“O tempo é um rio sem nascentes a correr incessantemente para a eternidade, mas bem se pode dar que em inesperados trechos de seu curso o nosso barco se afaste da correnteza, derivando para algum braço morto, feito de antigas águas ficadas, e só Deus sabe o que então nos poderá acontecer.”

Erico Verissimo – Sonata

Nascer, crescer, procriar e morrer. É assim que deveria acontecer com todas as vidas humanas. Mas esta não pretende ser uma história comum e linear. Não, a história que eu vou contar agora se passou há muitos e muitos anos, quando nobres e cavaleiros ainda existiam e a alta aristocracia inglesa vivia rodeada de puro luxo e glamour em uma sociedade que se dizia justa e honrada. Mas existem certas coisas que um mundo de aparências não pode encobrir por muito tempo, e é sobre estas coisas de que falam a nossa história.

E é aqui que eu começo a narrá-la. Aqui, onde a grande ampulheta parece ter congelado o tempo e onde bétulas e magnólias florescem sobre a terra, encantando os olhos daqueles que passam por entre elas. Eu estou falando de uma pequena aldeia localizada a noroeste da antiga Inglaterra, a que deram o nome de “Saint Shadow”. Pois nessa terra, sóbria e exuberante, estão escondidos os segredos mais íntimos e secretos do povo que ali habita.

A aldeia, berço do ilustre Conde de Warrington, já tivera seus tempos de glória, mas desde que a Condessa, Lady Straw, morrera, a família entrou em estado de profunda dor e tristeza, e o Conde, que tanto a amava, perdeu os trilhos do comando de suas terras, deixando-as padecerem de miséria, fome e frio. Enfim os anos se passaram, e eis que o Conde abriu os olhos para a situação crítica em que estavam incrustados. Infelizmente, a terra já não dava os mesmos frutos de outrora e pouco se pode fazer em prol de sua recuperação.

Quinze anos após a morte da Condessa, Sophia e Berith se arrumavam para a tradicional missa matinal de domingo. Era um quarto grande, luxuoso, mas muito de sua mobília já fora vendida para pagamento de dívidas. Nancy estava ali também, por entre os vestidos já mofados e fora de moda das moças. Embora muitos dos empregados da casa tivessem ido embora, a fiel Nancy ainda permanecia, com sua filha, para servir de camareira, cozinheira, copeira e mais o que os patrões precisassem. Sua amizade com a Condessa lhe rendera um profundo sentimento fraternal pelas órfãs, e ela se julgava incapaz de abandoná-las à mercê da rigidez do Conde.

Sophia era uma moça doce, de expressões suaves, seus longos cabelos anelados e castanhos. Olhos cor de mel, estatura mediana e com poucas curvas, exceto pelos quadris. Sua beleza era ofuscada pela pele extremamente alva de sua irmã mais nova, Berith, o que causava o efeito de um belo contraste com seus cabelos negros e ondulados. Sua expressão era um pouco mais dura que a da irmã e seus olhos azuis demonstravam certa frieza que lhe era peculiar. Um dos passatempos preferidos de Berith era o de se admirar no espelho, como agora o fazia, enquanto escovava seus longos cabelos sedosos.

–Não se demore muito escovando os cabelos, Berith! – Disse Sophia em um dado momento. – Sabe que padre Bernard não tolera atrasos.

–Eu sei bem porque você não quer chegar atrasada – contrapôs a moça com desdém, sem nem sequer desviar os olhos do espelho.

Nesse instante Nancy acabava de apertar o espartilho de Sophia, mas antes que pudesse ir buscar o vestido, a moça se voltou para ela.

–Diga-me uma coisa, Nancy: Como vai Thomas?

Antes que a mulher pudesse formular alguma resposta, Berith se intrometeu.

–Que falta de compostura, Sophia! Perguntar pelo filho da empregada, francamente – indignou-se ela, mas ainda sem levantar os olhos da imagem de seu rosto bonito.

–Nós crescemos praticamente juntos, eu não vejo que mal há nisso – retrucou ela.

–Você não... Mas papai certamente vê... – acrescentou Berith maldosamente.

–Ele não precisa saber que fiz essa pergunta... E depois eu só a fiz porque sonhei com Thomas essa noite – disse, voltando-se para Nancy.

–Sophia! – Repreendeu-a Berith, e dessa vez decididamente encarou a irmã com uma expressão de profunda revolta em sua face.

–Com quando éramos crianças e ele impediu que a estante da sala caísse sobre mim – explicou ela rapidamente – você se lembra, não é, Nancy? Estava lá também.

–Lembro sim... – disse a mulher, evasivamente, enquanto trazia o melhor vestido do guarda-roupa das moças. Como os eventos sociais eram muito raros em St. Shadow, elas guardavam os melhores trajes para as missas.

–Havia um livro... Um livro de mamãe... Papai ficou furioso ao tomá-lo nas mãos e expulsou Thomas sem motivo algum, já que ele tinha me salvado. Acho que ele caiu ao chão junto com a estante. Você se lembra do livro, Nancy? Lembra de que livro se tratava?

–Era uma Bíblia. O que mais poderia ser? Sua mãe sempre foi uma mulher muito religiosa – falou Nancy, saudosamente.

–Uma Bíblia não teria despertado tanta fúria da parte de meu pai... Eu pensei que talvez pudesse ser algum daqueles que ela trouxe da França...

–Era uma Bíblia! – Reforçou Nancy – Seu pai ficou furioso ao ver Thomas brincando com vocês duas no tapete, e tinha toda razão, eu não teria permitido isso se a Condessa não tivesse insistido tanto. Ela era uma mulher muito generosa, mas por esse motivo o Conde acabou proibindo Thomas de se aproximar das senhoritas novamente.

–Tem certeza? Porque para mim pareceu diferente...

–Ora, Lady Sophia tinha apenas três anos de idade, como pode se lembrar de alguma coisa? E depois, os sonhos costumam distorcer a realidade para algo que gostaríamos que tivesse acontecido.

Sophia não teve chance de responder, pois Nancy enfiava-lhe o vestido pela cabeça. Assim que ele se assentou no corpo da moça, ela tornou a falar.

–Respondendo à sua pergunta, Thomas está muito bem, recebeu uma grande encomenda de Kelso há três dias e tem trabalhado muito. Mas Lady Berith está certa, você não deveria ter perguntado por ele. Para alguém de fora pode parecer um tanto leviana, o que não fica nada bem para uma moça de família tão honrada.

–Ótimo! – Exclamou Berith, finalmente se levantando da penteadeira. – Agora que Sophia aprendeu a se comportar como uma perfeita dama será que podemos descer?

Ao final das escadas, Paul já as esperava com o seu famigerado traje simples, a calça rústica e folgada prendida apenas por um cinto de couro e a camisa simples, mas bem comportada. Paul era bem alto para um garoto de quinze anos, e seus cabelos, compridos e desgrenhados, aliados a sua expressão sempre apática e um certo ar de desleixo, acrescentavam bem uns quatro anos a sua idade biológica, embora naquela manhã ele estampasse um sorriso muito bem forjado em sua face.

–Estão como dois raios de sol – elogiou ele assim que as viu.

–Paul, meu irmão! – Exclamou Sophia, quase correndo até ele. – Como vai?

Paul plantou um beijo carinhoso nas testas das moças antes de responder.

–Muito bem. Tenho orado muito, como sempre... – disse sombriamente, mas logo acrescentando com um novo sorriso – mas a coisa é que eu não tenho nem metade da beleza que ostentam minhas queridas irmãs.

–Ora, Paul, que exagero – tornou Sophia. – Você também é um belo rapaz...

–Paul tem toda razão! – Trovejou uma voz ao fundo dos jovens, que viraram-se para encontrar com a figura imponente do Conde de Warrington.

–Minhas duas filhas se tornaram belas mulheres – continuou ele. – E certamente fariam muito sucesso na Corte.

–O que não adianta muito, uma vez que nós nunca poderemos frequentar a Corte. – Tornou Berith com azedume.

–Berith! – Repreendeu-a Sophia. – Como pode dizer uma coisa dessas?

–Então diga que não é assim. Estamos falidos, fomos renegados pela aristocracia e estamos condenados a viver nesse fim de mundo pelo resto de nossas vidas. Se você não consegue aceitar a realidade, eu sinto muito por você, Sophia. Alguns preferem viver de sonhos, o que pra mim não passa de tolice, uma vez que sonhos não enchem barrigas.

Por um momento Sophia pensou que o pai fosse explodir, enfurecido pelas palavras cruéis que Berith desfiava venenosamente. Para o seu espanto, porém, viu a raiva que tomava conta do rosto do pai se esvanecer em uma expressão cansada, de profundo desânimo, o que dava uma brecha para a moça se afastar. Sem perder tempo, Berith logo já havia ganhado a parte externa da casa, e aguardava junto ao Landau pelo pai e os irmãos.

–Perdoe Berith, meu pai. Ela acordou de mau-humor hoje – Sophia se viu obrigada a se desculpar pela irmã.

–Ela tem acordado de mau humor com bastante freqüência pelo que sei – e antes que pudesse protestar – mas não a culpo, querida. Sei que sou o único culpado pela situação em que nos encontramos, e sinto muito por isso. Mas prometo que darei um jeito de consertar as coisas.

Sophia e Paul trocaram um olhar significativo. Por diversas vezes o pai lhes fizera a mesma promessa, mas o fato é que não havia como recuperar as terras perdidas, tampouco o prestígio junto a Corte.

***

Eles partiram assim que entraram no Landau. Qwilleran os conduzia para a pequena, mas majestosa Igreja, que recebia o mesmo nome da cidade, enquanto os quatro viajavam em um silêncio impenetrante, ainda absorvidos pelo clima tenso da manhã. O fato de Saint Shadow ser uma cidade católica se devia ao fato de que o Conde descendia de uma família Irlandesa muito religiosa. Por isso, ele não aceitava a religião de Henrique VIII em suas terras, chegando inclusive a acusá-lo de profano, o que causou, não raras vezes, atritos com figuras influentes da alta roda. Sua conduta rígida e inflexível servira apenas para que sua imagem perante a corte se desgastasse mais cedo.

O sermão se iniciou tão logo a ilustre família se acomodara em seus lugares habituais. Stanislau sempre se postava à frente, para dar o exemplo da conduta ética e moral, e Paul, que ansiava por se tornar um seminarista, o acompanhava. Assim, as moças ficaram logo atrás, em posição estratégica. Sophia sabia que a missa ainda era a única coisa capaz de prender toda a atenção do pai, além das lamúrias sobre o sofrimento que lhe causava a ausência de Antoinette, e se aproveitava disso para burlar suas proibições absurdas. Aquela era a sua válvula de escape, o único momento em que Sophia ainda se sentia como Sophia, e não a filha perfeita e exemplar no Conde de Warrington, a moça que todos esperavam que ela fosse. Então, com a habilidade de um inseto que entra e sai de cena sem ser visto, Sophia foi se afastando pela lateral da igreja, se misturando aos demais fiéis e cobrindo a face com o véu para que não fosse vista, enquanto padre Bernard iniciava o que seria uma manhã maçante de sermões e canções antigas. Sob o olhar severo de Berith, ela alcançou o exterior da nave, já sabendo o que a esperava do lado de fora.

O coração de Sophia se acalmou tão logo ela o avistou: um rapaz de aparência cansada, mas muito bonito com seus cabelos tão negros quanto a noite sem lua, a pele alva, manchada pelos raios solares que o castigavam de longa data. Tinha traços grosseiros, mas quando se olhava em seus olhos castanhos, via-se que eles brilhavam, irradiando um doce calor a sua volta.

–Lady Sophia! Esperei tanto encontrá-la hoje – disse ele, com um sorriso afetado.

–Thomas – sorriu ela de volta. – Estamos sozinhos aqui, não precisa me tratar por Lady.

–Mas eu quero – tornou ele. – Para não perder o costume e... Também por não conseguir encontrar forma de tratamento mais adequada.

Thomas levou a mão esquerda de Sophia até os lábios, beijando-a suavemente. Sophia sentiu suas pernas bambearem com o contato repentino entre suas peles, esquecendo-se por um instante do perigo que corriam.

–Nancy me disse que recebeu uma bela encomenda de Kelso por esses dias, fico tão feliz por você, Thomas!

O moço então abriu um sorriso de satisfação.

–Sim, é verdade, partirei amanhã mesmo. O trabalho é duro, mas a recompensa vale à pena. Deus tem me abençoado tanto. Fico imaginando que logo poderei construir minha própria casa.

–É tão bom vê-lo assim, tão otimista! – Saldou-o Sophia, pegando nas mãos de Thomas e trazendo-as para si, o que provocou uma palpitação no outro.

–Pois é... Logo poderei formar uma família... – disse ele, olhando fixamente nos olhos de Sophia.

Ela, porém, desviou os seus, olhando nervosamente para o interior da igreja, afrouxando as mãos.

–Eu tenho que voltar antes que papai note minha ausência.

–Espere só mais um instante – pediu ele, não permitindo que ela soltasse de suas mãos. – se não for muita ousadia, há algo que gostaria de lhe pedir...

–Pode dizer Thomas – pediu ela, curiosa, voltando a olhá-lo com olhos grandes.

–Será que... Viria se encontrar comigo mais tarde, antes do sol se pôr, na entrada da floresta? – Seu olhar era intenso e profundo.

–Me encontrar com você? – Surpreendeu-se ela. Os breves instantes em que se viam durantes as missas não contavam de fato como um encontro.

–Tem uma coisa que queria lhe mostrar... Como eu disse, claro, se não for muita ousadia.

–Não, não é – respondeu ela sorrindo. – Farei o que puder para ir...

Ele sorriu, aliviado. Era óbvio que o pedido já o estava torturando há algum tempo. Por alguma razão inexplicável, Sophia sentiu que havia algo de novo naquele pedido. Algo havia mudado entre eles. De repente, Thomas não lhe parecia mais como o amigo, o garoto que fora cúmplice de seus estratagemas para driblar o Conde durante sua infância. Ele era algo mais que isso...

–Eu preciso mesmo voltar – disse ela por fim, confusa por sua nova descoberta.

–Está certo... Até mais tarde, então?

–Até – disse, retribuindo-lhe com um sorriso brando, e Thomas não pôde deixar de olhá-la até que desaparecesse de vista.

***

–Vão indo à frente, quero ter uma palavrinha com o pai de vocês antes de saírem – anunciou o clérigo após as benções, ao se aproximar do Conde e de seus filhos.

Enquanto os jovens se afastavam, Stanislau cumprimentou o pároco.

–Abençoado seja, senhor pároco! Não sei o que faria sem o amparo da Igreja...

–Imagino como deve ser difícil. Antoinette era muito querida por todos nós.

–Ela era a alma da casa – concordou Stanislau.

–Contudo, os vivos também necessitam de atenção.

–O que quer dizer com isso, senhor pároco?

–Eu estive reparando em suas filhas hoje... Creio não ser prudente deixá-las soltas por aí. Não que elas não sejam boas moças, pelo contrário, mas o mundo é cruel.

–Era sobre isso que queria falar comigo? – Stanislau estava um tanto surpreso com aquela abordagem repentina.

–Em parte, sim. Queria lhe alertar e também lhe dar um conselho.

–Pois fale.

O padre pigarreou antes de começar.

–Suas filhas estão muito bonitas, Stanislau, e devo dizer que isso é um perigo para a idade em que se encontram. Elas já não são mais nenhumas mocinhas, e o que se precisa fazer é arranjar logo um casamento para ambas, que por aí andam muitos urubus a solta.

–Sei disso, senhor pároco – disse ele, cansado. – A coisa é que por essas bandas não existe um partido que esteja à altura delas. E ainda que tivesse, minha imagem, desgastada na corte como está, duvido que algum nobre quisesse desposá-las.

O clérigo se apiedou da tristeza do Conde.

–Não seja assim tão pessimista, homem, que Deus tem lá os seus motivos. Nas redondezas temos bons rapazes, nenhum de sangue azul, é claro, mas todos são de excelentes famílias. Veja esse William Coubert, filho do xerife de Kelso, acabou de retornar da Alemanha, onde se graduou engenheiro. Ele daria um ótimo marido a Lady Sophia.

–Não sei... – Respondeu o Conde, duvidoso. A imagem de sua filha casada com um homem de ciência não lhe agradava nem um pouco. A ele lhe parecia que a nova geração estava atolada com essas invencionices dos tempos modernos, enquanto que a tradição e os velhos costumes eram atirados ao esquecimento. Não queria de forma alguma que seu genro fosse um desses, e estava um tanto surpreso de que Padre Bernard pensasse que a figura do jovem Coubert lhe agradasse, muito embora desconfiasse de que ele se preocupava mais com o casamento em si do que com o próprio noivo.

–Em todo caso, é preciso se pensar a respeito – disse o padre, retomando a conversa.

–Assim sendo, prometo que pensarei sobre o assunto. Não deve ser tão difícil assim arranjar pretendentes, não é?

–Estou certo que não.

–Preciso ir agora, meus filhos estão esperando...

Padre Bernard fez um gesto brando com as mãos.

–Que Deus lhe abençoe e cubra sua família com seu manto de bondade.

–Amém, senhor pároco – disse, beijando as mãos do clérigo, e acrescentando em seguida. – Venha jantar conosco esta tarde, mandarei que Nancy prepare um cordeiro grelhado e seria uma honra que compartilhasse de nosso banquete.

–Certamente, estarei lá – encerrou o pároco com alegria.

Enquanto via o nobre alcançar a parte externa da igreja, fazendo sua última reverência, ele não pôde deixar de pensar que era um despropósito que se realizasse banquetes em tempos de crises. Certamente, muitas das famílias que assistiram à missa não teriam mais do que algumas migalhas para o jantar.

No entanto, ele não conseguiu se preocupar realmente com a situação das famílias de Saint Shadow. Iria comer cordeiro grelhado feito pelas mãos de fada de Nancy, e já podia sentir o cheiro estonteante em suas narinas.