessie. Ainda teimosa. Ainda cheia de fogo.

Acariciei seus cabelos com a ponta dos dedos, sentindo o aroma do shampoo se misturar com o seu cheiro. Beijei seus fios com delicadeza, como quem sela um pacto silencioso.

— Dorme bem, pequena loba — sussurrei. — Quando acordar, tudo vai começar de novo. Mas eu estarei aqui.

Me levantei devagar, resistindo ao impulso de deitar ao lado dela. Aquela noite não era minha. Ainda não.

Saí do quarto, fechando a porta com cuidado, e deixei o silêncio tomar conta da casa, junto com o som compassado da respiração da minha impressão.