Corações Feridos

46 Voltando para casa


Julie não sabia o que dizer. Até se engasgou com a resposta dele. Não esperava aquilo, na verdade... Jamais esperou que isso algum dia isso ia acontecer: Levaria um banho de lama e acabaria levando um rapaz para casa. — N-não. Não precisa. — Se levantou, nervosa.

Estava tão nervosa que até se esqueceu de devolver o casaco para Daniel, apenas abraçou seus livros, acenando com a mão para o ônibus que parou um pouco mais a frente. Ela deu uma corridinha. A porta do ônibus se abriu e ela entrou, suspirando aliviada ‘’Não quero me envolver com você... Daniel. ‘’ — Pensou se sentando no fundão do ônibus.

Olhou para a calçada e viu o rapaz parado, a olhando também. Suas bochechas coraram, se soubesse que Daniel a fitava antes, teria disfarçado.

O ônibus começou a andar, até que o rapaz dos cachos cortou o olhar.

Deu uma corridinha, batendo no ônibus. — Espera! — Gritou. ‘’ Mas o que ele vai fazer? ‘’ — Julie se perguntava.

Até que o motorista parou no sinal vermelho, Daniel aproveitou e conseguiu entrar. Enquanto passava pela roleta, não tirava os olhos da garota.

Ela abaixou a cabeça. Tímida.

Daniel se sentou ao seu lado. — O que está fazendo aqui? — Murmurou.

– E-eu... Pego esse ônibus.

Julie sorriu fracamente, balançou a cabeça. — Não é verdade.

– Claro que é. E-eu... Pego esse ônibus.

– E você vai para onde?

– P-para a minha casa. Que idéia. — Ela revirou os olhos com a resposta.

Olhou para a janela e viu que a chuva começou a cair.

Suspirou. Viu no seu relógio de pulso que já era quase oito horas da noite. E o horário que chegava em casa era sempre dez pras sete. Sempre. — Eu não queria nada disso... — Sussurrou, ainda olhando para a janela, via as gotas grossas de chuva caírem do céu. — Eu planejava um dia especial. Café da manhã, banho, arrumar a casa... Ir para o colégio e depois visitar o meu pai.

– Você planeja muitas coisas.

– O que? — Se virou para ele. — Estava ouvindo? — Corou.

– É. Estava. E... Se isso te deixa melhor, eu também não estava pensando em passar o dia assim. Perdi uma prova que estudei muito. Precisei carregar a Thalita o tempo todo no recreio... Por causa da mordida que você deu na perna dela.

– Não foi tão forte assim. — Cruzou os braços.

– Eu sei. Eu vi. Mas a Thalita é... Muito fresca. — Pausou. — Ela insistiu para que eu a carregasse o tempo todo hoje, até me cansei. E o pessoal do colégio ficou reparando na gente. — Coçou a nuca. — Fiquei até com vergonha de ser o centro das atenções hoje.

– Já eu me acostumei com os comentários no colégio. Estão sempre sussurrando sobre mim... — Pausou. — Desde a primeira semana de aula eu sofro bullying. Só porque sou... Reservada de mais. E tudo por causa da Thalita, ela começou com o papo de eu ser ‘’estranha’’ e como ela é popular, todos passaram a pensar assim de mim.

– …

Ela se virou para Daniel, o viu sério. — D-desculpa. Eu devia parar de falar mal da sua namorada. Estou com medo de você torcer meu braço até quebrar... — Virou o rosto para a janela, observando a estrada.

Sentiu Daniel pegar sua mão, ela se soltou bruscamente, o olhava assustada. Ele percebeu e sussurrou — Calma.

– Pensei que ia... Me machucar. — Viu que ele ainda a encarava, a encarava profundamente, bem no fundo dos seus olhos. — P-ara. — Estava vermelha. — Para de me olhar assim, e-estou com o rosto todo sujo. — ‘’ Estou bem do seu lado e logo hoje estou toda cheia de terra... ‘’ Pegou o estojo, abriu e tirou um espelho pequeno.

Se viu ali.

Estava mais suja do que imaginava. Sua testa estava completamente marrom, a bochecha também, mas já estava seca, só não tinha lama no nariz e no queixo. Ela acabou rindo da situação, agora um pouco mais calma. — Até que estou engraçada. — Comentou.

Se olharam e Daniel sorriu também. — É tão estranho...

Ela desfez o sorriso. — Eu?

– Não! É que... Se fosse a Thalita com o rosto cheio de lama não ia reagir assim, como você.

– Ela ia surtar. — Julie completou e ele balançou a cabeça, concordando.

Seus olhares estavam cada vez mais frequente. As vezes só se encaravam, não pensavam, não agiam, não falavam nada... Só se olhavam.

Daniel começou a perceber que seu olhar para ela era um olhar de... Desejo.

Suspirou. Ainda se fitavam. Levantou sua mão e hesitantemente, aproximou do rosto dela. Tirou uma madeixa de cabelo que estava solta e tampando seu olho esquerdo. Colocou atrás da orelha dela e aproveitou para pousar a mão no seu rosto. Julie segurou a mão dele. Incrível era como os olhos dos dois nem piscavam. Estavam ‘’concentrados’’ um no outro.

Juliana sentiu uma fraca dor na cabeça, talvez por causa do vento frio que entrava pela janela do ônibus, fechou os olhos involuntariamente. Aquele vento frio também a relaxava. Além de sentir a mão de Daniel massagear seu rosto. Ficou de olhos fechados por longos segundos. Não percebia que a respiração dele estava cada vez mais perto da sua... Mais perto... E mais perto...

Até que o ônibus acelerou e passou pelo quebra-molas. Os dois pularam no banco, principalmente Julie, que estava sentada no fundão, bem em cima da roda. Ela abriu os olhos e deu um grito, apertando com força o braço de Daniel, que já tinha se afastado. — Que susto!

– P-percebi...

Ela soltou seu braço, os dois viram que ficou com a marca dos dedos dela. — Desculpa. — Ele assentiu com a cabeça. — É que eu tenho nervoso de ônibus. Principalmente quando eles... Aceleram e a gente pula do banco. — Respirou fundo. Viu que uma página solta do seu livro acabou caindo no chão do ônibus. Ela pisou com o pé para que a página não voasse pra longe. — Aqui. — Colocou os livros, caderno, estojo e seu celular no colo do rapaz e se agachou, Daniel segurou sua mão para que ela não perdesse o equilíbrio.

Pegou a página. E quando se sentou. — Ei! — Viu que Daniel mexia nos seus cadernos. — N-não! — Tentou pegar, um pouco nervosa.

Ele acabou encontrando uma agenda, estava muito bem organizada e isso lhe chamou a atenção. — N-não abre isso! — Não adiantou, Daniel abriu e começou a ler. Tinha anotações desde janeiro desse ano. Não eram anotações ‘’comuns’’... Era como uma rotina. — Dia 22 de janeiro. — Lia sorrindo, enquanto as bochechas da garota coravam. — Ir na casa da Débora, ir para a praia, ir ao cinema... — Olhou para ela. — Parece que suas férias foram boas, não é?

– Tá. Me devolve. — Tentou pegar.

Mas Daniel foi virando as outras páginas. A cada dia tinha uma tarefa. No inicio, ele até achou uma boa ideia... Anotar as coisas que ia fazer durante o dia... Talvez para economizar tempo, mas ai ele continuou passando páginas por páginas, até chegar no final do ano... — Ver as notas do último bimestre, voltar para casa, fazer o arroz... — Ele franziu a testa. — Você anotou tudo o que vai fazer durante esses 365 dias?

– É. Anotei. — Pegou das suas mãos. — Mas parece que hoje as coisas não saíram como eu planejei. Preciso refazer isso mais tarde...

– Sabia que isso é errado? Não pode... Controlar seus passos. Precisa ser livre para fazer o que quiser.

– Mas o que eu quero fazer está tudo anotado aqui. — Balançou a agenda.

– Eu não estava errado. — Daniel balançou a cabeça. — Você é bem diferente...

Ela olhou para a janela, já reconhecia as ruas. Estava perto da sua casa. — Eu desço no próximo ponto. — Disse se levantando.

Se olharam de novo.

– Obrigada. — Foi só o que conseguiu dizer, antes de pegar suas coisas. Olhou mais uma vez para a janela, viu que a chuva ainda não tinha parado. ‘’Esqueci o guarda-chuva.’’ — Suspirou com os pensamentos e caminhou até a porta do ônibus.

Fez sinal para o motorista, que parou na próxima esquina. Ela virou o rosto antes de descer, deu um sorrisinho fraco e tímido para Daniel, que retribuiu. A porta do ônibus foi se abrindo. Logo uma ventania entrou no ônibus, ia direto para a garota, fazendo seus cabelos ‘’ganhar vida’’.

Ela desceu. E a chuva continuou, deixando a lama escorrer pelo seu rosto e corpo. Passou a mão pelo rosto, tirando o excesso de terra. Olhou para frente e respirou fundo. — Eu te levo até em casa. — Uma voz quente soprou nos seus ouvidos.

Julie se virou e viu Daniel ao seu lado, se preparando para abrir o guarda-chuva. Era pequeno, então ele a abraçou, passando seu braço por cima do ombro da garota. — Está tremendo. — Disse.

Ela assentiu, dando um sorrisinho envergonhado. O abraçou também. — Tem certeza que é por aqui que mora? Nunca te vi...

– É, eu moro um pouco mais para lá. E eu acho que já te vi uma vez no ônibus.

– Ah, que coincidência. Sempre andamos no mesmo ônibus, mas nunca falamos um com o out-- Um ‘bip’ atrapalhou a conversa.

Ambos sabiam que vinha do celular do Daniel. — Vamos parar aqui, preciso ver o que é... — Subiram a calçada. Ele pegou o celular enquanto a morena segurava o guarda-chuvas.

Julie se esquivou para ler também, deixando seus rostos próximos.

Amor, venha logo para casa. Estou te esperando. – Era um SMS.

E os dois sabiam que era da Thalita.

Juliana se sentiu triste com aquela mensagem, no fundo, gostava dele. — Acho melhor você ir. Não quero te atrasar.

– N-não. — Guardou o celular. — Ela pode esperar mais um pouco. — Sussurrou, estava chateado com a Thalita. Há quase oito meses ela mexia com a irmã dele, e agora... Era com a Julie, hoje foi a gota d’água para Daniel. — Eu vou te levar até em casa.

Voltaram a caminhar. Ainda abraçados, assim se aqueciam do frio e das gotas grossas e geladas que caiam do céu.

Mas Julie sentiu um peso na consciência. Lembrou da ameaça que Thalita fez para ela hoje. Que ela não deveria andar com o Daniel...

No fundo, Julie sabia que Thalita estava certa. Se apaixonou por um rapaz que mau conhece, que tem namorada e que jamais vai retribuir seu sentimento. Ela levantou o rosto para encarar, timidamente, Daniel. Ele não percebeu, pois olhava apenas para frente. Julie suspirou, balançando seus ombros, ele entendeu e então retirou seu braço de cima deles. — O que foi?

– N-nada. Só acho que você não deveria me abraçar... Assim... — Respondeu corando. — A Thalita não vai gostar.

– …

– M-mas... Agora estou com frio. — Admitiu, abraçando seu braço.

Ele sorriu de lado. Segurou sua mão.

Os dois pensaram em entrelaçar seus dedos e foi o que Daniel fez.

Ele lembrou da vez que pensou em beija-lá no ônibus, era loucura sim, mas era o que queria fazer desde que se sentou ao lado dela no ponto e os dois começaram a conversar. ‘’ Pena que ela nem desconfiou que eu ia beija-lá... ‘’ — Se virou para ela.

Qualquer um notaria que Juliana era tímida. Daniel já tinha uma leve noção disso... Então pensou em puxar assunto. — Sabe. — Pegou seu celular do bolso, mexia nele com a mão esquerda. Já que com a outra, segurava a mão de Julie. — A minha irmã te encontrou no facebook ontem... P-posso te adicionar?

‘’ Você me escutou, não é? Se caso o Daniel venha te pedir amizade pelo facebook... Recuse. ‘’ — Esse foi o pensamento que lhe veio a mente, eram as palavras de Thalita. Até pensou na voz e na expressão raivosa da loira para ela.

– Você? Me adicionar?

– É. — Disse mexendo no celular, não reparou que Julie estava um pouco tensa. — Já até te mandei o convite, só falta você aceitar.

– A-ah. — Sorriu. — Mas... E a Thalita?

– O que tem ela? — Perguntou confuso.

– Ela não gosta de mim. Se ela me ver no seu facebook... N-não sei...

– Ela tem vários caras no perfil dela também, no inicio eu até me importava. Morria de ciúmes. — Ela abaixou a cabeça com aquelas palavras. — Mas agora... — Balançou os ombros. — Nem ligo mais. — Guardou o celular, olhou para Julie. — Se ela não gostar, que me processe.

– Hm. Tá bom. — Sorriu.

– Que sorriso mais lindo.

Julie corou. — O-olha, aqui é a minha casa. — Caminhou um pouco mais.

Até que os dois pararam na frente da casa de Julie, era grande, dois andares. Tinha um portãozinho pequeno na frente e atrás do portão vinha o quintal, era um gramado com um jardim no canto direito. Tinha garagem e uma edicula nos fundos. Ela tentou abrir o portão mais estava trancado. ‘’ Vou ter que chamar a minha mãe para destrancar isso... ‘’ — Pensou um pouco nervosa. — Mãe! — Gritou, batendo algumas palmas.

Logo as luzes do quintal se acenderam. Daniel notou uma ferradura na porta de entrada.

– Filha? — Sua mãe abriu a porta. — Meu Deus mas o que aconteceu com você! Está toda suja! — Gritou, correndo pelo quintal. Notou Daniel. — E você? Quem é?

– Mamãe. — Julie a repreendeu. — Pode abrir o portão para nós?

Heloísa assentiu, pegou as chaves. — Venha, entre... — Julie pediu e Daniel também entrou. Sua mãe notou as mãos dos dois juntas, até percebeu que seus dedos estavam entrelaçados, sorriu em pensamentos.

– Mãe, esse é o Daniel.

Ele sorriu, simpático, estendeu a mão. — Prazer.

Ela olhava desconfiada para ele. Antes de apertar sua mão, perguntou. — Você usa álcool em gel, não usa?

Julie riu de nervoso. — Sabe. Acho que ele merece um beijo por ter me levado até em casa... — Ela aproximou seus lábios do rosto de Daniel, porém, ele virou lentamente o rosto e o beijo quase se tornou um selinho.

Ela beijou o canto dos seus lábios e aproveitou para sussurrar. ‘’ Diz que sim. ‘’

Se entreolharam antes. — Rapaz? — Heloísa ainda esperava a resposta.

– A-ah, sim. Claro, e-eu uso... Esse álcool ai.

– Oh, então muito prazer! Querido! — Por fim apertou a mão dele. — Quer ficar para comer alguma coisa? — Sorriu.

Julie e Daniel se olharam novamente depois do convite. Sua vontade era de aceitar. Queria passar o restante da noite com ela. — Não, obrigado. Tenho um outro compromisso. — Lembrou de Thalita.

– É, ele não pode se atrasar, mãe. — Julie também lembrou.

– Tudo bem então, deixa para uma próxima. E você moça, lave os pés antes de entrar em casa.

Heloísa entrou, fechando a porta da sala. Foi até a janela e tentou espiar os dois.

Ele a puxou, ainda segurando sua mão. Foram para o lado de fora. — Eu admito que foi muito gentil da sua parte me levar até em casa.

– Não sou tão ruim assim, não é?

Ela riu fracamente. — É. — Pausou. — Obrigada, Daniel. — Foi retirando o casaco dele, aproveitou que a chuva estava perdendo as forças.

– Não. Fique com ele, por enquanto.

– M-mas é seu...

– Eu sei, só que eu... — Não queria contar isso para Julie. — Eu devo passar a noite na casa da Thalita, se ela ver o casaco sujo vai achar que você tem algo a ver com isso e eu pretendo esconder isso dela.

– Tá bom. — Deu um sorriso sem graça. — Thalita — Sussurrou.

– Estou com raiva dela. — Admitiu, encarando a morena de olhos arregalados. Tocou no seu rosto. — Ela não devia ter feito isso com você. Ela já implicou com muitos amigos e amigas minhas. Mas dessa vez ela passou de todos os limites. — Balançou a cabeça. Agora a observando.

Julie segurou sua nuca, com cuidado para não suja-lo de lama. Ficaram encarando um ao outro por um tempo... Até que ouviram mais uma vez o som do bip do celular do Daniel. — Deve ser a Thalita. Eu... Já vou.

– Claro. — Soltou sua nuca e ele soltou o rosto da garota.

Ela caminhou e entrou para o quintal.

Já Daniel, deu meia volta, atravessou a rua, tentando lembrar o trajeto que fez com Julie. Pegou seu celular e leu a nova mensagem.

Daniel me responde! Venha logo para cá! Estou toda linda, só para você s2 ‘

Suspirou, passando pelas ruas. Não sabia direito que ônibus pegar para chegar na casa de Thalita, na verdade, o que ele queria era voltar para casa.

E não. Ele não pegava o mesmo ônibus que Juliana.


Notas finais
O Daniel não faria tudo isso pela Julie se não estivesse apaixonado por ela. rs '
E ai, curtiram? O próximo vai ser bem legal então... Comentem! Leitoras fantasmas, comentem também!