Corações de Ferro
1 Capítulo 1: A Caça
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Jasper, uma cidade irritantemente pacata, desconfortavelmente calorosa, e estranhamente suspeita.
Jasper se localizava num ponto remoto o suficiente para que nada de incomum e surpreendente fosse visto pelas ruas pacíficas e entediantes, era um lugar cujo escolheria morar caso desejasse uma aposentadoria sem maiores estresses ou se isolar do resto do mundo. As casas e prédios portavam uma arquitetura comum que nem se comparava aos grandes centros dos Estados Unidos. O choque em relação a diferença de estruturas entre Washington D.C e Jasper foi sentida na pele que acumulava gotas grossas de suor a cada dez passos, na camiseta que insistia em grudar na zona das costas e axilas, e no couro cabeludo pegajoso mesmo após uma boa lavagem com o shampoo mais barato do mercado.
O calor chegava a ser insuportável na maior parte da manhã e tarde, mas nada que não fosse capaz de lidar com a irritação e desespero crescente que criava perninhas pelo estômago a cada dia que passava e não tinha nem sequer uma pista do ser que deveria encontrar nesse ponto morto de Nevada.
Jasper continha menos de cinquenta mil habitantes, não era muita gente, e essas pessoas não portavam nada de especial, muito menos seus carros comuns que expeliam nuvens de fumaça tóxica quando percorriam as ruas mundanas. Seus olhos perseguiam todos os automóveis numa ferocidade que muitos deviam ter pensando que arquitetava roubá-los assim que virassem os olhos, porém nenhuma dessas hipóteses chegava ao seu real objetivo.
Correu pelas ruas largas e asfaltadas, parando nos poucos semáforos das avenidas, passou pelo estacionamento do pequeno shopping, das lanchonetes de fast food, das duas únicas escolas da cidade, da universidade em tons pastéis e pela orla que dava entrada ao deserto escaldante que circulava Jasper, e nada. Emy Louise não encontrou nada e nem ninguém que a ajudaria em seu martírio, e o desespero aos poucos a engolia numa torrente de ansiedade que a fez lacrimejar, socando os punhos no volante do carro na frustração de seu tempo estar se esgotando e pior ainda, de seu precioso amigo também.
Depois de tantos dias numa procura incessante, uma semana para ser mais exata, começava a duvidar seriamente de Jazz sobre as pistas fornecidas, e que não havia nenhum Autobot ou vida cybertroniana circulando em Jasper. O link de rastreamento dele devia estar com defeito e teve alguma interferência invés de uma localização de energia cybertroniana. Ou talvez, até mesmo poderia ser uma energia dos Decepticons ao contrário das dos Autobots, uma breve energia que se dispersou assim que eles deixaram a cidade, sim, isso mesmo. Jazz foi enganado e esse engano estava custando caro para sua vida que aos poucos o deixava nos dias torturantes de procura por aparições alienígenas.
Ele precisava de atendimento médico rápido.
Se pelo menos First Aid não tivesse ido embora. Se pelo menos pudesse se comunicar com ele para informar o que aconteceu no meio da mudança para Jasper. Se pelo menos encontra-se o Autobot CMO Ratchet que Jazz tanto insistia que se encontrava nesta cidade monstruosa. Se pelo menos... se pelo menos...
Droga.
Tudo foi jogado em suas mãos de repente e havia momentos que pensava que iria explodir de tanta tensão e pânico, no qual as lágrimas inundavam os olhos e os soluços deixavam os lábios em torrentes dolorosas demais para controlar.
Os dias em que tinha que usar um maçarico velho e alguns cauterizadores que First Aid deixou para trás se tornaram os piores, as feridas de Jazz eram fechadas de forma momentânea e brutal, para logo depois as válvulas tornarem a se abrir em novas feridas que o fazia se contorcer de dor. Jazz sentia dor e não podia fazer nada para aliviar isso. Ela não era médica e o pouco que First Aid a ensinou sobre ferimentos em cybertronianos estava longe de ser o suficiente para tratar o amigo, ele precisava de um médico de verdade, ele precisava de Ratchet.
Merda.
Merda!
Emy estacionou na orla, saindo do carro com uma batida de porta que sacudiu o veículo velho. Sua caminhonete outrora viu dias melhores, no momento os anos faziam parecer que a lataria vermelha tinha mais idade que o real, embora parecesse melhor que o carro esportivo em seu celeiro compartilhado. O vermelho rubi da lataria agora não passava de um vermelho tijolo cheio de arranhões e amassados, o vidro do passageiro exibia uma fita adesiva transparente que segurava um rachado prestes a completar aniversário, mas pelo menos funcionava. Sua preciosa caminhonete nunca a deixou na mão, mesmo agora, quando lutou para se embrenhar numa missão sem resultados finais claros o suficiente.
De um jeito ou de outro, a única alternativa era encarar a realidade.
O ar estava frio devido a proximidade com o deserto, percorrendo seu rosto em lufadas generosas. O dia se resumiu a encarar a areia alaranjada e as pedras que se erguiam em montes pontudos e perigosos, sem sinal de outras vidas, nem que fossem dos malditos Decepticons. Com a noite ficando cada vez mais alta, Emy decidiu encerrar o trabalho.
Mais um dia perdido em que não achou nada mais que frustração.
A volta para casa foi ainda pior, se possível. Ao estacionar na frente da construção rústica que ficava na outra extremidade de Jasper, relativamente longe da civilização do centro, o coração parecia ter caído no estômago. Emy retirou o grande galão de gasolina da caminhonete e caminhou até o celeiro localizado atrás da casa, a porta de madeira rangeu ao abri-la, dando espaço a uma luz cegando que atingiu seu rosto na força de um raio, fazendo-a recuar e tropeçar nos próprios pés.
— Ai, desliga isso — reclamou, tapando os olhos para evitar que ficasse cega pela forma como os raios de luz maltratavam suas retinas, antes dos faróis se estabilizarem, com pequenos movimentos de metal chacoalhando o ar em pequenas batidas.
— Foi mal, mecanismo de defesa — disse o ser que se erguia dentro do celeiro, sentado com as pernas metálicas estendidas à frente. Ele tinha uma viseira escura cobrindo os olhos, um rosto de traços estranhamente humanos, com um nariz pontudo e uma pele que se assemelhava a silicone. Seu corpo pequeno em comparação a estrutura de mais de vinte pés de First Aid, jazia meio encolhido, os braços mantendo erguidos os diversos tubos conectados ao peito, que o deixavam estável na maior parte do dia.
A visão de Jazz era aterrorizante para Emy, o chão ao redor dele, que era coberto por uma lona azul, estava manchada por um líquido de cheiro forte na cor roxa, que vazava dele como um cano furado. Era Energon, seu "sangue" e alimento.
O aroma de óleo, ozônio e energon entupiu o celeiro ao ponto de pinicar o nariz e arder em sua pele toda vez que aparecia para checá-lo, o cheiro até mesmo circulava em seus sonhos quando por algum milagre, adormecia. Esse era um ponto de seu tormento, o local cheirava a um tipo diferente de morte, mas ainda sim, morte.
— Eu vejo, como você está se sentindo?
— Melhor do que ontem, um pouco mais forte.
Emy se aproximou do amigo com o galão de gasolina, as botas de couro se afundando nas pequenas poças de energon que o rodeavam.
— Jazz, você tem certeza de que seu conlink registrou sinal Autobot em Jasper? Porque eu acho que não há nada aqui.
Se pudesse suspirar, Jazz com certeza o faria, tanto pela forma direta com que o tratava, quanto pelo tremular evidente no vinco entre as sobrancelhas.
— Tenho Emy, e foi o sinal de Optimus, eu sei, embora não consiga fazer mais nada para me comunicar com ele devido ao conlink danificado.
— Talvez ele tenha passado por aqui e ido embora.
— Não sei, mas é nossa única pista por enquanto. — Jazz ergueu a cabeça e a luz das lâmpadas refletiram em seu visor prateado. — Foi mal por encarregar a você essa missão, sei que está cansada, não irei te culpar caso queira desistir.
Emy derramou a gasolina dentro da pequena máquina sintetizadora ligada à Jazz pelos diversos tubos, que se certificaria de transformar a gasolina em alimento para ser injetado nas válvulas de energia dele. Como não tinham nenhuma fonte de energon e o amigo Autobot precisava de sustento para continuar funcionando, visto estar perdendo mais e mais quantidades de "sangue" roxo devido as veias danificadas e mal cauterizadas, o jeito era sintetizar gasolina e diesel.
Era uma dose extra de sofrimento, aquilo devia doer e muito.
— Não é isso, é só... — A voz morreu na garganta quando ligou o sintetizador, ao tempo que Jazz franziu o nariz pontudo. — Eu não posso fazer nada para te ajudar, estamos correndo contra o tempo e... e... esse tempo está se esgotando.
— Se encontrarmos Optimus, com certeza encontraremos Ratchet. — Jazz a cortou, ajeitando os tubos em seu peito. — Ou qualquer outro Autobot que poderá me ajudar.
Emy não tinha tanta certeza disso, mas pela falta de escolhas, a esperança era sua única chance. Jasper não tinha muitos habitantes e pela sincronia de modelos de carros, não seria difícil encontrar algo que fugisse ao incomum da pintura amarelada da cidade.
— Por favor, sei que é pedir muito, mas continue a procurar — pediu Jazz, e ele nem precisava, não havia nada nesse mundo que não pudesse correr atrás por ele.
Ela tentaria outra vez.
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