Corações Perdidos
4 04. Mais uma noite, Emma
Notas iniciais
QUANDO FINALMENTE CHEGAMOS naquela floresta, meu celular indicava que já eram mais de dez horas.
Alguns minutos de caminhada e alcançamos Sam e Castiel. Eles estavam discutindo algo em meio ao que parecia ser uma espécie de acampamento improvisado: uma pequena mesa dobrável, algumas latas de refrigerante e pacotes de batata chip espalhados, com dois ou três papéis sobre a mesa.
Sam gesticulava freneticamente e, a julgar por sua expressão, não estava muito contente.
— Temos que continuar a trilha, pelo menos até o pôr-do-sol — ele dizia impacientemente.
Castiel balançou a cabeça negativamente.
— Não, não há nada lá, eu já olhei.
— Temos que ir até lá e ver se você não deixou nada para trás! — insistiu Sam.
— Com todo o respeito, Sam — disse Castiel, calmo —, irei fingir que você não disse isso.
— Do quê estão falando? — perguntei ao me aproximar.
— Emma, Dean — Sam nos cumprimentou com um aceno de cabeça. — Não vi vocês chegarem, oi.
— Oi Sam — fiz o máximo que pude para apresentar um sorriso. — De qual trilha estavam falando?
— Um dos anjos que mantém contato comigo, rastreou o último caso do seu pai — respondeu Castiel, o que fez minha atenção se voltar cem por cento para ele. — Um lobisomem estava atacando os arredores de Denver na semana passada, ele disse que viu um homem que bate com a descrição exata de Adam perseguindo a criatura até um galpão abandonado perto do centro da cidade, então eu fui até o lugar. Tinha sangue por todos os lados, uma verdadeira carnificina — ele fez uma pausa, avaliando minha reação. Então prosseguiu: — Grande parte, a maioria na verdade, é do licantrope. Mas uma quantidade relativa pertence ao seu pai, sem dúvidas, e essa quantidade faz uma trilha quase invisível pela floresta até o pé da montanha — ele apontou para o norte, indicando o pico da principal montanha da floresta. — Eu não entendo porque seu pai, ferido, andaria essa distância toda floresta adentro e depois simplesmente desapareceria, mas...
— Mas...?
— Novos ataques de origem licantropa foram registrados na cidade. — Ele continuou. — Podem ser que pertençam a outro lobisomem, claro. Mas, Emma, saiba que o mais provável é que, você sabe... o mesmo lobisomem de antes...
— Tenha sobrevivido, feito meu pai sangrar até a morte e agora voltou a comer corações humanos — completei, antes de soltar um suspiro entristecido.
— Ou talvez seu pai tenha conseguido escapar e esteja ferido demais para voltar para a cidade — argumentou Dean.
Balancei a cabeça.
— Durante três dias? Ele já teria se curado o suficiente. E por que andaria toda essa distância? Por que não ir a um hospital? — eram tantas as dúvidas que se tornava impossível achar todas as respostas.
— Isso é o que precisamos descobrir. Tentei rastrear seu pai, mas parece que ele está usando proteção ou, no momento, está inalcançável — Castiel disse. Pude reparar na maneira cuidadosa com a qual ele omitiu a hipótese em que meu pai podia estar morto —, o porquê é um mistério. Segui o rastro de sangue até o fim da trilha. Não há nada lá.
— Então, o que faremos? — indagou Sam parecendo emburrado.
— Não é óbvio? — eu o encarei. — Iremos até lá ver se achamos algo. Eu, pelo menos, irei.
Sam olhou para Dean, então para Castiel, o anjo não desgrudava o olhar de mim.
— Já fui até lá, não achei nada — ele afirmou.
— Tem razão. Mas eu talvez ache — rebati. — Quando vamos?
— Pode ser em alguns minutos, talvez horas — respondeu Sam com um sorriso, ele estava, obviamente, feliz por ter sua opinião acatada. — Vamos arrumar mochilas com comida, armas e lanternas, para o caso de não voltarmos até o anoitecer. Cas, você não irá, preciso que continue procurando pistas. Qualquer imprevisto, ligaremos.
Castiel assentiu.
— Claro, ou mandem uma mensagem. Com emoticons.
— Que diferença tem...?
— Nem tenta, você não entenderia — Dean me cortou. — Na verdade, nem eu entendo ainda.
Virei-me na direção de Castiel, mas ele não estava mais ali.
— Seria muito legal poder fazer isso — resmunguei.
— É melhor começarmos a arrumar nossa bagagem agora mesmo — sugeriu Sam. Em questão de segundos, nós três já estávamos arrumando nossas próprias mochilas.
Passados alguns poucos minutos, nós já estávamos todos arrumados e prontos para seguir trilha acima. Em pouco tempo, estávamos os três, seguindo o norte até o pé da montanha.
A floresta era densa, quase impossível de se ver através da folhagem escura; sorte a nossa a trilha ser rasa, com algumas poucas ervas daninhas e flores pelo caminho. Caminhamos durante alguns minutos até que Sam sugeriu uma parada. Tomei apenas um gole de água, incapaz de obrigar algo mais sólido a descer pela garganta, enquanto os meninos optaram por comer um sanduíche e tomar um suco. Esperamos cerca de dez minutos e voltamos a andar.
— Essa trilha é infinita — reclamou Dean em certo ponto.
— Não estamos nem na metade ainda — disse Sam. — Acho que não vamos conseguir chegar antes do anoitecer.
— Acha? — perguntou Dean. — Eu tenho absoluta certeza.
— Se quiserem voltar, fiquem à vontade. Eu vou continuar — declarei.
— É claro que não vamos voltar, coloque isso na cabeça de uma vez — retrucou Dean.
Depois disso, caminhamos em silêncio.
Escutei o tempo todo barulho de galhos se partindo próximo a nós. Na certa, algum animal, talvez um pequeno mico, nos seguindo. Pássaros cruzavam o céu acima de nossas cabeças, cada qual emitindo seu habitual canto. Seria uma tarde até agradável, não fosse o propósito por trás dos últimos raios de sol do dia.
Repentinamente, Sam parou, mudando sua expressão. Dean imitou o irmão. Eles pareciam nervosos, como se espreitassem um ataque surpresa.
— Que foi? — perguntei, enquanto os imitava.
— Nada — Sam franziu a testa, mas voltou a caminhar.
Nunca resolvi caso algum que envolvesse cenários florestais. Mas supunha que, obviamente, existiam monstros nesse tipo de ambiente. Sam diminuiu a marcha, mas eu não. Quando percebi o que estava acontecendo, era tarde demais.
— Cuidado com...
Ele não terminou a frase.
Senti braços agarrarem minha cintura e me puxarem para trás no exato momento em que uma rede foi erguida na minha frente, levando um punhado de folhas e terra consigo. Ela ficou pendurada, lá no alto, balançando, enquanto eu permanecia paralisada.
Encarei a cena, perplexa. Ainda sentia braços em volta de mim, em um aperto firme e — graças a Deus — seguro.
— ... as armadilhas — completou Sam, pálido.
Virei-me para trás, a pessoa que havia me puxado era Dean. Ele me encarava de olhos arregalados, parecendo tão surpreso quanto eu.
— Se machucou? — ele perguntou.
— Estou bem, só um pouco tonta. Ainda estou processando o que acabou de acontecer — respondi rapidamente. — Obrigada.
— Não há de quê.
— É uma armadilha de Wendigo — explicou Sam, recuperando-se do choque. — Temos que ser mais cuidadosos agora. Daqui em diante, eu vou na frente. Dean, quero que proteja a retaguarda. Emma, você caminha entre nós; quase foi capturada há um minuto atrás e não queremos que isso se repita.
Eu o fuzilei com o olhar.
— Eu estava distraída!
— Bem, vamos cuidar para que sua distração não te mate por um triz de novo — replicou Dean.
Percebendo que nenhum dos dois iria ceder, apenas concordei com um aceno e revirei os olhos.
Caminhamos por um bom tempo, sem encontrar nada, exceto por uma ou duas armadilhas; eu estava atenta e desviei com facilidade das mesmas. Quando os primeiros sinais do pôr-do-sol começaram a se mostrar, estávamos um pouco acima da metade do caminho. Paramos mais algumas vezes para descanso e me obriguei a engolir uma maçã.
Tive de reunir bastante força de vontade para não vomitar a fruta de imediato. Desde que meu pai tinha desaparecido, eu não conseguia comer nada. Sobrevivi à base de líquido e a pouca comida que conseguia me obrigar a ingerir, embrulhava meu estômago e, na maioria das vezes, era expelida para fora novamente.
No meio do caminho pisei em algo sobre a lama que afundou sob meu peso fazendo um “sguishhh” bem alto. Me abaixei para ver melhor: um pedaço de pano amarelo, já marrom por causa da sujeira. Levantei o tecido e o balancei no ar.
— Ei, olhem isso! — gritei.
— O que é? — os olhos de Sam se desviaram para trás, curiosos, assim como os de Dean, que espiou atentamente por cima de meu ombro.
— Um pedaço de tecido. Acho que é a manga de uma blusa.
Inspecionei melhor o pano, virando-o em vários ângulos. Percebi que sua borda não estava amarela, nem sequer marrom. Ela era de um tom vermelho-enferrujado.
Sangue.
Estremeci e mostrei-a aos garotos.
— Acha que pertence... você sabe, ao seu pai? — perguntou Dean de maneira cautelosa.
— Não sei, mas Castiel disse que ele seguiu até o pé da montanha sangrando. Talvez tenha deixado sem querer a manga da blusa se prender a um galho — respondi, mas não sabia se acreditava muito no que dizia.
— É provável — respondeu Sam. — E é a melhor pista que conseguimos até agora, se pertencer realmente ao seu pai, isto prova que estamos no caminho certo. Vamos continuar. Me dê o pano, por favor, Emma.
Eu o entreguei a Sam, o coração batendo aceleradamente.
Ele está bem, fique calma, pensei. Você vai encontrá-lo novamente, sã e salvo.
Faltando alguns metros para alcançarmos o fim da trilha, Sam parou.
— Devemos parar por aqui, hora de acampar — disse ele.
— Mas já estamos quase lá! — protestei.
— E quando chegarmos lá, faremos o quê, exatamente? Estamos todos exaustos e não tem o mínimo resquício de luz no céu. Vamos ter que esperar até amanhã de manhã, para irmos inspecionar melhor o local — Sam rebateu.
Encarei os dois. Realmente estava exausta, caminhei o dia todo e quase cai — ou melhor, subi — de cara em uma armadilha. Não sabia se era uma boa ideia ir até lá agora à noite, naquele estado. Ainda assim, a ideia de ter que esperar mais uma noite para continuar... parecia uma verdadeira tortura.
— Talvez seja melhor descansarmos para achar pistas amanhã — respondi relutante.
— É, talvez seja — falou Sam. — Vamos acampar aqui mesmo, eu faço os desenhos de proteção e você ajuda Dean a arrumar as coisas.
— E se insistir em ir até lá e tentar fugir, vamos te amarrar — Dean advertiu. Seu tom não deixava dúvidas de que estava falando a verdade.
Revirei os olhos.
— Certo então, vamos montar essa droga de acampamento logo.
Mais ou menos uma hora depois, tudo já estava pronto. Os garotos ajeitaram três sacos de dormir no chão depois de chutar algumas folhas para fora do caminho. Dean ficou encarregado de buscar lenha para a fogueira (ele havia dito que ali poderia ser muito frio durante a noite), enquanto eu ajudei Sam a acendê-la. Combinamos que os dois se revezariam nos turnos de guarda. Não me deixaram vigiar, diziam o tempo todo que eu tentaria fugir e acabaria presa em uma armadilha, ou em alguma toca de Wendigo.
Por fim, resolvi me deitar. Sam fez o primeiro turno. Fechei os olhos e por um tempo, até que consegui dormir. Quando os abri novamente por conta de alguns pesadelos, não consegui fechá-los mais.
Me sentei bruscamente e vi Dean do outro lado da fogueira, me observando.
— Pesadelos? — ele perguntou, seu corpo tremeluzia por trás do fogo, seu rosto estava calmo.
— Não — menti. — Só não consigo dormir.
Me levantei e sentei-me ao seu lado, sem dizer uma palavra. Curtimos o silêncio e a brisa doce que transpassava as árvores; vez ou outra um esquilo passava correndo pelos galhos.
Dean me ofereceu uma barra de cereal e insistiu diante da minha recusa em aceitá-la.
— Você não comeu nada além de duas maçãs o dia todo, pega.
Peguei a barra e dei uma mordida; chocolate, aveia e banana.
— Obrigada.
— Não foi nada.
— Não, sério. Você tem sido legal ultimamente, do seu jeito, claro. Obrigada — repeti.
Seu rosto brilhava diante das chamas, ele as remexia com um galho torto e parecia imerso em pensamentos.
— Não é nada. Só que, como já conversamos: eu entendo o que está passando.
— Eu sei. É bom que alguém entenda — sorri.
Ficamos em silêncio durante mais alguns minutos, até que eu me manifestei novamente.
— O que você faz?
— Hum? — ele parecia realmente distraído.
— O que você faz, digo, para amenizar a perda? Essa dor e esse vazio que estão sobre você como uma capa de chumbo.
— Eu sinto em te dizer, mas essa capa nunca escorrega dos seus ombros — ele respondeu. — Mas, com o tempo, ela fica mais leve.
— Como?
— Pessoas certas, lugares certos, atitudes nem tão certas assim... É como eu faço.
— Acha que daria certo para mim? — perguntei.
— Eu não tenho como saber. Mas você nunca vai descobrir se não tentar.
— Talvez eu tenha medo de tentar — sussurrei, tão baixo que pensei que ele não tinha escutado.
Dean virou o rosto para mim, seus olhos cor-de-oliva estavam mais brilhantes do que nunca.
— Não é medo, é frustração — explicou. — Você acha que vai dar errado, mesmo que nem tenha tentado. Você sente que há uma chance, mas prefere não ceder a ela.
Dei um meio sorriso, era exatamente o que ele acabara de dizer.
— É. — Concordei.
— Pois aqui vai conselho: deixe-se tentar. — Ele sorriu. — Você tem mais potencial do que imagina, Emma. E aposto que, lá no fundo, sabe disso. Então, por quê não se dar uma chance?
Eu sorri. Dean Winchester me dando conselhos, não conseguia acreditar.
— Quer saber de uma coisa? — bocejei involuntariamente. — Seu falatório sobre atitudes rebeldes, capas de chumbo invisíveis e força de vontade fez meu sono voltar — dei um sorriso de canto.
Ele riu baixinho.
— É melhor ir dormir então, teremos um longo dia pela frente.
Acompanhei seu riso e me inclinei para lhe dar um beijo na bochecha.
— Boa noite, Winchester — disse e fui até meu saco de dormir, me enfiando lá dentro.
Com os olhos semicerrados, vi Dean sorrir de leve enquanto massageava a bochecha. Então os fechei e adormeci. Sem pesadelos, nem sonhos, apenas minha mente em descanso.
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