Coração Malandro
4 Capítulo 3
Notas iniciais
–Mara há algum problema em seres secretária do meu filho? – perguntou Bryan. – Garanto-te que ele será um advogado tão competente como eu próprio.
–Não, não há problema nenhum. – respondeu Mara. Ela não se sentia à vontade com este assunto afinal desde o princípio que não se dera bem com Alexander.
–Muito bem então. Mara começarás as tuas novas tarefas quando a universidade começar. Até lá continuas a ser a minha secretária.
–Está bem. Doutor, a partir de amanhã já estão marcadas entrevistas de emprego para encontrar uma secretária.
–Certo. Começamos com isso amanhã então. Agora temos de ficar por aqui pois tenho uma reunião. Mara quando a Cherie DiLaurentis chegar diz-lhe para entrar. – Mara acenou com a cabeça em sinal de concordância e saiu seguida por Alexander. Na sala de espera já se encontrava Cherie DiLaurentis para a reunião.
Cherie DiLaurentis era uma cliente regular de Bryan House. Mara lembra-se que, desde que começou a trabalhar para Bryan, via Cherie quase todos os dias. O caso que ela estava a tratar com o seu patrão devia ser realmente complicado. Cherie DiLaurentis é uma conceituada modelo casada com um ator conhecido, Dean DiLaurentis. Começou a sua carreira com apenas doze anos pois a sua beleza chamara a atenção. Com um rosto de criança, Cherie possui cabelos castanhos ondulados. Mas o que mais atraiu a atenção dos olheiros foi os seus belos olhos azuis.
Mara avisou Bryan que Cherie já tinha chegado e mandou Cherie entrar. Sentou-se para continuar o seu trabalho. Mas havia dois olhos que a continuavam a encarar. Era Alexander. Alex olhava-a com curiosidade. Perguntava-se como é que num momento Mara era tão implicante, ríspida e no momento a seguir tão simpática. Mas claro que a parte da implicância era só com ele. Só quando a conheceu é que ela foi simpática, mas essa simpatia durou pouco tempo. Alexander suspeitava que a dado momento aquela simpatia tinha sido forçada.
Mara acabou por reparar que Alexander a encarava sentindo-se incomodada. Mas de uma coisa Mara tinha a certeza, ela não iria dar parte fraca, principalmente para Alexander.
–Queres uma fotografia? – perguntou Mara sarcasticamente.
–Posso? – perguntou Alex sabendo que Mara não deixaria o assunto por ali. E era mesmo isso que Alex queria. Queria provocá-la de todas as formas possíveis e parece que estava a conseguir o que queria.
–Isso era o que tu querias. – Mara levantou-se e aproximou-se de Alexander ficando a meros centímetros do seu rosto. Ela queria demonstrar que não se incomodava. – Ouve bem Alexander…
–Para ti é Alex, boneca. – disse Alex sorrindo. Mara bufou.
–Ouve bem Alexander – Mara fez questão de dar ênfase no nome de Alex – Nem que fosses o último homem à face da terra eu teria alguma coisa contigo. Eu repudio gente da tua laia.
Nesse momento Alex tentou beijar Mara e provar que ela estava errada e que ainda iria implorar por ele mas mais uma vez ela não permitiu. Ao contrário do que fez da última vez, Mara desviou a cara e deu-lhe um estalo.
–Ficas avisado. Voltas a fazer uma gracinha dessas e eu denuncio-to por assédio.
Mara voltou a sentar-se mediante o olhar incrédulo de Alex. Ele não conseguia acreditar que no mesmo dia tinha sido agredido duas vezes pela mesma rapariga. Pensou em desistir do que tinha prometido mais cedo a Ezra mas ele adorava desafios e com certeza Mara era um desafio.
–Quanto mais me bates mais eu gosto de ti. – e dito isto Alex foi-se embora deixando Mara sem hipótese de resposta.
Mara não conseguia acreditar no descaramento de Alexander. Parecia que ele não compreendia que ela não queria nada com ele. Decidiu esquecer esse assunto pois Alexander não valia o seu tempo.
A tarde passou rapidamente. Mara conseguiu fazer tudo o que Bryan lhe pedira. Olhou para o relógio e viu que já estava na hora de sair. Antes de voltar para casa, Mara passou pelo supermercado pois, como acabara de se mudar, ainda tinha o frigorífico vazio. Enquanto estava a voltar para casa, ligou para Marcella para saber se ela já se encontrava a caminho pois tinham combinado jantar.
Já em casa, Mara começou a preparar o jantar. Pouco tempo depois, Marcella chegou. Enquanto acabava de fazer o jantar, Mara contou os últimos acontecimentos a Marcella. Falou do seu infortúnio por ter de trabalhar com Alexander e do facto de ele ser filho do seu patrão. Marcella apenas se riu da pura coincidência e voltou a chamar a atenção para o facto de a violência não levar a nada. Marcella sabia que, por vezes, Mara era impulsiva, que fazia e dizia tudo que lhe viesse à cabeça. Não que achasse isso mal, afinal a sinceridade sempre foi uma coisa que Marcella admirou, mas Mara por vezes precipitava-se no que dizia e Marcella tinha receio que os atritos dela com o filho do patrão pudessem levar a um despedimento e ela sabia o quanto isso seria prejudicial para Mara.
Mudaram de assunto, mas não sem antes Mara ter prometido a Marcella que tentaria se controlar e ter mais calma com Alexander. Agora Marcella contava a Mara que, apesar de ter passado apenas um dia, Amy e Dominique já estavam cheias de saudades suas.
Amy e Dominique Hill estavam há pouco tempo no orfanato, mais precisamente há um ano. No ano passado, durante uma ida normal para o trabalho, os pais de Amy e Dominique tiveram um acidente de carro deixando duas filhas de dez anos órfãs. Durante os primeiros tempos, Amy e Dominique mantiveram-se isoladas das restantes crianças que habitavam o orfanato. A única pessoa com quem elas falavam era Marcella. Mas aos poucos Mara, que era a colega de quarto delas, conseguiu ganhar a confianças daquelas duas crianças. E no fim, elas tinham-se afeiçoado a Mara. Acompanhavam-na para todo o lado. Facilmente as confundiam como irmãs de Mara devido aos seus cabelos loiros e as pequenas gémeas não se incomodavam com isso pois, no fundo, viam Mara como uma irmã mais velha. No dia em que Mara lhes contou que iria viver para outro sítio, ambas ficaram muito tristes mas compreenderam o porquê de Mara sair do orfanato. Naquela noite despediram-se com muitas lágrimas à mistura e com a promessa de que Mara as visitaria e que Amy e Dominique também iriam ao seu novo apartamento.
Estavam tão entretidas que, quando olharam para o relógio, já passava das onze da noite. Despediram-se. Mara tomou um banho, vestiu o seu pijama da Minnie e deitou-se. Já Marcella seguiu para o orfanato. Àquela hora os autocarros eram poucos e olhando para o horário viu que teria de esperar uma hora pelo que a levaria ao orfanato. Como não queria esperar, decidiu ir a pé. Estava a ultrapassar uma passadeira quando um carro parou bruscamente a milímetros dela quase a atropelando. O condutor saiu rapidamente do carro preocupado para ver se ninguém tinha ficado ferido.
–Desculpe, eu estava distraído. – desculpou-se o condutor – A senhorita está bem?
Só quando o condutor falou é que Marcella reparou nele por causa do sotaque, provavelmente seria de outro país. Ele era consideravelmente mais velho que ela. Tinha os olhos verdes e os cabelos grisalhos mas mesmo assim não deixava de ser um homem atraente. Aliás, Marcella encantou-se com a beleza daquele homem.
–A senhorita está bem? – voltou a repetir o condutor. Só aí é que Marcella se deu conta que o estava a encarar há algum tempo e corou.
–Sim estou. – conseguiu dizer Marcella.
–Ainda bem. – suspirou aliviado o desconhecido – Por momentos pensei que lhe tivesse acertado.
–Não, estou perfeitamente bem. – disse Marcella e ambos se mantiveram em silêncio sem saber o que dizer mais. Marcella sentia-se desconfortável com aquele silêncio e decidiu que estava na hora de continuar o seu caminho – Eu vou andando. – e virou-se pronta para ir embora.
–Espere. – praticamente gritou o condutor fazendo com que Marcella se assustasse. Voltou-se para ele e esperou que ele prosseguisse – Posso levá-la a casa?
–Acho melhor não, eu vou bem a pé. – disse Marcella tentando não soar ríspida demais. Afinal aquele homem não lhe tinha feito nada de mal, tirando a parte de quase a ter atropelado. Mas fora isso, ele era um completo desconhecido e desde nova sempre aprendera a não confiar em desconhecidos.
–Eu não lhe vou fazer mal. É só para compensar por quase a ter atropelado.
–É melhor não. Eu nem o conheço de lado nenhum. – o desconhecido aproximou-se de Marcella e esticou-lhe a mão.
–Sou o Giovanni Bellini. – apresentou-se o condutor, até então desconhecido. Marcella retribuiu o cumprimento.
–Marcella King. – Giovanni sorriu e ela retribuiu. É verdade que Marcella tinha receio e um certo medo, afinal não conhecia Giovanni, mas por outro lado ela tinha um pressentimento que poderia confiar nele ao ponto de ele lhe dar uma boleia.
–Pronto. Agora que estamos devidamente apresentados, Marcella, posso levá-la a casa? – perguntou Giovanni. A resposta de Marcella saiu antes de ela pensar devidamente nela.
–Sim.
Marcella entrou no carro e colocou o cinto. Giovanni fez o mesmo. Durante o caminho, apenas falaram para Marcella indicar o caminho a Giovanni. De resto, apenas houve um silêncio constrangedor para ambos. Como eram meros desconhecidos não sabiam o que perguntar um ao outro.
Giovanni estava concentrado na condução e assim Marcella podia olhar discretamente para aquele belo homem sentado ao seu lado. A primeira coisa que reparou foi na sua mão. Não tinha aliança, portanto não era casado nem comprometido. Marcella acabou por ficar feliz com esta nova descoberta. Não sabia o que se passava. Ao longo dos seus trinta e sete anos de vida nunca se sentira atraída por um homem à primeira vista. Porque apesar de ele ser mais velho que ela, a idade tornava-o mais charmoso. Mesmo as poucas rugas que se viam no seu rosto o tornavam mais encantador.
Marcella estava tão distraída a observar o belo homem ao seu lado que não reparou quando chegaram ao seu destino. Marcella saiu do carro e Giovanni fez o mesmo.
–Muita obrigada pela boleia. – agradeceu Marcella.
–Era o mínimo que podia fazer depois de quase a ter atropelado. – e aquele silêncio que ambos mantiveram no local do quase acidente e no carro voltou. Ambos se encaravam sem dizer uma única palavra.
–Então…boa noite, Giovanni. – despediu-se Marcella.
–Boa noite, Marcella. – respondeu Giovanni.
Marcella dirigiu-se até à entrada do orfanato, procurou a chave na carteira, abriu a porta e entrou. Mas antes de fechar a porta, olhou mais uma vez, a última vez, para Giovanni que também a encarava. Sorriu para ele e fechou a porta. O que Marcella não sabia, é que assim como ela, também Giovanni se sentira atraído por ela. Por fim, Giovanni entrou no carro e voltou ao seu destino inicial, a sua casa.
Fale com o autor