Coração Protetor

1 O Sonho e a Realidade


Notas iniciais
Sonhos são importantes e fortes. Mas será que estamos sonhando direito?

- Tire essa máscara feliz e saia daqui antes que eu te espanque! — Gritou Aska.

Estava apavorada, escondida nos escombros do castelo. Não era o que esperava de seu primeiro combate em uma guerra de verdade. Dali, podia ouvir o som dos pecos correndo, dos Trovões de Júpter e dos gritos dos mortos. Era uma invasão ao feudo de Payon, sua terra natal.

Encolhida no canto, imaginou se chorariam sua morte. Procurou lembrar-se dos amigos e da família – muitos haviam fugido para Arunafeltz quando o vidente anunciou a possível invasão. Aska voltara para fortalecer as defesas com a técnica que aprendera com sua mestra.

- Se você encostar um dedo em mim eu vou dar um piti! — Gritou novamente. Viu que um assassino, prestes a matar o mago de seu pequeno clã, ficara tonto. Funcionou — pensou ela. Mas aquilo estava longe de ser o que sonhara.

***

Aska ainda tinha oito anos quando viu um guerreiro pela primeira vez. Embora morasse em Payon, sua pequena vila se situava longe dos campos de treinamento dos grandes arqueiros e todos ali viviam suas vidas pacificamente. Era um povoado pequeno e com poucas preocupações. Eventualmente, um ou outro garoto se aventurava a se inscrever no treinamento dos arqueiros, mas apenas para realizar o sonho de caçar pequenos monstros para alimentar a família.

Aska — que naquele tempo ainda se chamava Lila — passeava pelos bosques, brincando com porings e colhendo ervas verdes para sua prima doente, quando um Atirador de Elite passou por ela. Lila reconheceu a profissão dele pelas histórias de guerra que seu tio contava antes de morrer, quando ela era bem menor. Ela deixou cair as ervas e observou aquele homem imponente e poderoso ganhar distancia e desaparecer de sua vista tão rápido quanto surgira. No entanto, o momento durou uma eternidade.

Lila decidira. Seria uma Atiradora de Elite.

Sua família não aprovou a idéia, é claro. Durante o jantar, naquela mesma noite, Lila não conseguia esconder o entusiasmo. Ajudou a mãe a preparar a comida e arrumou a mesa com um brilho no olhar e um sorriso sonhador. No meio da refeição, não puderam deixar de perguntar:

- Filha, o que deu em você? Está tão contente! — Realmente, aquele tipo de alegria era raro naquele vilarejo.

- Eu já sei o que quero ser quando crescer — respondeu a pequena — Quero ser uma Grande Guerreira! Uma Atiradora de Elite.

- Eu sabia — esbravejou o pai, enfurecido, largando a colher na mesa — Eu sabia que as histórias daquele velho iriam influenciar a cabeça dela! Isso, mocinha, está fora de cogitação!

- Você é muito nova, Lila, não entende dessas coisas — dizia a mãe em tom afável — Um dia vai entender que alguns nascem para a guerra... e outros para o lar. Você é uma boa moça, mas é tão...

- Lerda! — Completou o pai quase cuspindo — Você é lerda, preguiçosa e fraca! Nunca poderia sequer resistir ao treino na vila dos arqueiros.

- Não fale assim, querido — Dizia a mãe. Nesse ponto, ambos começaram a discutir e nem perceberam Lila se levantando e indo para o quarto. Ainda lá, no segundo andar da casinha, podia ouvir os gritos; um culpando o outro pela má criação da filha. Ela devia ser mais dedicada ao lar, diziam. Ela devia ser menos sonhadora. Ela devia estudar e ir para Juno. Ela deveria deixar de brincar com porings. Ela devia...

Lila estava cansada de tudo aquilo. Cansada de decidirem sua vida. Então decidiu fugir.

Naquela madrugada, o coração de Lila estava a mil. Não poderia dormir mesmo se quisesse. Amarrou seus lençóis, prendeu no pé da cama e jogou a outra ponta pela janela. A carta de despedida estava em cima do travesseiro.

A Vila dos Arqueiros estava longe dali, mas chegou antes do amanhecer. Já havia alguns aprendizes fazendo fila na guilda, cujas portas acabaram de abrir. Aquilo era emocionante. Todos os seus sonhos de ser uma lenda estavam perto de se realizar.

- Isso é uma piada de mau gosto! — disse a responsável pelas inscrições do treinamento ao encará-la de cima a baixo — Seu lugar não é aqui, mocinha. Onde estão seus pais? Olhe, você não serve. O treinamento é muito severo. De qualquer forma, estamos sem vagas.

- Nãooo! — Gritou Lila . O grito era ensurdecedor, estridente, horrível — Não, não, não, não! Eu vou treinar aqui! Eu vou ser uma guerreira.

Bem, Lila os convenceu no grito. Quando saía com o instrutor para o treinamento, viu seus pais na entrada da vila. Ela usou o mesmo artifício. Berrou até os instrutores entrarem em um acordo com os pais dela. Afinal, todos os habitantes de Payon e de Rune-Midgard deveriam pensar no Ragnarok e colocar as esperanças em seus filhos.

Ela moraria ali na Vila dos Arqueiros, no dormitório dos aprendizes e cuidariam bem dela. Lila sabia que talvez fosse a última vez que veria seus pais. Ficou um pouco triste, mas seu sonho era mais importante.

***

Lila levou alguns anos até conseguir aprender uma boa técnica. Muitos instrutores desistiam de treiná-la e passavam a responsabilidade para outro. Lila ouvia todos os dias as severas repreensões. Ela não desistiu, mas no fundo sabia que era muito desastrada, desatenta e preguiçosa.

Na verdade, era a pior aluna da vila. Estava desanimada. Nunca seria uma guerreira, jamais iria para uma batalha. Nunca se tornaria uma lenda, como os heróis das histórias do seu tio.

Percebendo seu desânimo, seu instrutor — o vigésimo que teve desde que começara o treinamento cinco anos atrás — sentou-se ao seu lado. Estavam em um belo campo, ao pôr do sol. Por um longo tempo, nada disseram. Então Lila quebrou o silêncio:

- Vou embora hoje.

- Sei.

Continuavam olhando as nuvens. Lila estava chorando.

- Seu tio ficaria muito desapontado.

- Você conheceu meu tio?

- Oh, sim! Claro! Seu tio era um grande caçador.

- Sério? — Lila estava estupefata. Não fazia idéia de que seu tio sequer sabia manejar um arco.

- Sim. Ele participou de muitas guerras. Salvou minha vida uma dezena de vezes. Isso faz dele um herói, não? Ele era uma lenda!

Aquilo era demais! Em sua própria família houvera um herói de verdade! Uma lenda! Mas a euforia passou logo que se lembrou de que ela era a Lila, uma garota incapaz e fracassada.

- Sabia que ele era um fracassado quando criança? — Lila agora olhava para seu instrutor com olhos gigantes e queixo caído — Treinávamos juntos. Ele era o mais incapaz de todos. Quando eu me tornei caçador, ele ainda era um arqueiro de baixo nível. Eu não sei o que aconteceu, mas aos poucos ele conseguiu se tornar um caçador bem melhor que eu. Você saberia me dizer como uma coisa dessas pode acontecer?

O velho caçador falava como se estivesse pensando alto, apenas refletindo. Seu tom de voz não parecia esperar uma resposta; não da inútil Lila. Mas seus olhos e ouvidos estavam bem atentos para ver a reação da pequena quando ela respondeu, olhando para baixo como se estivesse muito concentrada.

- Determinação! Ele me falava sobre isso quando contava as histórias dos grande heróis! Eles tinha uma Determinação de Aço, e foi assim que ele se tornaram os maiores guerreiros de Midgard!

- Hm?

- Eu não vou desistir! A partir de hoje vou treinar o dobro!

- Na verdade, eu vim lhe dizer que você completou seu treinamento.

Lila não entendeu nada.

- Bem, você já conhece todas as habilidades de um arqueiro. Tem uma pontaria considerável. E, convenhamos, você pode ser desatenta, desastrada e preguiçosa, mas... essas são coisas da mente. Você pode vencer isso quando quiser. Muitos arqueiros hoje têm a mente perfeita por causa de uma rígida disciplina, mas não tem Espírito de guerreiro.

Quando disse a palavra "Espírito", seus olhos encontraram os de Lila e pareceram penetrar em sua alma.

- Você, pequena, tem o Espírito forte do seu tio. É disso que precisamos nos dias de hoje.

Lila mal podia acreditar. Estivera a ponto de desistir no dia de sua formatura.

- Por isso — continuou o instrutor — eu chamei a Borwaju.

- Oi — disse uma voz feminina atrás de Lila.

- Ai! — Gritou Lila — Pelas barbas de Odim! Desde quando você tá atrás de mim? E que diabo de nome horrível é esse?!?

A mulher apenas sorriu — não sem uma ponta de raiva por ouvir mais uma gracinha com seu nome. Era uma garota perto dos seus vinte anos, alegre e sorridente. Vestia lindas sedas de Morroc que ressaltavam o corpo e tinha um chicote preso à cintura. Era uma odalisca!

- Você tinha razão, velhote — disse a odalisca ao caçador, coçando o ouvido — Ela tem "aquele" talento.

- Ei, o que quer dizer com "aquele" talento? — Perguntou Lila emburrada; odiava ficar de fora da conversa, principalmente quando o assunto era ela.

- Lila, esta é Borwaju. Ela vai levá-la até Hugel, onde você fará o teste para se tornar uma caçadora.

- Prazer em conhecê-la! – disse Borwaju — Hm... Ouvi falar muito de você... boas coisas, claro, e...

Mas Lila não estava mais ouvindo. Estava dando pulos, vivas e comemorando com os porings. Seu sonho estava se realizando.

Borwaju chamou o instrutor de lado e chochichou.

- Você tem certeza disso, velhote?

- Ela tem um sonho, e não posso convencê-la a nada. Veremos o que o coração dela diz quando chegar a hora.

O caçador se aproximou da pequena Lila, e tirou algo da bolsa.

- Tome. Isso é pra você. Vai te proteger contra ataques.

- Ah! Um sininho igual o da Sohee! Que lindo!

- Não esqueça! Ouça sempre seu coração, não apenas sua mente. Quando nada mais lhe restar, apenas seu coração terá força. Invoque o poder do seu coração. Esse é seu verdadeiro poder.

E assim Lila e Borwaju partiram.