Coragem - Primeiro Encontro
1 Capítulo único
Notas iniciais
O escudo e a espada nas costas do pequeno garoto criavam uma melodia metálica no silencioso interior da árvore. Seus pés formigavam e um vazio preenchia seu estômago.
Ainda sentia arrepios dos encontros infelizes com criaturas daquele lugar. Antes fossem apenas os monstros; teias de aranha para todos os lados já estavam o deixando cansado de parar a todo o momento para limpar-se.
Uma súbita coceira grudenta pousara em seu nariz; o garoto tropeçou e foi de encontro ao chão. Ao limpar o rosto, um ambiente amplo e soturno materializou-se aos seus olhos.
Mais teias de aranha. Limpou a mão na parede; parte da textura grudenta da teia ficara entre seus dedos. Levantou-se; um ruído semelhante a folhas secas estalando no teto capturou seu olhar.
O barulho se tornou mais intenso e mais próximo, seguido de uma amarela protuberância oval em meio à escuridão. Um estrondo ecoara pelo ambiente, estremecendo o pequeno garoto. A criatura liberou um grito ensurdecedor, equilibrando-se em um membro e arqueando suas garras.
Navi surgiu em um estalo; o garoto poderia até ouvir sua voz estridente se um súbito arrepio gelado não emergisse à sua pele, congelando-o.
Avançando rapidamente em direção ao pequeno assustado, a criatura aracnídea ergueu-se novamente em um membro e atacou-o com as quatro garras. O cheiro de ferro e o calor em sua testa foram suficientes para aquecer suas pernas, ainda que atingidas, em uma disparada.
A corrida mal planejada resultou desastrosamente em vários tropeços e três tombos, nenhum machucando mais que as garras da grande aranha e a realização de que ela poderia atacar novamente.
Com o que ainda o restava de visão, observou pilares espalhados pela sala. Naquele momento, nada parecera alcançável em meio ao calor e arquejos; exceto o frio e grudento pilar em que agora se apoiava, atingido em um momento não notado.
Uma vozinha aguda irrompera do chapéu do garoto; um rastro de brilho azul capturando a sua atenção. Aquela era Gohma, disse a fada. Por ser muito resistente, o único jeito de sair dali era acertando-a em seu olho.
Ofegante, Link observou a criatura através do brilho de Navi.
Naquele momento, ela não buscava o garoto. Sua preocupação maior era rastejar até o teto para... botar ovos?
Pequenas criaturas emergiram dos ovos grotescos que pousaram no chão. Pulando sem hesitar em direção ao garoto, provaram ser mais rápidas que a mãe. Link cismou que ficar parado poderia garantir algo muito mais sério que a visão limitada e febre repentina. Uma tensão tomou conta de sua mandíbula.
Apertando o cabo da espada, impulsionou-se em direção às crias, executando um rápido corte lateral em uma delas; titubeara no processo. Meneando a cabeça, levou uma mão ao rosto. Sua espada resvalara. O horizonte esfumaçava e avermelhava gradualmente.
Suspirando, forçou um passo à frente, virando para a cria ainda de pé, tentando empunhar novamente a espada. Com uma estocada certeira – até sortuda – atingiu-a em cheio. A criatura desabou, imóvel. O garoto apertou a pequena espada; com a visão ainda nublada, esboçou um sorriso. Seria um belo momento heroico não fosse a pancada nas costas por uma das duas criaturinhas restantes. A raiva que o incendiara, provinda do golpe, engatilhou um salto, executado com um corte vertical em direção à criatura mais próxima. Esquivando-se do mesmo ataque da irmã, repetiu o golpe fatal.
Ver suas crias imóveis no chão provocara um grito ainda mais alto na criatura aracnídea. Mais rápida do que antes, avançou em direção ao menino.
Um pouco mais certo de seus passos, Link verificou o reflexo de Gohma em sua espada. Recuando, encostou sua mão em um objeto pequeno, com um elástico no topo, preso a seu cinto; na ponta de seus dedos estava a sua única chance.
Entrelaçou os dedos no estilingue com uma mão; a outra, ágil, apanhou sementes no pequeno saco amarrado em seu cinto. A Rainha avançara; seu olhar, agora vermelho, o balançou por segundos. O primeiro tiro foi efêmero; fez uma curva imprópria e desabou. A segunda tentativa fora, também, em vão. Falhava em ver através da pesada camada vermelha que cobrira seus olhos. Em uma terceira tentativa, ainda tremendo, acertou o gigante olho de Gohma, fazendo-a cair no meio de seu avanço, completamente transtornada.
Piscando duas vezes, alívio preencheu seu peito. Após inspirar, disparou com um grito, pulando em direção ao ponto golpeado. Gohma berrava a cada corte desferido, não obstante sendo suficiente para executá-la, apenas motivaram suas garras a impulsionar uma esquiva para trás. Com passos largos, escalou um pilar e fixou-se no teto.
Notando a posição familiar em que a Rainha se encontrara, Navi alertou Link para que ele acertasse os ovos antes de racharem. Dessa vez, tentou eliminá-los com o estilingue. Uma delas ainda emergira, tendo poucos segundos de vida após ouvir um som metálico.
Outro estrondo se seguiu, perto demais do garoto, seus joelhos indo de encontro ao chão. Vendo sua chance, a Rainha lançou-se em direção ao menino, pesadas garras mirando seus curtos membros humanos.
Erguendo-se vitoriosa, fitou o chão, movendo seu olho freneticamente: nenhum verde abaixo de sua carapaça.
Não houve tempo de antever a súbita dor em seu olho.
Sem hesitar, mais um corte vertical foi realizado; mão esquerda firme no cabo da espada Kokiri. Link deu mais um passo à frente, cortando lateralmente, seguido de um brado para uma estocada final.
Gohma gritou, em protesto; raiva e angústia a encobrindo. Incapacitada, só pôde reclamar e se debater, até finalmente soltar-se no chão.
—
O ar estava úmido e salgado. Esfregando a mão em seus olhos, um espesso bordô cobriu a ponta de seus dedos. O garoto agachou para observar a espada fincada na criatura decaída. Após alguns minutos analisando a fissura, calmamente aguardando qualquer movimento repentino, removeu a espada lentamente, embainhando-a em seguida. Uma poça de líquido roxo umedeceu suas botas.
Contemplando as asas de Navi, que tilintava sobre sua cabeça em uma dança harmônica, Link esboçou um sorriso. Uma luz preenchera o ambiente. A fada a identificara rapidamente, indo em direção à ela; o herói, logo atrás.
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