Coração de loba
1 Epílogo
Roosevelt High School, Seattle – 15h42
Segundas-feiras têm cheiro de café requentado, mochila pesada e sono atrasado.
Eu estava no meu segundo ano na Roosevelt High e, honestamente, o único motivo pelo qual ainda suportava aquele lugar era o clube de literatura — e, talvez, o fato de que ninguém ali sabia exatamente quem eu era. Eu podia ser só... Renesmee.
Na última aula do dia, a professora de biologia falava sobre a cadeia respiratória mitocondrial com a mesma empolgação de alguém explicando a receita de um purê de batatas. Eu rabiscava distraidamente meu caderno quando meu celular vibrou.
Mamãe.
Olhei discretamente para os lados e atendi escondido atrás da mochila, cobrindo a boca com a manga do moletom.
— Oi, mãe.
— Oi, Nessie... — ela suspirou, a voz suave e um pouco cansada. — Só liguei pra dizer que vou me atrasar hoje, tá bom? Tive que cobrir uma colega no hospital. Não me espera. O jantar tá no forno, é só esquentar. E o Salém já comeu — ela riu. — Ele até lambeu a vasilha. Aquele gato não tem limites.
Sorri.
— Já falei que é você que mima ele demais.
— Ah, ele é meu neto felino. Tenho esse direito.
— Você tá bem? — perguntei, notando o cansaço na voz dela.
— Tô, meu amor. Só cansada. A gente se fala mais tarde, tá?
— Tá bom. Te amo.
— Também te amo, meu bem.
A ligação terminou. E, sem saber, meu mundo também.
Roosevelt High School – 17h00
O fim da aula chegou, e com ele a chuva fina e gelada de Seattle. Enfiei o capuz, respirei fundo e caminhei até o ponto de ônibus. Os fones de ouvido me isolaram do mundo — tocava uma música qualquer, mas tudo parecia distante. Mesmo antes de saber, algo no meu peito já pesava.
Demorou uma hora até eu chegar no meu prédio. Subi os degraus devagar, sentindo o cheiro de comida no corredor, pensando na nossa janta — provavelmente lasanha congelada com molho caseiro, porque ela sempre dava um jeito de deixar tudo com gosto de amor.
Abri a porta e o silêncio me envolveu como uma onda fria.
— Cheguei — murmurei, jogando a mochila no sofá.
Nada.
Nem a voz da minha mãe dizendo “Tira o tênis, Renesmee”.
Nem o tilintar das panelas.
Nem os passos apressados no corredor.
Só o miado preguiçoso de Salém, enrolado no meu cobertor favorito.
Ele me olhou como se soubesse.
A cozinha estava limpa. O forno ainda quente. A lasanha ali, coberta com papel alumínio. Um post-it na geladeira:
“Coma tudo. Estou de plantão até tarde. Te amo. – Mamãe”
Segurei o bilhete nas mãos por longos segundos.
Depois me sentei no chão frio da cozinha, com o Salém se enroscando em mim, e o vazio abrindo espaço dentro do meu peito como uma rachadura.
Eu não sabia ainda.
Mas algo dentro de mim já sabia.
E aquela seria a última segunda-feira em que eu teria uma mãe me esperando do outro lado da linha.
O bilhete ainda estava na minha mão quando o telefone tocou.
Olhei para o visor, esperando ver o nome da mamãe, talvez dizendo que se enganou e viria mais cedo. Mas não era ela.
Era um número estranho, com o prefixo do hospital.
Atendi com um frio subindo pelas costas.
— Alô?
— É Renesmee Clearwater? — a voz era séria, mas gentil. Uma mulher.
— Sim… sou eu. Aconteceu alguma coisa?
Uma pausa. Longa demais.
— Renesmee, aqui é a enfermeira Lauren, do Hospital St. Joseph. Sua mãe, Elizabeth Clearwater… ela sofreu um acidente esta noite. Precisamos que você venha até aqui o quanto antes.
Senti o mundo parar.
— Um a-acidente? Mas ela... ela acabou de me ligar... ela disse que estava de plantão...
— Eu sei, querida. Mas, por favor, venha acompanhada se puder. Vamos te esperar na recepção da emergência.
A ligação caiu, ou talvez eu tenha desligado sem perceber. Fiquei ali, com o telefone ainda na mão, sentindo meu coração acelerar como se tentasse fugir do meu peito.
Salém miou baixo, como se sentisse o que eu ainda não conseguia entender.
Demorei vinte minutos até chegar ao hospital. Peguei um táxi sem lembrar do caminho. Cada luz vermelha parecia zombar da minha urgência. Minhas mãos tremiam, e eu apertava o bilhete amassado como se ele pudesse me manter conectada a ela.
Ao entrar no hospital, a luz branca e fria me cegou por um segundo. Fui direto à recepção.
— Eu sou Renesmee Clearwater. Me ligaram... disseram que minha mãe…
A recepcionista ergueu os olhos. Ela já sabia quem eu era. O olhar de pena me atingiu como um soco no estômago.
— Enfermeira Lauren está vindo. Por favor, sente-se.
Não me sentei.
Minutos depois, uma mulher loira, de jaleco e olhar tenso, surgiu no corredor.
— Renesmee?
Assenti.
Ela se aproximou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse me quebrar.
— Sua mãe sofreu um acidente a caminho do hospital. Um motorista em alta velocidade cruzou o sinal vermelho. O impacto foi muito forte. Ela teve uma parada cardíaca ainda na ambulância...
— Mas ela tá bem, certo? — interrompi, minha voz desesperada e infantil. — Ela tá aqui, vocês salvaram ela… vocês...
Lauren abaixou a cabeça.
— Nós tentamos. Fizemos tudo o que podíamos. Mas ela não resistiu.
O mundo caiu.
Tudo ficou mudo. A respiração ficou presa. A luz do hospital piscou. Ou talvez tenha sido minha visão.
A dor veio como um estouro dentro do peito.
— Não... — sussurrei, dando um passo para trás. — Ela me ligou. Ela... ela disse que ia voltar... ela disse que me amava.
Senti as pernas falharem, e a enfermeira me segurou antes que eu caísse. Eu tremia. O ar parecia não entrar nos pulmões.
— Eu quero ver ela. Eu preciso ver ela.
— Podemos te levar até ela... quando estiver pronta.
Mas quando alguém está pronto para ver a pessoa que mais ama coberta por um lençol branco?
Spoiler: você nunca está.
Naquela noite, eu voltei para casa com os olhos inchados, um corpo anestesiado e o coração em cacos.
Abri a porta do apartamento vazio, agora realmente vazio, e Salém veio até mim, se esfregando nas minhas pernas.
Deitei no sofá com ele no colo e chorei até o sono me vencer.
Ela nunca mais vai voltar.
E eu…
Eu não faço ideia de como continuar daqui..
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