Coração De Soldado
2 Capítulo 02 – Dor
Notas iniciais
No dia seguinte, quando a CNN anunciou o acidente de Emmett, Rosalie e a sogra embarcaram num avião rumo à Alemanha. Ambas receosas com relação ao que encontrariam. Porém, gratas por ele estar vivo.
O avião aterrissou em Frankfurt numa noite chuvosa e escura, em que a garoa caía nos edifícios de concreto e nas pistas do aeroporto. Trazendo consigo uma estranha tristeza.
Quando passaram finalmente pela alfândega com a bagagem, Rosalie sentia-se exausta. A ansiedade crescia assim como o medo. Olhou pros lados, angustiada, a procura de alguém a quem não conhecia o rosto.
— Disseram que alguém viria nos receber – comentou com a sogra, a mulher de quem Emmett herdara os olhos azuis. Os cabelos castanhos de Ester, na altura dos ombros, começaram ganhar os primeiros fios grisalhos nos últimos dois anos.
— Será que nos esqueceram? – Ester falava quando, então, um jovem uniformizado se aproximou das duas.
— Senhora McCarty? – o jovem olhou de uma para a outra, aguardando.
— Somos nós – disse Rose. – Sou Rosalie McCarty, a esposa. E ela, Ester McCarty, a mãe. Estamos juntas.
O soldado entregou na mão de Rosalie um saco plástico. Dentro dele estavam a aliança de Emmett, suas plaquetas de identificação e o camafeu prateado com a foto da família que Rosalie tirara do pescoço e entregara a ele no dia da despedida. Estava sujo e aranhado, mas era o mesmo.
Ela ficou a olhar os objetos dentro do saco transparente. Em onze anos de casada nunca tinha visto Emmett retirar a aliança do dedo. Aquela coisa toda era mesmo real, pensou. Estava realmente prestes a encontrar-se com o marido ferido em missão.
— Obrigada – agradeceu ao soldado pelos objetos recebidos. Sua voz estava trêmula. Um pouco controlada. Ester lhe tocou o ombro com a mão, num gesto de apoio silencioso.
O jovem soldado as conduziu pelo aeroporto até o carro de lataria escura no estacionamento úmido.
Foi um trajeto curto, e também silencioso, até o Centro Médico Regional de Landstuhl. Nesse meio tempo, a garoa se transformou numa chuva grossa que era lançada nos vidros corro pelo vento.
No saguão de iluminação neon, Rosalie e a sogra foram imediatamente atraídas aos protocolos militares: havia médicos, enfermeiros, capelães e oficiais aguardando para recebê-las. Todos estavam eretos, rígidos e sérios. Alguns com luvas de borracha roxas nas mãos.
Rosalie e Ester esperavam ser levadas imediatamente até Emmett, mas sempre havia um motivo para esperar. Estavam prestes a invadir os corredores, sem se importar com o que poderiam lhes dizer, quando finalmente o médico responsável às levou até sua sala e lhes revelou o estado clinico de Emmett. A perna esquerda tinha ficado gravemente ferida, por isso tiveram de amputá-la. Foi um choque para ambas. Então, finalmente, alguns poucos minutos depois, as duas estavam prontas para vê-lo.
Após uma longa caminhada pela ala de ortopedia do hospital, finalmente chegaram ao quarto onde Emmett se recuperava.
Rosalie foi quem tomou a inciativa de abrir a porta. Porém, lenta e cuidadosamente. Ele estava lá, no leito alto, com a cabeça apoiada ao travesseiro. Se houve alguma maquina ligada a ele, essa já havia sido retirada. O perigo maior havia passado.
Ela mal o reconheceu. O lado esquerdo do rosto dele estava marcado por chagas ensanguentadas e úmidas. O lado direito estava contundido e inchado. A barba, cheia de falhas. Um corte profundo ao lado do maxilar fora suturado. Os lábios estavam secos e rachados. Os cabelos escuros, mesmo curtos, pareciam sem vida. O braço esquerdo enfaixado. No lugar onde deveria estar sua perna esquerda, o cobertor descansava rente ao colchão.
Rosalie e a sogra entraram no quarto com passos cautelosos. O médico voltou da porta, deixando que ficassem sozinhas com ele.
O silêncio era absoluto.
Rosalie parou aos pés da cama alta. Estendeu a mão para tocar a perna boa dele, recuando com tristeza, deixando que a mão repousasse no vazio onde deveria estar à perna esquerda. Acariciou o lençol vazio ali, e então subiu com a mão até alcançar a perna residual sob os lençóis. Sentiu muito por ele. E para evitar um soluço de pesar, afastou a mão dali depressa. Virando-se de costas, encobriu a boca com as mãos.
Ester se aproximou da nora, novamente acariciando seu ombro com a mão, no mesmo gesto de apoio silencioso. Rosalie começava notar que o gesto se tornara frequente desde a notícia do acidente.
— Vai ficar tudo bem – sussurrou Ester, um segundo depois.
Sentindo que havia mais alguém no quarto, Emmett despertou, abrindo os olhos devagar, notando que apoiavam uma à outra. Rosalie de costas pra ele, de maneira que não pôde ver seu rosto.
Ainda que cheio de dores, Emmett se esforçou para falar.
— Mãe? Rose? – inicialmente chegou a pensar que fossem alucinações causadas pelo efeito dos remédios para suportar as dores. Então as duas se voltaram para ele.
— Emmett... Filho, graças a Deus você está bem – Ester começou como todos tinham ficado, de repente, em silêncio. Ela ficou de um lado da cama e Rosalie do outro. A mão acariciando com sutileza o abdômen encoberto do filho.
Rosalie estendeu a mão, tocando de leve no ombro dele. Assim como a sogra tinha receio de machucá-lo.
— Senti tanto a sua falta... – disse-lhe, saudosa.
Emmett reagiu como se o gesto lhe causasse fortes danos. Rosalie afastou a mão imediatamente.
— Desculpe. Eu te machuquei.
O modo como ele falou a seguir a pegou de surpresa.
— O que está fazendo aqui?
Rosalie olhou dele para a sogra e novamente para ele. Surpresa demais para se deixar compreender tal pergunta.
— Como assim? – pediu com cautela. – Vim para ficar com você.
— Não quero você aqui.
A resposta rude pegou Rosalie desprevenida. Nos onze anos de casamento, ele nunca havia falado assim com ela. Tampouco exigiu que ficasse longe. Pelo contrário havia sido sempre o mais grudento no casamento.
— Emmett, por que está falando com Rose dessa maneira? – Ester intercedeu.
— Não a quero aqui.
— É sua esposa. Estava aflita para chegar aqui. Para reencontrar você. Não sabe como esteve angustiada durante os meses que esteve em combate. Como pode tratá-la assim?! Ela tem contado os segundos para você voltar pra casa.
— Só quero que se retire.
— Emmett... – Rosalie murmurou, a ponto de quase chorar, a voz engasgada pela tristeza. – Por que está fazendo isso? – ele permaneceu impassível. Ela então se declarou. – Eu te amo... eu...
— Você amava o homem que eu era.
— Você ainda é o meu Emmett.
Ele moveu os lábios ressecados, de um jeito irônico, no rosto todo machucado. Então aquilo pareceu mais uma careta de dor que qualquer outra coisa. Subitamente, ele agarrou o cobertor na mão boa e o afastou revelando o toco inchado, numa cor escurecida envolto em curativos que precisavam ser trocados.
— Você não ama isso – gritou com ela.
Rosalie olhava pra ele sem conseguir acreditar no modo como estava agindo.
— Foi nisso que me tornei. Sou um inválido agora. Olhe para mim. Você realmente não quer isso.
— Emmett... – Rose soluçou imensamente magoada com todas as coisas que lhe dizia.
— Pare com isso, Emmett – Ester exigiu. – Não entendo porque está agindo assim, você sempre foi louco por essa mulher.
Rosalie voltou a falar.
— Eu quero estar ao seu lado... como sempre estive.
— Agora – ele a interrompeu bruscamente –, mas e quando as dificuldades aparecerem? As provações surgirem? Faça o favor a mim e a você mesma; volte para casa. Volte para seus filhos. Não deveria tê-los deixados sozinhos.
Nada a magoou mais que a forma como falou dos filhos. Como pôde se referir as crianças como sendo somente dela?! Rosalie engoliu a magoa, passando as mãos no rosto, limpando as lágrimas.
— Você não pode ficar aqui sozinho... – ela arriscou.
— Não ficarei sozinho. Minha mãe vai estar aqui.
Rosalie respirou fundo, engolindo a dor da rejeição como nunca antes havia acontecido.
— Tudo bem – disse, embora não fosse o que desejasse. – Se é isso mesmo que você quer. Eu estou indo para a residência Landstuhl – lugar construído por um filantropo norte-americano para abrigar as famílias de soldados feridos –, se mudar de ideia...
— Não, você vai voltar para os Estados Unidos.
Rosalie se afastou profundamente magoada.
— Está bem. Não vou mais te aborrecer. – Ela se encaminhou até onde estava à sogra e lhe deu um beijo no rosto em despedida.
— Não vá ainda... – Ester lhe pediu – aguarde na residência Landstuhl. Por favor, querida, não volte assim, nem tão depressa.
— Não posso forçá-lo a me querer por perto, Ester. Não vai adiantar. É melhor eu voltar e preparar as crianças... Elas não estão esperando por isso... pela rejeição. Está claro que ele não me quer por perto.
Rosalie deixou o quarto de cabeça baixa, levando consigo uma tristeza que não esperava encontrar. Tinha se preparado para tudo, menos para isso. A rejeição do marido a tinha magoado muito.
Assim que ela se retirou, Emmett apertou o botão de emergência e uma enfermeira de uniforme verde passou pela porta.
— Sinto uma dor infernal na perna inexistente. Essa dor não deveria estar aqui.
— São os nervos cortados. Estão tão confusos quanto você. Para eles está tudo errado; estão procurando o pé.
— É, eu também.
— O fisioterapeuta irá ajudá-lo a lidar com a dor até os nervos cicatrizarem completamente.
Após o curativo ser trocado, Emmett recebeu uma dose de morfina que o deixou grogue. Adormecendo em pouco tempo.
Quando acordou pela segunda vez, já era dia. Ester estava sentada na poltrona ao lado da cama, de olhos abertos, sem sinal algum de ter dormido nas últimas horas.
— Ela está a caminho de casa – contou ao filho. – Era isso mesmo que você queria?
Emmett passou a língua nos lábios secos, ansiando por um gole de água. A dor estava voltando. Levou um tempo até que respondesse a mãe.
— Não, eu não queria.
— Então por que o fez?
— Era o que tinha de ser feito.
— Como isso era o que tinha de ser feito?
— Ela não tem de ficar comigo por pena.
— Pena? Você acha que ela veio até aqui por pena? Ah, Emmett, aquela mulher te ama. E você também a ama que eu sei.
— Não responda por mim.
— O que há de errado com você?
— A guerra pode mudar um homem.
— Magoou sua esposa. Vai também magoar a seus filhos?
— Não me importo mais...
— Matthew vive preocupado com você. Lamenta todos os dias sua partida. Lizzie chora todas as noites de saudades suas, e você diz que não se importa mais.
Emmett desejou sentir vontade de voltar pra casa, pra mulher e pros filhos, porém, não sentiu. E foi muito estranho porque, até alguns dias atrás, isso era tudo o que mais queria. Então se perguntou o que havia de errado? Por que não se sentia mais como antes? Recordava do companheiro que havia sido um dia. Mas por que não conseguia mais ser a mesma pessoa?
[...]
Depois de um voou que durou aproximadamente 10 horas e 12 minutos. Mais três horas e dezesseis minutos de táxi de Seattle a Forks, finalmente, Rosalie estava em casa. E trazia consigo o cansaço físico e o desgaste emocional.
Passava das vinte e duas horas, quando entrou pela porta surpreendendo aos pais que estavam na casa deles, cuidando das crianças. A expressão em seu rosto dizia muito sobre como se sentia.
Deixou a bagagem de mão e a bolsa caírem no chão, ao lado do sofá. Carlisle ficou a observá-la em silêncio, tentando entender o que havia acontecido. Esme se levantou e foi até ela com os braços estendidos. Após o abraço, deixou as mãos descansarem nos ombros da filha, então, finalmente, perguntando.
— O que está fazendo aqui? Não deveria estar na Alemanha com seu marido e sua sogra?
— Meu marido me mandou embora.
— Por que ele faria isso?
Os ombros de Rosalie cederam com o peso da tristeza.
— Ele não me quer ao lado dele – a afirmação lhe trouxe lágrimas aos olhos.
Esme a envolveu novamente em seus braços.
— Oh, meu bem... – O ombro da mãe era o lugar ideal para Rosalie deixar as lágrimas rolarem. Tinha chorado durante grande parte do voou de volta, mas, agora a realidade a esmagava. Pensou que voltaria para casa com ele, acabou que voltou sozinha e magoada. Emmett não era mais seu marido, era alguém preso entre o caminho de casa e a escuridão da guerra.
Carlisle deixou o jornal de lado e se levantou, indo para junto delas. Alcançou o ombro da filha com mão e fez um afago.
— Conte-nos o que aconteceu? – pediu.
Esme a conduziu ao sofá e se acomodou ao lado dela. Carlisle permaneceu de pé.
Rosalie limpou as lágrimas no rosto. Então olhou de um lado pro outro, procurando pelos filhos.
— Onde estão as crianças? – pediu.
— Já subiram. Mandei que pusessem o pijama. Lizzie subiu, mas disse que não faria isso sozinha. Disse que eu tinha de vesti-la, porque era isso que você faria.
— Como elas estão?
— Matthew sempre muito preocupado. Esteve o tempo inteiro fazendo perguntas ao seu pai. Lizzie tem chorado muito desde que você viajou. Tem feito um pouco de birra também. Eu sei que é porque se sente sozinha e assustada com você e Emmett fora. Ela queria saber quando vocês voltavam.
Rosalie balançou a cabeça devagar, concordando, pensando no marido ferido longe de casa, na falta que os filhos sentiam dele.
— Emmett está diferente – disse após um longe silêncio. – Está agressivo e arredio... Não é mais o mesmo. Não sei como isso pode afetar as crianças. Não sei como irá reagir ao vê-los outra vez. Sabe o que me disse depois de me expulsar do hospital? Volte para seus filhos. Seus filhos, mamãe. Ele nunca tinha falado desse jeito antes. Ele sempre dizia, cheio de orgulho, nossos filhos. Nossos. Em que momento as crianças e eu deixamos de ser importante.
— Ele passou por coisas horríveis, querida. Vamos dá um tempo pra ele se recuperar – Esme sugeriu, enquanto acariciava a mão de Rosalie. – A guerra não faz bem a ninguém.
— Tem outra coisa... – Rose começou, e então apertou os lábios com força, fazendo uma longa pausa.
— Que coisa? – Carlisle foi quem perguntou. Ele ainda estava de pé de frente pra elas.
— A perna dele... a esquerda, os médicos tiveram de amputar. Estava muito ferida.
Esme levou a mão à boca, surpreendida pela revelação.
— Pobrezinho – murmurou.
— Quando ele volta? – Carlisle pediu.
— Em alguns dias... não sei ao certo. Ester ficou de me manter informada.
— Vamos apoiar vocês o tempo inteiro, querida. Não estão sozinhos.
— Obrigada, papai.
— Suba, fale com seus filhos. Eles precisam saber por você o que aconteceu ao pai deles.
— Se quiser, vou com você, meu bem – Esme se ofereceu.
— Não, tudo bem. Acho que consigo – Assim, com essas palavras, Rosalie ficou de pé.
— Não quer jantar? – Esme sugeriu. – Tem comida no forno, querida.
— Não estou com fome, mamãe. Obrigada – Encaminhou-se até as escadas, hesitando um instante com o pé no primeiro degrau. Subindo um degrau por vez, numa subida lenta e demorada. Parando no hall antes de seguir pelo corredor.
Como a porta do quarto de Matthew estava fechada, achou melhor ir ao de Lizzie primeiro. Lembrou-se do que a mãe disse, sobre sua filha não querer se trocar sozinha.
Alcançou a porta aberta do quarto de Lizzie. A menina estava de calcinha lilás de algodão, e revirava as gavetas da cômoda em busca de um pijama pra vestir.
— Vovó você demorou... – dizia ela, ao sentir que alguém se aproximava, mas, ao virar-se, viu que não era a avó e sim a mãe. Lizzie largou o que estava fazendo e correu para Rosalie, agarrando-se as penas dela.
— Mamãe, você chegou! O papai veio com você? Ele está lá embaixo com a vovó e o vovô? Onde ele está?
Quando Lizzie ameaçou correr para fora do quarto, para reencontrar-se com o pai, Rosalie a tomou no colo. A menina ficou inquieta.
— Eu quero ver o papai – se queixou.
— O papai não veio, Lizzie – ao ouvir aquelas palavras, Lizzie soltou um muxoxo de choro. Rosalie entrou no quarto de paredes lilás, e pegou um pijama na gaveta bagunçada.
Lizzie se agarrou ao pescoço dela. Rosalie a levou pra cama e, a muito custo, conseguiu afastá-la de seu pescoço, para vesti-la com o pijama vermelho da Dora. Assim que terminou, a menina agarrou a mantinha lilás.
— Eu preciso falar com você e com o seu irmão. Venha – Rose a ajudou descer da cama, e a levou pela mão até o quarto de Matthew. Uma batida na porta apenas e então a abriu.
Encontrou o garoto brincando no tapete ao lado da cama com os soldadinhos de plástico. Diferente da irmã, Matthew já vestia o pijama.
— Vovó... – Ele dizia, quando levantou a vista e viu que era a mãe. – Mamãe? Mamãe! – ele ficou de pé num pulo. – Eu achei que fosse a vovó... – ele passou por cima dos brinquedos ainda enquanto falava. E quando a distância foi rompida, abraçou a mãe pela cintura, o rosto encostando-se ao abdômen dela. Ergueu a cabeça e fez a pergunta pela qual Rosalie estava esperando. – Onde está o papai? Vocês voltaram rápido.
— O papai não veio.
O garoto olhou pra ela, angustiado.
— Sente-se querido. Eu preciso falar com você e com sua irmã... – Levando Lizzie pela mão, ela se sentou na cama de Matthew.
— Mamãe... – Rose ouviu o menino chamar. E ao olhar pra ele, percebeu que estava com medo. Seu olhar era suplicante.
— Vem cá filho. Senta aqui pertinho de mim.
Muito lentamente, Matthew chegou ao lado da cama e então se sentou. Sempre olhando com suplica no rosto da mãe.
— Ele morreu? – pediu com a voz falha.
— Não, Matthew. O papai está vivo. – Ela viu o menino suspirar com alívio. – Acontece que ele ficou muito ferido. O papai perdeu uma perna...
Matthew ficou olhando no rosto dela sem nada a dizer. Então abaixou a cabeça, absorvendo a informação com grande pesar.
Lizzie quebrou o silêncio com uma pergunta inocente.
— Onde que ele perdeu? A gente pode procurar a perninha dele e devolvê-la. Ninguém pode ficar com ela, porque já é do papai.
— Não foi assim que ele perdeu a perna, amor – Rose beijou na cabeça da filha. – A perna do papai ficou muito ferida, os médicos tiveram de amputá-la.
— Como?
— Por meio de uma cirurgia.
Lizzie fez beicinho. – Diz pra eles que tem de pôr de volta. Senão como que o papai vai brincar de correr comigo de novo?
Rosalie acariciou os cabelos da menina. Em seguida, falou com Matthew.
— Em que está pensando filho? – Ela afastou uma mecha escura dos cabelos do menino da testa. – Diz alguma coisa, Matthew.
O garoto finalmente olhou no rosto dela.
— Não importa – afirmou. – Ele ainda é meu pai. E eu o quero de volta. Mesmo se ele voltar com uma perna a menos. Eu quero o papai aqui com a gente. Eu o quero de volta. Busca-o, mamãe, por favor.
Rosalie passou o braço por detrás das costas do filho, trazendo-o para um abraço. No outro, fez o mesmo com Lizzie. E então, naquele momento, estavam os três chorando a falta de Emmett.
— Foi o povo mau que machucou a perna do meu papai – Lizzie soluçou. Rosalie a puxou gentilmente até sentar-se em seu colo. E Lizzie ficou entre os dois, chorando com o rosto colado ao peito da mãe.
[...]
Dias depois, Emmett foi liberado a retornar aos Estados Unidos, onde seguiria com o tratamento.
Há pouco mais de dez dias ele atravessava a base com seu copiloto, reclamando do clima quente da região, da areia que entrava em seus olhos. O quanto era difícil andar sob aquele calor, algumas vezes na lama. Segurava a porta do Black Hawk e subia facilmente na cabine, pondo os pés nos pedais com segurança. Sabia, com certeza absoluta, quem era.
Agora estava novamente no ar, mas nada era como antes. Estava em um avião militar a caminho de casa, com mais cinco soldados feridos, além de alguns médicos e enfermeiras e uns poucos civis.
Os feridos em camas parafusados as paredes internas da aeronave. Uma cortina branca os mantinha separados dos demais passageiros. Em outra época, Emmett encontraria uma maneira de sorrir em meio à dor e a perda. Teria se esforçado para garantir que os todos os ocupantes do voo estivessem à vontade. Mas tudo isso tinha ficado para trás. Ele estava deitado agora, apertando os lábios devido uma dor fantasma que fazia sua perna inexistente latejar.
Quando o avião aterrissou no aeroporto Internacional de Seattle, a enfermeira ao lado falou:
— Falta pouco para estar em casa, chefe. O Senhor deve estar muito contente.
Emmett ignorou o que disse. O que ele sentia estava longe de ser contentamento. Sentia-se estranho, além da dor fantasma que o estava deixando maluco.
Os pacientes foram separados em ambulâncias que os levariam a hospitais e centros de reabilitação.
Emmett foi levado ao Centro de Reabilitação onde a família o aguardava. As crianças, ansiosas, com cartazes de boas-vindas. Rosalie estava entre os filhos, receosa, temendo a reação do marido. No fundo, cheia de vontade de vê-lo outra vez. Nos últimos dias tudo o que soube dele foi através da sogra.
Carlisle, Esme, Jasper e Edward estavam lá. O pai de Emmett, Dorian, também. Um homem tão robusto quanto o filho, uma versão mais velha, com exceção da cor dos olhos, que Emmett herdara da mãe.
Lizzie sacudindo o cartaz que dizia “bem-vindo de volta, papai” em letras infantis e coloridas, cheio de glitter.
Os ferimentos no rosto dele estavam praticamente curados. O inchaço tinha desaparecido.
A cadeira de rodas dele foi conduzida pela rampa por Ester. Logo atrás dela vinha uma enfermeira de cabelos ruivos e cacheados, de rosto encoberto de sardas.
As crianças se precipitaram correndo até ele. Lizzie esbarrou na perna residual. Emmett soltou um palavrão, surpreendendo a todos pela forma rude como recebeu os filhos depois de tanto tempo longe deles.
O mais velho recuou em silêncio, escondendo o cartaz de boas-vindas atrás das costas. Os olhos arregalados, o coração cheio de magoa.
Carlisle repousou a mão no ombro do neto, sentindo os ombros do garoto cederem com o peso da tristeza.
Lizzie largou no chão o cartaz que segurava e correu para os braços da mãe, chorando.
Rosalie pegou a menina no colo.
— O papai não ama mais a gente... – soluçou no ombro da mãe. O que Rosalie temia desde que encontrou com ele na Alemanha estava acontecendo. Emmett estava destratando as crianças, sendo o mesmo grosseiro que foi com ela.
— Ele ama, sim, bonequinha. Só está sentindo dores... E cansado, foi uma viagem longa – ela explicou a Lizzie em voz baixa.
— Ele disse uma palavra muito feia – a menina acusou. – O papai nunca falava coisas feias.
Matthew ouviu o que a irmã disse. Em seguida, se desvencilhou da mão do avô em seu ombro e saiu correndo para onde tinham deixado o carro.
— Matthew! – Rosalie chamou por ele.
Edward levantou a mão, avisando. – Eu vou atrás dele.
— Eu vou junto – avisou Jasper.
Rosalie viu os irmãos descerem a escadaria ao lado da rampa indo atrás de seu filho.
— Você o magoou – falou em voz baixa a Emmett.
— Você não deveria tê-los trazido até aqui.
Novamente ele a estava magoando com suas palavras e atitudes. Porém, era uma mulher adulta poderia lidar com tudo isso, as crianças não.
— Eles são seus filhos, estavam com saudades. E você os está magoando... – murmurou ao passar ao lado da cadeira de rodas, com Lizzie chorando no colo. Ester olhou para ela, se desculpando pelo filho. Rose apenas completou: – E a mim também.
Lizzie olhava o pai sobre o ombro da mãe. Nem mesmo o rosto cheio de lágrimas da menina, mexeu com os sentimentos dele. Lizzie abriu e fechou a mão gordinha querendo dar tchau, porém teve medo.
Os pais de Rosalie se despediram de Emmett e dos pais dele enquanto a filha se afastava aborrecida.
Emmett desejou por tanto tempo vê-los de novo, mas, agora que tinha a chance, não conseguia demonstrar isso. Algo dentro dele havia se rompido.
Rosalie se aproximava do carro, quando avistou Matthew de cabeça baixa falando com os tios.
— É como se ele não fosse mais o papai... – Então ele ergueu a cabeça. – O papai amava a gente. Ele dava abraços de urso. E agora sequer deixa que a gente se aproxime. Não quer o nosso abraço. E ele nunca negaria um abraço meu e da Lizzie, nem da mamãe. Ele era todo grudento.
Já perto o bastante, Rosalie passou a mão na cabeça do menino. – Vamos para casa – disse-lhe. E Matthew entrou na minivan preta ainda enquanto ela colocava Lizzie presa à cadeirinha. Rose se despediu da família e também entrou no carro.
Seus pais e irmãos também deixaram o local.
Apenas os pais de Emmett entraram com ele no Centro de Reabilitação.
[...]
Poucos dias depois...
Emmett estava na cadeira de rodas, sendo levado pela mãe e Griffin, seu fisioterapeuta, ao setor de próteses. Nos dias que se seguiram, seu humor não mudara em nada. Ester estava cada dia mais preocupada com o modo como vinha agindo, frio e distante.
Griffin disse que com o tempo ele mudaria essa atitude. Ester chegava a duvidar disso. O maior problema de seu filho não era a perna perdida, mas sim o que ficara gravado na mente e no coração. Os horrores da guerra.
Ester passou pela porta da sala empurrando a cadeira de rodas. Griffin logo atrás dela, após lhe ceder passagem.
Olhando em volta, Emmett achou que aquele lugar parecia o laboratório do Frankenstein. Para todos os lados que olhava encontrava próteses de partes do corpo humano.
Um homem jovem, de cabelos negros, usando óculos de grau, se aproximou deles.
— Pronto para tirar as medidas para sua prótese, McCarty?
Emmett não disse nada. Então, o rapaz começou com o procedimento para retirada das medidas para a prótese temporária. A perna residual ainda estava bastante inchada e com uma cor escura.
— Vamos começar com uma prótese temporária – explicou Griffin.
— Por que não fazemos logo uma definitiva? – exigiu Emmett.
Quem respondeu a sua pergunta foi o rapaz responsável pelo setor.
— O toco ainda vai murchar bastante. O tamanho que ele está agora não será mais o mesmo em alguns dias. Por isso a necessidade de uma temporária. Pronto! – concluiu o rapaz. – Amanhã mesmo teremos sua prótese temporária pronta.
Emmett não demonstrou nenhum sinal de entusiasmo. Rapidamente empurrou a cadeira para fora da sala. Os três seguiram pelo corredor, mas, dessa vez, para a sala de fisioterapia onde trabalhou por horas sua reabilitação. Emmett sabia que era apenas o começo de sua nova vida. Muitas lutas ainda estariam por vir.
Na tarde do dia seguinte, quando Griffin apareceu no quarto trazendo aquilo que seria sua perna temporária, Emmett pôs no rosto a expressão de desagrado e aborrecimento.
— Vamos recruta, mostre mais otimismo.
— Você tem certeza que tenho de usar essa coisa mesmo? Isso é horrível.
— Quando a perna residual desinchar você terá uma prótese melhor. A definitiva.
Griffin se aproximou da cama. Emmett recusou sua ajuda e, com muito trabalho, passou o corpo grande por conta própria para a cadeira de rodas.
Ester chegava ao local quando eles já estavam de saída.
— Estamos indo a sala de fisioterapia testar a prótese temporária – Griffin lhe explicou. – Venha conosco – fez o convite.
Ester sorriu para o filho, tentando dizer que aquele era um momento valioso.
— Não perderia isso por nada – lançou.
— Isso é ridículo, mãe.
— Logo, logo você vai andar novamente. Isso não te deixa feliz?
— Vamos logo com isso – disparou mal-humorado.
Já na sala de fisioterapia, com ele ainda sentado na cadeira de rodas, meias de silicone foram postas no coto antes da prótese. Emmett sentiu o incomodo. Doía bastante o contato da prótese temporária com o curativo, apesar das meias. Ficar de pé foi uma tarefa muito difícil, mas ele conseguiu. Deu um passo a frente, e logo desequilibrou.
— Tudo isso é uma grande merda – esbravejou. Não fazia questão de esconder seu desapontamento e raiva. Apoiou-se nas barras e os músculos de seus braços tencionaram com o esforço.
— Eu sei que está sendo difícil, filho... – Ester dizia quando ele a interrompeu.
— Não, você não sabe.
Ester meneou a cabeça, tomando certa distância. Talvez ela não soubesse, mas estava ali para ajudá-lo a passar por esse momento, assim como Rosalie também estaria se não a tivesse tratando tão mal.
Emmett forçou mais alguns passos segurando-se nas barras e sua feição endureceu por conta da dor que sentiu.
— Tudo bem. Podemos tentar mais manhã. Você não precisa fazer isso agora.
Emmett apertou os olhos por conta da dor. Porém, como soldado que era não se entregaria tão fácil.
— Não, eu quero fazer isso agora. – E ele forçou a passada, mesmo com o rosto contorcido de dor. Foi até o fim das barras, trincando os dentes, e voltou ao lugar de partida. Apesar da dor sentia-se vitorioso. Quis ir andando até o quarto, com a desculpa que a mãe lhe serviria de apoio, mas seu pedido foi negado.
Durante esses dias no Centro de Reabilitação, cartas de outros feridos em combate chegaram até ele. Um deles, inclusive, tinha perdido as duas pernas há uma semana. As cartas o encorajaram a seguir em frente. A não desistir de si mesmo. Porém seu humor continuava não sendo dos melhores.
Tinha passado a ter pesadelos frequentes. Acordava suado e inquieto. Às vezes gritando. Agora que Ester já não estava mais com ele tanto quanto no hospital na Alemanha, não tinha ninguém para presenciar seus pesadelos. O que considerava um alívio.
Rosalie passou no Centro de Reabilitação algumas vezes mesmo contra a vontade dele. O que acontecia de voltar para casa com a sensação de ter perdido o marido pra guerra. Ele não havia morrido em combate, mas havia sido mudado profundamente.
Foi por isso que não voltou a levar as crianças para vê-lo durante o período que esteve lá. Lizzie ainda chorava quando se lembrava do modo como a tratou. Sentia saudades, também. Matthew tinha passado a ser um garoto silencioso e fingia não se importar mais.
Mas quando Rosalie deu à notícia de que o pai deles voltaria para casa naquele fim de semana, Matthew e Lizzie ficaram numa empolgação só. Até fizeram planos para uma festa de boas-vindas. Apesar de não acreditar que Emmett fosse ficar contente, Rosalie não quis desapontá-los.
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