Corazón azul y piel dorada
3 O segundo jogo
Dulce
Eu estava me acabando nos salgados que estavam expostos na mesa. Ok, tudo bem, depois você começa uma dieta e perde todo esse peso que está ganhando agora. Uma voz me dizia mentalmente, me incentivando a continuar a comilança.
:- Isso aqui está uma delícia. – Ouvi Maite, minha amiga da faculdade falar perto de mim. Se tiver uma pessoa nesse mundo que compete comigo na comida é ela.
:- Para de comer um pouco mulher. – impliquei com ela.
:- Quem vê pensa... – ela me olhou indiferente – A faminta falando da morta de fome. Vem vamos para sala o jogo vai começar. – ela me deu a mão e pegou seu prato cheio de guloseimas e salgados.
Estávamos todos reunidos no apartamento de Charlie, amigo de Poncho, para assistir um jogo obviamente do Pumas, o apartamento estava lotado não sabia de onde tinha surgido tanta gente. Era um clássico nada mais, nada menos que Pumas X América!
Voltamos para o lugar onde uma enorme TV de plasma estava ligada, com a imagem de um campo de futebol lotado. Poncho estava sentado no meio do sofá, bandeira do Pumas enrolada no pescoço, a caneca que eu havia tornado a dá conservando sua cerveja gelada e em uma das mãos a minha camisa, sim, a minha rosa linda do Pumas, que segundo ele dava sorte. Vai entender.
Os homens chiaram quando eu e Maite passamos na frente da tv para voltar ao nosso lugar, que estava disputado no sofá.
:- O jogo ainda não recomeçou, parem de reclamar! – Maite falou de boca cheia, antes de mastigar alguma comida que ela trazia em um prato só para ela.
:- Mas, estão falando quem continua em campo e quem foi substituído. – Poncho falou sem tirar os olhos da tela plasma, com olhos de menino impressionante como ele se transforma quando o assunto é futebol, eu também é claro, mas nem se comparava com a mudança de Poncho.
:- Isssso, Porra! – Pedro vibrou, tadinho tinha até pena dele era um dos poucos torcedores do América presentes no apartamento. Ele vibrou quando viu que substituíram Luciano por Inácio, jogadores do América. – Quero ver agora vocês ganharem esse jogo, o Inácio quase um Sonic.
:- Cala sua boca, Pedro! – Mane, namorado de Maite tacou uma almofada em Pedro. – A aposta ainda está de pé, e quem vai vencer será o melhor.
:- Ou seja, Pumas! – Poncho falou rindo e me olhando rapidamente antes de tomar um gole de sua cerveja. E inconsciente ele apertou minha camisa em sua mão, quando o narrador anuncia a volta da partida, eu ficava ainda encantada observando seus trejeitos apesar de tanto tempo de namoro.
:- Vamoooooooos Pumas! – Charlie era o mais apreensivo.
Surpreendente o que uma partida de futebol pode prender as pessoas, ainda mais os torcedores, em como ela pode arrancar as mais diversas reações desde xingamentos, falatórios cada vez mais altos, discussões, até alegrias, vibrações, gritos.
Todos os homens estavam falando ao mesmo tempo a cada lance do jogo, se achando os maiores conhecedores de Futebol, eu às vezes dava minha opinião, na maioria das vezes prestava atenção no jogo e nas reações boas e ruins de Poncho, tinham poucas mulheres comparado à quantidade de homens no apartamento. Mas, a única que eu conhecia mesmo era Maite, que por sinal era uma das que mais xingava.
:- FALTA, CARALHO!!!! – Poncho de tão nervoso foi mais para frente no sofá, esquecendo até que estava acariciando meu joelho.
:- Falta nada aonde.. – Pedro mal começou a reclamar e o juiz deu a falta, atrasado no lance.
Os pumistas presentes foram à loucura, vibrando. Era nossa chance de gol e melhorar o placar que mesmo num empate de um gol para cada time, era um incômodo. Torcedor que é torcedor sempre quer a vitória, e comigo não era diferente. Ficamos todos apreensivos durante a jogada perigosa.
... Daniel ajeita a bola, antes de chutá-la...
Alguém encontrou o controle remoto da TV e foi aumentando para ouvir melhor a partida. Isso fez tudo ficar uma gritaria danada, por que todos falavam ao mesmo tempo que o narrador.
... E ele prefere bater direto para o Gol, E a bola foi direto para as mãos de Ochoa...
A narração foi morrendo quando Memo defende o chute potente de Daniel, o que causou reclamações dos pumistas e festejos dos americanistas, mas sabe aquela sua amiga?
Sim, aquela comilona que prefere comer para conter o nervosismo de ver uma partida de futebol, aquela que namora Mane torcedor fanático do Pumas tanto fanático quanto meu Poncho, aquela que tem uma terrível mania de falar merda na hora errada?
E não tinha pior momento para Maite abrir a boca e falar besteira, senão quando aconteceu um instante raro e breve de silêncio, entre as reações das pessoas pelo gol defendido, quando só se ouvia a voz do comentarista falando no replay da jogada. Maite soltou uma das suas, me desculpe pelo palavreado, mas não só a merda estava feita como eu estava afundada nela.
:- Puta que pariu, hein Dulce esse seu ex namorado, não deixa de ser um filha da puta ainda mais num jogo como esse. – Ela falou em alto bom som, me fazendo gelar o corpo inteiro.
Acho que fiquei ainda pior quando senti Poncho ficar mais tenso que antes do meu lado. Eu não respondi Maite apenas fiquei esperando a explosão do Poncho que logo viria, por que se tinha uma coisa que ele sentia, era Amor pelo Pumas e Ódio ao América, mais especificamente ao Guilhermo Ochoa, meu ex-namorado.
Poncho deixou sua caneca na mesa de centro e apertando muito minha camisa na mão esquerda, como uma forma de se controlar, ele se virou lentamente para o lado onde eu estava sentada. E se virou completamente e o vi com os olhos apertados, comentei já sobre a bipolaridade dele quando assistia algum jogo, ele passava do bom humor a agressividade constante enquanto assistia o Pumas. Me olhou perguntando com o olhar.
:- Guilhermo Ochoa foi seu namorado, Dulce? – Pedro disse em voz alta o que Poncho me perguntou com um olhar raivoso. Pedro não deixou tempo para eu responder e depois de rir falou – Parece que temos uma Traidora aqui, hein.
Ignorei o que Pedro disse e prestei atenção em Poncho, sua respiração começava a acelerar e como ele não assistia o jogo, num clássico contra seu maior rival, aquilo era um péssimo sinal.
:- Eu falei merda, né? – Maite falou com uma voz arrependida e eu novamente deixei de responder.
:- Por que não me contou isso antes, Dulce? – Poncho falou numa voz falsamente calma, mesmo assim alta. O que fez o pessoal chiar para ele por que eles ainda assistiam ao jogo sem se dar conta do clima pesado que estava se formando ali mesmo.
:- Depois conversamos sobre isso, Poncho. Vamos voltar a assistir o jogo. – Eu tentei inutilmente não começar uma briga na frente de todo mundo, Inutilmente mesmo, Poncho não me deixaria em paz até que eu o respondesse.
:- Me responde, Por que não me contou isso antes? – Ele continuou no mesmo tom sem se importar com os “chios” de todos.
:- Amiga me desculpa pensei que ele soubesse. – Maite voltou a falar percebendo o clima.
:- Não tem problema, May. Eu vou na cozinha pegar uma cerveja para mim. – Falei levantando rapidamente antes que Poncho me impedisse de fazer algo, e assim evitando brevemente uma discussão, o que não adiantou muito já que Poncho se levantou e me seguiu.
Mal tive tempo de respirar quando cheguei na cozinha que ele já chegou irritado por conta de que eu não o respondia.
:- Será que pode responder a DROGA da pergunta! Por que não me contou isso antes?
:- Para evitar tudo isso.
:- Evitar o que? – ele riu esnobe – Uma discussão? Pois estamos justamente discutindo, Dulce. – ele falou aumentando o tom de voz expressando sua raiva.
:- Eu não sabia como te contar isso. Ok. Por isso não falei nada antes.
:- Claro teve medo que eu soubesse e brigasse com você, mas olha é o que está acontecendo agora.
:- Eu e Guilhermo, namoramos sim. – Falei sentindo seu olhar decepcionado me encarando, disse o que devia ter contado antes, me sentia acuada. — Mas, foi há anos atrás.
:- Não importa quanto tempo foi. – ele falou e dava para ver seu rosto ficar vermelho de raiva.
:- Não acredito que estamos discutindo isso. Algo que aconteceu ANOS ATRÁS, Poncho olha sua reação, por isso não contei antes.
:- Guilhermo Ochoa, Dulce! – ele falou além de tudo decepcionado. – Um dos caras que mais odeio nesse mundo e é óbvio que eu ficaria assim, Óbvio. – ele me encarou de perto.
E sua raiva era tanta que estava passando para mim. Estava ficando com raiva de toda aquela acusação, estávamos discutindo por um namoro do passado. Isso era ridículo.
:- Poncho deixa de ser ridículo, eu namorei Memo antes de sequer te conhecer, você fala me acusando, como se eu tivesse te traído.
:- Memo? Memo? Ainda tem apelido carinhoso, ainda se lembra de como foi o namoro também? Deve ter sido muito importante na sua vida, né?
:- Cala a boca, Alfonso! – estava com tanta raiva quanto ele – Você não tem o direito de falar assim comigo, eu não te cobrei nada, nada sobre o seu passado. Menos ainda sobre suas antigas namoradas. Sabe por quê? POR QUE ELAS ESTÃO NO PAS-SA-DO! – explodi.
Sentia uma vontade terrível de sair dali, eu precisava disso.
:- GUILHERMO OCHOA, DULCE! EU SÓ QUERO ENTENDER O POR QUE DE NÃO TER ME CONTADO, COMO QUER QUE EU TENHA CONFIANÇA EM VOCÊ? NO NOSSO RELACIONAMENTO?
:- COMO É QUE É? – eu balancei a cabeça, desacreditada em toda aquela cena. – Eu namorei Memo Ochoa sim e parece que você ainda não entendeu isso, não sei qual é o seu problema com ele, além dele ser jogador do América, mas isso não me importa mais sabe por quê?
:- Por quê?
:- Você não vai precisar ter confiança em mim. Por que não vamos mais ter um relacionamento. – falar aquilo doeu, por que por mais ele fosse um imbecil eu o amava.
:- Você está terminando comigo? – ele me olhou desacreditado.
:- Sim. – continuei sabendo que me arrependeria disso depois.
Poncho ficou estranho de repente, ele parecia querer voltar a gritar comigo de novo, apertava minha camisa que ainda estava em sua mão, com uma força notável, ele deu uma meia volta e voltou com os olhos apertados, antes de soltar.
:- Ótimo, então se é assim que você quer.
Ele falou tudo aquilo que eu detestei escutar e que me machucou ainda mais que sua acusação de falta de confiança. Mas, também voltou minha raiva da atitude infantil dele, tudo que eu queria era que ele me deixasse falar ou que perguntasse se isso era realmente o que eu não queria. Eu não queria terminar com ele.
Só que meu orgulho se fez presente e com ele no comando que eu respondi.
:- Perfeito. Já que é isso que você quer.
E sai da cozinha, andando rápido pelo corredor, à vontade de sair dali era gigante. Tentando conter um choro subto, cheguei na sala e parei meu caminhar ao ver que todos até mesmo os que eu não conhecia, me olhavam com atenção talvez na minha discussão com Poncho devemos ter gritado, e me bateu uma vergonha por todos deixarem de ver o jogo para escutar minha discussão com Poncho.
Respirei fundo antes de ir pegar minha bolsa que estava no sofá.
A única pessoa que não me olhava era Pedro, que parecia ser o único a assistir o jogo.
:- Nãooooooooooo! Caralho que frango foi esse, Porra que filha da puta. – ele exclamou.
...Gooool de Pumas!! Após falha de Guilhermo Ochoa...
Peguei minha bolsa e olhei rápida para Tv vendo o lance do Gol, que foi de letra e a falha do Memo foi espetacular, irônico já que eu acabei o meu namoro justamente por culpa dele.
E segui em direção a saída do apartamento.
Quando cheguei na porta lembrei que esqueci a chave do meu carro, que tinha deixado guardada com Charlie.
Antes de sequer pensar em voltar para pegar. Ouvi o barulho das chaves.
:- Eu te levo em casa, você não está em condições de dirigir e eu que fui à culpada pela discussão. – Maite chegou com minhas chaves e sua bolsa no ombro, apesar de ter um olhar culpado e ela estava determinada em me levar embora.
Antes de sair do apartamento de Charlie, olhei para trás, com um último fio de esperança para que Poncho viesse atrás de mim. E falasse que tudo aquilo foi uma bobagem, ele não queria terminar comigo.
Nada disso aconteceu e dei um sorriso triste, por que pelo menos o meu time estava ganhando o jogo.
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