Coração de loba
16 Compromisso
Narrado por Jacob
A chuva caía pesada, escorrendo pelas ruas de La Push como se quisesse lavar tudo — inclusive minha cabeça, que fervia.
Quatro dias. Quatro dias desde que tudo mudou.
Se alguém me contasse uma semana atrás que eu viraria um lobo, riria na cara dessa pessoa. Mas agora eu sabia a verdade. As lendas eram reais. Eu era uma delas. Um Quileute de sangue, de alma… e agora, de fúria.
Estava só de bermuda, o corpo ainda suado e coberto de lama do último treino com Sam. Sentia meus músculos pulsarem, não só pelo esforço, mas pela adrenalina que ainda corria sob a pele quente. Minha mente, porém, estava a mil. Tudo girava em torno dela. Bella.
Foi quando ouvi:
— Jacob!
Parei no meio da estrada, a água escorrendo pelo meu peito nu, e olhei para o lado. Bella vinha da varanda, descalça, o cabelo grudado no rosto pela chuva. Estava com uma blusa larga e calça de moletom, mas mesmo molhada, parecia feita de alguma luz que nem a tempestade conseguia apagar.
Ela caminhou até mim, ignorando a chuva.
— Você sumiu! — a voz dela era carregada, quase magoada. — Desde aquela noite… você desapareceu. O que aconteceu com você?
Baixei o olhar. As palavras pareciam grandes demais pra minha boca.
— Me desculpa — murmurei, com a garganta apertada.
Ela tocou meu rosto, seus dedos frios contra minha pele quente. Seu olhar percorreu meu cabelo curto, recém-cortado por exigência da transformação.
— Você… cortou o cabelo. Jacob… o que está acontecendo? Por que não me procurou?
Fechei os olhos por um segundo.
— Não me pergunta nada agora, por favor. Eu não tô pronto pra explicar.
— Você está me deixando, é isso? — ela perguntou de repente, os olhos se estreitando.
— Não! — respondi firme. — Não é você. É tudo isso… eu só… estou tentando proteger você, Bella. Mesmo que você não entenda agora.
Ela se aproximou mais um passo. O coração batia tão forte no meu peito que eu podia jurar que ela ouviria. Então ela me beijou.
Sem aviso, sem hesitação.
Seus lábios tocaram os meus como se quisessem me acordar de um pesadelo. E funcionou. Eu a beijei de volta, com tudo que não podia dizer. Com a urgência de quem não sabia até quando teria aquele momento.
Quando nossos lábios se afastaram, mantive a testa encostada na dela.
Mesmo você escondendo de mim os segredos mais importantes… mesmo sabendo agora o que são os frios…
Eu pensei, mas não disse:
Eu amo você. E não vou deixar nenhum Cullen chegar perto.
Estávamos no meu quarto, deitados na cama, ainda nus, cobertos apenas pelo lençol amassado e pelo calor que nossos corpos ainda compartilhavam.
Bella estava com a cabeça apoiada no meu peito, os dedos traçando linhas suaves em minha pele. Seu toque era lento, quase hipnótico, como se ela desenhasse mapas secretos sobre mim — como se procurasse se ancorar a mim, depois do que havíamos acabado de viver.
Ficamos assim por minutos. Nenhum de nós apressava o momento. Até que, com a voz baixa, ela perguntou:
— Você falou com a Nessie?
Minha respiração prendeu. Eu senti o corpo dela relaxado sobre o meu, mas o peso da pergunta caiu como uma pedra dentro de mim. Fechei os olhos. Parte de mim queria dizer a verdade, mas outra parte — a parte ferida, confusa, suja de culpa — escolheu mentir.
— Falei… — respondi, quase num sussurro. — Está tudo bem.
Ela ergueu o rosto, os olhos castanhos buscando os meus.
— Tem certeza?
Assenti, evitando o olhar dela por um segundo. Bella parecia querer acreditar. E isso bastou.
Ela suspirou e voltou a deitar a cabeça no meu peito. O silêncio voltou, mas estava mais denso agora. Cheio de tudo que eu não dizia. Cheio de tudo que eu sabia que ia desmoronar em algum momento.
Mas então, como se quisesse resgatar algo de leveza entre nós, olhei para ela e falei:
— Bella… eu quero que você namore comigo.
Ela ergueu o rosto de novo, surpresa. Seus olhos se iluminaram.
— Você tá falando sério?
— Nunca falei tão sério em toda minha vida.
Ela sorriu. Aquele sorriso tímido, que ela raramente mostrava — e que sempre fazia meu peito doer.
— Eu aceito — disse.
Beijei seus lábios devagar, com carinho. Era um beijo diferente. Não de desejo urgente como o primeiro… mas de escolha. De entrega.
O lençol caiu de seu corpo à medida que ela se moveu sobre mim, e meus braços a envolveram com mais firmeza. Nossos beijos se intensificaram, os toques ficaram mais ousados. Fizemos amor novamente, dessa vez com mais calma, mais intenção… como se estivéssemos tentando selar uma promessa silenciosa.
O céu estava começando a escurecer quando parei o carro em frente à casa de Bella. A brisa do fim de tarde trazia o cheiro de chuva, e as ruas de Forks ainda estavam úmidas. Bella ajeitava a jaqueta no colo, com aquele sorriso discreto no rosto, ainda com os olhos brilhando do que havíamos vivido mais cedo. Toquei sua mão antes que ela abrisse a porta.
— Vai ficar tudo bem — murmurei, como se dissesse aquilo mais pra mim do que pra ela.
— Eu sei — ela respondeu, apertando meus dedos suavemente. — Obrigada por hoje.
Ela desceu, e eu fui logo atrás. Caminhamos até a varanda, onde a luz da sala estava acesa. Ao abrir a porta, Bella parou subitamente, e eu logo entendi o motivo.
— Pai?
Charlie estava ali, sentado na poltrona velha com uma cerveja na mão e o jornal no colo. O olhar dele foi direto para mim, mas ao contrário do que eu esperava — uma carranca ou um tom protetor —, ele sorriu.
— Olha só… Jacob Black. — Ele se levantou, ajeitando os óculos. — Você tá virando figurinha carimbada por aqui.
— Boa noite, Chefe — falei, estendendo a mão. Ele apertou com firmeza.
— Eu ia passar só pra deixar a Bella em casa, mas... — hesitei um segundo, trocando um olhar com ela —...tem algo que eu queria te contar.
Charlie levantou uma sobrancelha e cruzou os braços, encostando-se à parede da sala.
— Tô ouvindo.
— Eu pedi a Bella em namoro — disse, firme. — E ela aceitou. Achei que era certo vir te pedir permissão. Ou pelo menos te avisar com respeito.
Charlie arqueou as sobrancelhas. Por um segundo, o silêncio reinou.
— Ué… e a sobrinha do Harry?
Minha garganta apertou.
— Nós terminamos faz um tempo. — Mantive o olhar firme. — Eu e Bella… aconteceu naturalmente. Não teve traição, nem confusão. Só… caminhos que se separaram e outros que se cruzaram.
Charlie me olhou por mais alguns segundos. Avaliando. Julgando.
Então respirou fundo, deu um gole na cerveja e assentiu.
— Olha, Jacob… eu sempre gostei de você. E se a Bella está feliz — ele olhou para a filha, que o encarava com os olhos brilhando —, então tá bom pra mim.
Meu alívio veio como um sopro no peito.
— Obrigado, chefe.
— Mas deixa eu te dizer uma coisa — ele apontou com a garrafa —, se você magoar minha filha… não importa que eu tenha te visto nascer, vou te caçar.
— Justo — respondi, sorrindo. — Eu não pretendo dar motivo.
Charlie deu um meio sorriso e voltou a se sentar, pegando o jornal como se nada tivesse acontecido.
Bella me acompanhou até a porta, e antes de sair, ela segurou minha mão mais uma vez.
— Isso foi… importante pra mim. Obrigada.
— Eu que agradeço — murmurei, inclinando-me para beijar sua testa. — Durma bem, Bella.
— Boa noite, Jake.
Desci os degraus da varanda com o coração em conflito. Conquistar Charlie havia sido fácil.
Difícil mesmo seria lidar com a verdade que eu ainda escondia.
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