Narrado por Renesmee


A luz do sol atravessava a cortina torta do quarto de Jacob, espalhando faixas douradas pelo lençol amassado. Me espreguicei devagar, sentindo o calor do corpo dele ainda junto ao meu. O som suave de sua respiração calma, o cheiro da madeira da casa misturado ao seu, tudo ali já fazia parte do que eu chamava de "lar".

Dormir na casa de Jacob tinha se tornado rotina.

Uma rotina boa.

Aconchegante.

Nossa.

Ele se mexeu devagar, abrindo os olhos ainda meio preguiçosos. Um sorriso torto surgiu quando me viu.

— Bom dia, Seattle Star — ele murmurou, com a voz rouca da manhã.

Ri.

— Bom dia, Sr. Não-quero-levantar.

Me inclinei para beijar sua bochecha, mas ele virou o rosto e roubou um beijo nos lábios.

— Fica mais um pouco — pediu, puxando o cobertor sobre mim como uma armadilha suave. — Só mais dez minutos…

— Jake — resmunguei, tentando não sorrir —, eu tenho aula, lembra? Nem todo mundo aqui está prestes a se formar.

Ele fez um som de protesto e passou o braço em volta da minha cintura.

— Que injustiça. Eu finalmente tenho alguém que gosto de acordar ao lado… e essa pessoa insiste em ir embora antes do café da manhã.

— Essa pessoa tem uma vida acadêmica pra manter, senhor Black.

Me sentei na beira da cama, procurando minha calça jeans jogada no chão e minha camiseta dobrada de qualquer jeito na cadeira.

Jacob se apoiou no cotovelo e me observou se vestir com aquele olhar meio sonhador, meio implicante.

— Vai mesmo me deixar aqui, largado, sozinho, sofrendo?

— Vou — disse, prendendo o cabelo num coque bagunçado. — E você vai sobreviver.

Ele levantou e me alcançou antes que eu pegasse minha mochila, enlaçando a cintura por trás e colando os lábios no meu pescoço.

— Você é má, Nessie.

— Eu sou responsável — corrigi, virando de frente para ele.

Ele me puxou para mais um beijo, calmo e carinhoso, como todos os beijos de bom dia que compartilhamos nas últimas semanas. Mas hoje… algo me pinicava por dentro.

Talvez fosse o silêncio dele na noite passada, ou a ausência de palavras que eu esperava ouvir.

Então, como se algo em mim precisasse de confirmação, sussurrei com um sorriso:

— Eu te amo, Jacob.

Ele ficou em silêncio por um segundo a mais do que eu queria.

Depois sorriu… e apenas me beijou de novo.

Nada de "eu também".

Nenhuma palavra.

Só os lábios dele nos meus, como se isso bastasse.

Sorri de volta, tentando disfarçar a pontada frustrada no peito.

— Nos vemos depois, senhor preguiçoso.

— Vai com cuidado, Miss Seattle — ele respondeu, piscando pra mim.

Peguei minha mochila, dei um tchau para Salém que dormia no sofá enrolado no moletom de Jacob, e saí da casa com o coração levemente inquieto.

Ele não disse que me ama.

Talvez estivesse implícito.

Talvez não.

Mas naquele instante, sob o céu claro de La Push, eu comecei a me perguntar se o amor era algo que só eu estava sentindo.


A escola da reserva era pequena, barulhenta e, naquele dia, infinitamente entediante.

Passei as aulas no piloto automático, com a cabeça longe dos exercícios de biologia, distante das fórmulas de química.

Sem Jake na escola me senti estranhamente sozinha.

Seth me fez rir no intervalo, Meg me emprestou um livro de fantasia com fadas vingativas e Leah me mandou uma mensagem dizendo que Sue estava fazendo meu arroz preferido para o almoço. Mas ainda assim, algo dentro de mim parecia… desalinhado.

Talvez fosse o envelope azul ainda escondido no fundo da minha gaveta.

Talvez fosse o fato de que eu dormi ao lado de alguém que eu amava — e que não conseguiu dizer isso de volta.

Cheguei em casa chutando pedrinhas e com a mochila pendurada num ombro só.

Assim que empurrei a porta, ouvi vozes na sala.

— Renesmee! — chamou Billy, com aquele entusiasmo caloroso que fazia parte da sua marca registrada.

Ele estava sentado na poltrona ao lado do sofá, com um boné velho apoiado no colo e um sorriso nos lábios.

Ao lado dele, Charlie Swan.

Meu coração deu um salto desconfortável no peito.

Mas eu respirei fundo e sorri.

— Oi, Billy. Oi, senhor Swan.

— Charlie, por favor — ele disse, meio desconcertado.

Não parecia do tipo que sabia lidar com adolescentes. Muito menos com… filhas, pensei, com um amargo na garganta.

— Billy estava me contando que você e o Jacob estão namorando — comentou ele, tentando ser simpático. — Ele é um bom garoto.

— É, ele é — respondi com um aceno leve de cabeça.

Billy sorriu largo.

— Esses dois vivem grudados. Jake tá mais calmo desde que você chegou, Nessie. Até parece gente!

Todos riram. Até eu.

De leve.

Educada.

Distante.

Sue apareceu na porta da cozinha, limpando as mãos no avental.

— Nessie, querida, vem almoçar. Preparei seu arroz favorito.

— Ah… — desviei o olhar. — Eu comi na escola, obrigada, Sue.

Ela franziu o cenho, mas assentiu com um leve “tudo bem”.

Eu peguei o corredor e fui direto para o quarto emprestado por Leah.

Assim que fechei a porta, encostei as costas nela e fechei os olhos, soltando um longo suspiro.

Charlie estava ali.

Na sala.

A poucos metros de mim.

O homem que minha mãe me ensinou a chamar de estranho, de passado, de segredo.

E ali estava ele…

Gentil. Atencioso. Perdido.

Mas eu não precisava de um pai.

Não agora.

Não mesmo.

Vivi dezessete anos sem saber quem ele era.

Sem precisar dele para sorrir, para crescer, para chorar.

Agora que minha mãe se foi, ele não pode preencher o vazio que ficou.

Ele não pode apagar a dor.

Não pode ser parte da minha história só porque o destino achou por bem jogar essa revelação em cima de mim.

Me virei e encarei a cômoda.

A gaveta continuava trancada.

O envelope azul, intacto.

Talvez pra sempre.


◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇



— Obrigada por ajudar, querida — disse Sue com aquele sorriso doce enquanto eu enxaguava o último prato.

— Eu adoro ajudar — respondi, enxugando as mãos no pano de prato. — Acho que vou até a casa do Jacob. Temos um trabalho de história para terminar.

Sue assentiu, confiante.

— Só não volte tarde, sim? E avisa se for dormir lá.

— Pode deixar.

Peguei minha mochila, dei um beijo leve no topo da cabeça de Salem — que dormia em cima do encosto do sofá como um rei — e saí pela porta da frente sentindo a brisa morna de La Push tocar meu rosto.

A casa de Jacob era como sempre: rústica, com cheiro de madeira, e uma bagunça carismática que me fazia sorrir. Entrei com a chave reserva que ele me dera meses atrás, tirei os tênis e sentei no sofá.

O sol já começava a se pôr quando percebi que estava sozinha.

Peguei o celular e mandei uma mensagem:

“Jake, tô aqui. Cadê você?”

Esperei.

Nada.

Mais uma hora.

Depois duas.

Mais mensagens.

Chamadas não atendidas.

Ele nem sequer leu.

O céu escurecia quando decidi que já era o suficiente. Peguei minha mochila e saí, sentindo uma mistura de frustração e tristeza queimando no peito. Eu mal tinha dado dois passos na varanda quando o som de risadas ecoou pela trilha lateral.

Meus olhos focaram nos dois vultos que vinham na minha direção.

Um alto e familiar.

O outro… feminino.

Baixa, cabelo castanho escuro, riso leve.

E então, eles surgiram entre as árvores.

Jacob e… ela.

Jacob ria de algo que ela dizia. Seus ombros se encostavam enquanto andavam como se o mundo ao redor fosse apenas paisagem. Quando me viu, ele parou.

— Nessie! — disse com aquele mesmo tom de sempre, como se nada estivesse errado, como se eu não estivesse ali há horas esperando, como se meu coração não tivesse apertado no minuto em que vi os dois.

Eu cruzei os braços.

— Jacob.

Ele caminhou até mim e me abraçou rapidamente, como se estivesse distraído, e então se virou para a garota ao seu lado.

— Quero te apresentar alguém — disse com um sorriso fácil. — Essa é a Bella. Isabella Swan.

Isabella Swan.

O nome me atingiu como um soco.

Senti meu estômago se revirar, e algo dentro de mim… quebrar, bem baixinho.

Bella.

A garota que Leah mencionou.

A garota por quem Jacob sempre teve olhos.

— Ah — murmurei, tentando controlar a expressão. — Muito Prazer.

Ela me olhou surpresa, e eu estendi a mão por pura educação.

— Renesmee Clearwater.

Bella apertou minha mão e sorriu, um pouco sem jeito.

— Nome lindo. Então você é…

— Namorada do Jacob — completei, encarando os olhos dele enquanto dizia.

O sorriso dele vacilou por um segundo.

Bella ficou ainda mais sem graça.

E naquele instante, por mais que eu tentasse manter a pose, uma certeza se fincou dentro de mim:

Eu não estava mais tão certa do lugar que ocupava no coração dele.