Corações Feridos

84 Túnel do tempo


Notas iniciais
Demorei três dias para fazer esse capitulo. HAHA. Desculpem a demora, mas acho que o tamanho do capitulo compensou. Mais de 7 mil palavras, eu realmente não esperava! Mas vamos lá né, espero que gostem! Responderei os reviews mais tarde e adiantando aqui que amei todos e todos me inspiraram muito para escrever. (Sim, estava completamente desanimada)

Eles ficaram abraçados e se esqueceram por quanto tempo estavam assim. Julie não queria solta-lo de maneira alguma, ela não conseguia mais prender as lágrimas, se sentia muito triste e Daniel sabia disso. Ele levantou sua mão e começou a carinhar seus cabelos pretos e escorridos. Ela fechou os olhos fazendo com que mais lágrimas caíssem. Molhando o pescoço do rapaz. — Assim não dá… — Ela disse com a voz falhada. — Eu quero ficar com o meu pai. — Acabou se soltando do abraço e ele segurou novamente seu rosto, secando as novas lágrimas. — A única maneira de ficar com ele é ir morar nos Estados Unidos. — Levantou o rosto para Daniel. — Sozinha.

Algo dentro do rapaz queria gritar para que ela esquecesse essa ideia. — E porque não vai com ele? — Mas Daniel agiu ao contrário, queria incentiva-la.

Ela abaixou a cabeça e torceu o canto da boca, sabia que se fosse com seu pai deixaria sua mãe e seus amigos, até mesmo o bebê...E teria que contar toda a verdade para o Daniel, afinal, ele certamente iria estranhar a decisão dela de deixar o filho no Brasil. Ela não o respondeu, apenas pediu. — Me deixa um pouco sozinha.

Daniel assentiu e se levantou do colchão, fechou a porta e deixou ela deitada ali.

Ele foi para a sala, já que a essa altura não estava com vontade de ficar no terraço curtindo um churrasco. Se sentou no sofá, pegou o controle para ligar a TV, mas sua atenção se voltou para a porta da varanda que estava aberta. Ele viu Aline e Raul conversando. Fechou os olhos, seu coração doía com aquela cena. Jamais imaginou os dois juntos, isso nunca passou pela sua cabeça. ‘’ Julie estava certa… Ela é mesmo uma interesseira. Só deve estar com o pai da Juh porque ele tem dinheiro… ‘’ Pensava mais do que angustiado. Porém, se sentia mais triste com a situação de Juliana do que com o seu próprio problema. Ele não conseguia entender a tristeza que por ela, logo ela. ‘’ Essa garota irritante… ‘’ O que mais o irritava era que tentava de tudo para não sentir pena de Julie, mas acabava sentindo. Era algo puro, ele queria continuar naquele abraço o resto do dia, ou o tempo que fosse preciso para conforta-la. Ele percebeu o quanto ela amava seu pai, e saber que ele ficaria longe era horrível para ela...

Quando se deu conta, Raul passava pela sala. Daniel se levantou. — S-sen-hor. — Disse um pouco hesitante. Estava com raiva dele por ele estar com a mulher que Daniel se apaixonou. Mas sentia mais raiva ainda por saber a injustiça que ele fazia com a Julie.

Raul parou e o olhou sério, ele sempre fora assim com Daniel. — Diga.

- S-senh-or, eu… Conversei com a Julie. — Pausou. — Ela me explicou que o senhor vai morar em outro país e vai deixar ela aqui.

- Não é exatamente assim. — O cortou. — Se ela arrumar dinheiro o suficiente em uma semana, ela pode viajar comigo.

- Então se ela quiser ela pode ir mesmo? — Se sentiu um pouco chateado por ter dado incentivo. Afinal, ela poderia mesmo acabar indo viajar. — Mesmo assim, isso não é justo. O senhor é o pai dela, sempre será, e… O senhor deveria ficar aqui. Como um bom pai. Junto com a família dela.

- É? E onde está o seu? — Cruzou os braços.

- Meu pai? — Ele sussurrou perguntando a si mesmo. — Meu pai…

- A Julie está no terraço? — Raul interrompeu seus pensamentos de propósito, ele sabia que Daniel estava com amnésia e não podia forçar a memória.

- Não. Ela está deitada no quarto.

- Hmm. — Suspirou. — Seja um bom rapaz e fique com ela, diga que vou passar uma semana inteira aqui e não quero ver ela de cara feia. — Deu umas batidas no ombro de Daniel. Ele aceitou balançando a cabeça, mas olhava torto para seu ‘’sogro’’ sem esquecer a história sobre a Aline.

Ele deu uma olhada para o controle remoto sobre a mesinha, pensou um pouco, mas chegou a conclusão de que Juliana era mais importante do que os filmes. Daniel subiu as escadas depois que seu sogro desapareceu da sua frente. Ele ia fazer conforme foi mandado: Ficar com ela.

Abriu a porta do quarto. — Julie? — Sussurrou delicadamente depois de olhar para a moça que estava deitada encolhida no colchão, seus olhos estavam fechados, a respiração fraca, mas seu rostinho estava triste. Qualquer um conseguia notar, mesmo ela dormindo.

Daniel caminhou até o armário, onde pegou um coberta. Ele a cobriu delicadamente. Com todo o cuidado para não acorda-la. Ficou parado ali, sério, olhando para ela por alguns segundos, até que se sentou ao seu lado, aproveitando que havia um espaço no colchão.

Hesitou um pouco, mas tocou nos seus cabelos. Acabou percebendo que adorava tocar nos cabelos de Julie.

Ela sentiu o toque carinhoso e mesmo dormindo. Sorriu.

Daniel viu o sorrisinho que se formou nos lábios da morena, acabou descobrindo outra coisa.

Achava seu sorriso lindo.

‘’ Preciso descobrir mais coisas… ‘’ — Pensava enquanto olhava para ela. — ‘’ Parece que eu gosto dos seus mínimos detalhes. ‘’ — Lembrou da maciez do seu cabelo e seu largo sorriso quando estava feliz. ‘’ Será que gosto de mais alguma coisa? ‘’ — Olhava para ela, sentia que faltava algo ali.

Mas ele não descobriu que o que faltava era ver os olhos redondos e amendoados de Julie abertos. Ele ainda não sabia, mas seu olhar o enfeitiçava, o deixava hipnotizado.

[...]

Julie foi abrindo os olhos aos poucos, estava com a visão embaçada e precisou piscar algumas vezes para normalizar. Sentiu algo tocando na sua cabeça e amaciando seus cabelos. Levantou sua cabeça e viu que aquilo parou. Virou seu rosto.

Achou Daniel ali. — Por quanto tempo dormi? — Perguntou confusa.

O loiro olhava dentro de seus olhos, mas Julie só foi reparar depois de alguns segundos de silêncio. — Daniel! — Ele deu um pulinho, ainda sentado. — Estou falando com você?

- Ah… Duas horas.

- São duas horas?

- Não, faz duas horas que dormiu. — ‘’Faz duas horas que estou aqui, tocando nos seus cabelos.’’

- Nossa… — Passou a mão pelo corpo. Coçou o olho. — Onde estão todo mundo?

- Já foram. Menos o seu pai. — Explicou. — Ele vai passar uma semana aqui.

- Meu pai… — Lembrou da conversa que eles tiveram antes de pegar no sono. — Ele vai embora…. — Sentiu uma vontade de chorar.

- Como vamos fazer essa semana?

Ela levantou a cabeça sem entender a pergunta do rapaz. — Ele vai ficar aqui por uma semana, vamos fingir esse tempo todo?

Suspirou. — E mais isso… — Bufou e revirou os olhos. — Vai ser um castigo para mim.

- É? — Ele se levantou, se afastando. — Para mim será uma verdadeira tortura. — Ela abaixou a cabeça com as palavras tão frias. — Mesmo assim, precisamos arrumar um plano. — Pausou, pensativo. — Eu ainda não entendo porque seu pai não pode saber que não estamos juntos.

- É uma história um pouco longa. — Pausou. — Vou fazer um resumo… Você e ele nunca se deram muito bem, quando você foi pedir permissão para ser meu namorado ele quase não deixou e você guardou magoa disso, ele também não foi com a sua cara, ainda mais porque no dia… — Sorriu fracamente. — Me lembrou muito bem…Você usava uma camisa de uma banda de rock, foi a primeira coisa que ele notou ao te ver. Minha mãe estava por perto, então conseguiu convencer ele de te aceitar. Passaram alguns anos, acho que um ano e meio, vocês dois ainda não se bicavam muito bem. E nós dois estávamos na minha casa, tínhamos acabado de nos reconciliar. Assistíamos um filme de romance juntos quando começamos a… — Corou. — Nos beijar muito. E você… Bem… — Ficou ainda mais nervosa ao ver que Daniel ouvia tudo com atenção. — Você… Ficou por cima de mim. — Pausou. — Meu pai chegou e viu aquilo. E nossa, ele surtou! Minha mãe não estava por perto e quando isso acontece, ele nunca respira fundo para se acalmar. Ai ele proibiu o nosso relacionamento. Ele disse que se você me amasse mesmo, deveria me deixar em paz, para o meu bem. — Abaixou a cabeça. — Eu não pensei que você ia topar. Mas acabou topando e me deixou em paz, até parou de ir para a escola por um tempo. E eu já não aguentava mais ficar separada de você, ai eu peguei minhas coisas e fugi. Fiquei com você por um dia. Então depois de uma dia, meus pais chegaram lá no seu apartamento, meu pai estava possesso e ele achou que você tinha me sequestrado. Eu lembro, minha mãe me abraçou e vocês dois começaram a brigar. Ele te bateu, chamou a policia, você foi pro hospital. — Via que Daniel estava surpreso com essa história toda. — Em fim, ele sempre achou que você era um enganador, que não me amava, até que nos casamos e ele percebeu que estava errado. E ficou muito triste quando viu que eu. — Bateu no próprio peito. — Eu me separei de você, entende? Eu te maguei, não o contrário, como ele sempre achou. Então precisamos fingir que estamos juntos só para ele não ficar com a consciência pesada por ter te julgado esse tempo todo.

Ela sorria fracamente, mas Daniel estava sério, paralizado. Ainda assimilava as palavras de Julie na sua mente. — Daniel? — Ela o chamou.

- N-nós… Passamos por isso tudo mesmo?

- É, passamos por muitas coisas. Você não tem noção. — Lembrou da Thalita, do Nicolas…

- O nosso amor era mesmo verdadeiro?

Ela nunca tinha parado para se fazer essa pergunta. Julie abaixou a cabeça, pensou um pouco enquanto estalava seus próprios dedos, tímida com a pergunta dele. — Acho que no final, não. Porque amor verdadeiro nunca acaba e o nosso acabou.

- Então não existe amor verdadeiro, porque o amor sempre acaba. — Pausou. — Não vê seu pai e sua mãe? eu e você?

- A única história de amor verdadeiro que eu conheço… É da Bia e do Félix. — Se levantou e viu as horas. — Nossa, já são quase sete horas. Eu vou descer… — Julie passou por ele, sem perceber que Daniel não tirava os olhos dela.

Ela desceu as escadas, foi para a cozinha e encontrou seu pai segurando Bryan. Ele estava em pé, perto da pia enquanto o bebê estava sobre a mesma. — Oi pai. — Julie disse um pouco triste.

- Oi, filha. — Ainda brincava com Bryan, só ai Julie foi perceber. — Porque está com o filho da Bia?

Tinha se esquecido desse detalhe. — A-ah,.. é… — Seu pai sorriu, todos gostavam de ver Julie embolada, inclusive ele. — Ela… Me pediu para cuidar dele! Ela está trabalhando fora e o Félix também, então eu fico com o bebê. — Sorriu forçado.

- Oh, claro, entendi. — Seu pai já sabia que ela estava usando o bebê para fingir ser filho do Daniel, tudo por causa da foto do verdadeiro filho deles, que estava em cima da mesinha do hospital e Daniel acabou vendo. — Eu vou arrumar minhas coisas no quarto de hóspedes. Vou dormir cedo, não quero atrapalhar vocês, e teremos uma visita pela manhã.

- Atrapalhar? — Estranhou. — Atrapalhar o que? — Seu pai olhou para ela, foi ai que Julie foi entendendo. — Ahhh, eu e… Ele?

- É, você e o seu marido.

Corou, completamente envergonhada. — Sabe pai, é que eu passo a noite cuidando do bebê. Eu acabo dormindo na sala! Que coisa, né?

- Entendo… — Assentiu, Julie respirou aliviada. — Mas vi no jornal que vai fazer frio de madrugada. — Ele sabia que Juliana detestava sentir frio. — Não vai querer dormir na sala, não é?

[...]

- O que está fazendo? — Daniel pergunta enquanto segurava o bebê.

Julie enxia um colchão de ar. — Você vai dormir aqui, eu fico com a cama.

- Nem pensar! — Ele se levantou, ficou tão irritado que nem percebeu que Bryan babava na sua roupa. — Eu não vou dormir nessa porcaria.

- Deixa de ser fresco! — Revidou.

- Eu vou dormir no colchão e fim de papo!

- Eu vou dormir no colchão!

- Qual é o problema de dormirmos juntos?! Já fizemos isso.

- É, tem razão. — Ela sorriu, parecia bem mais doce. — SÓ QUE O PROBLEMA FOI QUE TODAS AS VEZES EU JÁ ESTAVA DORMINDO E VOCÊ NÃO TEVE A CAPACIDADE DE ME LEVAR PRA SALA OU DORMIR EM OUTRO LUGAR!

- Quer parar de gritar?! Está assustando o bebê e seu pai pode te ouvir!

Ela suspirou. — Esquece, tá? Eu vou dormir na sala. — Foi até o armário, pegou três cobertores e dois travesseiros.

Daniel se aproximou e tocou no seu ombro. — Me deixa! — Ela rosnou, passando por ele enquanto arrastava as cobertas pelo chão. Desceu as escadas com cuidado para não pisar nas cobertas e tropeçar. Era quase dez horas da noite, seu pai já estava dormindo no quarto de hóspedes, Julie sempre teve medo daquele quarto. Afinal, diziam que na rua de trás desse quarto era um cemitério nos anos sessenta.

Mais uma vez ela estava ali, deitada naquele sofá confortável, porém, não se comparava ao colchão macio do seu quarto. Estava cansada pelo longo dia que passou e acabou pegando no sono.

Daniel olhava para o teto do quarto. Sentia frio só de imaginar que o ar condicionado da sala estava sempre ligado e Julie tinha medo de mexer. Ele lembrou de quando ficou com Juliana no quarto hoje, a vendo dormir. Notou pequenas coisas que gostava nela, e isso já foi o suficiente para ele se sentir estranho… Diferente. Pensava nela sem perceber. Mas fechou os olhos e deitou de bruço, acabou dormindo por algumas horas.

Só acordou com o chorinho fraco do bebê. Ele resmungou algo e se levantou, foi até o berço. Olhou para seu ‘’filho’’ com uma expressão de sono. Não precisou fazer muita coisa para cessar o choro, apenas mudou Bryan de posição e o choro acabou. Sentiu sua garganta seca, achou melhor descer para beber um pouco de água.

Assim que chegou na sala foi obrigado a cruzar os braços, sentia muito frio. — Nossa… — Acabou esbarrando no sofá. Fez uma careta de dor, esbarrou logo com a perna que ainda estava um pouco machucada. — Droga… — Reclamou baixinho, não queria acordar Juliana.

Levantou seu rosto e olhou para ela, ela estava completamente coberta, mas seus lábios estavam trêmulos. Mesmo com tantos cobertores, Juliana ainda sentia frio.

Nesse momento ele até se esqueceu de tomar água, sentia uma necessidade grande de protege-la do frio. — Julie. — Ele a balançou levemente. Mas ela nem se quer se mexeu. — Julie. — Tocou no seu rosto. — Meu Deus! — Exclamou, seu rosto estava gelado.

Ele a envolveu pela cintura. Mesmo com a dor na perna, Daniel fez um certo esforço e conseguiu ergue-la, junto com as três cobertas.

A levou até a cama. O quarto estava mais quentinho. Ele a ajeitou no colchão. A cobriu melhor.

Pensou em dar um beijo na sua testa, mas acabou desistindo. Daniel pegou seu travesseiro e suas coisas, foi dormir no colchão de ar.

Acordou sentindo um vento frio mas ao mesmo tempo algumas luzes de Sol sobre seu rosto, Daniel abriu os olhos aos poucos, se contorceu, sentia uma dor terrível na coluna pois aquele colchão de ar não era muito confortável. Depois de se alongar ele se levantou. Viu que Julie continuava dormindo. Se aproximou do colchão.

Tocou no seu rosto, estava um pouco quente. Parecia ser febre… ‘’ Para quê vou me importar com ela se ela nem liga para mim? ‘’ — Pensou e virou o rosto, foi trocar de roupa e fazer sua higiene matinal.

Desceu as escadas.

Acabou tendo uma surpresa. Lá estava a mulher por quem se apaixonou. Ela estava sentada no sofá, ao lado de Raul, os dois assistiam um programa na TV e não notaram Daniel ali. Seu coração disparou, ele sentiu uma tristeza no peito por saber que jamais a teria com ele.

Lentamente se virou, ia subir as escadas e voltar para o quarto, ficar lá trancado a manhã inteira. — Daniel. — Ouviu a voz do pai da Julie. O loiro fechou os olhos com força, não tinha como ‘’escapar’’.

Educadamente se virou, desceu as escadas. Tentava não olhar para Aline, mas foi em vão.

- Bom dia. — Pregou um sorriso no rosto, parecia dar bom dia apenas para a moça, pois ele não conseguia deixar de olhar para ela.

- Bom dia. — Ela também foi a única que respondeu.

- Onde está a Julie? — Raul perguntou.

- Ela ainda está dormindo. — Apontou para o quarto.

- Poxa, eu disse para ela que teríamos uma visita hoje. — Ele pausou sorrindo. — Querida, desculpe minha filha, não foi desfeita dela… — Ele dizia enquanto Aline balançava a cabeça. — Deixe-me te apresentar. — Raul se levantou. — Esse é o Daniel, meu genro. — Continuou sorrindo.

Aline estranhou aquilo. — Genro? Não sabia que a sua filha já era casada.

- Ah, é sim! — Ele exclamou feliz. — Eles se separaram, mas voltaram de novo, sempre se amaram muito. — Aline olhou para o rapaz confusa enquanto Daniel balançava a cabeça negando delicadamente para que Raul não percebesse.

Ele continuou olhando para Aline por alguns segundos, mas desviou o olhar assim que viu Aline segurar a mão do seu ‘’sogro’’ e entrelaçar seus dedos. Ele abaixou a cabeça e pediu licença para Raul.

Foi até a cozinha, já não estava mais com fome para fazer o café da manhã. Ele se aproximou da pia, se apoiou na mesma, olhando para a janela e observando as nuvens branquinhas e o céu azul.

Lembrou de ontem, mesmo se divertindo com a ‘’família’’, jogando totó, assistindo filme e comendo churrasco. Foi o pior dia da sua vida:

- Aline. Eu… G-gosto muito de você. — Balançou a cabeça.

A loira sorriu. — Que gentil da sua parte. Também gosto de você, Daniel.

– Não. — Pausou. — Não é esse tipo de gostar. Não é um simples gostar. — Ela ficou calada, começava a entender. — Desde que te vi e conversamos, eu me sinto diferente. Você é tão distinta da Julie.

– Porque sempre envolve a Julie na nossas conversas?

– Esqueça a Julie. — Ele segurou o seu ombro. — Eu estou apaixonado por você. — A loira arregalou os olhos com a declaração. Tentou se soltar mas não conseguia. Daniel a segurava firme, sem nem mesmo perceber. — Eu gosto de você. Eu quero ficar com você. Pelo resto da minha vida.

– Você pode ter outra pessoa, já parou para pensar? Não pode tomar essas decisões. Perdeu a memória.

– Não significa que eu esteja privado de tudo! — Alisava seu rosto. — Mesmo com amnésia, eu posso te amar de todas as maneiras possíveis!

– Está louco? Me conheceu a tão pouco tempo e já está apaixonado por mim?

– Nunca ouviu falar em amor a primeira vista?

Respirou fundo. — Sua mente está te enganando… Você está jogando o amor que sente por outra pessoa em cima de mim, é isso que está acontecendo.

– Eu não estou. Não estou… Eu gosto mesmo de você, eu gosto muito… Muito…

– Daniel… — Tentou se soltar. — Me desculpe, eu só queria te ajudar, eu nunca senti nada por você.

Ele a soltou, olhava para o chão. — Repete. — Pediu com a voz fraca.

– Eu não vou repetir.

– Então você gosta de mim. — Levantou o rosto. — Se não quer repetir é porque está mentindo!

– Não é! — Respirou fundo. — Só não quero repetir porque isso seria humilhação de mais.

– Me humilhe então. — Pediu.

Ela fechou os olhos. — Eu não sinto e nunca vou sentir nada por você. Tá bem?

Ele respirou fundo, passou a mão por seus cachos. Se sentia completamente humilhado. E quando se deu conta, seus olhos estavam molhados e as lágrimas já escorriam pelo seu rosto. Ele tentou seca-las, mas parecia que não tinha mais fim, as lágrimas continuavam escorrendo. Só hoje ele foi se tocar, ele caiu na real e viu que a mulher dos seus sonhos estava com outro.

Daniel ouviu um ‘’psiu’’. Achou que fosse Julie. — Vá embora. — Continuou virado. Não queria que ninguém o visse chorar.

- Me desculpe. — Ele reconheceu que a voz era de Aline, respirou fundo e a deixou falar. — Eu não sabia que você gostava de mim. — Sussurrava.

- Claro, porque eu nunca demonstrei, sempre te tratei tão mal! — Revirou os olhos. — Não é?! — Ela ia responder, mas Daniel continuou. — Olha, daqui a pouco a Julie vai acordar. — Ainda estava de costas. — É melhor ir embora, ela não gosta de você e se te ver com o pai dela vai ser pior.

- Isso daí é preocupação?

- Por você sim. Mas por ela é só pena.

Daniel parou um pouco para pensar e notou que envolveu Juliana na conversa mais um vez, como Aline havia dito antes… Ele sempre envolvia.

Ele se virou para a loira dessa vez, mas ela já não estava ali. Suspirou e continuou apoiado na pia, fechou os olhos por alguns segundos, não chorava mais, porém, seus olhos estavam vermelhos e seu rosto molhado. — Bom dia. — Ouviu uma voz sonolenta e abriu os olhos.

Lá estava Julie, um pouco descabelada, short curto e apertado, blusa do mesmo jeito, mostrava até o umbigo e apertava os seios. Ele desviou o olhar na hora, não queria notar muito, mesmo já notando. Ela segurava o bebê que mastigava a chupeta, coçando seus dentinhos.

Julie foi se aproximando, ele abaixou a cabeça, mas a morena já tinha notado seus olhos.

Tocou no seu rosto e levantou o mesmo, fazendo seus olhares se encontrarem. — O que aconteceu? — Perguntou em um tom de voz preocupado. — Porque está chorando?

- Você viu a noiva do seu pai?

Ela soltou seu rosto fracamente, se sentiu triste. — Já estão noivos?

- Acho que sim. — Ele tinha certeza, viu a aliança no dedo dela quando ela segurou a mão de Raul. Só não queria a deixar triste.

- Não, eu não vi ela… E nem quero ver. — Respondeu chateada. — Porque estava chorando?

- E-eu… — Suspirou. — Minha perna dói muito. — Mentiu. — Na verdade, ontem eu bati com a perna no sofá. — Explicou.

- E você fica ai, em pé? — Segurou seu braço, ainda segurando o bebê. — Vem, senta. — Ele se sentou na cadeira. Julie arrastou outra cadeira e se sentou de frente para ele. — A dor está tão forte a ponto de chorar?

Ele viu que Juliana estava visivelmente preocupada. Daniel esticou os braços, ela entendeu e entregou o bebê. Ele brincou um pouco com o sobrinho, torceu os lábios. — Contei como me sinto para a Aline ontem.

- E ela?

- Me… Rejeitou. Disse que nunca sentiu nada por mim e nunca vai sentir.

- Então o que ela veio fazer aqui ontem? Pensei que fosse para falar com você.

Essa seria a parte mais difícil. — Ver… — Hesitou um pouco, mas Julie estava interessada, queria acabar com sua curiosidade de uma vez. — Ver o seu pai. Eles estão noivos.

Julie arregalou os olhos. — Meu pai? E ela?! — Não conseguia imaginar os dois juntos. Ela sentiu uma raiva invadir seu peito, queria se levantar e falar umas poucas e boas para o seu pai, mas percebeu o semblante triste do Daniel. — Está tudo bem?

- Não. — Abaixou a cabeça. — Se quer saber, eu estava chorando por causa dela. Julie, eu… Amo ela.

- Tem certeza? Amar é uma palavra muito forte. Eu acho que você está apaixonado. — Pausou. — Eu… Te conheço mais do que você mesmo. Você perdeu a memória.

- Então me diz. — Olhou fixo nos olhos dela. — Como tem tanta certeza de que eu estou só apaixonado?

- Porque não foi assim que você agiu comigo. Quando me conheceu você foi muito insistente. — Escondeu o sorriso. — Sua ex namorada não gostava de mim. Ela rasgou o livro que eu tinha muito carinho, porque meu pai quem me deu, você descobriu isso e me comprou outro. Ela me jogou lama também, foi em um dia de chuva. Eu estava no ponto de ônibus quando ela passou com o carro muito rápido e me sujou toda. Você desceu do carro dela e ficou no ponto comigo. Eu não queria conversa, mas você insistia em puxar assunto, me deu seu casaco novo, que ia trocar na loja, mas deixou de trocar para me emprestar, não se importou em saber que o casaco ficaria sujo de lama. Depois pegou o mesmo ônibus que eu, insistiu em me levar até em casa. Mesmo sua namorada te mandando milhares de torpedos, você me levou até o portão de casa. Tentei te entregar o casaco, mas você insistiu para que eu ficasse com ele. No dia seguinte, foi lá em casa… Me chamou para sair e novamente… — Sorriu. — Insistiu para que eu montasse na moto…- Ela parou, agora o encarava, Daniel estava com o olhar para o longe. — Não lembra, certo? — Se sentiu triste, era horrível para ela saber que Daniel não lembrava desses lindos momentos. — Em fim… — Continuou. — Você não é assim com ela. Ela disse que tinha um compromisso ontem e que não podia vir te ver e você aceitou, nem insistiu. — E… modéstia à parte. Você me amava.

Ele sorriu fracamente. Olhou para o bebê que se balançava no seu colo. — Tantas histórias… — Lembrou que Julie contou sobre a história de como ele conheceu seu sogro. — E como foi a história do Bryan?

- A-ah… — Se embolou. — Será que te faz bem ficar relembrando?

- Sinceramente, me sinto muito bem. Sinto que a minha mente está se abrindo. — Pausou. — Tudo que está me contando é verdade, não é? — Desconfiou, afinal, Juliana mentiu sobre o ‘’primeiro’’ filho deles.

- Claro, claro que é verdade!

- Hm. Porque… E-eu… Não sei se curto motos. E você também não tem cara de gostar. — Estranhou.

- Você adorava motos. — Se levantou, o olhava sorrindo. — Vamos entrar em um túnel do tempo?

- O que?

- Viajar para o passado? — Seu sorriso se abriu ainda mais. — Vai te fazer bem.

- Isso é loucura.

- Isso é lembrança. Entre nós dois, só eu lembro das coisas que fazíamos e como nos apaixonamos. Não podemos deixar essas lembranças se apagarem. — Daniel não fazia a menor ideia do que Julie falava. Ele só a encarava, tentando entender. — Vem. — Ela pegou a sua mão e Daniel se levantou.

Julie foi para o seu quarto trocar de roupa, colocou uma calça jeans, um all-star e uma camisa de manga. Pediu para seu pai cuidar do bebê, pois ia dar uma saída com o Daniel. Os dois andavam pela rua, eles queriam se distrair, Julie queria esquecer um pouco a história do seu pai e Daniel queria parar de pensar pelo menos um pouco na Aline. ‘’Sei que isso é impossivel… ‘’ — Pensava angustiado, mesmo admirando a atitude de Juliana para ajudar a recuperar a memória seria em vão.

- Onde estamos indo? — Ele não conhecia o caminho.

Julie apenas sorriu. Queria guardar segredo.

Era um pouco longe, os dois ficaram calados o caminho inteiro. Ainda não se davam bem como antigamente. — Prometo que vou responder todas as suas perguntas. — Ela quebrou o silêncio.

Daniel ainda estranhava tudo aquilo. Já se passaram quase três horas desde que Julie acordou e os dois não tiveram nenhuma briga. — Porque está me tratando bem?

Se olhavam quando ela respirou fundo. — Porque… Você foi o único que ficou comigo depois que recebi aquela noticia horrível sobre o meu pai. — Sorriram juntos. — Foi gentil de mais e… Só estou retribuindo o favor e te ajudando com uma coisa que me pediu a muito tempo, recuperar a memória. — Pausou olhando para os dois lados. — Vem… — Segurou a mão do rapaz e os dois atravessaram a avenida.

Ela parou em frente ao colégio, o portão era grande e feito de ferro. Havia um cadeado enorme ali. Julie sabia que a escola não abria aos sábados. — Como vamos entrar? — Ele perguntou enquanto a morena olhava para os lados, tentando bolar algum plano. Notou que os muros que envolviam o campos era bem menor do que o portão, era feito de pedras mármores, dava para escalar e se segurar na cerca. Daniel também percebeu isso. — Podemos subir. — Ele afirmou.

Mas Julie se sentia insegura. Nunca escalou um muro antes, tinha medo de cair e se machucar. — Não sei… — Passou a mão pelo braço. — Eu não vou conseguir…

- Você me levou até aqui! Nós vamos escalar esse muro! — Insistiu. — Afinal, o que é isso?

- É nosso antigo colégio, pensei em te mostrar! Mas não foi uma boa ideia.

- Claro que foi, a melhor ideia! — Ele sorriu. — Vem cá… — Ela a puxou pela cintura. — Eu te ajudo a subir esse muro.

- Não Daniel, isso não vai dar certo. — Ela tentou se afastar, acabou pousando suas mãos no tórax dele.

Ficaram parados ali, se olhando. — Você consegue. — Ele disse concentrado nos olhos dela. E quando Julie se deu conta, Daniel já a levantava. Ela não escondeu a expressão de insegurança e medo. Apertou os cabelos de Daniel e viu que já estava em cima do muro, seus pés apoiados em algumas partes quebradas de mármore.

Ela olhou para o rapaz e o viu sussurrar. ‘’Sobe!’’ — Julie se virou para o muro novamente. Aos poucos foi escalando e quando percebeu, estava sobre a cerca. Uma perna de cada lado, ela respirou fundo e mudou de posição. Estava sentada em cima da cerca, olhava fixamente para baixo. — Estou com medo de pular!

- Vai Julie, não deve ser tão alto!

- É alto sim! Porque não tentava você?!

- Se apóia com os pés! É só não pular de qualquer jei… — Ele se interrompeu ao ver que Julie tinha pulado.

Daniel subiu no muro, escalou com tanta rapidez que nem se lembrou de que sua perna estava dolorida. Ele queria ver se Julie estava bem.

Também pulou, mas diferente da moça, ele caiu ajoelhado. Julie estava deitada no gramado quando Daniel a sacudiu. Ela estava de olhos fechados, caiu de costas na grama. — Julie! — Continuou a balançando até que percebeu um sorrisinho nascer nos seus lábios. Ela abriu os olhos.

- Foi divertido!

Ele suspirou aliviado. — Quer me matar de susto? — A repreendeu enquanto Julie se sentava na grama.

Os dois ficaram próximos, perceberam isso e se afastaram na mesma hora. Daniel a ajudou a levantar. — Estou suja? — Ela se virou de costas e ele olhou para sua roupa.

- Ah… Aham. — Tinha um pouco de grama no seu cabelo e no seu bumbum. Mas Daniel notou apenas no bumbum. Tentou tirar um pouco dando umas batidinhas.

Julie se virou e se afastou. — Eu sei muito bem tirar! — Corou. — Que atrevimento… — Ela resmunga baixinho. Daniel olhava sério para o longe. Via um pontinho preto correndo. Ele cerrou seus olhos para tentar ver melhor, o pontinho preto se tornava maior…

Descobriu que o pontinho preto tinha patas. E ao longe ouvia latidos agudos.

Daniel arregalou os olhos e puxou o braço de Julie. — O que foi?! — Ela não entendia porque os dois estavam correndo. — Daniel, vai com calma! — Tentou se soltar mas ele a segurava firme. Julie se virou para trás, ainda correndo, viu que Daniel fugia de um cachorro grande e feroz. — Corre! — Ela gritou correndo ainda mais do que ele. Era medrosa e não escondia isso.

Eles chegaram no portão onde separava o pátio da rampa. Felizmente estava aberto, Daniel precisou apenas puxar um pouco. Eles entraram e fecharam o portão rapidamente. O cachorro correu em direção deles. — ah! — Julie abraçou o rapaz enquanto o cachorro tentava por a cabeça entre as grades. Daniel foi percebendo que o cachorro abanava o rabo.

Olhou para Julie e ela se soltou corando. — Acho que ele é dócil. — O rapaz afirmou.

- É melhor não mexer com ele… Daniel! Vamos! — Ela puxou o seu braço, os dois subiram as rampas.

Daniel olhava para todos os lados, havia diversas salas. O colégio era mesmo enorme. Novamente teve aquela sensação de nostalgia… Ele sorriu enquanto andava. Estava distraído, então pegou a mão de Julie para não se perder. Juliana também sorria, sem esconder as lembranças do passado. — Eu não tinha muitos amigos… Era só eu, você e a Bia.

- Pensei que eu fosse seu namorado.

- Era meu amigo também. — Completou e continuou andando. — Olha! — Correu para a sala 17. Torceu para a porta não estar trancada.

E não estava.

Os dois entraram. — Depois de três anos… — Ela sussurrou encantada. Olhou para o rapaz. — Essa era a nossa classe. A gente sempre sentava no mesmo lugar. — Continuou reparando cada detalhe. — Parece que não mudou muito. — A única coisa diferente era a cor da sala, antes era azul escuro, agora era um verde claro. — Sentávamos aqui. Sempre. — Se aproximou de duas mesas perto da janela. Sentiu seu rosto enrubescer como um tomate. Viu que era a mesma mesa, afinal, ainda tinha a escrita que Daniel fez com uma gilete.

- Nossos nomes… — O rapaz sussurrou. — Foi você quem fez isso?

Ela passou os dedos na madeira cortada pela gilete. — É sua letra. — Afirmou tentando não sorrir com as lembranças.

Daniel a imitou, também passou os dedos pelos nomes de ambos, até que suas mãos se encontraram. Se olharam ao mesmo tempo, com as mãos ainda juntas. Seus olhos estavam fixos um no outro. O mesmo avistou algo brilhante no chão, viu que era um pedaço de uma tesoura, queria se abaixar para pegar mas por alguma razão não conseguir tirar o foco do olhar de Julie. ‘’Seus olhos me hipnotizam tanto’’ — Seu pensamento foi interrompido quando Julie afastou suas mãos, completamente corada, virou o rosto para o outro lado.

Ele se abaixou. Daniel pegou a tesoura do chão. Segura na parte afiada, Julie se preocupa, mas não podia fazer nada para impedir, queria entender o que Daniel pretendia… — E o final da nossa história… — Ele riscou a tesoura na madeira, como fazia com a gilete. — Termina em uma bela amizade.

‘’ Julie Daniel. Amigos para sempre. ‘’ — Os dois leram mentalmente.

Se olharam de novo, ambos estavam chateados mas não percebiam isso na expressão um do outro. — Vamos… — Ele sussurrou puxando sua mão. Passaram pela sala de mãos dadas. Julie estava cismada com o que Daniel escreveu.

Ela soltou sua mão e parou no meio da sala. Daniel se virou para ela. — Nós nunca fomos só amigos.

- … — Ele ficou parado a encarando. — Mas para mim sim, é o que somos… Amigos.

- Eu não quero ser sua amiga.

- Onde está querendo chegar? — Cruzou os braços. — Por acaso está tentando me dizer que… Gosta de mim? — Riu. — Eu tenho que admitir, você tem um ótimo gosto.

- Não é isso seu idiota! — Resmungou. — Estou querendo dizer que eu… Não consigo… Ser sua amiga, a gente sempre briga no final. Não é uma bela amizade. — Bufou.

- O que está fazendo? — Julie ignorou sua pergunta, caminhou até a mesa e pegou a tesoura.

Passou por ele quase voando. Andava apressada pelos corredores. Ele a seguiu. — Onde vai? — Continuava perguntando. Mas com raiva era impossível responder. Julie desceu as rampas, estava nervosa e Daniel percebeu. — E o cachorro? — Ele tentava ao máximo impedi-la. Não entendia o que ela tentava fazer, e nem porque ela caminhava com uma tesoura.

Julie o ignorou, abriu o portão de grades. Felizmente não encontrou o cachorro. Se virou e viu que Daniel ainda a seguia. Ela correu para o gramado. Daniel correu junto mas sentiu uma dor na perna. — Espera! — Gritou, Juliana já estava longe.

Ela olhava confusa para as árvores, havia tantas que não conseguia distingui-las. Encontrou uma onde a raiz estava saindo para fora da grama, lembrou que costumava se sentar muito ali e aproveitar a sombra daquela amendoeira. Correu para lá, analisando todo o tronco.

Acabou encontrando o que queria.

Seus nomes escritos ali e um coração em volta. Ela mordeu seus dentes com raiva, segurou firme a tesoura com as duas mãos e começou a riscar a parte do tronco.

Olhou para trás, Daniel vinha devagar, quase mancando. Ela riscou com mais rapidez e força.

- O que foi? — Ele conseguiu chegar a tempo e ler seus nomes. — Nossa, em quantos lugares eu já escrevi isso? — Novamente foi ignorado, Juliana continuava riscando com a tesoura. — Para…Para! — A abraçou por trás.

Segurou suas duas mãos com uma certa força. Ela fechou os olhos quando sentiu uma brisa fria e algumas migalhas de tronco entrar no seu olho. Julie soltou a tesoura, estava quase se cortando também. Daniel ainda a abraçava por trás quando se sentou e ela acabou parando no seu colo. De olhos fechados, ela conseguiu sentir que Daniel segurava seus cabelos. Ela virou seu rosto e Daniel conseguiu notar seus olhos vermelhos e marejados. — Foi um cisco. — Sussurrou ao abri-los.

Ele levantou a cabeça e olhou para a árvore. — Porque fez isso?

- E-eu me lembrei que… Isso significa muito para mim antes… E… Como agora não significa nada para nenhum de nós dois… Quer dizer… — Notou que estava no seu colo. Ela se afastou, sentando na grama. — São só lembranças agora. E… Isso foi uma péssima ideia, desde o começo… Vamos pra casa. — Se levantou e não o esperou levantar. Deixou a tesoura no chão mesmo e continuou a caminhar.

Ela subiu o muro, dessa vez sem ajuda do rapaz. Foi rápida, se sentou na grade e pulou, agora do modo certo.

Esperou um pouco na calçada e viu que Daniel já escalava o muro. Ele pulou caindo de joelhos. Julie continuou andando sem esperar. Atravessou a avenida, Daniel a seguiu, percebendo seu estranho modo de agir. ‘’Descobri que fico chateado quando a vejo chateada...’’ — Encontrou mais uma coisa que não sabia sobre si mesmo.

- E a moto? — Ele conseguiu a atenção da morena, ela parou de costas para ele na calçada. — Não disse que ia me mostrar a moto?

Ela se virou. — Você não tem mais moto. — Ocultou o porque disto. — Mas… — Suspirou. — O Martim tem. — Sorriu.

O sorriso no rosto do rapaz começou a surgir também. ‘’ E que… Sorrio quando te vejo sorrir.’’

- Vamos pedir emprestado à ele… — Daniel se aproximou, agora os dois andavam juntos.

[...]

- Então foi aqui? — Ele levantou uma sobrancelha, estava na dúvida.

- É. — Julie segurava a moto, não teve coragem de ir até a praça andando com ela. — E adivinha? — Daniel olhou para ela. — Foi mais ou menos nesse horário! Era de tarde, quase a noite quando você me chamou para sair.

- Hm. — Olhou em sua volta. — Não sei se gosto muito de praças…

- Ah, mas quando a Aline está nela você gosta!

Ele abaixou a cabeça, havia se esquecido dessa mulher, pelo menos nas horas em que esteve com Julie. — Desculpe. — Ela pediu batendo fraco no seu ombro. — Vamos subir. — Pediu depois que conseguiu tomar coragem.

- Eu não sei… Essa moto é segura?

- É Daniel. — Ela subiu. — Vem…

Ele hesitava. — Eu acho que tenho medo. — Olhava para o veiculo possante. O som do motor o intimidava.

- Desafie seus medos. — Incentivava. — Anda! — Daniel continuava na mesma.

- Essa não é uma boa ideia… — Balançou a cabeça.

- Olha. — Julie o encarou. — Uma pessoa muito sábia me disse uma vez que não dá para controlar tudo. As coisas da vida são bem mais ‘’fortes’’ que você.

- Acha que eu devo me arriscar?

Sorriu. — Claro.

- Tudo bem. — Respirou fundo e se aproximou da moto. Subiu no banco de trás. — Me ensina.

Ela pegou a mão dele, mais uma vez estavam com as mãos juntas. Dessa vez as duas mãos. — Faz assim... — Pegou suas mãos. Colocando-as no guidão da moto. — Aqui acelera... — Ela virou a mão dele.

A moto andou, ambos sentiam um pouco de medo. Julie tentava não demonstrar.

Daniel sentiu o vento bagunçando seus cachos, a adrenalina começou a surgir e ele acabou se empolgando. Virou sua mão no guidão e acelerou com tudo!

A moto ‘’voou’’, Daniel a agarrou por trás, a puxando da moto. Os dois caíram no chão e rolaram pela grama. Ele acabou por cima dela.

Se olharam e ficaram um tempo em silêncio. Julie agarrou seus cachos e ambos perceberam a aproximação. Começaram a rir juntos e Juliana o surpreendeu com um abraço.

Notas finais
O que estão achando dessa aproximação deles? O Daniel encontrou algumas coisas que gosta na Julie, será que ele vai passar a gostar dela?